Como a deidade conquista os corações e mentes, salvando os seres e vencendo preconceitos
Arya Tara é muitas vezes descrita como o Buda em forma feminina ou como a representação simbólica da compaixão dos Budas. Mas por que é importante falar sobre isso? Bem, talvez você já tenha ouvido falar que “feminino” e “masculino” são categorias da realidade relativa, ou seja, do aspecto mais aparente e grosseiro da vida. A promessa feita por Arya Tara vem exatamente para nos lembrar de que existe algo muito mais sutil e transcendente. É daí que ela obtém seus superpoderes, que salvam seus devotos nas mais difíceis situações. Quer saber mais? Leia até o fim.
Se você é budista, provavelmente já ouviu falar no enorme poder de Arya Tara e ficou se perguntando como surgiu sua famosa decisão de nunca abrir mão da forma feminina.
Essa é mais uma daquelas histórias budistas que envolvem números astronômicos e várias camadas de significados. Como é uma história que inspira e encanta praticantes há mais de 2.000 anos, vale a pena ser contada de novo.
“Há muito tempo, numa época em que não havia nada mais, o Vitorioso Tatágata Dundhubishvara veio a existir e ficou conhecido como Luz de Vários Mundos. A Princesa Lua de Sabedoria tinha enorme respeito por seu ensinamento e, por dez milhões e cem mil anos, ela fez oferendas a esse Iluminado […] Finalmente, depois de tudo isso ela despertou para os primeiros conceitos da Mente-Bodhi. Naquele momento, alguns monges lhe disseram: ‘Se você rezar de acordo com os ensinamentos, com certeza vai conseguir mudar para obter a forma de um homem’. Depois de muita discussão, ela respondeu: ‘Não existe tal diferença entre ‘masculino’ e ‘feminino’, nem ‘identidade’ ou ‘pessoa’, portanto, o apego a essas ideias é inútil’. E ela fez o voto: ‘Há muitos que desejam ganhar a iluminação numa forma de homem e há poucos que querem trabalhar pelo bem-estar dos seres sencientes numa forma feminina. Portanto, que eu possa, num corpo feminino, trabalhar pelo benefício dos seres, daqui até que o Samsara se esvazie’.” *
Assim começa a trajetória dessa popularíssima deidade, chamada em sânscrito de Arya Tara e em tibetano de Drolma. No Tantra hindu, já era apontada como uma deusa de sabedoria e também como a consorte que protegeu o corpo do deus Shiva, no episódio em que ele consumiu um terrível veneno chamado kalakuta.
Uma inscrição datada do ano 778 EC, encontrada no santuário Kalasan Chandi, na ilha de Java, faz referência a Tara com a seguinte frase:
Seu sorriso faz o sol brilhar e seu cenho franzido faz a escuridão envolver a esfera terrestre.”
A gente poderia escrever infinitas páginas sobre os milagres de Tara, com todas as magníficas aparências que ela manifesta. É simplesmente impossível reunir num só texto toda essa extensa literatura, que inclui os autores mais importantes das tradições Mahayana e Vajrayana. Todas as linhagens e escolas rendem algum tipo de homenagem a Arya Tara ou contam com sua compaixão veloz para fazer avançar os projetos do Darma. No Tibete, o relato mais completo sobre a iluminação e os feitos da deidade foi escrito pelo historiador Taranatha, por volta do ano 1600 d.C., com o nome “A Origem do Culto de Tara”. Segundo ele,
“Ela permaneceu no palácio por dez milhões e cem mil anos num estado de meditação […] Como resultado, ganhou sucesso na realização de que os darmas são não-nascidos e também aperfeiçoou a meditação conhecida como ‘salvando todos os seres sencientes’, por cujo poder ela passou a salvar dez milhões e cem mil seres a cada manhã. Então seu nome foi mudado e ela se tornou conhecida como ‘a Salvadora’.”
Citado no livro “Skillful Grace – A Practice of Tara for Our Time”, de Tulku Urgyen Rinpoche, o famoso mestre das linhagens Drukpa e Nyingma, Trulshik Adeu Rinpoche (1931-2007), explica:
“A qualidade especial de Tara é sua extraordinária resolução compassiva de beneficiar todos os seres, removendo qualquer coisa que os leve a sentir ansiedade e temor e afastar os oito ou dezesseis tipos de medos. Existem duas perspectivas. Uma é a de que Tara é uma praticante do caminho que desenvolveu a iluminação suprema e definitiva. Outra perspectiva é a de que as lágrimas de Avalokiteshvara se transformaram em Tara. Como devemos conciliar essas duas versões? Isso depende da capacidade de quem estiver ouvindo os ensinamentos.”
A devoção a Tara no budismo é como um eco de outras civilizações que veneravam deusas de sabedoria como Atena, grande protetora da Grécia, ou a egípcia Ísis, mãe da magia e da medicina.
Para a antropóloga Vanessa Rosa, professora de indígenas Mbyá Guarani e pesquisadora das divindades femininas, Arya Tara e seu voto constituem um momento único na história das religiões. Pela primeira vez, caiu por terra o preconceito contra o corpo feminino, tantas vezes acusado de inadequação e insuficiência ou encarado como ameaça à castidade dos monges.
“A instalação de uma sociedade patriarcal significou o apagamento de várias deusas e a demonização de outras”, analisa Vanessa. “Hoje, o voto de Arya Tara permanece muito atual, porque no momento em que tentaram ‘apagar’ sua forma feminina, ela a reafirmou. Além disso, suas manifestações não são somente pacíficas e suaves. Ela não é uma mãe doce e submissa. Arya Tara também domina os meios hábeis irados, que cortam rapidamente a negatividade, então, ela é uma inspiração para nós”, diz.

Entre os eruditos do passado, poucos tiveram uma relação tão forte com Arya Tara quanto Atisha Dipamkara, que nasceu no território hoje chamado de Bangladesh e viveu entre 982 a 1054 dC.
Há duas histórias famosas sobre ocasiões em que sua vida foi ameaçada e a deusa interveio rapidamente para salvá-lo. Numa delas, o barco em que Atisha viajava foi atingido por uma tempestade. Por isso, ele compôs o seguinte apelo:
Om! Homenagem a você, senhora que nos protege dos oito medos.
Homenagem a você, senhora que faz brilhar o esplendor da auspiciosidade,
Homenagem a você, senhora que fecha a porta para o renascimento inferior!
Homenagem a você, senhora que nos conduz no caminho para os reinos superiores!
Você é aquela que nos mantém sempre sob seu cuidado —
nossa guia, apoio e amizade; então proteja-nos, nós rezamos,
com toda sua vasta compaixão!
A segunda história ocorreu no período em que esteve em Nyethang, no Tibete. Atisha ficou muito doente e, para sobreviver, fez várias súplicas a Tara.
A deidade apareceu diante dele e, como forma de curar sua doença, recomendou a recitação do Louvor às 21 Formas de Tara pelo menos 10 mil vezes, num único dia. Aquilo era demais para Atisha, que suplicou por uma solução mais fácil. Como não existe “tempo ruim” ou problema difícil demais para um Buda em forma feminina, Tara passou a Atisha a Oração Breve às 21 Taras, uma composição de poucas linhas que acompanha o mantra:
Om, homenagem à sublime e venerável Tara.
Homenagem à Tara: a corajosa salvadora,
que afasta todos os medos com Tuttara
e tudo oferece com Ture.
Com Svaha, ofereço o meu último louvor.
No Brasil, foi a presença de Chagdud Tulku Rinpoche a grande força impulsionadora do culto de Tara. Considerado ele mesmo uma emanação das atividades de Tara, Rinpoche dizia que a deidade é a “expressão impecável da inseparabilidade entre vacuidade, consciência e compaixão”. Por isso, recomendava a prática diária de uma liturgia concisa da deidade Tara Vermelha que, segundo acreditava, tinha o potencial de trazer muitos benefícios para praticantes ocidentais.
O ciclo de ensinamentos de Tara Vermelha foi um tesouro revelado por Orgyen Trinley Lingpa, ou Apong Terton (1895-1945), importante mestre da escola Nyingma. Por causa da conexão do Lama Padma Samten com Chagdud Rinpoche, a mesma prática foi depois incorporada aos pujas diários das sangas do Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB), o que aumentou ainda mais seu alcance.
Como já descrito acima, não há como resumir um assunto tão profundo e de tal riqueza cultural quanto a devoção a Arya Tara. Que esse texto encoraje mais pessoas a lerem sobre ela e, melhor ainda, contemplarem seu significado.
Para encerrar, um trecho da Ode a Tara, escrita por Dzongsar Khyentse Rinpoche, em 2017, uma belíssima declaração de amor, que termina com as seguintes frases:
Como és bela!
Como és poderosa!
Como és infinita!
Que nos tornemos iguais a ti.
Por meio desta súplica, onde quer que estejamos,
Que não haja pobreza, fome ou conflito.
Que o Darma prevaleça!
* “A Origem do Culto de Tara”, de Jo Nang Taranatha, traduzido e editado por David Templeman, publicado em 1981 pela Library of Tibetan Works and Archives, em Dharamsala, Índia.
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PARA SABER MAIS
Matéria publicada em 08/03/2026
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