Dungse Chakung Jigme Wnadrak Rinpoche (Foto: Reprodução/ internet)

Amando a Vida Como Ela É: um guia budista para a felicidade suprema

Uma resenha do livro de Dungse Chakung Jigme Wangdrak Rinpoche, que tem lançamento previsto para 2026


Por
Revisão: Dirlene Ribeiro Martins
Edição: Breno Airan e Cristiane Bremenkamp Cruz

Este ano, os praticantes brasileiros terão acesso a mais uma preciosidade em nossa língua materna: o livro “Amando a Vida Como Ela É: um guia budista para a felicidade suprema”, escrito por Dungse Chakung Jigme Wangdrak Rinpoche, que está prestes a ser lançado pela editora Ação Paramita. 

Wangdrak Rinpoche nasceu na região de Golok, no Tibete, na quarta geração do mestre budista do século 19, Dudjom Lingpa. Ele foi criado de maneira muito simples em uma grande família nômade e, aos 15 anos, foi reconhecido como o renascimento de Ridzin Longsal Nyingpo, um grande revelador de tesouros do século 17.

Estudou na Academia Budista Larung Gar das Cinco Ciências, com Sua Santidade Jigme Phuntsok, e recebeu ensinamentos da mestra Dakini Kunzang Wangmo. Desde 2012, vive na região da Baía de São Francisco, nos EUA, onde ensina diversas comunidades budistas e é o diretor espiritual do Abhaya Fellowship.


O livro “Amando a Vida Como Ela É: um guia budista para a felicidade suprema” está prestes a ser lançado pela editora Ação Paramita, sendo o primeiro título do mestre Dungse Chakung Jigme Wangdrak Rinpoche traduzido para o português. A transição para a nossa língua foi feita por Jeanne Pilli.

A obra divide-se em duas partes (Visão e Prática), com os respectivos subtópicos apresentados no sumário a seguir:

PARTE 1 – VISÃO
Sabedoria atemporal
Compreender o sofrimento
Ir além das oito preocupações mundanas
A verdadeira felicidade
A alegria de doar
Da mente condicionada para a mente não condicionada
A vida na vigília é um sonho
PARTE 2 – PRÁTICA
Introdução à prática do treinamento da mente
A raiz da felicidade e do sofrimento
Desenvolvendo resiliência
A meditação sobre o não-eu
A prática de Tonglen

Em uma passagem comovente do livro, o mestre Dungse Wangdrak Rinpoche dedica uma prece piedosa para todos os seres sencientes e aspira, do fundo de seu coração, que nesta mesma vida nós possamos reconhecer a verdadeira natureza de nossa mente (rigpa) e firmar esse reconhecimento de modo cada vez mais inabalável, desenvolvendo e aperfeiçoando a “radiância dinâmica”, em outras palavras, a capacidade de repousar na consciência de inseparatividade, interconexão e abertura até que essa visão se torne plenamente vasta e estável.

Segundo as palavras do mestre Dungse Wangdrak Rinpoche, a sabedoria adquirida por meio dessa realização será a maior riqueza de nossa vida, pois quando estivermos doentes, tal visão será a nossa enfermeira, assim como a amiga mais valiosa a qual recorrer nas diversas situações da vida: tanto nos momentos nos quais estivermos desfrutando de condições favoráveis e alegres, quanto nos contextos desafiadores do viver – afinal, ambas as circunstâncias têm a textura dos sonhos, são dependentes de experiências transitórias e, por isso mesmo, não são inerentes. Caberá a nós, então, “reconhecer a mesma natureza de todas as condições”, isto é, o aspecto luminoso e mágico da realidade dos fenômenos sem distinção.

O que buscamos — e os grandes mestres nos mostram — é manter a equanimidade em todas as circunstâncias, o que os budistas chamam de “reconhecer a mesma natureza de todas as condições”. Nesse estado, não há preferência entre uma condição e outra, mas as vemos como iguais, já que são ilusórias como um sonho (p.40).

Sua Santidade Jigme Phuntsok, que foi o principal guia espiritual de Dungse Wangdrak Rinpoche em Larung Gar, costumava citar um verso do grande mestre do budismo Mahayana, Arya Asanga, que é mencionado no livro:

Para aquele que realizou a natureza ilusória dos fenômenos, tudo é como assistir a um espetáculo (p.51).

Desse modo, a benção de realizar e estabilizar a natureza da mente não permitirá que nos sintamos à mercê de quaisquer surgimentos e desaparecimentos – tanto ao vivenciarmos conquistas e ganhos condicionados, quanto ao enfrentarmos tragédias e infortúnios. Ao realizarmos de modo profundo a natureza ilusória e o “sabor único” de todas as aparências, repousaremos naturalmente e sem esforço na verdadeira experiência de equanimidade.

Capa do livro que será lançado em 2026 pela Ação Paramita (Foto: Reprodução)

À medida que você alcança esse grau de maestria, com o tempo, nenhum inimigo, demônio, obstáculo, doença ou sofrimento poderá subjugá-lo. Você terá alcançado o reconhecimento da verdadeira natureza de todas as coisas que surgem. Todos esses fenômenos e obstáculos — doença, dor mental e física, infelicidade — se pacificarão e aquietarão naturalmente, por meio do repouso e do reconhecimento da natureza da mente. Essas instruções foram transmitidas por muitos grandes mestres do Dzogchen (Grande Perfeição), incluindo o grande onisciente Longchen Rabjam, que deu os ensinamentos mais diretos e profundos sobre a natureza da mente (p. 28).

De acordo com as palavras do precioso mestre Dungse Wangdrak Rinpoche, à medida que nosso insight amadurecer, passaremos a reconhecer, de modo cada vez mais estável, a ficção contida na ideia de “eu” versus “ele” ou ainda de “eu” e “você” como entes separados. Reconheceremos experiencialmente que essa separação é apenas uma ilusão surgida a partir da distorção conceitual do nosso pensamento dualista e tal visão compassiva expandirá nosso coração, para beneficiar cada vez mais seres.

ESTADO DE VIGÍLIA E DE SONHO

O grande mestre tibetano Traktung Düdjom Lingpa, bisavô de Dungse Wangdrak Rinpoche, certa vez indagou a seus alunos: “Qual a diferença entre o estado de vigília e o estado de sonho?”

Em seguida, Düdjom Lingpa explicou a seus discípulos que a única diferença entre o estado de vigília e o estado de sonho consiste no fato de que, nos sonhos, as cinco faculdades sensoriais voltam-se para dentro.

Em seu livro “Amando a Vida Como Ela É”, o mestre Dungse Wangdrak Rinpoche explica que, durante o sonho noturno, as faculdades sensoriais se recolhem, absorvidas na consciência fundamental. Por outro lado, quando estamos acordados, as cinco faculdades sensoriais junto com a mente se voltam para fora e projetam-se na direção dos fenômenos externos, fixando-se em objetos. Em resumo, o mestre assevera que o estado vivenciado durante o sono é o “sonho adormecido” enquanto a experiência que temos quando estamos acordados é o “sonho acordado”.

O mestre Dungse Wangdrak Rinpoche ressalta o curioso fato de que despertamos do sonho adormecido com muita mais facilidade que do sonho acordado, pois nossos padrões habituais – o apego ao “eu” e às coisas como reais – são muito densos e espessos. Diante da complexidade desses fenômenos, em seu livro “Amando a Vida Como Ela É”, o mestre Dungse Wangdrak Rinpoche nos convida a contemplar as experiências do sonho adormecido e do sonho acordado e a perceber, de modo profundo, como ambas as realidades são fabricadas, pintadas com nossos próprios pensamentos, ideias, opiniões e projeções.

CULTIVO DA BONDADE AMOROSA

Rinpoche também ressalta que os ensinamentos naturalmente se enraízam de modo cada vez mais profundo no fluxo da nossa mente à medida que nos dedicamos genuinamente à prática e, desse modo, o amor e a compaixão também florescem de maneira espontânea em nossa mente-coração.

Quando flocos de neve caem sobre uma rocha quente, eles derretem, como se estivessem se dissolvendo na superfície. Da mesma forma, os ensinamentos penetram no fluxo da nossa mente; e, a partir disso, surge um impulso cada vez maior em direção ao amor e à compaixão pelos outros. Por isso, é tão importante cultivar a bondade amorosa e a compaixão desde cedo (p.56).

Em seu livro “Amando a Vida Como Ela É: uma guia budista para a felicidade suprema”, o mestre Dungse Wangdrak Rinpoche ressalta ainda que treinar a mente condicionada a soltar, relaxar e a permanecer em equanimidade é uma prática radical: passamos a nos envolver plenamente com os pensamentos e emoções e, ao mesmo tempo, permanecemos em equanimidade. Assim, as mais diversas circunstâncias da vida se tornam verdadeiras oportunidades de crescimento espiritual.

Vou além e digo que, com o tempo, poderemos chegar ao ponto de nos alegrarmos e sentirmos gratidão pelo nosso sofrimento. Ao cultivamos gratidão pelo sofrimento, somos capazes de acolher os contratempos ou as doenças que nos atingem como oportunidades para erradicar as respostas habituais e, assim, percebemos que eles se tornam mais fáceis de lidar. Praticantes budistas que aplicam os princípios do budismo na vida real aspiram a estar em um estado de gratidão diante das circunstâncias difíceis (p.23).

Nessa perspectiva, Rinpoche faz referência às biografias de grandes seres que enfrentaram adversidades e desafios e que, em vez de sucumbirem diante dessas circunstâncias, pelo contrário, desenvolveram qualidades notáveis, as quais nos inspiram. O mestre ressalta ainda que, no budismo, circunstâncias difíceis como as doenças, por exemplo, são consideradas experiências verdadeiramente purificadoras.

Assim como uma vassoura varre a sujeira de um pátio, a doença varre, limpa e purifica o carma negativo e os obscurecimentos mentais internos acumulados nesta vida e em vidas passadas (p. 26).

O autor nos convida a olhar com profundidade a verdadeira essência da nossa própria dor para percebermos que tal experiência pode ser encarada como um ornamento, uma joia. Em outras palavras, a dor pode ser vivenciada como um adorno de nosso estado desperto puro.

Além disso, outra face dessa mesma moeda é a experiência de apreciação humilde surgida quando vivenciamos momentos de conforto, prazer e alegria. O mestre nos convida a ser tocados pela humildade quando experimentamos a felicidade. Ele ressalta que, se não cultivarmos um senso de apreciação e gratidão, permaneceremos presos a uma “mentalidade de tomar”. Por outro lado, quando verdadeiramente reconhecemos que não vivemos isolados, mas que nossas felicidades se tornam de fato possíveis graças à contribuição de inúmeros seres, causas e condições entrelaçadas na tapeçaria da existência, permanecemos então em um estado de gratidão humilde, compassiva e naturalmente benéfica.

Dungse Chakung Jigme Wangdrak Rinpoche (Foto: Abhaya Fellowship)

A PRÁTICA DA GENEROSIDADE: UM SOL DIVINO QUE DERRETE NOSSO CORAÇÃO

Em diversas passagens do seu livro, ele aborda o cultivo da genuína generosidade. Em certo trecho, menciona uma história bastante comovente que remete à sua infância. Naquele tempo, o pequeno Wangdrak se divertia com seus amigos fazendo pequenas casas e castelos com tocos de madeira e pedrinhas.

Nós nos sentávamos no chão, recolhíamos pedras e as organizávamos em pequenos montes. Construíamos uma casinha de pedra e fazíamos um cercado ao redor, com quatro cantos, posicionando cada pedra com cuidado: essa aqui é o portão da casa, essa é o iaque, essa é a cabra, essa é a ovelha e essa é o cavalo. Essas aqui são as pessoas — os pais e os filhos. Eram apenas pedrinhas, mas em nossas mentes, o mundo inteiro, o universo todo, estava ali criado, e brincávamos e chamávamos os amigos, dizendo: ‘Quero te dar meu cavalo.’ Entregávamos uma pedrinha a alguém e dizíamos: ‘Esse é meu cavalo, essa é a minha casa, essas coisas são muito preciosas para mim, mas eu te amo, então, vou te dar esse presente. Pode ficar com a minha casinha e meu cavalo‘ (p.64).

Os adultos ao redor viam apenas diminutas pedras, mas, para as crianças, aqueles tocos de madeiras e pedrinhas eram personagens vivos. Elas usavam a imaginação e mergulhavam em histórias fantásticas. Ao rememorar sua infância, Rinpoche observa que brincadeiras como essas constituíam uma espécie de “jardim de infância tibetano”, no qual as crianças aprendiam a dar presentes e fazer oferendas imaginárias.

Podemos deixar, por exemplo, um fundo fiduciário para nossos filhos, garantindo que tenham dinheiro e recursos materiais suficientes para levar uma vida confortável. Isso é, sem dúvida, algo maravilhoso. Também podemos querer oferecer outras oportunidades para que tenham uma vida feliz, como diferentes cursos, formações educacionais e atividades extracurriculares. Tudo isso é louvável, mas o maior legado e presente que podemos deixar para uma criança é criá-la para que se torne uma pessoa amorosa, bondosa e compassiva, para que se preocupe com o bem-estar dos outros. Se você conseguir isso, terá oferecido a melhor preparação possível para o futuro dela (p.57).

O mestre Dungse Wangdrak Rinpoche ressalta ainda que a prática da generosidade é, acima de tudo, um estado mental. Convida-nos a contemplar o fato de que cultivar um estado de equanimidade ajuda a praticar a generosidade imparcial que vem do coração.

Vou oferecer. E vou fazer isso sem esperar nada em troca, sem uma agenda oculta, sem esperar que algo retorne para mim. Que todos os seres possam desfrutar da felicidade (p.73).

Em seu livro, ele nos ensina que a generosidade última é aquela que se manifesta quando não há, realmente, aquele que dá, o que recebe e nem tampouco o ato de doar. Em outras palavras, trata-se da generosidade que se manifesta quando mantemos a presença da mente desperta, além da solidez e limitações da dualidade.


PARA SABER MAIS…

  • Entre os dias 14/09 e 02/10/2026, o mestre Lama Padma Samten está conduzindo um estudo de aprofundamento que tem por base o livro “Amando a Vida Como Ela É: um guia budista para a felicidade suprema”, de Dungse Chakung Jigme Wangdrak Rinpoche, prestes a ser lançado pela editora Ação Paramita. Você está convidado(a) a se inscrever no estudo através do link: “sabedoria atemporal no cotidiano“.
Dungse Chakung Jigme Wandrak Rinpoche (Imagem: CEBB / Divulgação)

PROGRAME-SE PARA PARTICIPAR DOS ENCONTROS COM O MESTRE DUNGSE CHAKUNG JIGME WANGDRAK RINPOCHE NO BRASIL

Confira as datas deste ano:

22 de outubro | Palestra no Rio de Janeiro (inscreva-se)
23 de outubro | Palestra em Curitiba (inscreva-se)
24 a 25 de outubro | Retiro no CEBB Sukhavati – Quatro Barras-PR (inscreva-se)
25 de outubro | Palestra em São Paulo (inscreva-se)
26 de outubro | Palestra em Porto Alegre (inscreva-se)
27 e 28 de outubro | Retiro no CEBB Caminho do Meio – Viamão-RS (inscreva-se)
30 e 31 de outubro | Retiro no Chagdud Gonpa Khadro Ling – Três Coroas-RS (inscreva-se)

CONFIRA OS TEXTOS DO RINPOCHE PREVIAMENTE PUBLICADOS PELA REVISTA BODISATVA:


Matéria publicada em 25/09/2026


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