Ensinamentos de Chakung Jigme Wangdrak Rinpoche
Em 28 de maio de 2022, Chakung Jigme Wangdrak Rinpoche ofereceu ensinamentos sobre compaixão e descreveu um caminho de cultivo que começa com o reconhecimento dos três venenos, da compaixão por si mesmo e da compaixão por todos surgida desse caminho.
Entre 19 de outubro e 2 de novembro de 2026, os mestres Jigme Wangdrak Rinpoche e Anam Thubten Rinpoche estarão no Brasil para uma programação de retiros que incluirá uma passagem por dois Centros de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB): o CEBB Sukhavati, em Quatro Barras-PR, e CEBB Caminho do Meio, em Viamão-RS.
Além disso, ocorrerá o lançamento do livro de Jigme Wangdrak Rinpoche, cujo prefácio foi escrito por Anam Thubten Rinpoche. O livro está sendo traduzido para o português por Jeanne Pilli e será publicado pela editora Ação Paramita, com o título “Amando a Vida Como Ela É: um guia budista para a felicidade suprema”.
Até a chegada de Wangdrak Rinpoche ao Brasil em outubro, a Revista Bodisatva irá pouco a pouco traduzir e publicar alguns de seus ensinamentos disponibilizados inicialmente no site da Abhaya Fellowship, a fim de que a Sangha brasileira possa acessá-los em nosso idioma. Que seja de benefícios!
Hoje eu gostaria de oferecer um breve ensinamento sobre o tema de nying je (སྙིང་རྗེ།), em tibetano, ou o que chamamos de “compaixão”. Esse é um tópico sobre o qual provavelmente já ouvimos diversas vezes ao longo de nossa jornada como budistas. Estamos acostumados a ouvir a palavra “compaixão” e estamos muito familiarizados com esses ensinamentos. Mas será que praticamos a compaixão, de fato? Será que a integramos em nossa prática, de tal forma que ela realmente tenha se tornado parte de nossas mentes? Isso é algo que precisamos analisar. Se nos acostumamos a ouvir a palavra, mas não a praticamos de fato, ela perde o poder que realmente possui e o poder que pode sustentar. Quero falar sobre compaixão, como incorporá-la à prática e o poder que ela representa.

Quando ouvimos a palavra “compaixão” geralmente a relacionamos a outros seres sencientes. Vemos outros seres sencientes sofrendo e testemunhamos esse sofrimento. Temos a experiência e o pensamento de que queremos libertar os seres sencientes da dor que estão sentindo. Essa é uma explicação resumida de compaixão que se traduz no pensamento: “Que os seres se libertem do sofrimento. Como seria para eles serem livres do sofrimento? Seria maravilhoso para eles serem livres do sofrimento”. Ter esse pensamento, isso é compaixão.
Podemos desenvolver esse pensamento em nossas mentes quando vemos sofrimento nesse mundo. Podemos ver o sofrimento causado pelos quatro elementos; vemos isso em exemplos de guerras, lutas e outros seres sendo prejudicados. Quando testemunhamos o sofrimento, temos o pensamento: “Que eles se liberem desse sofrimento, que eles não o experimentem, que eles tenham felicidade”. Esse é o sentimento de compaixão, a experiência dela. Essa é a compreensão geral, segundo o Mahayana, o grande veículo, do que significa ter compaixão.
É muito importante chegarmos ao ponto em que a compaixão se torna uma experiência e não apenas uma palavra.

Água da compaixão
Nossos corpos precisam de água. Sem ela, nossos corpos adoecem. A água é como um remédio. É como comida; é sustento. É algo de que absolutamente não podemos prescindir. A água para o corpo é como a compaixão para a mente. Nossos corpos precisam de água, assim como a mente precisa de compaixão. Quando não temos água no corpo, é fácil adoecer e experimentar todos os tipos de doenças físicas. Da mesma forma, nosso mundo, o ambiente externo, também precisa de água. Quando o mundo ou o ambiente externo está sem água, se torna muito seco e queima facilmente. Basta uma faísca para que tudo pegue fogo.
Da mesma forma, nossas mentes precisam de compaixão. Sem ela, é fácil nos irritarmos. Nossas mentes se tornam indomáveis e selvagens. É fácil para uma mente sem compaixão sentir raiva ou outras emoções negativas. Assim como um mundo muito seco e sem água queima facilmente, a compaixão é como água para a mente. Assim como precisamos de água no mundo exterior, também precisamos de compaixão para a mente.

Cultivando a compaixão
Hoje em dia, ouvimos dos médicos e das pessoas que se ocupam da saúde que é muito importante manter-se hidratado. É fundamental beber água, pois é extremamente benéfico para o corpo. É quase como um remédio manter-se hidratado. Sempre ouvimos que precisamos beber água suficiente e que isso é muito benéfico para a nossa saúde. Da mesma forma, precisamos hidratar a mente com compaixão. Essa é a água para a mente e devemos trazer essa compaixão à nossa mente repetidas vezes, como se estivéssemos hidratando-a.
Assim como a água é benéfica para a nossa saúde física, a compaixão é benéfica para a nossa saúde mental. Ao praticá-la, descobriremos que nos tornamos pessoas muito gentis e honestas, pessoas muito diretas. Nossa mente é domada e se torna mais gentil, honesta e direta. A maneira como interagimos com as pessoas se torna bastante gentil quando temos por base a compaixão. Temos emoções e sentimentos o tempo todo e se praticarmos a compaixão repetidamente, desenvolveremos uma compaixão intrínseca, de modo que, quando expressarmos ou sentirmos emoções, eles serão permeados de compaixão. Essa é uma experiência muito útil para nós, porque reagimos aos outros com compaixão. Isso não é apenas uma prática religiosa, espiritual ou de uma escola budista. É uma experiência natural. É imensamente benéfico praticar a compaixão.
Ela é indispensável em nossas vidas, precisamos dela. Sem ela, corremos o risco de nos tornarmos pessoas egocêntricas, com muitas emoções negativas ou aflitivas, incontroláveis ou que se tornam predominantes. Corremos o risco de vivenciar mais infelicidade e nossas mentes não conseguem ser felizes. É por isso que, no grande veículo, o veículo Mahayana, a compaixão é discutida como um fator indispensável em nossas vidas.
Praticar a compaixão por si mesmo: o desejo de se libertar dos três venenos
Como despertamos a compaixão em relação aos outros? Observando o sofrimento de outros seres, testemunhando seu sofrimento e, então, despertando o desejo de libertá-los do sofrimento, com o pensamento de que eles se libertem do sofrimento.
E quanto à compaixão por nós mesmos? Isso depende da compreensão dos três venenos ou das emoções negativas e do que significa estar sob a influência deles. Quando estamos sob o poder das emoções negativas, não temos livre-arbítrio. É como se não tivéssemos liberdade, como se estivéssemos a serviço das emoções negativas. Somos servos, por exemplo, do desejo, da raiva, do ciúme. Nossa mente não tem livre-arbítrio. Nossa mente não tem autonomia, não tem independência. Estamos sempre a serviço das emoções negativas. E por causa disso, somos infelizes. Não estamos bem e nossa saúde não é boa, porque não temos liberdade. Estamos apenas a serviço das emoções negativas. A experiência é de mal-estar, de infelicidade e até mesmo de adoecimento mental.
A mente experimenta um estado de desequilíbrio e nos tornamos servos de nossos conceitos e nossas emoções negativas. E devido ao poder de causa e efeito, experimentamos o sofrimento como um efeito. Então, temos o pensamento: “Que eu possa me libertar do sofrimento, que eu possa experimentar o que é estar livre do sofrimento, que eu não seja servo desse desejo, que eu não seja servo das emoções negativas”. Ter esse pensamento é a experiência da compaixão por si mesmo. É o desejo de se libertar da experiência do sofrimento que surge das emoções negativas.
Cultivando a compaixão
Fazer isso repetidamente, ter esse pensamento constantemente em nossa vida e torná-lo parte dela é o que chamamos de prática. Não nos deixarmos levar por emoções negativas o tempo todo e desejarmos nos libertar delas, essa é a prática do que poderíamos chamar de autocompaixão.
Quando deixamos de ser escravos ou servos de emoções negativas e a experiência da compaixão surge em nós, naturalmente também experimentamos a paz. Mas precisamos nos esforçar para cultivar a compaixão. Quando fazemos isso, a experiência da paz interior surge naturalmente. Essa é a essência da experiência da compaixão: ela precisa ser algo que vivenciamos pessoalmente. Precisamos ter a experiência concreta em nós mesmos, uma experiência muito real de compaixão. Não pode ser um conceito ou uma grande ideia sobre compaixão. Ela precisa ser sentida, vivenciada. Quando fazemos isso, naturalmente a experiência da paz, seja exterior ou interior, se manifesta.
Sempre falamos de compaixão por todos os seres sencientes. Dizemos: que todos os seres sencientes sejam felizes. Essa é uma afirmação grandiosa, mas, primeiro, nós mesmos precisamos vivenciá-la. A autocompaixão é o desejo de nos libertarmos do sofrimento e de experimentarmos o que isso significa. Também queremos ter compaixão por aqueles que são próximos a nós, com quem temos contato direto — nossos pais, entes queridos, amigos e familiares. Podemos desenvolver o sentimento de compaixão por todos eles.
Desenvolvemos o desejo de que os outros sejam livres e, ao vivenciarmos essa experiência, reconhecermos o seu sabor e experenciarmos essa sensação, experimentaremos a paz interior. Haverá uma diminuição da atitude egocêntrica, do apreço por nós mesmos e teremos uma experiência espiritual genuína de compaixão. É muito fácil proferir as palavras: “Que todos os seres sencientes neste universo se liberem do sofrimento, que tenham compaixão, que tenham felicidade ou que todas as pessoas neste mundo e nos países deste mundo se liberem do sofrimento e que tenham felicidade”. É muito fácil dizermos isso, mas, na raiz, primeiro vem a experiência. Pode ser uma experiência de compaixão por nós mesmos ou por aqueles com quem nos relacionamos; trata-se de uma experiência de amor bondoso e de desejo de que sejam livres. Essa é a raiz. Devemos ter essa experiência antes de podermos fazer afirmações muito amplas quanto ao desejo de que todos os seres sencientes sejam felizes.

Primeiro, começamos por nós mesmos. Garantimos o cultivo da compaixão por nós mesmos e por aqueles que nos cercam. Ao fazermos isso, experimentaremos a paz. Sentiremos o gosto da compaixão, saberemos o que é compaixão. E então conheceremos o seu poder.
O Mahayana tem um objetivo muito amplo, um foco muito vasto. Quando trabalhamos com compaixão e buscamos desenvolvê-la, mantemos esse foco em nossas mentes. Mantemos o ideal de que todos os seres sencientes sejam felizes em uma escala muito ampla. Mas precisamos começar por nós mesmos. Não faz sentido termos um objetivo ou foco em todos os seres sencientes e não cultivarmos compaixão por aqueles que estão perto de nós, aqueles que estão no nosso entorno imediato ou por nós mesmos. Se não somos compassivos conosco, mas afirmamos ser compassivos com todos os seres sencientes, então o objetivo se inverteu. Se todos os seres sencientes são objetos de compaixão, e ainda assim ignoramos a nós mesmos e os que estão muito próximos de nós — se não alimentamos nossos animais de estimação ou não somos gentis com nossos pais, com aqueles seres que nos são muito queridos — e, ao mesmo tempo, dizemos que temos compaixão por todos os seres sencientes, então estamos nos afastando do ponto principal. Essa é uma aplicação invertida. Se afirmamos que desejamos que todos os seres sencientes sejam livres, então devemos ter compaixão por aqueles que nos são próximos, como nós mesmos ou nossos familiares.
É importante começar por si mesmo e ter uma experiência de compaixão, começando por nós e por aqueles que nos são próximos. A partir daí, experimentamos o sabor da compaixão, podemos ter uma experiência genuína que então aplicaremos a todos os seres sencientes.
PARA SABER MAIS
Matéria publicada em 10/06/2025
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