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Sobre crachás, bolhas e smoothies de lichia

por 25/02/2011 11 comentários

No trajeto de alguns quilômetros em que levei 1 hora e 40 minutos para cruzar numa sexta à noite, me dei conta de como a cidade é segmentada, de como vivemos em redomas, pequenas bolhas.

Ao cruzar por dois barros paulistanos notei, pela quantidade de carros importados à minha volta e revestimentos espelhados nos prédios, que estava em um ambiente diferenciado. O olhar desconfiado dos seguranças de terno e gravata dos condomínios avisa: o acesso é para poucos. O contato humano quase não existe, cada motorista escondido sob sua camada de insulfilm, as avenidas enormes, sem travessia, as ruas quase desertas.

Nos poucos rostos que consigo enxergar a expressão é de preocupação. Quase posso ouvir suas urgências, seus planos, seus cartões de visita, seu tédio.

Já no restaurante onde finalmente cheguei para o encontro com duas amigas, entre a conversa despretensiosa e um delicioso smoothie de lichia, essa imagem das redomas, dos pequenos mundos, não me saía da mente. Segundo minhas amigas, que transitavam naquela região, era bem “normal” o trânsito, as avenidas imensas, a falta de acesso a pedestres, os prédios imponentes, a coisa toda caminhando de forma meio automática, sem vida.

Muitas pessoas se organizando de forma a manter uma frágil segurança, um frágil contentamento, construindo suas pequenas cúpulas de vidro.

Acredito que essa reflexão vale também para aqueles que estão em busca de um novo emprego. A opinião geral é de que esse período entre empregos deve ser sofrido, humilhante até. A sociedade nos cobra isso. É como se houvesse uma expectativa sem rosto que nos diz “Seja bem-sucedido, a qualquer custo”. E daí seguimos em cursos de especialização, viagens ao exterior, apostamos nosso futuro em sites de recolocação profissional etc. Não há nada de errado nisso, a não ser o risco de estarmos negligenciando um momento valioso.

Esse período sem crachá pode ser uma rara oportunidade de… parar. Ao abrirmos mão da nossa identidade profissional conhecida e toda a redoma de vidro correspondente, é como se o céu se abrisse. Na verdade, o céu sempre esteve ali, mas só o víamos através dessa frágil película. Ocupados com nossas atividades, em manter o status dentro da bolha, seguimos o fluxo dos motoristas naquela avenida imensa.

Quando a bolha se rompe, percebemos sua fragilidade. Percebemos que até a maneira de nos vestir estava condicionada a uma determinada identidade profissional. Essa identidade teve início, meio e fim. Também esteve dependente de causas e condições. A simples mudança de prédio alterou nossas vidas: antes almoçávamos tranqüilamente no refeitório da empresa, agora precisamos disputar uma mesa apertada na ala de alimentação de um shopping.

Por mais que nos esforcemos para nos manter seguros e confortáveis dentro da redoma, sua própria natureza é muito frágil. Quando se rompe, ficamos nus, expostos. Podemos até nos sentir incapazes, ficarmos depressivos. Nessas horas é comum que alguns amigos se afastem. Tudo isso reforça a ideia de que estamos fazendo algo errado, ou que não estamos sendo capazes de “seguir o fluxo”. Não! É exatamente o contrário! Quando a redoma se estilhaça, fitamos o céu.

É preciso haver esse tempo de parada. Um tempo fora do tempo (pode durar 15 minutos ou 15 meses), em que percebemos a presença do céu, das espacialidade, ou seja, das possibilidades. Não há verdadeiramente um limite, nós é que construímos essas noções de segurança e de identidade.

Quando percebemos essa liberdade sempre presente podemos fazer bom uso deste tempo de parada. Seja para desenvolver novas habilidades, estudar, começar um negócio ou até mesmo cuidar de alguém (de si mesmo, do outro, de um animal de estimação). Não importa. Basta não se julgar ou cobrar, apenas aproveitar a oportunidade de se sentir no céu.

Em tempo: também tenho um carro importado, com insulfilm, mas não deixo de caminhar ao ar livre, sempre que posso.

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Formada em Design Gráfico e um pouco rebelde, teima em desconfiar que a realidade é como a ilusão de ótica: não é bem o que parece ser. Sonha em desvendar esse segredo caminhando distraidamente pela vida. Pode ser encontrada no CEBB SP. | Leia outros posts de


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11 comentários »

  • Alessandra disse:

    Muito bom seu texto Lu!! Compartilho as mesmas reflexões diariamente, principalmente quando ando a pé. Andar a pé é bem mais exposto e nos dá a oportunidade de ao menos sorrir para as pessoas, ao mesmo tempo que contemplamos em mais dimensões que o quadrado do carro o contexto dessa “vida cosmopolita.” Bjs!!

  • joão disse:

    Tenho uma ótima sugestão: Vá de Bike!!

  • Ralph Antunes
    Ralph Antunes disse:

    A redoma nunca existiu de verdade. E ninguém é bom ou mau simplesmente pq anda a pé, mora na favela. Nem pq ganha bem, mora em Moema ou nos Jardins e tem sedan importado com insulfilm. As duas posturas são julgamento. Vc está aproveitando bem sua parada forçada. Continue aproveitando quando se recolocar. Boa sorte!

  • Claudia Dayé disse:

    Lu, querida. Muito lindo seu texto, expressivo e verdadeiro. A redoma nunca existiu e é criada a cada instante, por cada um de nós, penso eu. Você observou bem uma ordem,uma forma de viver, com muitos códigos e paredes, suportadas por uma arquitetura e engenharia desumanizadas. Lembro de uma vez, numa ponte na marginal Pinheiros, bem às 6 da tarde, olhar em volta e perguntar a mim mesma; “Que mundo é este?” Por anos e anos saindo de escritório e voltando pra casa de carro, no transito que não flui para estas pessoas que fluem, sempre senti esta estranheza da solidão e da rigidez dos códigos que separam. Acho que sempre vale olhar para o céu, ele está sempre lá, independente da redoma em que entramos. Escreva mais.

  • Luciana Valle
    Luciana Valle (autor) disse:

    Obrigada pelos comentários carinhosos (inclusive as críticas e sugestões). Fico feliz com essa reflexão coletiva.

  • Leandro disse:

    Gostei muito do texto. Parabéns!
    Talvez eu não tenha entendido muito bem a mensagem, pelos comentários ficou parecendo que a “redoma” foi colocada apenas no sentido físico, da segregação social, busca pela segurança material. Mas a meu ver, além deste significado, que abre espaço para discussões políticas, acredito que a “redoma” que se procurou demonstrar seria aquela pessoal, em que cada um se coloca, fechando-se para o mundo a seu redor em troca da “segurança” de manter as coisas como estão, com medo de arriscar sair de seus “papéis sociais”.

  • Luciana Valle
    Luciana (autor) disse:

    oi Leandro,

    Muito boa sua observação! É claro que cada um pode fazer sua interpretação pessoal, mas com certeza quis chamar a atenção para esta limitação, que essencialmente é uma limitação de visão, e se manifesta através de um contexto onde tudo parece totalmente coerente.

  • Vera disse:

    Olá Luciana, gostei do texto, mas acho que as redomas vão além dos carros blindados e com insulfilm e dos seguranças vigiando os magníficos prédios envidraçados. As próprias pessoas se fecham cada um em SEU mundo, com a SUA verdade, as SUAS convicções e todos os outros são, no mínimo errados, ou estranhos, ou inimigos. Ainda não descobriram que não há separação, que tudo está ligado, que o que acontece a um repercute no universo. Mas um dia todos descobriremos e, então, não serão necessários tantos sistemas de segurança, nem mesmo fechaduras serão necessárias. Um pouco utópico, eu sei, mas é nisso que acredito, é isso o que espero que aconteça.
    Beijos.

  • Luciana Valle
    Luciana (autor) disse:

    Bacana seu comentário, Vera. Esses universos particulares, aliás tão particulares quanto um smoothie de lichia (gente, eu nunca tinha pensado que poderia haver um smoothie de lichia!) não têm solidez alguma, mas se manifestam ao sabor da impermanência. Minha intenção com esse texto foi contribuir para essa reflexão. Beijos

  • sergio disse:

    Ola, gostei do seu texto,oportuno abrir as janelas das redomas olhar sem medo,sentir algo diferente.
    a palavra espacialidade foi muito bem empregada,

    grato

    Cordialmente
    Sérgio Luiz

  • Felipe disse:

    Gostei muito do texto!

    Fiquei com uma sensação de suavidade ao lê-lo. Mas ainda assim ele me tocou profundamente.

    Engraçado que até mesmo quando achamos que estamos escando de redomas, na verdade estamos entrando em outra. Por exemplo…pensando no caso dos condomínios e pessoas seguras em suas redomas vigiadas por seguranças, sem um contato genuíno com o outro, acordei para o fato de que quando leio esse tipo de coisa, só penso nos outros, mas nunca na essência de meus atos e condicionamentos.

    Sou uma pessoa um tanto tímida e introvertida – às vezes até debatedora demais até, paradoxalmente, o que me leva a aparentar ser intolerante às vezes – então na internet consigo estar mais livre, pelo menos no sentido de ser um pouco mais extrovertido que pessoalmente. Mas isso, no fundo, é uma redoma que criei, ou está quase virando uma. Não posso correr o risco de trocar o contato genuíno pelo virtual…preciso transportar os pontos positivos de um para o outro, a fim de melhorá-lo e diminuir os conflitos.

    Enfim, temos de sempre olhar para nós mesmos, só assim para estourarmos nossas bolhas ou sair delas ao menos momentaneamente.

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