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Série “Avatar”: o último dominar das delusões

por 9/01/2009 3 comentários

avatar2Surgiu um desejo de usar esse espaço como laboratório. Aliás, já o é, né, Gus? Mas o caso específico é a série Avatar (sobre a qual já escrevi aqui). E o experimento é: podemos ver Darma? Como? Onde? De que forma?

Como a linguagem do desenho animado pode contribuir para que os nossos pimpolhos (rol no qual nos incluímos) desenvolvam uma perspectiva mais ampla e positiva do universo em que vivem?

Vamos fazer uma coisa? Eu tento fazer isso e vocês prometem que tentam me ajudar a não deturpar demais os ensinamentos, gerando orgulho, visões distorcidas e palavrório desnecessário, só para citar três ações não-virtuosas?

Tá bom! Vamos começar então.

O episódio da vez é o último a que assisti. Os próximos podem vir depois ou antes desse, conforme me caírem, conforme eu os reveja e conforme o olho de sabedoria brote e eu possa ver o Darma.

Trata-se de “A Passagem da Serpente” (The Serpent’s Pass), 12º episódio da 2ª temporada. Em tempo: o objetivo é ser minucioso na análise, portanto se você ainda não viu o episódio e não curte quando lhe contam o final, não leia. Em linguagem nerd: este texto contém spoilers.

Logo no começo, a trupe tem a chance de praticar a compaixão através da contemplação do sofrimento (1ª Nobre Verdade). Eles são surpreendidos com a aparição de uma família da Tribo da Terra que precisa ir até Ba Sing Se, o local para onde coincidentemente o Avatar pretende ir em busca do seu amigo Appa, que foi sequestrado. A mulher está grávida, o que torna a situação urgente.

Além disso, ao entrarem na caverna onde a Tribo da Terra está escondida, a própria Kattara exclama: “Não acredito que a vida de tanta gente foi arrasada pela Nação do Fogo.” Ali dentro, eles podem contemplar uma situação muito parecida com a que o próprio príncipe Sidarta se deparou: mães em desespero, crianças com fome, homens sofrendo em busca de meios para se livrar de sua situação.

Em seguida o tio do príncipe Zuko mais uma vez provoca a liberação pelo riso. Diante da situação de humilhação em que se encontram ele e seu sobrinho, ele está se divertindo. Zuko, claro, está desarmado da identidade que ele tanto teima em manter, a do orgulhoso herói ou a do semideus que, à custa do que quer que seja, precisa capturar o Avatar e recuperar a honra perdida diante de seu pai, o rei da Nação do Fogo. Logo, é natural que ele aceite quase sem hesitar a proposta de Jato e seu bando (cuja primeira aparição, no episódio 10 da primeira temporada, surpreendeu em todos os sentidos) de saquear a despensa do rei.

Na sequência é interessante ver um bem-humorado jogo de identidades e rompimento delas. O título de Avatar não confere poder nenhum a Aang diante da cara ranzinza da mulher que fornece as passagens de barco que levam as pessoas até Ba Sing Se. Por outro lado, a Bandida Cega, apenas com um pedaço de papel faz se dobrar a mulher, que carimba imediatamente as passagens dos quatro, chegando a permitir a entrada de um animal, coisa que ela havia acabado de proibir.


Trailer desse episódio de Avatar

Pouco tempo depois é a vez de Aang superar e destruir essa identidade por meio da compaixão: como a família que os havia procurado vai até ele, contando que foram roubados, o Avatar propõe que todos passem adiante suas passagens e acompanhem a família até Ba Sing Se, através da Passagem da Serpente, famigerada pela insegurança. Podemos dizer que, quando Aang tentou convencer a mulher por uma identidade construída, deixando-se levar pela fama do Avatar, não foi bem-sucedido, mas quando agiu fora da Roda da Vida, ou seja, por pura compaixão da família, foi quando realmente agiu como um bodisatva (e com certeza se sentiu melhor por isso)?

Muito pouco conheço a Bíblia, portanto me ajudem: será que há uma relação entre esse povo oprimido por um rei e o Herodes bíblico, que manda caçar todas as crianças do povoado? A mulher da família que o Avatar e sua trupe estão ajudando está grávida e, assim como na Bíblia Moisés abriu espaço no mar para o povo chegar até a Terra Prometida, aqui Kattara domina a água e cria um bolha seca dentro da qual o grupo todo atravessa por um trecho da Passagem da Serpente que está submerso.

Agora, para forçar um pouco, estaria essa serpente relacionada àquela que encontramos no centro da Roda da Vida? Lembram, é ela quem defende a identidade de maneira agressiva. No meio do trecho submerso, o poder de Kattara (ou a fé de Moisés) é destruído pelo aparecimento da serpente. É forçar demais dizer que ela veio lembrar à Kattara que, enquanto houver identidade para defender, de nada vão adiantar superpoderes efêmeros?

Mas talvez o ensinamento mais surpreendente desse episódio seja a relação entre o Caminho do Ouvinte (ou das regras monásticas) e o caminho Mahayana (ou da compaixão). No início da caminhada pela Passagem da Serpente, diante do choramingo da mulher grávida, Aang dispara um ensinamento poderoso que aprendeu com seu mestre: “É preciso abandonar as esperanças”.

Ele complementa que precisamos viver o momento presente, ou seja, apenas atravessar, sem esperar o que será do futuro. Contudo, ao final da passagem, depois de já estar cabisbaixo e um tanto fechado (muito em função do sequestro de Appa), ele é convidado pela Kattara para ver o bebê que ela acabara de ajudar a nascer. Os olhos de Aang se enchem de lágrimas e ele sorri. Revela, então, que vinha tentando seguir regras estritas para não aparentar fraqueza, mas está feliz por se encontrar diante de tão maravilhoso milagre, que é o nascimento de um ser, e isso o enche de esperança.

Ao final, ele até mesmo abandona a busca apegada por seu amigo Appa porque outra situação se mostrou prioritária – bem de acordo com o que nos ensina o Lama. Uma broca gigante ameaça a vida de várias pessoas e Aang lamenta como um bodisatva faria: “Desculpe, Momo (o lêmure), mas o Appa vai ter de esperar”.

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José Benetti aspira que todos os seres se livrem das complicações que os tornam menos felizes. Para isso tenta praticar o budismo, mas é preguiçoso, vaidoso e costuma colocar os seus julgamentos diante da sabedoria última. | Leia outros posts de


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3 comentários »

  • Louisie disse:

    Adorei o texto e a comparação. Tamebém estou assistindo a serie e encontrei muitos paralelos com o budismo. O episodio 19 da 2a temporada é outro passivel de analises interessantes, por exemplo os ensinamentos sobre o desapego e a dificuldade que o aang tem em diferenciar desapego e amor.
    Enfim, parabens pelo texto!

  • JoAnn Schaly disse:

    Benneti, continue…as mães agradecem. JoAnn (CEBB sangha Salvador) http://www.mundoavatar.com.br/episodios/

  • [Série completa + Documentáro] Avatar: A Lenda de Aang + A Lenda de Korra « Olhar Budista disse:

    […] Leia também este outro post no Bodisatva, e o post A Espiritualidade oriental em Avatar, do site […]

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