Seção Praticantes | Monja Jigme Choedzin

Do Brasil para o Nepal, o caminho espiritual de uma monja brasileira

Por
Revisão: Jéssica Amorim
Edição: Lia Beltrão

“O ponto decisivo é se estamos trilhando este caminho somente por nós ou se o estamos trilhando por nós e por todos os que estão unidos a nós por carma e aspiração. Não há maior proteção e fonte de benção que a Bodicita.”

A aspiração pelo caminho espiritual foi acalentada por Andreia Souza desde criança. “A palavra retiro faz parte de meu vocabulário desde muito pequena. Ainda nos primeiros anos de escola, eu fazia retiros de finais de semana com os salesianos, depois na adolescência foram os retiros de feriadão da renovação carismática católica”, conta a religiosa de 45 anos, natural de Pindamonhangaba (SP), que também passou pelo Xamanismo e o Raja Yoga.

Já o budismo surgiu na sua vida primeiramente de forma autodidata, o que a Monja Jigme não recomenda para ninguém, por causa dos riscos de “má compreensão e prática equivocada”. Em 2003, ela começou a participar das atividades do CEBB (Centro de Estudos Budistas Bodisatva) de Curitiba, quando passou a seguir o Lama Padma Samten como mestre e com quem falou sobre sua aspiração pelo caminho monástico.

O Lama, com sua assertividade, ponderou na época: “Você precisa ter muito claro o que você aspira. Vida monástica não é nenhuma garantia de avanço no caminho”.

Sete anos depois, Andreia fez uma “Yatra”, uma peregrinação de milhares de quilômetros, durante dois meses, por oito lugares sagrados para os budistas entre Índia e Nepal. “Não posso negar que ao chegar ao Nepal tive a certeza de estar voltando para casa. Conhecer Sua Santidade Gyalwang Drukpa foi também muito especial e um fator determinante”. Este mestre foi quem introduziu os ensinamentos do caminho monástico para ela tempos depois.

Esta Yatra, que significa jornada em sânscrito, foi acompanhada por outros 25 brasileiros, entre eles, o gaúcho e Lama Jigme Lhawang, na época com 33 anos. Durante a viagem, os brasileiros participaram também de um retiro com Sua Santidade Dalai Lama. Como fruto dessa viagem, surgiu o documentário “Yatra: uma viagem externa, interna e secreta”, da cineasta Melissa Flores, do qual Andreia é a primeira entrevistada.

A decisão

“Os anos durante os quais, já dentro do budismo, eu nutri silenciosamente a aspiração pelo caminho monástico não foram confortáveis, mas foram determinantes para que eu perdesse a ingenuidade e a ilusão a respeito”. 

Depois do conselho do Lama, Andreia continuou aspirando o caminho que escolheu, mas sem deixar de olhá-lo com certo distanciamento. “É muito fácil este tipo de aspiração surgir quando enfrentamos dificuldades: quando estamos diante dos problemas familiares; quando estamos infelizes profissionalmente; quando os relacionamentos não correspondem às nossas expectativas; quando temos dificuldades na meditação; quando não temos o tempo que gostaríamos para estudar o Darma. Até que surja a compreensão de que os verdadeiros obstáculos não são externos, e que os desafios apresentam o contorno que as emoções moldam, o caminho monástico pode estar sendo encarado – e não admitido, como a fuga perfeita. Neste caso o que poderia ser um caminho de bênçãos e de alegrias pode se tornar a causa de mais sofrimento e angústia”.

Sete anos depois da conversa com Lama Padma Samten, Andrea voltou a falar do seu desejo. Disse, então, “que, apesar do Lama ter me oferecido todos os meios para eu me tornar uma boa praticante, a aspiração pelo caminho monástico ainda era muito forte em mim”. Mais uma vez assertivo, o Lama respondeu: “Agora você tem as bençãos do Lama!”.

“O que se seguiu foi um misto de risos e lágrimas”, descreve o momento a Monja Jigme Choedzin.

O início

“Na sequência, nos dois anos que se seguiram, todos os aparentes obstáculos e dificuldades – principalmente de ordem familiar, emocional e material, foram se dissipando.
Quase que magicamente, chegando no Nepal, em novembro de 2013, em uma semana eu tomava os votos de entrada no caminho monástico.”

Monja Choedzin

Estupa de Boudhnat durante a restauração, em razão do terremoto de 2015. Fotos: arquivo pessoal

Nos dois primeiros anos no Nepal, a monja se manteve em retiro de seis, cinco ou três meses, focados na prática. A duração dos retiros era determinada pela validade do visto obtido entre Nepal, Índia e Tailândia.

Atualmente, a Monja Jigme estuda no Rangjung Yeshe Institute, que é o campus de Estudos Budistas da Universidade de Katmandu. Nas férias, feriados ou qualquer intervalo entre os períodos letivos, é a oportunidade de experienciar os ensinamentos e seguir as instruções. “A imersão na prática é momento em que o Darma se torna vivo e se transmuta em meios para beneficiar outros”, detalha a praticante.

O campus fica dentro do monastério Ka-Ning Shedrub Ling, localizado no bairro tibetano de Boudhnat, em Katmandu. “Uma bolha benigna dentro da bolha do samsara”, conta a monja, repetindo a fala do Lama Samten. “Na Shedra, universidade monástica, nós brincamos dizendo que vivemos na ‘Boudha-bubble – bolha de Buda’”, conta a monja. Ao sair de Boudhnat, surge a caótica e poluída avenida que cruza esta região de Katmandu, “bem diferente da bolha onde incessantemente se ouve o murmurar de om mani peme hung e se sente o aroma de incenso sendo oferecido”, observa.

Dificuldades

“Se por um lado nós ocidentais não temos as vantagens estruturais que dão o contorno de tranquilidade aos monásticos nativos de países budistas, por outro os desafios e as dificuldades literalmente nos empurram a não desperdiçar o nosso tempo e a aprender a integrar cada situação como oportunidade de prática”.

Ser monja no budismo tibetano, sendo ocidental, não é fácil. O Brasil, por exemplo, não tem estrutura para os anos iniciais do treinamento monástico. Para monásticos ocidentais, conseguir viver dentro dos monastérios é algo muito aspirado, mas as opções são poucas, já que, tanto no Nepal como na Índia, a maioria dos monastérios não aceitam ocidentais.

Para as monjas a questão se torna ainda mais delicada, pois ainda há poucas instituições que dão treinamento adequado para elas. A desigualdade de gênero é um problema histórico e cultural no budismo tibetano. Não há uma aceitação fácil por parte da sociedade e de alguns grandes colégios monásticos, que resistem a mudanças, e que muitas vezes veem nas monjas ocidentais um mal exemplo.

Felizmente alguns mestres têm se empenhado em oferecer treinamento e estudo de igual nível para monjas e monges. Esse é o caso, por exemplo, do monastério no qual Monja Jigme foi ordenada, o Druk Amitabha Mountain, e do monastério fundado por Jetsunma Tenzin Palmo, o Dongyu Gyatso Ling, onde as monjas recebem elevado e rigoroso treinamento.

Mas, como praticante budista, a brasileira vê os obstáculos de forma positiva. “A confiança de que é possível atravessar um aparente obstáculo, e a aspiração de que ao fazê-lo nos tornaremos capazes de apoiar o outro a se lançar na mesma direção, é o que sustentará a nossa energia em todas as situações. Superar o mero domínio cognitivo e acessar a maestria da energia para que outros possam fazer o mesmo passa a ser o que nos inspira e o que nos impulsiona a caminhar”.

Monja Choedzin

Estupa de Boudhnat após sua re-consagração em 2017. Fotos: arquivo pessoal

Retribuição

“Transformar a minha mente e o meu coração a partir dos ensinamentos do Buda e ser capaz de ajudar outros a superar a experiência do sofrimento.”

Todo esse treinamento e experiência que a Monja Jigme Choedzin vêm acumulando, tem para ela um principal objetivo: ajudar todos os seres.

“Vivendo como monja budista num local onde o Darma é fortemente presente, tenho oportunidade de a todo momento me lembrar do porque estou aqui: transformar a minha mente e o meu coração a partir dos ensinamentos do Buda, e ser capaz de ajudar outros a superar a experiência do sofrimento”.

E sua intenção é ajudar a sanga brasileira. Perguntada se pensa em voltar ao Brasil, a Monja Jigme não titubeia “Sim, com certeza! Minha motivação e minha alegria no caminho espiritual não se sustentam se eu focar apenas no meu benefício pessoal, sempre foi assim”.

Além de preservar as práticas e os ensinamentos nos quais está sendo treinada, a monja deseja retribuir ao Lama Samten: “tudo o que me ofereceu em termos de ensinamentos e treinamento, sem os quais eu não estaria preparada para o que tenho vivido hoje”.

A sanga pode também apoiar os praticantes monásticos, inclusive materialmente, mas, como diz a própria monja: “o suporte e o apoio que vem do respeito e da apreciação, da compreensão e do afeto, é o que mantém acesa a chama da alegria pelo caminhar e que faz a renovação da motivação ser natural e nutridora”. É desta forma que a Monja Jigme Choedzin nos mostra um caminho possível para os que desejam aprofundar-se no Darma a partir do caminho monástico.

 

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