A vista do sinal de trânsito, em Olinda-PE (Foto: Carmen Navas Zamora/ cortesia)

Lições de Shamata e Guru Yoga esperando o semáforo abrir

Neste “Relato de Praticante”, Carmen Navas Zamora nos convida a observar e aguardar junto com ela



A prática é a teoria que anda. Por isso, a jornalista e praticante Carmen Navas Zamora
— também carinhosamente conhecida como Carmencita — não fica parada. E quando tem de ficar, fica. Permanece. Percebe. Pressente o presente.

Conectando o Largo do Varadouro e Rua Santos Dumont, há um semáforo. Fica no bairro do Varadouro, em Olinda, bem pertinho do Mercado Eufrásio Barbosa.

Esse mesmo semáforo também é uma espécie de elo entre a parte baixa de Olinda e as ladeiras do Sítio Histórico.

Carmencita precisa passar por ali para chegar ao mercado mais próximo. E ainda na mercearia. Na granja. No açougue.

Quando está em sua cidade natal, no litoral pernambucano, gosta de fazer tudo a pé. E esse semáforo é o seu portal de entrada para a vida pulsante das ladeiras, onde segue aos saraus, aos cortejos de troças e aos shows dos seus artistas preferidos.

Então, esse sinal se tornou uma parada obrigatória na vida de Carmencita. Aquela espera de 3 minutos. No começo, muita ansiedade. Depois, horário marcado de contemplação. A vida passa.


Na esquina da minha casa, há uma avenida com duas pistas agitadas, reguladas por um desses semáforos que o pedestre aciona por botão, sempre que quer atravessar. Mas existe uma exceção: entre 17h e 19h, o botão deixa de funcionar e a luz verde só acende para os pedestres a cada três minutos. É um esforço da engenharia de trânsito para lidar com o fluxo aumentado de veículos e evitar engarrafamentos. Pois fiquei uns meses brincando de fazer antropologia urbana nessa esquina e vou compartilhar com vocês uma coisa que me deixou estarrecida: poucos entre nós têm paciência para esperar três minutos.

Indo e voltando a pé da padaria ou do mercado, emprestei meus ouvidos para muita gente reclamar da demora. “Mas não é possível! Será que tá quebrado?”, desconfiava a senhorinha, com os olhos grudados na luz vermelha. “São três minutos”, informei e ela arregalou os olhos, espantada, como se eu tivesse anunciado uma espera de meio ano. “Ave Maria, não pode ser!”. E tome apertar o botão duas, três, vinte vezes.

Lembro de ver um homem, parado ao lado de sua bicicleta, disparando soquinhos na caixa do botão. Não sei se era para descarregar a ansiedade ou tentando apressar o processo. “São três minutos”, falei. “Já passou muito mais que isso”, garantiu o ciclista. Eu sabia que não era correta sua suposição, mas sabemos que a vida fica muito lenta quando a gente tem que esperar.

O já desgastado botão que, de forma programada, deixa de funcionar entre 17h e 19h (Foto: Carmen Navas Zamora/ cortesia)

Guardas de trânsito ocasionalmente trabalham naquela esquina e se tornam alvo da impaciência do povo. Outro dia, um homem com duas crianças pequenas em uniforme escolar solicitou: “Não tem como a senhora parar o trânsito pra nós? Quero chegar logo em casa. As crianças tão com fome”. A guarda respondeu, impassível: “São três minutos”.

“É muito tempo”, desabafou o homem. Sensibilizada, a guarda apitou e deteve o trânsito para a gente passar. Foi intensamente aplaudida por ter nos liberado do terrível tormento de esperar… três minutos (modo ironia ativado).

No começo, me parecia insuportável ficar imóvel na esquina, como um poste. Eu me aproveitava de qualquer instante em que o vaivém dos carros diminuía e me jogava na primeira pista. Mas depois vinha a necessária espera no corredor de cimento que separa os carros em sentidos opostos. Essa era ainda pior, porque eu estava bem no meio do perigo e da confusão. Daí comecei a pensar que três minutos não era tanto assim. Enfim, estar rigorosamente impedida de fazer qualquer coisa é uma oportunidade preciosa de respirar. Se nesse intervalo o mundo acabar, tenho uma excelente desculpa para não ter feito nada.

E tem mais: no Nordeste do Brasil, o céu é especialmente bonito às cinco da tarde. Se é verão, o calor se abranda. Se é inverno, pode ser que tenha chovido, mas nem por isso o entardecer perde a beleza. O cinza das nuvens filtra um amarelo intenso, que aos poucos vai sumindo, até ser devorado pela noite. Se for um daqueles dias em que o sol se põe em meio a um clarão alaranjado, juro que eu poderia me sentar na calçada e chorar de alegria. Comecei a aproveitar a pausa forçada para ficar quieta, respirar consciente e olhar para o céu.

Daí lembrei de uns ensinamentos com Jigme Khyentse Rinpoche que assisti no modo online. A fala desse mestre, que cresceu na região de Darjeeling, Índia, e hoje é diretor do Centro de Estudos Chanteloube, na França, costuma me transportar para um tempo singular, etéreo. Ele tem um jeito único de falar, muito relaxado, quase sempre sorrindo, às vezes fechando os olhos e fazendo pausas bem longas. Sem um milésimo de pressa, talvez procurando a palavra certa, talvez somente saboreando o silêncio. Quem sabe?

Jigme Khyentse Rinpoche (Foto: Khyentse Vision Project)

Lembro de uma vez em que a tela do Zoom mostrava três quadros simultâneos: num deles Jigme Khyentse falava mansamente sobre Guru Yoga; nos outros quadros, dois comentaristas ouviam (aliás, lembro que um deles era o Do Tulku). Rinpoche descrevia como é se sentir tocado pela compaixão de um grande mestre ou mestra do Darma. “É como se apaixonar”, explicou. “Você fica aberto e vulnerável, sem a usual carcaça de autoproteção. Esses seres não usam nem um minuto de suas vidas em proveito próprio. Tudo que fazem, dedicam aos seres sencientes, para aliviar seu sofrimento”.

Percebi que enquanto o escutavam, os rostos dos comentaristas assumiam expressões de paz e encantamento. Pareciam liberados de qualquer preocupação com a duração do podcast ou a lista de perguntas pendentes. Fiquei pensando depois que, se eu tivesse me olhado no espelho, talvez visse essa mesma expressão na minha própria face. Sim, estávamos ali, exatamente como o Rinpoche descreveu: abertos, vulneráveis, apaixonados.

Depois de fazer sua fala, Jigme Khyentse respondeu a uma pergunta, se despediu e sumiu da tela. O comentarista fez então uma pergunta ao Do Tulku, que respondeu algo assim: “Vai ser difícil eu conseguir falar agora. Estou completamente mexido”.

Então eu, que tenho a sorte de ter conhecido grandes seres nessa vida, disponho de três minutinhos de meditação garantidos todo dia, embaixo de um magnífico céu tropical. O semáforo mais amaldiçoado da cidade se tornou um Protetor do Darma. Não dá para reclamar. Emaho!


Matéria publicada em 19/10/2025

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1 Comentário

  1. Ana Ricl disse:

    Magnífico!
    Desacelere…

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