Foto de Yancho Sabev. Este arquivo está licenciado sob a licença Creative Commons.

A História do Budismo e o Tibete

Em visita ao Brasil, o Dalai Lama fez palestra em SP em 1992, falando sobre as Quatro Nobres Verdades


Por
Transcrição: Bruno Davanzo

Em visita ao nosso país no início da década de 1990, Sua Santidade o Dalai Lama ofereceu uma palestra especial à comunidade de praticantes budistas do Brasil, no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo. Essa palestra foi gravada e transcrita por Bruno Davanzo, à época colaborador correspondente da Bodisatva.

Sua Santidade fez uma apresentação genérica do budismo, tomando por base as Quatro Nobres Verdades, e situou o budismo tibetano nesse contexto geral. Optamos por incluir a parte preparatória da palestra, uma breve cerimônia, pelo aspecto didático e informativo que tem para os praticantes das outras linhagens. Chamamos especialmente a atenção para a importância dada à recitação do Sutra do Coração e ao refúgio nas Três Joias, pelo paralelismo com o Zen.

Essa transcrição foi publicada na Revista Bodisatva #5 (inverno/primavera 1992).


Meus irmãos e irmãs espirituais, vou começar fazendo uma oração às Três Joias do budismo. A primeira, o Buda Shakyamuni, uma oração de louvor a ele, oração que nos faz recordar sua sabedoria, sua compaixão e sua energia. Após, à segunda Joia, o Dharma, os ensinamentos do Buda Shakyamuni, e à terceira Joia, a Sangha, os seus seguidores.

As pessoas aqui presentes que porventura conheçam esta oração, por favor, juntem-se a mim. Aqueles que não a conhecem, mas que se consideram budistas, podem se recordar das qualidades do Buda enquanto a oração é feita. E, enfim, aqueles que não se consideram budistas, fiquem apenas assistindo. […]

Gostaria agora de poder cantar o Sutra do Coração, mas cantarei apenas o mantra que corresponde ao Sutra do Coração, pois não temos tempo suficiente para recitá-lo por inteiro. Este sutra é um dos mais importantes dentro da divisão mahayana do budismo, importante não apenas no Tibete, mas também na China, no Japão, na Coreia. Este sutra está ligado ao significado da vacuidade e chama-se Prajnaparamita. […]

Com estas recitações nós procuramos criar uma motivação adequada. Todas as ações humanas, quer positivas, quer negativas, dependem da motivação que a informam. Quando um ensinamento religioso é dado, tanto a pessoa que está dando este ensinamento, quanto aquelas que estão recebendo, devem primeiramente desenvolver uma motivação correta. Esta motivação deveria ser o altruísmo. (…)

*

O budismo é uma das antigas religiões que apareceram na Índia. Dentre estas, vamos encontrar dois grupos: o primeiro grupo é o das religiões que se voltaram basicamente para uma única existência, um único período de vida; e o segundo grupo corresponde às mais preocupadas com a sucessão de vidas. Para estas religiões do segundo grupo, era possível a teoria do renascimento.

Dentre as  religiões que aceitavam a ideia do ciclo sucessivo de vidas, vamos encontrar algumas que também apresentavam a ideia de um Criador e outras que não aceitavam o conceito de Criador.

Dentre aquelas religiões que não aceitam a ideia de Criador, também vamos encontrar duas categorias. A primeira são aquelas que aceitam a existência da alma como algo permanente e a segunda, aquelas que não aceitam esta proposição. O budismo é justamente aquela antiga religião indiana que não aceita nem o conceito de Criador, nem o conceito de existência permanente da alma.

Esta presente era, que nós vivemos, é chamada de “Era dos Mil Budas”. Dentro dela, três Budas já vieram e já se foram. O quarto Buda é o Buda Shakyamuni, que vocês provavelmente conhecem e cujos ensinamentos ainda permanecem vivos na Terra. Depois dele, aparecerão ainda novecentos e noventa e seis Budas.

A lei de causa e efeito tanto pode conduzir ao sofrimento, quanto à felicidade”

Falando de uma perspectiva histórica, o Buda Shakyamuni era um príncipe indiano. Na primeira parte de sua vida morava cercado de todos os confortos e prazeres que a vida é capaz de nos oferecer a um nível mundano. Também tinha uma esposa e um filho. Num dado momento de sua vida, tomou contato com alguns aspectos negativos da vida humana que o perturbaram intensamente: a velhice, a doença e a morte. Também teve a oportunidade de ver alguns praticantes, algumas pessoas santificadas. Isso fez com que, ao passar do tempo, ele abandonasse a vida mundana, se tornasse monge, e por seis anos se dedicasse a práticas meditativas extremamente rigorosas. Com isso, pôde atingir o estado búdico, a iluminação. Começou então a ensinar, baseando-se em sua experiência pessoal.

Seu primeiro ensinamento foi dado na cidade de Sarnat, na Índia, e tratou das Quatro Nobres Verdades. Esses ensinamentos constituem o fundamento de todos os budistas que, sem distinção, os aceitam integralmente.

Dentro do budismo, vamos encontrar diferentes escolas de pensamento. Temos a escola do Sul, a escola do Norte (ou hinayana) e a escola mahayana. Os três principais ensinamentos do Buda são chamados de Os Três Giros da Roda do Dharma.

No primeiro giro, tivemos os ensinamentos das Quatro Nobres Verdades. No segundo, os ensinamentos ligados ao Prajnaparamita Sutra, que é a perfeição da sabedoria. O Prajnaparamita vai apresentar uma explicação bastante elaborada da terceira das Quatro Nobres Verdades, a da “Cessação do Sofrimento”. No terceiro giro da Roda do Dharma, vamos encontrar uma apresentação elaborada da Quarta Nobre Verdade, o caminho que leva à cessação do sofrimento. Vemos que o segundo e terceiro giros da Roda do Dharma estão ligados ao primeiro giro, que foi a apresentação das Quatro Nobres Verdades.

Capa da 5ª edição da revista Bodisatva, publicada no início da década de 1990 (Foto: Breno Airan)

Quais são estas Quatro Nobres Verdades? Temos a “Verdade do Sofrimento”; a “Verdade das Causas do Sofrimento”; a “Verdade da Cessação do Sofrimento”; e a “Verdade do Caminho a Ser Seguido para se Alcançar a Cessação Permanente do Sofrimento”.

E por que esses ensinamentos foram apresentados sob esta forma de Quatro Nobres Verdades? Porque todos os seres sencientes — dentre os quais nós, humanos — almejam a felicidade e querem se afastar do sofrimento. Acontece, porém, que tanto a felicidade, como o sofrimento dependem de causas e condições: da Lei de Causa e Efeito.

Nós, enquanto seres humanos, queremos afastar de nós o sofrimento, mas para que possamos fazer isso precisamos conhecer as causas do sofrimento e, também, se é possível superá-las, sem o que não teremos sucesso. Esse é o tema das duas primeiras Nobres Verdades: a Verdade da Existência do Sofrimento e a Verdade das Causas do Sofrimento.

Para os budistas, a lei de causa e efeito é básica. O budista vai estudar essa lei e ver o seu aparecimento nos fenômenos que constantemente surgem e desaparecem, na transformação contínua de tudo. Essa transformação é possível porque as experiências baseiam-se em fatores, não surgem do nada, surgem sob dependência. Uma decorrência dessa teoria, para os que a aceitam, é a de que não existe um Criador. As coisas não acontecem por desígnio de um Criador e, sim, sob a dependência de suas causas e condições.

Todas as ações estão ligadas às motivações sutis, cujo exame é essencial dentro do budismo

O Buda explicou que a lei de causa e efeito se manifesta tanto na vertente negativa, que leva ao sofrimento, quanto na vertente positiva, que leva à felicidade. Em ambos os casos, essa lei se manifesta dentro de um determinado padrão, os Doze Elos da Cadeia de Originação Interdependente; cada elo influenciado e determinado pelo elo que o antecede. Percorrendo-os em um sentido, vamos ao sofrimento, no sentido inverso, à felicidade.

O primeiro elo da cadeia é a ignorância, o segundo, o karma e, assim, vamos progredindo até chegarmos ao décimo primeiro (o nascimento) e ao décimo segundo (a velhice e a morte). Se formos do primeiro ao décimo segundo, isto nos leva ao sofrimento. Se viajamos de forma inversa — ou seja, para superar a velhice e a morte, superamos o nascimento e, assim, vamos superando cada elo sucessivamente —, chegaremos, enfim, à fonte de tudo, e superamos a ignorância. Mas como implementar em nossas vidas essas Quatro Nobres Verdades?

Se queremos superar o sofrimento de forma permanente, precisamos fazer muito esforço, o que exige determinação. Para termos determinação, precisamos clareza quanto à meta. Quando focamos a meta e reconhecemos os benefícios que daí podem decorrer, adquirimos a determinação e isso nos leva a envidar esforços. No budismo, a compreensão clara dos benefícios da meta está ligada à nossa própria compreensão, a visão das desvantagens, de toda a infelicidade de estar imerso nessa existência samsárica. Se estamos convencidos disso, se examinamos o sofrimento, reconhecemos suas causas, entendemos a possibilidade de superá-lo e visualizamos claramente o estado de cessação do sofrimento — a felicidade permanente —, então vamos ter determinação e, por consequência, vamos empreender todos os esforços necessários para atingir essa meta.

Dentro dessa perspectiva, é importante examinar e conhecer o sofrimento. Segundo o budismo, existem três tipos de sofrimento. O primeiro é o sofrimento do sofrimento; é o que todos conhecemos na forma de doenças físicas, dor de cabeça, desconfortos físicos etc. O segundo tipo de sofrimento é chamado de sofrimento da mudança. Muitas experiências que temos aqui no mundo, aparentemente são bastante prazerosas e nos atraem. Porém, à medida que nos envolvemos com essas experiências, muitas vezes elas nos trazem frustração. Essas experiências, aparentemente atraentes, são, de alguma forma, permeadas pelo sofrimento, na medida em que seus aspectos se transformam. Esse é o sofrimento da mudança. O terceiro tipo de sofrimento é o nascimento. Esse é, na verdade, a base, a causa de todos os tipos de sofrimento. Enquanto temos o nascimento influenciado pelo apego e ignorância, temos uma existência que vai estar sendo permeada de sofrimento.

‘Vacuidade’ não quer dizer ‘vazio’, aquilo que é ‘oco’, mas interdependência”

Quanto às causas, são de dois tipos. A primeira é o karma, que quer dizer “ação”. De modo geral, para que as coisas aconteçam neste mundo, é necessária uma ação. Por exemplo, se você quer tomar chá, precisa praticar vários atos que possibilitem isso: comprar a erva, arrumar uma xícara, preparar a água etc., até que, enfim, esteja em condições de bebê-lo. Essas ações, como toda e qualquer ação, têm seus resultados; essa é a lei do karma.

Este texto foi originalmente veiculado no formato impresso, em 1992 (Foto: Breno Airan)

Existem ações que frutificam de imediato; outras, porém, frutificam em alguns meses, ou anos, ou depois de várias vidas ou mesmo depois de várias eras, mas, apesar do tempo que possa mediar, sempre haverá uma correspondência entre a ação e seu fruto.

Não há tempo aqui para falar sobre os diferentes tipos de ações e de causas. Na verdade, há no budismo uma elaboração detalhada e sofisticada disso. A grosso modo, no entanto, poderia dizer que existem dois tipos de ação: as positivas e as negativas. As negativas são as que conduzem ao sofrimento; muitas vezes, no Ocidente, são chamadas de “pecado”. As ações positivas são as que levam à felicidade.

Todas as ações estão ligadas às motivações que lhe deram causa. O exame da motivação é essencial dentro do budismo. Se a motivação for o apego, a raiva, o ódio, a ignorância ou a inveja, a ação que vai seguir tenderá a ser uma ação negativa. Mesmo ao praticarmos uma ação aparentemente positiva, se a motivação não for correta, isso afeta a qualidade da ação. Por exemplo, uma pessoa tem fé no Buda, mas, na verdade, não conhece de fato o que significa essa fé, ou seja, é ignorante. Se a sua motivação é a ignorância, ela não vai poder colher os frutos dessa fé e vai ainda permanecer presa no ciclo de existência (samsara). Vários são os tipos de motivação negativa, mas todos esses tipos se originam de uma única fonte, a ignorância. Poderíamos dizer que, em última análise, é a ignorância como motivação que dá causa ao samsara, que dá causa a todo o sofrimento.

Conhecer a fundo a ignorância é difícil, complexo; ela se apresenta de diferentes formas. Para conhecê-la em suas formas mais sutis é necessário conhecer a natureza última da realidade, que é também um conhecimento bastante sutil. Por isso, dentro do budismo, encontramos textos como o Prajnaparamita, a Perfeição da Sabedoria, que trata justamente disso. O conhecimento da ignorância no seu nível mais sutil está intimamente relacionado ao conhecimento da cessação do sofrimento e, portanto, para entendermos esses níveis mais sutis da ignorância, precisamos entender esse conceito de cessação.

Para conhecermos a fundo essa verdade, que é a Terceira Nobre Verdade, a cessação do sofrimento, é preciso examinar as apresentações que são feitas pelas quatro principais escolas de pensamento budista: Vaibhashika, Sautrantika, Chittamatra e Madhyamika, e suas subescolas. De todas, a escola Madhyamika — e dentro desta, a subescola Prasangika — parece-nos a mais profunda.

A qualidade unidirecionada da mente, é inseparável da conduta (sila)”

Como poderemos chegar à completa eliminação da ignorância e à completa compreensão da realidade última da existência, que propicia a cessação de todo o sofrimento? Nessa busca, começamos examinando a realidade última da existência, passamos à eliminação das emoções negativas e, por fim, à eliminação da ignorância — o que vai nos apresentar essa verdade última. Quando esse trabalho investigativo é realizado tendo por objeto a verdadeira natureza da mente, ou seja, tomando por objeto a própria natureza última e não algum outro fator da existência, focando a própria mente, trilha-se o caminho da verdadeira cessação final de todo o sofrimento.

Falo aqui da natureza última da existência ou da verdade última da existência. Dentro desse conceito, vai surgir a noção de duas verdades: a que corresponde à natureza última da existência e a relativa, que se contrapõe à primeira. Esta apresentação da verdade em dois níveis não é particular do budismo — vamos encontrá-la em outras religiões da Índia — e essa divisão é aceita pelas quatro escolas de pensamento budista. Para o que segue, vou utilizar o enfoque da escola que havia referido como sendo a mais profunda de todas, a escola Prasangika-Madhyamika.

Em poucas palavras, a verdade última da existência, segundo o budismo, é Sunya (ou a Vacuidade). Porém, “vacuidade” não quer dizer “vazio”, aquilo que é “oco”, mas, sim, que todos os fenômenos, todas as coisas, existem sob dependência ou interdependentemente e não por si mesmas. Por esse motivo, porque nada existe por si só, mas por dependência, cada fenômeno, isoladamente considerado, é, em última instância, vazio. Assim, quando temos a ausência dessa interdependência da existência, temos a experiência da vacuidade.

De modo geral, os seres não conhecem esses níveis sutis de ignorância. Isso faz com que certas predisposições apareçam e se tornem mais enfáticas, vindo até mesmo a aparecer de forma mais violenta, num ciclo sucessivo de renascimentos, até que temos, a partir disso, estados mais néscios de ignorância. Porém, a ignorância, seja ela qual for, por mais sólida que pareça aos nossos olhos, em última análise é apenas ilusão. A ignorância está construída sobre premissas falsas e, por isso, pode ser dissipada através da investigação e da meditação. Ao mesmo tempo, não temos familiaridade com esses níveis sutis de dificuldade. Podemos fazer um esforço para nos familiarizarmos com essa experiência, por meio do conhecimento, da compreensão da ignorância em seu nível mais sutil. Ainda que haja essa dificuldade, podemos fazer um esforço para nos familiarizarmos com essa experiência, para investigarmos essas questões; para meditarmos sobre Sunya, a vacuidade. Portanto, é como se houvesse uma balança com dois pratos: o negativo e o positivo. À medida que se vai cultivando chegar ao positivo, esse prato vai subindo e o prato negativo vai descendo, até que toda a emoção negativa, toda a visão equivocada venha a ser situação eliminada por completo. Essa é a verdade da cessação.

O budismo tibetano inclui o hinayana, o mahayana e o tantrayana”

Falando agora da Quarta Nobre Verdade, que é o caminho que leva à cessação, muitos métodos existem no budismo. Vou falar de dois, os principais. Antes de tudo, precisamos desenvolver a compreensão, a sabedoria que compreende a vacuidade (Vipassana). Para alguém desenvolver isso e adquirir os instrumentos para usar essa sabedoria, ela precisa desenvolver uma capacidade de concentração da mente; precisa ter uma mente unidirecionada. Hoje, somos vassalos de nossa mente — ela nos controla, mas podemos nos desenvolver até um ponto em que nossa mente fique na posição onde a coloquemos e que se torne possível usá-la para a penetração profunda em um tema ou objeto de meditação. Essa qualidade, esse treinamento da mente se chama “Shamatha”. Para podermos desenvolver essa qualidade unidirecionada da mente, precisamos ter moralidade, autodisciplina. A conduta é importante, é inseparável, o que é chamado “Sila”.

Essas Quatro Nobres Verdades compõem a base do budismo e são assim aceitas por todos os budistas, mas há um segundo desenvolvimento no budismo, o mahayana. O mahayana se assenta sobre essa base, mas adiciona dois conceitos importantes: o conceito das Seis Perfeições e Bodhicitta, o Altruísmo Universal. Há ainda um terceiro nível, o mantrayana ou tantrayana que, aceitando os dois primeiros níveis, vai introduzir outras práticas; práticas estas que envolvem visualizações, deidades e mandalas.

O budismo tibetano como tal inclui esses três grandes grupos do budismo, o hinayana, o mahayana e o tantrayana.

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(*) O monge Tenzin Gyatzo, XIV Dalai Lama do Tibete, é líder espiritual e temporal do povo tibetano, Prêmio Nobel da Paz de 1989. No Brasil, no início da década de 1990 (à época desta publicação), recebeu os títulos de Cidadão da Cidade de São Paulo, Doutor Honoris Causa da PUC-SP e Cidadão de Porto Alegre. Recebeu também a Medalha Irmão Afonso da PUC-RS e a Medalha Pedro Ernesto da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.



Matéria publicada no dia 25/08/2025

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