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Uma budista que faz a ponte entre dois mundos

por 31/07/2013 1 comentário

Matéria do Washington Post sobre Khandro Rinpoche, por Michaela Haas, tradução para o português de Rafaela Batista.

Seu poder de condensar energia em 1,57m polegadas é inconcebível.  Como um potente, ágil e compacto carro, Jetsun Khandro Rinpoche chegou em alta velocidade ao Verizon Center em Washington, D.C. Com gestos resolutos como os de um maestro  experiente, ela dirigiu 175 voluntários, transformando-os em um sorridente grupo de ajudantes. Durante a visita de vários dias de Sua Santidade Dalai Lama à capital em 2001, ela e seu time trabalharam nos bastidores contra o tempo, de modo a fazer Kalachakra, o raro evento de Sua Santidade, um sucesso. A falta de sono nunca esmorece Khandro Rinpoche. “Estar disponível; ajudar sempre, a quem quer que seja, e em qualquer lugar” é o que ela define como o Budismo em ação.

O evento no Verizon Center forneceu uma imagem do que é Khandro Rinpoche: fazer a diferença sem criar balbúrdia por conta disso; permanecer em serviço, enquanto foge dos holofotes. “Serviço” talvez seja a palavra que ela mais use. E ao invés de fazer pregações sobre isso, ela tem sua vivência. “Ela era como uma AK47, só boom, boom, boom, fazendo tudo acontecer”, brinca a irmã Jetsun Dechen Paldron. “Ela acredita que aprendeu a relaxar, mas ao mesmo tempo em que crê estar mais focada, ainda tem tanta energia que mal cabe em uma só pessoa”. Jetsun Khandro Rinpoche é uma das pouquíssimas mulheres encarnadas totalmente treinadas na tradição do Budismo Tibetano. As mulheres, em especial, são atraídas pela sua forte presença guerreira. “É raro ver uma mulher que esteja tão a vontade com o poder”, observa uma freira norte-americana. “E que ainda o usa, mas com bondade, nunca caindo na armadilha de se exceder”.

Khandro Rinpoche viaja incansavelmente entre seus dois conventos e o mosteiro do falecido pai na Índia, sua sede norte-americana nas montanhas Shenandoah no estado da Virgínia (a apenas algumas horas de carro saindo de Washington), e um crescente número de comunidades budistas interessadas em se beneficiar de sua perspicácia aguçada. Como se não fosse o suficiente, também lidera um vasto número de projetos sociais – que vão dos que cuidam de doentes abandonados que sofrem de hanseníase, idosos, e cachorros de rua na Índia, até o plantio de árvores na Virgínia. “Você pode praticar o desapego do ego ao ficar sentado em uma caverna úmida por quinze anos e desenvolver artrite, ou raspando a cabeça e indo viver em um monastério, ou pode fazê-lo aqui mesmo, no meio de Washington D.C.”, disse ela quando a entrevistei para o meu livro “Dakini Power”. A baixa estatura de Khandro Rinpoche vem acompanhada de um elevado senso crítico. Ciente de que era observada desde a tenra idade, decidiu que não se intimidaria pelo papel de desbravadora. “Se eu errar, posso bagunçar os planos de outras mulheres”, ela francamente admite, fazendo ecoar os sentimentos de muitas mulheres CEO.

“Como mulher você pode realizar perfeitamente centenas de coisas, e então você comete um erro e todo mundo fala, ‘Viu, ela não consegue.’ Isso não afetaria apenas o meu caminho, mas a confiança nas mulheres tibetanas”. Não há necessidade de preocupação, pois o oposto é verdadeiro. Seu trabalho pioneiro e resolutamente corajoso já garantiu um efeito que gradualmente se espalha entre as mulheres, especialmente monjas, em toda Ásia e Ocidente. Embora Khandro Rinpoche minimize sua própria significância, sua influência tanto no ocidente quanto no oriente dificilmente pode ser expressa de forma exagerada. Rita M. Gross, uma das principais estudiosas feministas do Budismo, reconhece “que a presença de professores do sexo feminino é realmente a questão chave. Se não há muitas professoras, há um sinal claro do patriarcado. Khandro Rinpoche é muito estimulante para suas alunas ocidentais por causa de seu próprio exemplo”.

Nascida em 1968, Khandro Rinpoche aprendeu a arte de desenvolver e compartilhar a sabedoria budista quase desde o berço. Seu pai, o 11° Kyabjé Mindrolling Trichen, figura principal da Antiga Escola do Budismo Tibetano, escapou da opressão chinesa com 29 anos, fugindo do Tibet para Kalimpong em 1959, e se estabeleceu na sonolenta e antiga estação britânica no Baixo Himalaia Indiano. No momento em que sua primeira filha nasceu, estava imerso na imensa tarefa de restabelecer o eminente mosteiro Mindrolling no exílio. A educação de Rinpoche exemplifica um fato sobre a segunda geração de refugiados tibetanos: ela nunca foi ao Tibet e nem viu o elegante monastério de pedras marrons que costumava ser a antiga casa de sua linhagem. “Eu tentei várias vezes, mas me negaram todas elas”, diz. Com exceção de oito, todos os outros 6000 templos tibetanos e monastérios de outrora foram reduzidos a pó pela chamada Revolução Cultural nos anos 1960. Embora alguns deles tenham sido reconstruídos desde então, a China comunista firmemente restringe o número de monges e monjas que já constituíram um sexto de toda a população. Possuir uma foto do Dalai Lama pode levar à prisão em um dos campos de trabalho forçados chinês. Com o transporte maciço de milhões de chineses da etnia Han para o território do Tibet, a população remanescente de 5 a 6 milhões de tibetanos são hoje minoria. Enquanto as tradicionais práticas de circumambulação de santuários e recitação de poderosos mantras têm sido largamente reprimidas na sua terra de origem, estão renascendo e sendo novamente ensinadas a uma geração ávida de estudantes ocidentais.

Além de arcar com as responsabilidades no mosteiro Mindrolling na Índia, Rinpoche também está alimentando essa explosão do budismo no Ocidente. O 16 º Karmapa a reconheceu como uma encarnação de uma grande mestra quando ela tinha apenas 10 meses de idade. Por mais de uma década, ela, sua mãe e sua irmã mais nova viviam como as únicas mulheres entre os 500 monges do mosteiro que o pai e a mãe haviam reconstruído no exílio. A biografia de Khandro Rinpoche está entremeada por experiências e traços raros e excepcionais para uma mulher tibetana: uma injeção de ilimitada autoconfiança pelos seus pais, treinamento completo em todos os aspectos do ritual tibetano como uma tulku, equiparado com uma educação completa aos moldes ocidentais e a liberdade de fazer suas próprias escolhas. Com seus vinte e poucos anos foi para os Estados Unidos para fazer um curso intensivo sobre o pensamento ocidental. Atendendo o desejo de sua mãe para que tivesse uma educação ampla, estudou jornalismo, homeopatia e gestão de negócios por alguns anos – claramente sendo preparada para ser futura embaixadora do budismo tibetano.

Por que não há mais professoras do budismo tibetano como ela? Khandro Rinpoche ressalta que existiam muitas praticantes realizadas no Tibete, “mas que ficaram longe dos grandes mosteiros, dos centros de poder.” As mulheres tibetanas raramente eram encorajadas a receber ensino mais qualificado, assim algumas delas escreveram livros ou assumiram títulos grandiosos sobre os quais nunca ouvimos falar, embora os tibetanos as tenham reverenciado. Ela concorda que a necessidade de professoras é imensa. Educar e capacitar as mulheres é o cerne de seu trabalho. “Talvez eu possa ajudar a remendar as rachaduras aqui e ali”, ela brinca. “Há muito pouco que eu possa fazer, individualmente, mas pode ser um meio através do qual as mulheres se tornam mais confiantes, líderes dinâmicas”.Khandro Rinpoche estabeleceu um convento no norte da Índia, que ela descreve como “extremamente vibrante, com mulheres fortes e maravilhosas.” Além de educar sobre os rituais tradicionais, Khandro Rinpoche ativamente as educa para a independência financeira, levando treinadores de gestão de negócios, às vezes até de artes marciais. “A ideia é de que se elas absorverem a educação tradicional assim como a ocidental, se tornarão líderes confiantes e capazes”. Ela encontrou sua própria forma de equilibrar as demandas e os preconceitos que vêm de encontro com o seu caminho constantemente: “Se ser mulher é uma inspiração, use isso. Se é um obstáculo, tente não ficar incomodada”.

Michaela Haas, PhD, é repórter internacional, conferencista e consultora. É autora do livro “Dakini Power: Twelve Extraordinary Women Shaping the Transmission of Tibetan Buddhism in the West”, que foi publicado pela Snow Lion/Shambala em abril. Conferencista visitante da Universidade da Califórnia e Santa Bárbara, e proprietária fundadora da empresa de consultoria Haas live.

Leia a matéria em inglês.

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Um comentário »

  • Viviane disse:

    Perfeito para o dia Miguel….Gracias.

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