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Sobre relíquias, ensinamentos e bardos

por 2/06/2010 10 comentários

As relíquias do Buda passaram pelo Brasil como um doce furacão. A etapa carioca se encerrou no dia 23 de maio. Foi um final de semana turbinado de bênçãos, com a presença de milhares de pessoas, sangas de todos os cantos, uma sanga só. Vieram amigos de SP, de Floripa, de Vitória… Amigos que ainda não conhecemos estiveram diante daquela manifestação incrível de compaixão dos mestres.

E para completar a festa, Lama Padma Samten esteve conosco, a dar ensinamentos. Maravilha das maravilhas.

Crédito: Ana Fonseca

Na sexta, uma palestra na Fundação Roberto Marinho, sobre “Budismo e Gestão”. Lama falou das 5 sabedorias, 12 elos, 6 reinos, lung… Estava todo didático, citou livros, fez diversos links. Os outros dois ensinamentos aconteceram no Hospital da Lagoa. Ainda que muito gaiato e maroto (muitas vezes o Lama lembra muito Sua Santidade o Dalai Lama, parece um menino, todo solto e interessado), ele tratou de manifestar a sabedoria cortante dos mestres daquele jeito leve e doce de sempre.

O primeiro dos temas: “Viver sem medo ou insegurança”. Assunto sempre apropriado, especialmente em terras cariocas e dentro de um hospital. Pois, logo de cara, ele deu o tom daquela noite, e também da seguinte: “Sem lucidez, sem chance, é para ter medo mesmo”. Hum…

Na noite de domingo, o tema foi ainda mais fundo: “Conselhos sobre a morte”. E naquela madrugada, uma praticante havia falecido. Lama nos contara na véspera que havia conseguido ligar para ela, pedindo à pessoa que a estava acompanhando no hospital que colocasse o celular no ouvido dela. Naquele momento, ela estava em coma induzido, depois de um processo de tratamento para leucemia. Uma mulher bonita, vigorosa. Eu a conheci na lua cheia de maio de 2008, no CEBB Caminho do Meio. Estivemos nos mesmos grupos de trabalho e reflexão daquele encontro no qual o Lama nos ofereceu o Programa de Facilitadores. Sentamos juntas várias vezes naqueles dias para pensar a função, maravilhas e obstáculos de ser facilitador do Darma; e preparamos juntas um material de apresentação.

Nossa querida Barbara, cheia de ideias, aspirações e energia. Como eu. Como cada um de nós.

Pelo celular, Lama foi recitando mantras e dando orientações para os bardos que se seguiriam. Ele nos conta que ouvia a respiração dela acelerando e que por duas vezes se emocionou. Ele conta isso ainda no carro, indo para a palestra na noite de sábado. No domingo, chega a notícia que ela havia falecido.

Fico muito tocada por tudo isso. Diante das relíquias, milhares de pessoas se sentem profundamente tocadas.

Olho o Lama, meu amado mestre. Em algum momento ao longo desses dias, ele segura minha mão de um modo tão terno, que parece que nunca mais vou oscilar. Hum… Já andei o suficiente nesse caminho para saber que não é bem assim. E sorrio.

Dudjom Rinpoche

Enfim, o ensinamento na noite de domingo é profundo. Lama comenta um texto de um grande mestre, Dudjom Rinpoche. O tema é complexo, e habilmente ele torna tudo compreensível e leve. Ainda assim, surge um tremor aqui e ali. Somos todos tocados. Ele segue sem pressa até o final do texto, que encerra com a bonita lembrança do Buda da Compaixão.

Ouço o Lama e mais uma vez reconheço nele a manifestação viva da intenção iluminada de Guru Rinpoche, a compaixão precisa e afiada do colo de Tchenrezig.

O ensinamento se encerra lá pelas onze da noite. Rapidamente me despeço de meu mestre e volto para o Jardim Botânico, para acompanhar a desmontagem da exposição das relíquias. Antes da palestra, tive a felicidade de acompanhar as preces de dedicação, o salão lotado de voluntários e visitantes, a alegria estampada em cada face.

Depois da palestra retorno, noite clara no céu e no coração.

Um susto. Deixei um templo, com altares, relíquias e sangas. E quando chego, a aparência é a do galpão despido, a antiga marcenaria de paredes de tijolos aparentes. Tudo desfeito. É de tirar o fôlego! Sorrio, deliciada com o surgimento mágico de todas as coisas.

As relíquias se foram. Mas como o próprio Buda, elas não vieram, nem foram. Seguirão presentes em milhares de corações. Seguirão presentes no olhar compassivo e lúcido, incessantemente disponível a cada um de nós.

Mais uma vez, gratidão a todos os mestres, a toda a sanga brasileira, aos voluntários que participaram do milagre carioca e de cada milagre em cada cidade nessas terras brasileiras.

Ao Lama, aquele que conhece e aponta.

Que possamos cruzar os bardos com lucidez e bênçãos!

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Teresa Bessil dedica tempo, energia e coração ao Darma. Entre sorrisos, cantorias e muitas palavras, entre Niterói, Rio, São Paulo e Viamão, busca seguir os ventos de Guru Rinpoche. | Leia outros posts de


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10 comentários »

  • Sheyla Costa disse:

    Leio emocionada estas palavras. O coração leve e feliz porque a Tereza conseguiu de maneira precisa, solta, emocionada e lúcida nos transmitir, traduzindo em palavras o sentimento que dançou no espaço de muitos, durante este periodo abençoado. Que alegria ver em seu texto o sorriso do Lama, o dela, o que entra lágrimas preencheu tantos rostos de tantas idades, formas, cores, feitios, todos os nossos rostos.
    Te agradeço pela meditação em forma de artigo, amigo artigo.
    Obrigada

  • jerusa disse:

    O carinho e o amor com que somos recebidos na Sanga e contagiante e acredito ser o primeiro dos ensinamentes.Obrigada,Teresa.

  • Tweets that mention Sobre relíquias, ensinamentos e bardos | Bodisatva: um olhar budista -- Topsy.com disse:

    […] This post was mentioned on Twitter by Míriam Morata Novaes, Lama Padma Samten. Lama Padma Samten said: Sobre relíquias, ensinamentos e bardos (texto da Teresa, do CEBB Niterói): http://bodisatva.com.br/sobre-reliquias-ensinamentos-e-bardos/ […]

  • Marcos Mazzaro disse:

    Tenho que relatar. Estive duas vezes lá. E nas duas vezes o vento da felicidade bafejou todo meu ser. Mexeu. Estremeceu. Algo profundo aconteceu. Fui por causa que Teresa me apontou o caminho. Teresa alias aponta caminho há muito muito muito tempo. Só tenho a agradecer. Porque o contato com as relíquias. O giro em volta daquele “mesa” darmíca gerou em mim enorme felicidade. E eu tenho testemunhado, porque tenho partilhado o que recebi, que a água dada no final, as águas das relíquias tem promovido felicidade em diversas pessoas que eu distribuo. Grande Aprendizado…Compartilhar com compaixão… Felicidade e Dor.

  • Jane H disse:

    Tetê, como sempre seus relatos tocam o fundo de nossos corações e nos transportam para a paisagem do Darma.
    Obrigada

  • Alessandra disse:

    Querida Tereza

    Ler seu texto é como estar com você, muito leve!
    Gosto muito quando o Lama diz algumas palavras que são mágicas pra mim “sem chance”, “não podemos perder tempo”, ativam na hora o lung! rs

    Participar das relíquias em SP foi algo, grande experiência de ser abençoada pelo mestre e estar em contato com a energia radiante de Maitreya estampada no rosto de cada um.
    Você minha querida, também aponta caminhos e muitas vezes vejo um pouco do Lama em você tamanha sintonia com os ensinamentos e integridade de caminho que você passa.

    Que sigamos em lucidez e compartilhando sempre!

    Um abraço afetuoso

    Alê

  • Luiz Nicolau disse:

    em lágrimas!
    hum
    bjs
    nicolau

  • Florenza disse:

    Teresa querida, ler vc é como estar novamente na linda paisagem das relíquias. Que elas sigam beneficiando mts e mts seres. Um bj com carinho, Flor

  • Teresa Bessil
    teresa (autor) disse:

    Queridos e queridas, agradeço pelos comentários gentis e generosos de cada um. Relatos e fotografias tem essa magia, esse poder de nos transportar novamente a determinadas paisagens. No Darma, isso fica bem claro. As palavras compartilhadas surgem um pouco por isso, para que possamos nos relembrar, para que possamos acessar novamente as paisagens de compaixão e sabedoria que vivemos juntos. Ainda que a cada momento elas renasçam de modo surpreendente, no frescor incessante do surgimento de tudo o que há.

    Sheyla, querida, obrigada por todo seu empenho nessas duas vindas das reliquias ao Rio. E por sua amizade e carinho.

    Jerusa, a sanga segue muito feliz com sua presença!

    Marcos, feliz em te reencontrar, feliz em ver seu coração aberto, vivo.

    Jane, querida, como as nossas conversinhas na padoca, sempre muito boa nossa proximidade e nossa troca!

    Ale, sua lagartinha segue cheia de palavras, hein? vamos descobrindo juntas esse novo modo: “com chance!”

    Nicolau, muito a te agradecer… incansável e generoso durante o evento carioca!

    Flor, querida, seguimos juntas!

    Gus, menino… um sorriso maroto pra ti, viu? obrigada por tudo!

  • Daisy disse:

    Teresa querida, como é importante termos acesso às suas vivencias e comentários.Tudo reacende em nosso coração a luz do Dharma , a presença carinhosa de todos vocês .
    Muitas bençãos para todos os seres .
    Beijos , beijos, carinhos…
    Daisy

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