Foto: Michelle Magrini

Seguindo o mestre espiritual

A importância da relação mestre-discípulo no Budismo

Por
Revisão: Jéssica Amorim
Transcrição: Mariana Luz

“Até atingir o coração da iluminação, tomo refúgio no guru que é as Três Joias;
Até que o samsara seja esvaziado, vou trazer benefícios a todos os seres,
que foram todos meus pais e mães.”


“Mestre espiritual” em sânscrito é “guru”; em tibetano, “lama”. No enfoque mais apropriado o praticante é considerado como alguém que está doente, perdeu a saúde e, sem ajuda, não sabe como recuperá-la1. O mestre é o médico; o Darma, o remédio. Para recuperar a condição natural, a condição de saúde, é necessário confiar, apoiar-se no guru, manifestação física das Três Joias – o Buda, o Darma e a Sanga. Tomar refúgio no Buda, no Darma e na Sanga, enfocado dentro de acepções progressivamente mais e mais sutis, é que é ser budista.

No “Kün-zang La-may Zhal-lung”, de Patrul Rinpoche, se diz: “Com respeito às instruções sobre como seguir um mestre espiritual, em todos os sutras, tantras, shastras, não existem relatos de quem tenha atingido a condição de Buda sem um guru. Ninguém atingiu as virtudes dos estágios espirituais e caminhos através de suposições ou pela combinação de diferentes ideias que lhe tenham ocorrido.

Na falta de um guru, todos os seres sensoriais, você também incluído, simplesmente irão seguir o caminho errado. Na busca à onisciência, você é semelhante a um homem cego e confuso em uma planície deserta. De modo similar, não existem exemplos de quem quer que tenha chegado a joias preciosas ocultas em uma ilha deserta, sem precisar do auxílio de um barqueiro. Os professores espirituais e os amigos espirituais são guias reais à liberdade e à onisciência da buditude. É preciso tomar apoio neles para atingir estes objetivos. Para fazer isto com segurança, precisamos saber três coisas: examinar o guru, segui-lo, aprender como ele pensa e age”.

Bodidarma2, que transmitiu o zen à China, ensinou assim: “Se você não encontrar logo um mestre viverá sua vida em vão. É verdade que você tem a natureza de Buda, mas sem a ajuda de um professor nunca se dará conta disso. Só uma pessoa em milhão atinge a iluminação sem a ajuda de um mestre”. Conta-se que seu principal discípulo, Taiso Eka, que foi o segundo patriarca do zen na China, tinha tanta consciência disso que cortou seu braço para que Bodidarma percebesse sua decisão e o aceitasse como discípulo.

A relação entre mestre e discípulo é íntima. Entre pais e filhos, ou entre marido e mulher, existem muitos jogos psicológicos e manobras de parte a parte, uma vez que se dá totalmente dentro do samsara, sendo que a estabilidade de suas relações muitas vezes dependem de que certos aspectos de seus pensamentos e ações não sejam conhecidos pelos parceiros. Já a relação mestre-discípulo busca desenvolver a visão que está além do samsara, seus objetivos são sutis a ponto de transcenderem a separatividade, a dualidade e a linguagem; todos os jogos condicionados são progressivamente abandonados.

As dificuldades não são vistas como algo sólido, e nem precisam ser ocultadas, mas, diferentemente, são olhadas como joias preciosas que manifestam relações cármicas criadas no passado pela combinação de energia e dualidade, e que agora, através da sabedoria, vão progressivamente se transformando em habilidades para ajudar outros seres em samsara. Tudo é, em essência, manifestação da mente primordial, ainda que, no sentido convencional de samsara, exista de fato bom, ruim, alto, baixo, branco, amarelo, verde ou preto.

“Os professores espirituais e os amigos espirituais são guias reais à liberdade e à onisciência da buditude.”

A relação mestre-discípulo transcende a dualidade, os conceitos, os referenciais de samsara, os códigos de bom senso, situa-se além da moralidade convencional, não podendo ser criticada por ela, e tem que ser assim. Não é possível transcender samsara se a relação mestre-discípulo, ela própria, a base da transmissão, está imersa na confusão dos conceitos, linguagem e dualidade. Este é um ponto delicado e confusões surgem.

[…]

A origem das dificuldades, abusos e charlatanices está na visão arraigada e dual de que o processo de liberação se dá pela rejeição ao sentido convencional de samsara3, e nesse samsara coloca-se o Darma, a moralidade e o exemplo dos mestres como se fossem venenos. Rejeitar os preceitos, o acúmulo dual de méritos, abandonar os referenciais morais, acusando-os de ilusórios e pretendendo dessa forma a liberação, é negar os aspectos duais de samsara e seu contexto, é uma atitude dual, não conduz a liberação.

No contexto de samsara, há sofrimento e busca de superação do sofrimento, o sofrimento é real, assim os preceitos, o acúmulo de méritos, os referenciais morais são inteiramente apropriados e corretos. Eles não são a liberação em si, mas propiciam a liberação. Os preceitos não são para serem julgados fora desse contexto. Os remédios não são a saúde, mas no contexto da doença são muito úteis. O Darma só auxilia as pessoas no contexto de samsara, aí mesmo que é para ser usado. O surgimento de pessoas confusas que ensinam o abandono dos preceitos e da moral, da dupla acumulação de méritos, do respeito aos Budas e aos Patriarcas, é um engano e conduz a muito sofrimento.

[…]

Mestre espiritual

Foto: Luiz Bettoni

 

A perfeita devoção desenvolve paralelamente a visão que está além de samsara. Buda Amitaba, Buda Sakiamuni, Ananda, Makakasho, Nagarjuna, Bodidarma, Dogen, Padmasambava, Longchenpa, Jamyang Khyentse, Dudjon Rimpochê, Tilopa, Naropa, Marpa, Milarepa, Gampopa, Karmapa, Tsong Khapa, tantos mestres tiveram entre nós de forma inteiramente devotada a todos os seres dos seis reinos. Eles habitam além de samsara, portanto além de espaço-e-tempo, e nem por um instante estão afastados de nós.

Sua compaixão é tamanha que milagrosamente surge aos nossos olhos, em carne e osso, respirando, comendo, sofrendo, suando, falando, vivendo-e-morrendo, o guru. Sua energia, sabedoria e compaixão é a dos mestres, não há separação. Ele é o exemplo vivo que nos permite paulatinamente desenvolver a visão do duplo aspecto, samsara-e-nirvana, forma-e-vazio, vazio-e-forma, em todas as manifestações. Ele é o absoluto e o relativo de forma inseparável, tal como cada aspecto ou ser de samsara.

Nas palavras de Dudjom Rinpochê4: “Mesmo durante a prática de guru ioga (…), devido a mente estar confundida, e a sentirmos uma pureza de percepção com relação ao lama, o lama existe, e nós mesmos, que oferecemos devoção, existimos na esfera relativa. Você visualiza o lama, faz preces, recebe suas bênçãos e transmissão, processos externos, práticas relativas de guru ioga. Você visualiza o lama simbólico, o lama aparente; na parte final, entretanto, você diz: ‘o lama dissolve-se em luz e une-se com meu ser verdadeiro’. Veja! Essa unidade de rigpa e sunyata (luminosidade e vazio) é a face verdadeira do lama! Se você perguntar onde está o lama absoluto, ele está lá, na natureza absoluta da mente. No estado absoluto de rig-pa é onde o lama está inteiramente realizado. Apenas continuar em tal consciência é prática absoluta de guru ioga. É assim que a prática externa se relaciona com a prática interna”.


1 “Kün-zang La-may Zhal-lung”, Patrul Rinpoche., Vol. 1, Diamond-Lotus Publishing, Upper Montclair, USA, 1993.
2 Trad. por Red Pine, “The Zen Teaching of Bodhidharma”, North Point Press, San Francisco, 1989.
3 Rejeição é engano, a mudança é na visão. Samsara é um sonho, uma construção. Um sonho não é para ser abandonado, rejeitado, cortado – seria dar foros de realidade ao que não têm -, basta que se acorde. O discípulo não abandona a visão ingênua com respeito a samsara. Desperta a visão profunda com respeito às sensações, à resposta condicionada e automática aos impulsos e a todas as demais construções mentais acumuladas na forma de carma que, como em um sonho, dirigem a mente das pessoas que operam ingenuamente. O abandono do sonho não é por sua vontade ou decisão, ou imposição externa, é compreender profundamente como surge samsara aos olhos, por compreender sua origem, sua perfeição, sua inseparatividade, é pelo despertar. Não é pela rejeição dentro do sonho, mas pela interrupção do sonho ingênuo. A compreensão de samsara como inseparável da perfeição é uma visão completamente diferente da visão ingênua e dá origem a um “samsara real”, translúcido, claro, onde todo o samsara ingênuo está incluído e compreendido em seus fenômenos e sua ingenuidade e parcialidade também. Este samsara lúcido é inseparável, indistinguível de nirvana. Como se diz no sutra do coração, forma é vazio, vazio é forma, forma nada mais é do que vazio, vazio nada mais é do que forma. Quando se vê realmente samsara, sem ingenuidade, é nirvana que se vê.
4 “The Preliminary Practice of The New Treasure of Dudjom”, de Sua Santidade Dudjom Rimpoche (Jigdral Yeshe Dorje). Yeshe Melong 1992.

O texto acima foi publicado originalmente na Revista Bodisatva nº 07, em 1994. Ela está disponível em nossa loja online  → 


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2 Comentários

  1. Ormando disse:

    Gratidão ^^

  2. Luciene Soares Cardoso disse:

    Maravilhoso ensinamento! Que todas as bençaos recebidas retornem aos serrs fo samsara. _/\_

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