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Separatividade 24h no ar: uma breve reflexão sobre o caso Nardoni

por 29/03/2010 1 comentário

Uma página importante acaba de ter seu final no caso da morte da menina Isabella Nardoni. Após anos de cobertura jornalística intensa e imensa comoção nacional, finalmente o veredicto foi dado e o casal Nardoni foi, enfim, condenado pela morte de Isabella. Pai e madrasta, numa articulação que envolveu adulteração de provas, mataram a filha/enteada. Ao menos é esta a versão que prevaleceu.

Isabela Nardoni

Mas, independente desta ter sido a verdade dos fatos ou não, gostaria de tecer alguns comentários sobre como este caso serve como um exemplo inconteste da separatividade atuando de forma inequívoca na vida das pessoas. Alguém poderia levantar a bandeira que, finalmente, se fez Justiça. Repórteres entrevistam populares e vários colocam que a pena foi até pequena, apesar de ter sido praticamente o máximo que a nossa legislação penal permite. Inclusive, não são poucos os que levantam a mão nesta hora para que nosso código penal seja revisto e tornado mais severo, dando margem a se pensar em chegar a prisões perpétuas ou até de morte. Afinal, o caso foi bárbaro, atingiu uma criança e o pior, tudo leva a crer que o autor foi o próprio pai, aquele que deveria amá-la e protegê-la, antes de qualquer coisa.

Neste ponto é que é possível perceber o quanto às vezes Justiça é confundida com Vingança. Afinal, num caso como este, vendo pela ótica da natureza relativa, não há como haver um lado vencedor já que nada pode ser feito para trazer a menina Isabella ao seio da família. Por mais anos que o casal Nardoni passe na cadeia, não será isso que preencherá o vazio que a mãe e a família sentem. Sem esquecer que a família aí também inclui o avô, a avó e a família paterna da menina.

Não desejo defender, justificar ou qualquer coisa que o valha em relação à atitude que o pai e a madrasta, quase que sem dúvida, cometeram. Mas sim, evidenciar o quanto a Justiça é um termo inapropriado para ser aplicado em casos como este e como fica difícil nestes momentos (nos quais as emoções aflitivas afloram) perceber a inseparatividade de todas as coisas. Num contexto de natureza última, não há conceitos de pai, filha, morte, vida, crime, vingança ou justiça a serem defendidos ou condenados.

Mas, no fim disto tudo, posso apenas aspirar que este caso sirva como um exemplo que possa ser usado em nosso contexto de natureza relativa para que todos os seres, sem exceção, possam ser beneficiados. E, inspirado na Dedicação que costumamos fazer em todas nossas práticas: que a sabedoria e a compaixão de todos possam aumentar nesta e em vidas futuras. Que possam perceber todas as experiências como sendo tão insubstanciais quanto o tecido do sonho durante a noite e imediatamente despertar para perceber a manifestação de sabedoria pura no surgir de cada fenômeno. E que possam sim, sua conduta moral, mérito, riqueza e prosperidade crescer e possam a suprema bem-aventurança e bem-estar sempre surgir para elas.

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Sandro é o que é. Se for pra ser algo, antes de tudo, é poeta que sonha com um futuro pacífico e sustentável. Recifense de nascimento, morador do Rio, administrador de formação e budista por convicção, tenta, ainda que mal e porcamente, praticar os ensinamentos que recebeu. | Leia outros posts de


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Um comentário »

  • Stela
    Stela disse:

    É, como o Lama sempre fala: o mal está solto, são as emoções perturbadoras, disponíveis a todos, não há como prendê-las na cadeia. Os que cometem os crimes só foram atingidos por esse vírus, ficaram doentes, frágeis. Se olharmos profundamente dessa forma, brota compaixão pelos piores criminosos. Valeu pelo post, Sandro!

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