Khenpo Samdup é um mestre altamente respeitado da linhagem Drikung Kagyu do budismo tibetano (Foto: Examedia)

Podemos confiar em um mundo que parece desmoronar?

Khenpo Samdup e Lama Padma Samten estarão em Porto Alegre nesta semana; Thamise Santos faz relato de praticante


Por
Revisão: Cristiane Schardosim Martins
Edição: Breno Airan

Neste relato de praticante, Thamise Santos — mãe alagoana que mora no Sul há cerca de uma década — equilibra os pratinhos da vida adulta, em meio às obrigações laborais, as atividades que desempenha como analista de mídias da Revista Bodisatva e do CEBB Porto Alegre, e as belezas e desafios que é criar uma criança, hoje com 9 aninhos.

Diante de notícias alarmantes, desde as mudanças climáticas severas que estamos vivenciando até o avanço incontido das inteligências artificiais ameaçando empregos de todo tipo, algumas perguntas acabam pairando no ar de forma insistente.

Para isso, meditamos em cima desses questionamentos, a fim de que a almofada abafe as preocupações advindas de um cenário que tende a nos puxar para um abismo.

Thami, então, reflete diante dessa condição abissal fazendo da interrogação a sua gangorra, para lá e para cá, bem na beirada do que pode ser. Ou não.


Tenho notado que as pessoas — inclusive eu (risos) — estão exaustas ou no limite da exaustão.

O mais curioso dessa observação é que não é pelo trabalho, embora isso tenha um peso, nem só pelas demandas de casa e sociais. A exaustão coletiva surge de tentar dar conta. Dar conta do excesso do mundo. De nos mantermos atualizados, engajados e oferecendo o suficiente.

Vivemos tempos desafiadores. A frase já virou quase um mantra às avessas, dessas coisas que a gente fala e nem percebe que falou de tão introjetado que já está. 

Todo mundo que encontro tem uma lista de pendências, algo para fazer que acabou sendo soterrado pelo dia a dia corrido (ah, esse é outro termo bem comum de se ouvir hoje).

E fico remoendo uma coisa: “Como recuperar o fôlego quando o mundo parece desmoronar um pouco mais a cada dia?”

No Dharma, aprendemos que a vida humana é preciosa. Essa é uma das quatro contemplações que transformam a mente. No entanto, “apenas” a aceitação de que a vida é uma grande dádiva não está fazendo efeito.

Afinal, como olhar para a nossa própria vida como algo precioso, quando estamos exaustos? Como cultivar alegria e esperança sem transformar isso em uma espécie de demanda extra?

Estou tentando não correr atrás de uma resposta.

Estou tentando me apegar nas pequenas alegrias que surgem — sim, elas surgem. Se olharmos direitinho, elas estão até bem presentes…

Por exemplo: uma flor que cultivamos e começou a florescer, uma comida feita na hora com ingredientes frescos, uma conversa boba com a minha filha Lis e tantas outras coisas pequenamente grandes.

Olhar e viver tudo isso com atenção plena é uma estratégia de me manter conectada ao movimento do mundo, sem me contaminar com o caos. É um respiro de esperança! É a confiança nas Três Joias!

Por isso, tenho me alegrado com a expansão do Dharma do Buda no Brasil. Enquanto aspirante a praticante, me impressiona ver tantos professores e professoras altamente renomados chegando por aqui, oferecendo ensinamentos preciosos com tanta generosidade.

Há muita beleza nisso. Acredite!

Somos um país com uma cultura muito diferente. Os ensinamentos budistas surgiram em um outro contexto sociocultural. E, por vezes, podemos nos sentir desconectados. Mas aí os mestres que beberam diretamente dessa fonte chegam aqui e facilitam nossa compreensão. É incrível! É um convite para olharmos as pequenas (nesse caso, não tão pequenas) alegrias da vida. Somos afortunados e nem nos damos conta.

O Dharma nos convida a não esperar o momento certo, pois todo momento é o momento para praticar. Olhando assim, podemos pensar que o caos do mundo é um grande — e desafiador, confesso — convite à prática.

É por isso que faço um convite.

Khenpo Samdup é conhecido por sua abordagem calorosa, clara e perfeitamente adaptada ao público ocidental (Foto: Ibiti)

Nesta quinta-feira, 3 de setembro, Khenpo Samdup Rinpoche e Lama Padma Samten estarão em Porto Alegre para oferecer um diálogo sobre “Lucidez e Compaixão em Tempos Desafiadores”.

Uma boa oportunidade para meus questionamentos se pacificarem. Ou não (risos)

Tudo vai depender da minha disposição e prática. Mas lucidez e compaixão já são qualidades bem favoráveis para cultivar.

A palestra será no Teatro Hebraica, às 19h, no bairro do Bom Fim (deve ser algum sinal).

Se você estiver pelo Rio Grande do Sul, está aí uma oportunidade daquelas!

E, quem sabe, a gente saia desse diálogo, olhando de forma mais ampla para a pergunta que ainda nos acompanha: “Podemos confiar em um mundo que parece desmoronar?”

Sigamos!

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Matéria publicada em 01/09/2026

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