Ensinamentos de Chakung Jigme Wangdrak Rinpoche
Entre 19 de outubro e 2 de novembro de 2026, os mestres Jigme Wangdrak Rinpoche e Anam Thubten Rinpoche estarão no Brasil para uma programação de retiros que incluirá uma passagem pelo CEBB Sukhavati e CEBB Caminho do Meio. Além disso, ocorrerá o lançamento do livro de Jigme Wangdrak Rinpoche, cujo prefácio foi escrito por Anam Thubten Rinpoche. O livro está sendo traduzido para o português por Jeanne Pilli e será publicado pela editora Ação Paramita, com o título “Amando a Vida Como Ela É: um guia budista para a felicidade suprema”.
Até a chegada de Wangdrak Rinpoche ao Brasil em outubro, a Revista Bodisatva irá pouco a pouco traduzir e publicar alguns de seus ensinamentos disponibilizados inicialmente no site da Abhaya Fellowship, a fim de que a Sangha brasileira possa acessá-los em nosso idioma. Que seja de benefícios!
Os kleshas são o que conhecemos como os cinco venenos do apego, ignorância, ódio, orgulho e ciúme. Caímos sob a influência deles através de nossa falta de consciência. Todos queremos ser felizes, mas sofremos, e isso é devido às emoções aflitivas. Temos fé nas nossas emoções aflitivas e, consequentemente, nos tornamos seus servos. As emoções aflitivas são a principal força motriz que nos impulsiona no sentido do sofrimento. Precisamos deixar de ter fé nelas e deixar de servi-las. Ao longo de vidas passadas e futuras e mesmo desde pequenos, estivemos num estado de ignorância, porque seguimos emoções aflitivas que continuam devido à nossa crença em um eu. Essas são a raiz do nosso sofrimento e, se continuarmos a segui-las, continuaremos sob o seu poder: as causas e condições para experienciar o sofrimento estarão presentes.
Existem muitas formas de trabalharmos com essas emoções e mudarmos a nossa situação. Podemos analisar as aflições, transformá-las, aprender a abdicar delas para que não se tornem a causa de sofrimento futuro.

Temos o conceito de um “inimigo”, algo ou alguém que nos faz mal. Alguém que perturba os nossos desejos, que nos impede de avançar. Muitas vezes acreditamos que esse inimigo é externo a nós próprios e que precisamos fazer algo, a fim de parar o inimigo. Mas não importa quantos inimigos externos derrotemos, outros vão surgir. Não temos a possibilidade de derrotar todos eles. Através de uma investigação próxima e cuidadosa, entretanto, descobrimos que o inimigo não está fora de nós — o inimigo está dentro, são as nossas emoções aflitivas, e descobriremos que a raiz das emoções aflitivas é a ignorância. Quando um exército trava uma guerra, precisa ultrapassar a comitiva até ao rei; da mesma forma, precisamos chegar à raiz do sofrimento e das emoções aflitivas, que é a ignorância.
Os inimigos internos, as emoções aflitivas, são muito menos previsíveis do que os inimigos externos; são muito mais difíceis de compreender e reconhecer. Por exemplo, podemos facilmente imaginar como inimigos externos causam medo – esmagam os nossos sonhos, tiram-nos a vida, causam-nos danos nessa vida. Ocorre que, muito embora os kleshas não possam nos acompanhar em uma outra vida, eles estão dentro de nós. Eles nos seguirão para os seis reinos da existência e trarão grandes problemas. Estão nas nossas mentes ao longo das nossas vidas em existência cíclica.

Ao contrário dos inimigos externos, os inimigos internos estão sempre conosco. As emoções aflitivas ficam conosco quando comemos, dormimos, caminhamos — seja o que for que estejamos a fazer, elas estão conosco. Dessa forma, são o nosso companheiro constante. Isto é muito mais aterrador do que um inimigo com uma localização conhecida fora de nós.
Além disso, os inimigos externos são facilmente reconhecíveis; podemos ver o que estão fazendo. Mas os inimigos internos podem parecer gentis, brandos e bondosos até haver um resultado negativo que cause sofrimento e dor. São muito mais enganadores do que inimigos externos. Podemos facilmente reconhecer e conhecer um inimigo externo; sabemos que ele é inimigo e que não o aceitamos. As emoções aflitivas podem exercer uma influência negativa sobre nós de forma mais completa, simplesmente porque são mais difíceis de conhecer. A causa do sofrimento nesse caso está no próprio fato de não os conhecermos. A origem é o marigpa, a falta de consciência, e é a partir do marigpa que as emoções conseguem causar-nos mal. Não reconhecemos os inimigos internos e até os aceitamos como a forma habitual de fazer as coisas, a realidade cotidiana.
Muitos de nós ainda não começamos a procurar a origem das emoções aflitivas, por isso as nossas mentes estão num estado de ignorância. Esse inimigo permanece conosco durante muitos éons. Eles nos seguem de vida em vida. Eles nos trazem grande dificuldade na existência cíclica. Continuamos no processo de karma, causa e efeito, que tem a falta de consciência na sua própria origem. Plantamos continuamente sementes de sofrimento que não pensamos que vão amadurecer, mas que eventualmente irão. Experienciamos grande sofrimento no nosso ambiente, no nosso mundo, nos lugares onde vivemos e desenvolvemos a ideia de inimigos externos. Nos vemos como separados dos seres sencientes, quando na verdade estamos todos sob a influência de emoções aflitivas. O que precisamos fazer é encontrar a origem das nossas emoções aflitivas e, assim, compreender a sua natureza.
Então, como combatemos as emoções aflitivas? É por compaixão dotada de sabedoria. É isso que a compaixão realmente é; é perceber o sofrimento. Quando vemos um inimigo se aproximar da nossa presença, normalmente sentimos vontade de lutar. Mas, por meio da compaixão, podemos entender o ódio como uma doença. Podemos ver que nossos inimigos estão seguindo um sentimento de maneira inconsciente e entender que prefeririam agir de uma maneira diferente da que agem, caso tivessem essa consciência sobre seus sentimentos.

É muito difícil livrar-se dos inimigos externos. Mas, embora os inimigos internos possam nos acompanhar por muitas vidas, estejam sempre ao nosso lado e sejam muito enganadores, eles também são muito fáceis de derrotar. Os inimigos externos surgem repetidamente, mas assim que identificamos as emoções aflitivas como o inimigo e as tratamos com sabedoria e compaixão, nesse exato momento podemos derrotar o inimigo. Tratamos do inimigo.
A nossa abordagem é primeiro reconhecer emoções aflitivas e depois compreender a sua essência. Nesse momento, podemos libertar as emoções aflitivas. Se alguém nos disser palavras desagradáveis, podemos responder com compaixão. Podemos olhar para a nossa própria reação e, em vez de responder logo, podemos olhar para a essência da nossa raiva, podemos abrandar as coisas e nos perguntar: “Fiz algo de errado?” Mesmo que não tenhamos feito nada de errado, podemos reconhecer a poderosa influência de uma emoção muito forte que se apoderou de outra pessoa.
É muito mais fácil trabalhar com as emoções negativas internas, esses inimigos, do que com aqueles que encontramos fora, com aqueles externos a nós. Quando encontramos alguém que nos incomoda, não devemos tentar resolver o problema olhando para a situação externa, mas, sim, olhando para o sentimento que surge dentro de nós mesmos e olhando com olhos de sabedoria. Se alguém diz algo para nós e temos uma reação forte, essa reação é algo que podemos sentir. Podemos sentar com esse sentimento e nos perguntar: “Como é essa sensação? Qual é a cor e o formato dela? Onde está esse sentimento que está surgindo dentro de nós?” Olhe de perto e olhe com os olhos da sabedoria. Vamos perceber que não conseguimos encontrar muito sobre isso. Não podemos dizer: “É assim que é.” Não conseguimos encontrar sua localização. Não conseguimos encontrar nada substancial em lugar nenhum. Não tem nada ali.
Quando percebemos isso, a sensação desaparece. Não está mais lá. É resolvida rapidamente através desse processo de olhar para sua natureza com os olhos da sabedoria. A sensação perturbadora se resolve, se dissipa. Fazemos isso repetidas vezes à medida que novos sentimentos e emoções fortes surgem. Repetidas vezes, olhamos para a natureza deles, tentamos descobrir onde estão, tentamos olhá-los diretamente e percebemos que não há nada para onde possamos apontar o dedo. É aqui que encontramos a resolução. A maioria de nós não olha para as emoções, os kleshas. Sem consciência, seguimos sentimentos e medos que se multiplicam e criam tendências habituais enraizadas. Em vez disso, precisamos olhar para as emoções aflitivas com os olhos da sabedoria. Quando fazemos isso, vemos a natureza da mente e das emoções negativas – vemos que sua natureza é a sabedoria. Até mesmo as emoções negativas têm a natureza da sabedoria.
Na raiz dos kleshas, está a falta de entendimento a respeito da natureza de nossas mentes. É através do desconhecimento que todos os tipos de emoções aflitivas conseguem ganhar força e proliferar. Em vez de dedicar tanto esforço para entender o mundo material e aquelas coisas externas a nós, devemos chegar a uma compreensão da natureza de nossas próprias mentes e obter um gostinho disso por meio da nossa própria prática.
~ Chakung Jigme Wangdrak Rinpoche, 27 de janeiro de 2024
PARA SABER MAIS
O texto-base para essa tradução e outros ensinamentos transcritos do mestre Wangdrak Rinpoche podem ser encontrados (em inglês) no site da Abhaya Fellowship.
Matéria publicada em 24/05/2026
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