A sanga Soto Zen. Foto: Davi Carneiro.

Um dia na sanga Soto Zen da Romênia

O relato de um brasileiro que participa da sanga Mokusho, fundada em 1992 e pioneira do Budismo Soto Zen em países do Leste Europeu

Bling! Bling! Bling! Bling!

São as cinco e meia da manhã e já é hora de acordar no Mokushozen-Ji1 em Bucareste.

Eu abro um pouco os olhos, ainda sonolento, e consigo ver o vulto apressado de um monge. É ele quem percorre cada cômodo do templo tocando o pequeno sino, uma espécie de alarme, diminuto no tamanho, mas eficiente na hora de despertar a sanga2.

Meus olhos se abrem mais um pouco e depois se fecham. É difícil de acordar. Nem tanto pelo horário, mas pela temperatura lá fora: 2Cº. Um outono particularmente frio, até para os padrões romenos.

Os outros praticantes que dormiam ao meu redor – cerca de 20 pessoas, entre monges e laicos – levantam-se imediatamente e começam a organizar os tatames e a desfazer os sacos de dormir. Todos se movem de maneira rápida e eficiente pois a primeira meditação começa pontualmente às seis. E é estritamente proibido a entrada dos “atrasados” na sala de zazen3.

Faltam quinze minutos para as seis, quando outro monge começa a bater o Moppan, o instrumento que anuncia a chamada para a meditação sentada, primeira atividade da sesshin4 de outono.

Durante os próximos 12 dias, a sanga do Leste Europeu se encontrará reunida para um retiro intensivo de atividades Zen. Há um bom número de monges, mas a maioria ali são praticantes laicos, como eu. Em grande parte, pessoas de origem húngara e romena. Há também búlgaros, croatas, moldávios, franceses, poloneses, e, inusitadamente, um baiano.

O que um brasileiro – acostumado com o calor de Salvador – está fazendo ali, em meio ao frio romeno, envolvido numa cultura e numa prática totalmente diferente da de onde ele veio?

Histórias que se entrelaçam

O meu primeiro contato com o Budismo Soto Zen foi no final de 2012. Eu tinha 28 anos e morava em Barcelona, onde realizei, durante um ano e meio, um Máster em Jornalismo de Viagens.

Foi através do escritor argentino Jorge Zentner, um grande mentor e amigo, que pisei pela primeira vez em um pequeno dojo no centro da capital catalã. Recordo que as posturas do zazen e dokinhin5 me causaram uma grande impressão. E que havia ficado triste de não ter conhecido anteriormente a prática. O meu visto de estudante estava perto de expirar e precisaria sair da Espanha em poucas semanas.

Apenas um ano depois, quando já havia me mudado de Barcelona para a Bucareste, consegui retomar o contato com o Zen. Eu e Alina, minha esposa romena, comemorávamos os primeiros meses de casados. Alugamos um pequeno apartamento e me surpreendi ao saber, alguns dias depois, que o templo Mokushozen-Ji ficava a 20 minutos a pé dali, naquela mesma região central de capital romena.

Seria impossível falar sobre a prática no Leste Europeu sem mencionar antes dois mestres: Mokusho Zeisler e Myoken Bec. Foram eles os pioneiros do Budismo Zen nesta parte do mundo.

Mokusho Zeisler István (1946-1990) nasceu em Budapeste, se tornando o 84º descendente do Darma do Buda Shakyamuni na linhagem de Dogen, o segundo patriarca Zen da Europa e o primeiro da Hungria. Conheceu Taisen Deshimaru, o monge japonês que trouxe o Zen para a Europa em 1967, logo após a chegada dele na França. Esteve entre os primeiros praticantes e logo se tornou o seu tradutor.

A partir de 1984, após receber a transmissão do Darma, Zeisler manifestou o desejo de retornar à sua Hungria natal para estabelecer um dojo, trazendo consigo o kesa6 e a prática do zazen. Sua morte prematura em 1990, com 44 anos, o impediu de concretizar este desejo, mas o seu primeiro discípulo, o monge Myoken se encarregou de realizar estes votos.

Yvon Myoken Bec nasceu na França em 1949, onde estudou Direito e Filosofia na Universidade de Sorbonne. Também foi aluno de Deshimaru, mas após a morte do mestre japonês, decidiu seguir a prática com Mokusho Zeisler. A partir de 1992, Myoken fundou os primeiros templos e dojos Zen do Leste Europeu, além de criar a Fundação Mokusho, usando o nome do fundador espiritual da sanga. Hoje em dia, é possível encontrar zendos da sanga na Hungria, Romênia, Croácia, Bulgária e até no Equador.

Transmissão do Darma na sanga Mokusho. Foto: arquivo Davi Carneiro.

Voltando para a pergunta da primeira parte do texto: “o que um brasileiro está fazendo num país tão distante, envolvido com a prática Zen?”, tenho que admitir que nem eu sei muito bem como responder. Assim como morar na Romênia não foi algo planejado, e sim algo que aconteceu graças a minha esposa, se envolver com o Budismo foi uma dessas circunstâncias misteriosas da vida.

Hoje, quatro anos depois, sinto que o templo Soto Zen é a minha segunda casa em Bucareste e que a prática vem me ajudando, entre outras coisas, a harmonizar as dificuldades da distância, a saudade, colaborando até no meu aprendizado da língua romena.

O Zen da Iluminação Silenciosa

Lembro-me que, depois de algum tempo frequentando o Zen, um amigo brasileiro me perguntou: “Como você faz para compreender os ensinamentos, se, até poucos anos atrás, você não entendia nada em romeno?

Eu respondi que em eventos “especiais”, como as sesshins, os kusens7 eram dados em inglês pois haviam pessoas de muitas nacionalidades. Mas, que geralmente na sanga romena, os ensinamentos eram transmitidos no idioma local. E que, surpreendentemente, isso não havia representado um problema.

Eu fui compreendendo, pouco a pouco, que as palavras não são o essencial no Zen. Os ensinamentos existem, e têm sua importância, mas eles são “o dedo que aponta a lua” e não a lua, propriamente dita. A realidade acaba transcendendo a linguagem verbal.

Davi com mestre Koshin. Foto: Davi Carneiro.

No Zen não é preciso falar muito. Cada um deve descobrir o caminho, acima de tudo, de acordo com a sua própria experiência, de forma direta, sem que haja algo que separe você do Darma”, disse uma vez o mestre Koshin, o herdeiro de Myoken. “Se trata de uma prática corporal, uma vivência, que está além das palavras ou dos conceitos”.

Como praticante no Mokusho zen-ji me foram pedidas “coisas simples”: apenas sentar, tentando não me identificar com meus preconceitos, harmonizando-me com os demais, vivendo o aqui e agora, fazendo aquilo que precisa ser feito no momento,com uma atitude mushotoku8, sem pensamentos de proveito pessoal ou de ganho.

Foi assim que – mesmo sem entender tudo o que era dito nos primeiros anos – comecei a me sentar de três a quatro vezes por semana; aprimorando gradualmente a postura e a respiração, ajudando na cozinha e na limpeza; familiarizando-me, pouco a pouco, com o Hannya Shingyo9 e os instrumentos das cerimônias.

Os ensinamentos dados durante o zazen são uma transmissão de Buda para Buda, de mente-coração para mente-coração.“Surgem de hishiryo10 e se dirige a hishiryo, a consciência profunda cósmica, supraindividual”, dizia o mestre Deshimaru. “Se dirige diretamente ao inconsciente, mais além das palavras, idiomas ou das nossas categorias pessoais”.

Mestre Myoken. Foto: Davi Carneiro.

O mestre Myoken segue a mais pura tradição da linhagem Deshimaru-Sawaki. Não se deixa impressionar por perguntas inteligentes durante o mondo11 ou pelos livros que lemos. Ele está mais interessado nossa capacidade de vir, sempre que possível, ao dojo e sentar zazen. Se você puder ajudar os demais nos trabalhos do cotidiano, ainda melhor.

Não há nada de filosófico ou metafísico, pelo contrário. Consiste em encontrar uma aplicação direta da prática nas nossas próprias vidas, pondo nossa atenção nas atividades cotidianas, harmonizando-se com os “demais”, sem espírito de competição ou de ganho pessoal.

Praticar zazen. Simplesmente sentar. Deixar de correr atrás do ou fugir do que seja. Não querer subtrair ou adicionar nada ao momento presente. Não se trata de filosofar, nem fazer grandes discursos. Mas, de estar presente: aqui! O que mais poderíamos querer? Os “méritos” da prática mushotoku não serão percebidos apenas pelo que falamos, mas sim pelas ações e pela personificação do que somos.

No templo da Iluminação Silenciosa, a experiência direta do silêncio interior constitui um grande ensinamento.

Às 22:30, uns 40 minutos depois do último zazen da noite, um dos monges toca o sino – bling, bling, bling – o sinal que é hora de dormir. As luzes do templo se apagam. Amanhã é dia de acordar cedo e retomar o ciclo até o final da sesshin.


O Templo da Iluminação Silenciosa, localizado em Bucareste.
Comunidade dos praticantes.
Zazen é a prática que define a própria essência do Budismo Zen. Consiste em sentar-se, simplesmente, na postura de lótus ou meio lótus, de frente para a parede, deixando os pensamentos passarem, atentos a postura corporal e respiração, sem objetivos, nem espírito de proveito.
Período de prática intensa. Significa literalmente “tocando a mente-coração”, em japonês.
Meditação caminhando.
O manto do Buda; vestimento que os monges levam e que tem uma grande importância na escola Soto. Zen, zazen e o kesa estão em unidade.
Ensinamentos orais dados pelo mestre durante o zazen.
Nada para obter. Em japonês, Mu é o prefixo de negação e Shotoku significa obter, lucrar.
Sutra do Coração, representa o coração da Grande Sabedoria.
10 Mais além do pensamento. Hi, em japonês, além e Shiryo, pensamento.
11 Momento de perguntas e respostas entre o mestre e os discípulos logo depois do zazen.

Bulgária, 2017


Davi Carneiro, 33 anos, é jornalista especializado em viagens pela Universitat Autonoma de Barcelona. Já esteve em 33 países e vive há 4 anos em Bucareste, na Romênia. Escreve sobre sobre viagens, Literatura e o Budismo Soto Zen. Você pode segui-lo no Twitter (@davicarneiro), Instagram (@davicarneirotraveljournalist) ou através do seu blog:  http://davicarneiro.com.br/blog/


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