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Sobre impermanência e hospitais

por 22/08/2009 25 comentários

berlinwall

Durante a minha infância e juventude, período da vida em que vivi com meus pais, aprendi a ver a vida do jeito deles. Pelos olhos dos meus pais, a vida era uma luta, e deveríamos sempre nos esforçar para garantir a nossa sobrevivência. A vida era dura e eles trabalhavam bastante para garantir aos filhos o que acreditavam ser fundamental: saúde, comida, roupa, escola, brinquedos. Na luta pela sobrevivência, era natural que se preocupassem primeiro com a nossa família – e com o resto do mundo se sobrasse algum tempo.

Não há nada de errado com esse pensamento. É apenas uma forma de ver o mundo. Mas digamos que ele carrega algumas complicações.

Recentemente passei por uma experiência difícil, mas ao mesmo tempo muito enriquecedora. Um amigo subitamente teve um problema de saúde, e tive que acompanhá-lo por uma noite inteira e um dia inteiro no hospital Miguel Couto, um dos maiores hospitais públicos do Rio e que acolhe o maior número de baleados, atropelados e vítimas de confrontos com a polícia na zona sul da cidade – um ambiente barra pesada.

No hospital, como na vida, é possível atuar de várias maneiras. Algumas pessoas estão lá com raiva de tudo e de todos, se sentindo uns palhaços, desrespeitados pelos médicos, falando mal do prefeito. Outras estão encostadas, torcendo pra que ninguém venha incomodar, aparentemente deixando o tempo passar sem maior interesse pelo que está acontecendo. Algumas pessoas choram o tempo todo, dizem repetidamente “Pelo amor de Deus…”, quando alguém tenta entender ou ajudar elas choram mais, com muita pena de si próprias pela dor que estão sentindo. Há, logicamente, pacientes que estabelecem relações de privilégios, seduzem médicos e enfermeiros, e (não importa o estado em que estejam) conseguem favores, camas melhores, mais travesseiros, manipulando a situação a seu favor. Há enfim os que gostariam de ter tudo isso e não têm, então se ressentem.

Novamente não há nada de intrinsecamente certo ou errado com essas formas de olhar. Todas elas se justificam em determinadas paisagens, e trazem mais ou menos sofrimento.

Felizmente podemos olhar a vida de uma forma mais ampla. Já sabemos que as coisas não são causais como parecem e nem previsíveis como gostaríamos que fossem. Todo o esforço e boas intenções dos meus pais não conseguiram evitar que eventualmente a roda girasse e passássemos por fases de grande dificuldade financeira. As pessoas no hospital não têm culpa e não é justo nem injusto que logo elas tenham ido parar lá, numa situação tão complicada. Não é culpa de ninguém. Simplesmente não é assim que as coisas funcionam.

A sociedade, da forma como está estruturada hoje, torna as coisas um pouco mais complicadas. A ideologia do consumo permeia tudo e incentiva a satisfação de todas as nossas necessidades instantaneamente, o tempo todo. O que é necessário para fazer alguém feliz? O consumo nos transforma em fantasmas, famintos e carentes, como o burro que tem amarrada à sua frente uma cenoura. Ele caminha e caminha incessantemente tentando comê-la, sem se dar conta que jamais vai alcançá-la.

Estamos cultivando noções equivocadas, que não trazem felicidade às pessoas. Outro dia ouvi executivos conversando sobre a escola dos filhos. Um deles dizia que a escola não era suficientemente competitiva, não estava ensinando sua filha a vencer, a ser a melhor. E desta forma ela não continuaria na escola. Ele falava de uma criança de 3 anos!

Estamos perdendo até mesmo a capacidade de nos construir de forma positiva. A maior prova de amor próprio que algumas pessoas são capazes de expressar é consumindo. Ou você nunca ouviu alguém dizer “Me dei isto de presente. Foi muito caro, mas eu mereço! Afinal eu trabalho tanto…”?

Vamos virando crianças mimadas, que precisam ter todos os desejos saciados o tempo todo. Porém, como a lista de desejos é infinita, não sobra tempo nunca para olhar em outra direção – para as pessoas em volta, por exemplo. Ou para a natureza. Ou para o fato de que vamos todos morrer um dia.

Sogyal Rinpoche alerta para isso no Livro tibetano do viver e do morrer:

“O ritmo de nossas vidas é tão febril que a última coisa em que temos tempo de pensar é na morte. Abafamos nosso medo secreto da impermanência, cercando nossa vida de mais e mais bens, de mais e mais coisas, de mais e mais confortos, só para nos tornarmos escravos de tudo isso. Todo nosso tempo e energia se exaurem simplesmente para manter coisas. […] Os efeitos desastrosos da negação da morte vão muito além da esfera individual: eles afetam o planeta inteiro. […] As pessoas do mundo moderno não desenvolveram uma visão a longo prazo. Assim, nada as refreia de saquear o planeta em que vivem para atingir suas metas imediatas, e agem com um egoísmo que pode tornar-se fatal no futuro.”

O mais curioso é que sabemos quais são as respostas. Temos exemplos disso em todas as direções. Durante a madrugada, no hospital, pude ver verdadeiros bodisatvas, médicos, enfermeiras, maqueiros, faxineiros – pessoas nas mais variadas funções, realmente comprometidas em ajudar os outros. Nas bordas do meu universo familiar, no lugar mais assustador em que estive nos últimos tempos, em meio a intenso sofrimento e mesmo diante da morte: neste lugar vi surgir uma energia clara, simples, silenciosa. O sofrimento é infinito, e a alegria também. A disponibilidade para ajudar não depende de condições. Não depende de coisas materiais, nem do horário, nem da fila de pessoas chegando no meio da noite – que não diminui nunca.

É possível descondicionar nossos comportamentos autocentrados. Todos nós, da espécie humana, temos uma coisa em comum: queremos ser felizes e nos livrar do sofrimento. Não é fácil, pois temos sido cuidadosamente treinados na direção oposta, por incontáveis vidas. Precisamos perceber as armadilhas e abandonar as falsas esperanças de felicidade que apenas nos causam ansiedade e depressão. Lembrar-nos da impermanência todos os dias pode ser uma chave para nos auxiliar nesse despertar para uma vida mais lúcida e feliz. Lembrar que nada impede que amanhã nós estejamos no hospital. Isso é urgente. Deveria estar no topo da nossa to-do list.

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Melissa Flores é formada em Comunicação pela UFRJ. Divide seu tempo entre a prática budista, a propaganda, fotografia e seu documentário sobre Tangka. Pode ser encontrada no CEBB Rio. | Leia outros posts de


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25 comentários »

  • Alessandra disse:

    ótimo texto, ver com olhos mais elevados é urgente.

  • Cleide disse:

    É por isso que tenho tanto orgulho da minha filha!!!

  • Stela disse:

    Mel!
    Belo texto, querida.
    Passei uma semana dormindo com meu pai num hospital público mês passado. De fato, é lugar que nos ensina muito.
    beijão!

  • Antonio Carlos disse:

    Bonitas e profundas estas tuas palavras.

    Já passei uma semana inteira no hospital com minha esposa, e sei bem o que isso significa.

    Ao mesmo tempo em que Buda diz que o sofrimento permeia toda a existência, ao mesmo tempo ele nos dá a chave para a liberação desta “prisão”, e o mais bacana disso tudo é que somos “livres” para decidir se devemos pegar a chave e abrir a porta da prisão, ou continuar nela indefinidamente.

    Muito obrigado pelo seu texto, continue escrevendo, e dediquemos o mérito a todos os seres.

  • Pai Flores disse:

    Oh, filha, lindo texto. Além de demonstrar sua maturidade revela sua grande capacidade de escrever.
    Te amo.
    Pai

  • Filipinho disse:

    Lindo texto, Mel! Esbarrar com esse tipo de reflexão é o que nos faz sair um pouquinho do labirinto. Nos faz ver as coisas “de cima”.

    Parabéns e obrigado,

    Beijos

  • Filipinho disse:

    (Complementando)

    Nos faz ver “de cima”, ou através do buraco do muro!

  • bernadete disse:

    QUERO SABER COMO O BUDISTA PENSA SOBRE OS SEGUINTES TEMA: NASCER E MORRER; SAÚDE E DOENÇA; DOAÇÃO DE ORGAÕS E SANGUE. ISSI É UMA FORMA DE ATENDE-LO BEM QDO EM UM SITUAÇÃO DE EMERGENCIA. ESTUDO ENFERMAGEM E TB QUERO ESTAR TOMANDO CONHECIMNTO DE COMO TRATA-LO BEM AS PESSOAS INDEPENDENTE DE SUAS RELIGIOÊS E FILOSOFIAS E ETC. OBRIGADO SE ALGUEM TIVER ESSE CONHECIMENTO E ME PASSAR DE UM FORMA SIMPLES.

  • Carmen Navas Zamora
    Carmensita disse:

    Muito lindo, Mel. Legal ver que o olhar de praticante decifra os códigos que em geral estamos acostumados a receber sem questionar.
    Escreva mais, amiga.

  • Melissa Flores
    Melissa (autor) disse:

    Olá Bernadete,
    que bom o seu interesse pela visão Budista das coisas! Certamente pode ser muito útil no seu trabalho e nas suas relações com as outras pessoas. São assuntos extensos, mas sugiro que você comece por aqui:
    http://www.cebb.org.br/lamasamten/ensinamentos/179-uma-breve-introducao-ao-budismo

    um abração e boa leitura!

  • Camila Dias disse:

    A foto desta matéria é pra lá de chocante, tal como o texto.
    É muito doído a gente ter que sair do casulo que nossos pais nos protegem para encarar a existência da dor no samsara. Ainda precisamos muita prática do prajnaparamitta para sairmos dessa realidade. Graças a Deus* que no meio desse caos, os bodisatvas conseguem amenizar a situação…

  • Melissa Flores
    Melissa (autor) disse:

    oi Camila,
    o mais curioso foi você ter achado a foto chocante, pois trata-se do muro de Berlim!
    abração!

  • Flávio disse:

    Esse relato me fez recordar que há poucos dias, na sala de espera do Instituto do Coração, em Porto Alegre, aguardava minha hora, agendada, para realizar um ecocardiograma, recomendado por médico como prevenção. Percebi essas mesmas reações de aflição, indiferença, “tentativas de furar a fila”, conversas de toda a natureza. De repente escuto duas pessoas no balcão, vestidas com simplicidade, revelando muita ansiedade e preocupação. Urgência era o que percebia. Faltavam 5 minutos para meu atendimento. Levantei-me e indaguei à atendente: eu posso ceder meu horário para essas pessoas? Elas parecem ter muita urgência. “sim sim, disseram – é caso grave”, mas o senhor vai perder a veza? Terá de ir novamente no setor de convênios e remarcar para outro dia. Ok, eu disse, farei isso, se me garantirem que eles serão atendidos logo. Tanto o casal quanto a atendente ficaram num misto de espanto e gratidão, mas eu saí de lá, com meu agendamento remarcado, e extremamente gratificado, em paz, alegre. Sempre se aprende, em qualquer circunstância, e sempre podemos aliviar o sofrimento dos outros. E como faz bem pra nós mesmos. Nossa…

  • LiLy disse:

    Olá,
    o post foi muito atual para tudo o que estou vivendo neste momento da vida. Há alguns dias atrás fiquei internada por por conta de um acidente que me deixou uma sequela. Foi como um turbilhão…tudo o que passei e tenho passado.
    É dificil precisar o quanto de mim foi modificado com tudo isso… mas, sei que as coisas agora estão diferentes. E, acho que para melhor!

    Prazer em lhe conhecer,Melissa!
    Grande abraço

  • Espiritualidade Prática » Sobre impermanência e hospitais (fonte: Blog Bodisatva) disse:

    […] primeiro com a nossa família – e com o resto do mundo se sobrasse algum tempo. Continue lendo… criado por manoelfelipemacedo    12:22 — Arquivado em: Sem categoria […]

  • Valeria Seiin disse:

    Que lindo texto!
    Compartilho dessa experiência no meu dia-a-dia como voluntária no Hospital da Lagoa (SUS-RJ). Nosso grupo, coordenado pelo Dr. Alcio Braz (Monge Eido Soho) faz acompanhamento à beira do leito de pacientes fora de possibilidade de cura (não se usa mais o termo “terminal”). Temos também um grupo de estudos sobre tanatologia (lutos, perdas, morte) que é um espaço de troca entre os voluntários e quem mais quiser participar, incluindo médicos, enfermeiros, funcionários do Hospital, familiares de pacientes e membros da comunidade que estejam interessados em conhecer nosso trabalho.
    Estamos sempre abertos a novos candidatos a voluntários! É um trabalho de coragem, mas que nos permite a alegria de colocar na prática alguns dos votos do bodhisatva. O pouco que podemos doar é sempre muito quando feito com o coração aberto!
    Os interessados podem me escrever para valsattamini@gmail.com
    Um abraço carinhoso,
    Valeria Seiin

  • Valeria Seiin disse:

    Ah…
    Respondendo um pouco mais à Bernadete, convido-a, e também a todos que passarem por aqui, a visitar o blog “Oceano – Comentários sobre o viver e o morrer” escrito por mim (que entre outras identidades sou monja zen-budista) com a colaboração da coordenadora do nosso grupo de estudos de tanatologia (que também é monja). O endereço é http://oceanovidaemorte.blogspot.com
    Bons estudos!

  • Rosuita disse:

    Melzinha
    Que texto bonito e fluente, que apesar de forte passa Ensinamentos de forma suave, facilitando a compreensão.
    Abraço grande
    Rosu

  • Leonardo disse:

    Ótimo texto!

    Obrigado!
    Leonardo

  • Eduardo disse:

    Mel,

    Sou um budista meio malhado, e já estive em várias palestra do nosso Lama no Rio, e me lembro há algum tempo atrás de ter te visto no palco de uma palestra que ele deu num fim de semana no Hospital da Lagoa. Você lembra?

    No final, foi apresentado o trailer do seu filme ‘Yatra’, mas na época eu era apenas um rapazinho latino-americano procurando respostas num nível bem qualificado de confusão, de karma…

    A purificação nos traz uma luz, que à medida em que avançamos, somos menos propensos a nos distrair quando encontramos alguém que tem algo valioso a dizer. Mesmo que essa visão seja pra lá de intuitiva.

    Fica aqui minha saudação a essa budista.

    abraços,

    Eduardo.

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