| |

Um bebê no Skype (ou sobre como os pais nascem junto com os filhos)

por 26/05/2009 9 comentários

bebe-maoEstava em casa, de noite, quando meu pai telefonou. Ele mora no interior e queria ver meu filho, Felipe, pelo Skype. Ele já estava com dois meses de idade, meu pai só tinha visto o neto na semana do nascimento. Perguntou se o Felipe estava acordado, eu disse que não, que estava dormindo, mas logo deveria acordar. Meu pai pediu:

—Se ele acordar, coloca ele no Skype para a gente ver como ele está.

Pouco depois ele acordou e quando já estava alimentado chamei meu pai pelo Skype e ligamos as câmeras. Meu pai iria ver meu filho. Fiquei um pouco triste, parecia uma via de mão única. O Felipe seria visto, mas sem saber, sem interagir. Câmaras ligadas, Dani, a mamãe, colocou o Felipe na frente do vídeo. Meu pai sorriu, chamou minha mãe, que apareceu também sorrindo. Minha mãe falou:

— Como está grande!

— Está um boizão — meu pai comentou, espontâneo.

Vimos minha mãe ficar brava com meu pai, criticando o comentário. Eu e a Dani rimos, o Felipe no colo dela mexia bracinhos. Meu pai e minha mãe voltaram a olhar o neto, sorridentes. É claro que os sorrisos eram para ele, mas Felipe parecia não perceber o que se passava na tela. Será que para ele nada estava acontecendo?

Nascemos em relacionamentos. Se meu pai se relaciona com meu filho, ao menos num nível sutil, o neto se relaciona com o avô. O mesmo acontece com minha mãe. Eles querem dar nascimento ao neto, criar um espaço onde ele possa ser amado, mesmo que seja um espaço virtual, um espaço em seus corações. Talvez o espaço seja sempre virtual. É sempre em nossa mente que as pessoas têm nascimento, que são acolhidas ou não.

Ainda quando a Dani estava grávida, esvaziamos o quarto, compramos berço, armário, roupinhas. Colocamos cortinas, pregamos enfeites na parede. Não percebíamos, mas criávamos em nossos corações um espaço onde ele pudesse ser recebido. Pois se criamos este espaço em nossos corações, fica fácil esvaziar gavetas, armários, e abrir o espaço físico para receber alguém. Mas se não abrimos esse espaço interior, se não abrimos nossos corações, então mesmo se houver espaço físico, esse espaço não estará disponível.

Nós também precisávamos deste espaço para nascer como pai e mãe. Precisávamos de um berço, uma banheira, um espaço onde pudéssemos nos manifestar como pai e mãe. Precisávamos de um espaço interno e fomos elaborando este espaço interno ao preparar o ambiente externo para receber o bebê. Assim, com este espaço interior, junto com o Felipe, nós nascemos.

Blog Widget by LinkWithin

Guto é praticante de meditação e aluno do Lama Padma Samten. É pai de primeira viagem, gosta de ler, tocar violão, praticar tai chi chuan e consultar o I Ching. Pode ser encontrado às quintas no CEBB SP. | Leia outros posts de


Receba o próximo texto

9 comentários »

  • DENISE BARRANCO disse:

    Guto, que lindo seu texto!
    O Lama tb o leu e gostou muito.

    beijos para todos vcs, com saudades
    denise

  • Guto
    Guto (autor) disse:

    Denise, que bom receber notícias suas.
    Também estamos com saudades.
    Sábado vamos ouvir o Alan Wallace, você vai?
    Abraços,
    Guto

  • Ivone Sombra disse:

    Guto,
    adorei o seu texto. Emocionante!
    Lembro com saudade de vc e Dani naquela viagem que fizemos juntos à Índia. Vcs davam a impressão de que viviam um amor tão lindo que, tenho certeza, desde então o ninho de Felipe já estava sendo preparado…
    Felicidades!
    bjos pra vc e Dani.
    Ivone (de SSA)

  • Andréa Nakano Ferreira disse:

    Oi Guto,

    Lindo o seu texto, realmente emocionante e muito verdadeiro! :)
    Tenho certeza de que vocês estão vivendo tudo de bom e feliz que tem plantando! E nos proporcionando muitos momentos bons com a companhia de vocês e a alegria do Felipe! :)

    Fico muito feliz por poder fazer parte de tudo isso!

    Beijos e parabéns

  • João Carlos Ferreira disse:

    Guto,
    Que alegria por termos chorado ao ler este texto. Que emoção fantástica. Deus abençoe todos voces.
    Mamas and Papas

  • Sandra Leite disse:

    Fiquei tb muito emocionada com seu texto… Duas coisas ecoaram muito fortes em mim…
    “Criavamos em nossos corações um espaço onde ele pudesse ser recebido…
    Nós também precisávamos deste espaço para nascer …
    Precisávamos de um espaço interno e fomos elaborando este espaço interno ao preparar o ambiente externo … ”
    Embora minha filha este ano esteja completando 15 anos, sinto que preciso deste mesmo espaço de elaboração… Preciso abrir meu coração e preciso preparar o ambiente externo de minha vida em muitos aspectos para ser capaz de elaborar o ambiente interno…
    Grata por suas palavras…

  • André Corrêa disse:

    Belíssima reflexão, que vontade de esvaziar tudo!

  • Camila Dias disse:

    Me identifiquei com seu texto!

    Estou passando por essa mesma fase, meu bebê nasce em janeiro, minha mãe mora em Porto Alegre e eu em São Paulo. Além de esvaziar o quarto e começar a fazer o “download” de coisas de bebê, fico imaginando minha família lá no RS pedindo pra ver o nenê na webcam.
    Essa preparação de SEREI mãe parece mais difícil do que sentar e meditar, mas acredito que na hora que aquela coisinha embrulhada em cueiros nos é entregue, nasce a identidade “mãe” e tudo ficará bem.
    Abraços!

  • Um bebê no Skipe | Recortes do Caos disse:

    […] Leia o texto aqui. […]

Deixe seu comentário!

Esse site usa o sistema Gravatar. Para que sua foto apareça, basta se cadastrar.