Maria José, a Dona Neném (Foto: Lucas Chagas)

NEIMFA: 40 anos de uma comunidade que segue ensinando a amar

No Coque, em Recife, existe um espaço que há quarenta anos vem cultivando outras formas de existência coletiva


Por
Revisão: Carmen Navas Zamora

Em celebração aos 40 anos do Núcleo Educacional Irmãos Menores de Francisco de Assis (NEIMFA), completados no ano de 2026 na comunidade do Coque (Recife/PE), a Revista Bodisatva inicia uma série especial sobre esta experiência de afeto e resistência. A partir de uma roda de memórias com as mulheres fundadoras e o conselho gestor, o relato revela como um território historicamente marginalizado manifesta cultura de paz, acolhimento e profunda fartura espiritual na Ilha de Joana Bezerra.


O NEIMFA nasceu do encontro entre educação, espiritualidade, arte, cuidado comunitário e cultura de paz. Ao longo de sua trajetória, tornou-se referência para crianças, jovens, mulheres, idosos e famílias, criando espaços de acolhimento, formação humana e fortalecimento de vínculos em um território historicamente marcado por desigualdades, mas também por uma grande potência coletiva.

Antes de falar do NEIMFA, no entanto, é preciso contextualizar o Coque. Comunidade tradicional localizada na Ilha de Joana Bezerra, na região central de Recife (PE), quase todas as referências públicas sobre o Coque são negativas; um território marginalizado, que enfrenta desafios históricos de vulnerabilidade socioeconômica, falta de infraestrutura e estigmatização ligada à violência. Mas é precisamente nesse chão que o Neimfa finca suas raízes. 

Foi nesse contexto que chegamos ao Neimfa para acompanhar uma das rodas de memória organizadas em preparação aos seus quarenta anos.

Antes do início da roda, nós três, que chegamos para a captação dos relatos, fomos recebidos com arroz de leite, queijo, mel e uma conversa afetuosa. Em algum momento daquela conversa surgiu uma frase: “No Neimfa tudo vira oferenda.”

Escutando as histórias daquela noite, a sensação era de que essa compreensão permeia silenciosamente toda a trajetória do Neimfa.

Este relato contemplativo abre uma série especial da Revista Bodisatva dedicada aos quarenta anos dessa experiência comunitária que, ao longo dos anos, se tornou um lugar de transformação na forma das pessoas olharem para si mesmas, para o outro e para o mundo. Nos próximos parágrafos, iremos percorrer memórias, histórias e encontros que ajudam a compreender a trajetória do Neimfa e também o que continua florescendo depois de quatro décadas: a capacidade de manifestar cuidado, pertencimento e dignidade. 

Preces de abertura (foto: Lucas Chagas)

Para iniciar essa travessia, nos reunimos em roda com algumas das mulheres do Coque que construíram o Neimfa desde o começo. Fundadoras, mães, educadoras e jovens compartilharam lembranças, afetos e vivências que transbordavam a cada relato. 

Sidney Rocha, coordenador do Neimfa, conduzia a conversa com a escuta atenta de quem ajuda a guardar e zelar por essa história. Aos poucos, as narrativas iam emergindo entre silêncios, risos e emoções. 

Naquela roda, as memórias surgiam de forma muito espontânea. Uma fala puxava outra; uma lembrança era completada pela seguinte. Entre pausas, risos e silêncios, surgiram relatos das primeiras reuniões feitas nas casas, das mães que dividiam o pouco que tinham e das crianças que cresceram no Neimfa — e que hoje retornam como educadoras, artistas e formadoras da própria comunidade.

Em muitos momentos, o que se revelava era a força de um território que aprendeu a criar acolhimento na escassez. Enquanto surgiam lembranças sobre alimentos compartilhados e gestos de partilha, chamava atenção a presença de uma grande imagem de Dzambala no espaço — a deidade ligada à abundância, na tradição budista. A imagem parecia espelhar a riqueza que ecoava em toda aquela roda: a capacidade de oferecer e gerar oferenda, mesmo quando quase não se tem nada. 

Um lótus florescendo sobre o mangue

Sidney Rocha, coordenador do Neimfa, e Dona Neném (Foto: Lucas Chagas)

“O Neimfa é um grande lótus em cima desse mangue”, define Sidney. “A gente aprende a sentar em cima dele e se reconhecer como pessoas preciosas, que têm algo a oferecer também.” Essa pedagogia do valor próprio, contudo, não nasceu nos livros, mas nos terraços de madeira da comunidade, quando a sede física era apenas um plano distante.

À medida que a roda de memória avançava, as lembranças deixavam de ser relatos do passado e revelavam a própria costura do cotidiano. Foi quando surgiu o nome de Dona Dulce.

Ao tentar explicar o que sustentou o Neimfa durante quarenta anos, Sidney relembrou a mulher que vivia em uma das casas mais vulneráveis, onde muitas vezes faltava o básico. Ainda assim, seu lar era farto de presença.

“Dona Dulce não tinha um pão para comer”, conta Sidney. “O pratinho de comida de charque que conseguiu com a vizinha… mesmo assim ela ofereceu, dividiu, chamou o pessoal para comer com ela.”

Outras mulheres da roda começaram então a completar a lembrança. Madrinha retomou a lembrança: “Ela não tinha nada para comer. Sabe o que era que ela tinha? Farinha com um pedaço de charque. Era para ela e para os meninos. E mesmo assim ela disse: ‘O que eu como, vai dar para todos comerem’.”

Mais do que um gesto isolado de generosidade, a lembrança de Dona Dulce retornava como uma das imagens fundadoras do Neimfa: a capacidade de gerar dignidade e acolhimento na escassez. Naquela época, o ensinamento passava de mão em mão, de casa em casa. “As aulas eram feitas nos terraços das mães. Na casa de dona Lenira, na casa da mãe de Neném… as mulheres ofereciam o espaço, ofereciam a comida, mesmo sendo pouquinho”, pontua Sidney.

Dona Dulce e as mães fundadoras já ensinavam, em 1986, que ninguém é tão pobre que não tenha nada a oferecer. “Crescendo no Neimfa, não importa sua idade, de onde você venha, se estudou ou não, se tem diploma ou não”, conclui Sidney. “Se está aqui, a gente pode aprender juntos, recebe o texto da mesma forma, pratica do mesmo jeito e vai ser tratado da mesma maneira.”

O fio que costura as gerações

Dandara Canuto no centro (Foto: Lucas Chagas)

Essa herança de acolhimento que começou com as mães fundadoras continua gerando frutos. Andreia lembra com nitidez de quando chegou ao Neimfa, quando sua filha, Dandara, ainda era uma bebê de colo: “Quando eu cheguei aqui e olhei assim: ‘Meu Deus, o lugar que eu procurava eu encontrei’.”

O acolhimento que Andreia encontrou no Neimfa esteve presente também nos momentos em que mais precisou de apoio. “Das vezes que eu fiquei doente, eu fui muito bem acolhida. O amor, a compaixão… tudo isso”, recorda. Essa experiência também aparece naquilo que desejava para os filhos: “Eu queria que meus filhos aprendessem isso: a se cuidar, a se amar, a respeitar o próximo.”

O desejo da mãe se fez realizou na trajetória de Dandara. Tendo crescido entre oficinas, danças e atividades educativas, ela testemunhou a infância protegida pela atmosfera do lugar. “Eu consigo imaginar aquela bolha de proteção que a gente encontra aqui. Eu consigo imaginar ela”, descreve Dandara, hoje artista e educadora social. “Quando eu saio e quando eu volto para casa, eu me sinto protegida. Não só eu, mas toda a comunidade dentro dessa bolha majestosa, luminosa.”

O que Dandara aprendeu no Neimfa também produziu mudanças dentro de sua própria família. “Graças à sabedoria da minha mãe e à sabedoria do Neimfa, a gente conseguiu romper a educação violenta dentro da nossa casa”, revela. O conceito de cultura de paz ganhou corpo na cozinha, no trato diário e no afeto entre mãe e filha. Hoje, artista e educadora social, Dandara se reconhece como multiplicadora daquilo que aprendeu: “Todo lugar que eu passo, se eu puder falar da cultura de paz, eu vou falar.”

Ao olhar para essa trajetória, resume: “Eu só tenho a agradecer.”

A porta aberta e a meditação do cotidiano

Mariana Galindo (Foto: Lucas Chagas)

Mariana chegou ao Neimfa a partir de uma busca espiritual. Mesmo trabalhando em uma instituição ligada à igreja, sentia que procurava algo diferente. Foi então que recebeu um convite para participar de uma roda de cura.

Daquela primeira noite, uma imagem permaneceu em sua memória: “Duas pessoas me receberam, vestidas de branco. Depois desse dia eu nunca mais vi essas duas pessoas”, relembra. Sua permanência no Neimfa foi se construindo também nos pequenos serviços do dia a dia: servir os lanches, organizar as salas, ajudar nas tarefas da casa.

Com o tempo, esses gestos passaram a fazer parte de sua própria prática: “Quando eu tô ajeitando o templo, quando eu tô organizando, quando eu tô recebendo… é minha meditação. É minha terapia”, conta Mariana. Para ela, a identidade do lugar se resume em uma imagem simples: “É uma porta que recebe. Que acolhe.”

Essa sensibilidade de acolher a dor alheia sem pressa dialoga diretamente com o que Sidney considera um dos pilares mais importantes desses quarenta anos: a democratização do conhecimento. “Essa coisa de partilhar e dar acesso a conhecimentos, seja de ordem filosófica, seja de ordem espiritual, pra população”, reflete.

Em sua visão, os saberes que tratam da mente, das emoções e do espírito não podem ficar restritos aos centros acadêmicos ou às elites econômicas. “Os conhecimentos espirituais e educacionais pertencem à humanidade e foram feitos pra humanidade”, defende. É dessa premissa que nasce o próximo passo do Neimfa: a criação de uma biblioteca comunitária sobre o templo, um farol de leitura voltado às filosofias orientais, educação e budismo no meio da periferia. “O que é de produção cultural, filosófica e espiritual precisa ser acessível.”

No fim da noite, enquanto as vozes silenciavam e a roda se desfazia, ficava o desenho nítido de uma arquitetura que não se apoia em tijolos, mas em encontros. Uma tessitura firme feita de mulheres que abriram seus terraços, de crianças que voltaram como mestras e de vizinhas que dividiram a farinha com charque. É exatamente esse pacto de dignidade que, quarenta anos depois, continua insistindo em florescer sobre o mangue.

O que segue vivo

Participantes da roda de memórias dos 40 anos do Neimfa: união e afeto no coração do Coque (Foto: Lucas Chagas)

Ao final do encontro, ficou a certeza de que a roda não falava apenas do passado. Falava, sobretudo, sobre o presente e o futuro, e a delicadeza necessária para manter viva uma experiência comunitária ao longo do tempo. Num mundo frequentemente empurrado para o isolamento e o endurecimento, o Neimfa segue como um farol aceso, lembrando que ainda é possível reaprender, coletivamente, outras formas de existir e de sonhar.

E os sonhos ali não cessam: continuam ganhando corpo lá em cima, no espaço planejado para a nova biblioteca sobre o templo, e aqui embaixo, no rés do chão.

Logo após a partilha das palavras, todos permaneceram juntos, dividindo bolo, arroz de leite, coxinhas e conversas que pareciam resistir ao fim da noite. Havia uma felicidade muito simples e desarmada naquela cena — e, talvez por isso, tão preciosa.

Enquanto as vozes silenciavam e a roda se desfazia, revelava-se a força daquela imagem que há tanto tempo define a vizinhança: as mulheres do Coque como contas de um grande rosário vivo.  Um cordão firme mantido por Sidney Rocha, Paulina Lourenço (Madrinha), Andreia Canuto, Dandara Canuto, Mariana Galindo, João Oliveira, Andrea Santana, Edilene Francisca (Djane), Alice Andrade, Maria José (D. Neném), Carlos Adriano (Nego), Edilene Francisca (Dona Di). Uma constelação de mulheres e homens que abriram seus terraços, de crianças que voltaram como mestras e de vizinhas que compartilharam a farinha com charque. Quarenta anos depois, o grande lótus do mangue continua fazendo o que sempre fez de melhor: reunir gente em torno do afeto, da escuta e do cuidado. 


Registros da Memória

  • A conversa que deu origem a este relato aconteceu na sede do NEIMFA, no Coque, em 10 de abril de 2026 e publicado na Revista Bodisatva em 10 de junho de 2026.
  • Facilitação e escuta: Elen Cezar, Marcelo dos Santos e Lucas Chagas.
  • Captação de áudio que gerou as transcrições para esse texto: Marcelo dos Santos.
  • Registros fotográficos: Lucas Chagas

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Matéria publicada em 10/06/2026

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