Foto sob Creative Commons. Autor: Christopher Michel

Compaixão e o indivíduo, o propósito da vida

Sua Santidade o Dalai Lama compartilha pensamentos sobre como a compaixão pode transformar nossas vidas e o mundo ao nosso redor


Por
Tradução: José Fonseca

Neste dia 6 de julho de 2025, Sua Santidade o Dalai Lama está completando 90 anos de idade. Em celebração a esta data especial, a revista Bodisatva inicia hoje uma sequência de publicações de reportagens sobre ele e com temas assinados por ele.

É o caso desta matéria, publicada em 1991 na Bodisatva #4 (primavera/verão, 1991-1992), escrita pelo próprio Dalai Lama.

“Uma grande questão subjaz em nossa experiência, quer pensemos nela conscientemente ou não: qual é o propósito da vida? Eu considerei esta questão e gostaria de compartilhar meus pensamentos, na esperança de que eles possam ser, prática e diretamente, benéficos àqueles que os lerem”, diz Sua Santidade.

Que, ao ler suas palavras, possamos honrar sua trajetória cultivando, em nossos gestos diários, a lucidez e o amor que ele tanto inspira!


Creio que o propósito da vida é ser feliz. Desde o momento em que nasce, todo ser humano deseja felicidade e não deseja sofrimento. Nem condicionamento social, nem educação, nem ideologia afeta isto. Do lugar mais profundo do nosso ser, simplesmente desejamos o contentamento. Não sei se o universo, com seus incontáveis planetas, estrelas e galáxias, tem ou não tem um significado mais profundo. Mas pelo menos está claro que nós, humanos vivendo nesta terra, enfrentamos a tarefa de construir para nós mesmos uma vida feliz. Logo, é importante descobrir o que trará o maior grau de felicidade.

Como alcançar a felicidade

Para começar, é possível dividir todo tipo de felicidade e sofrimento em duas categorias principais: mental e física. Das duas, é a mente que exerce a maior influência sobre a maioria de nós. A menos que estejamos gravemente doentes ou privados de necessidades básicas, nossa condição física tem um papel secundário na vida. Se o corpo está contente, nós praticamente o ignoramos. A mente, no entanto, registra todo acontecimento, por menor que seja. Por isso, deveríamos devotar nossos mais sérios esforços para alcançarmos a paz mental.

A partir de minha limitada experiência, descobri que o mais alto grau de tranquilidade interior vem do desenvolvimento de amor e compaixão.

Quanto mais cuidamos da felicidade de outros, maior se torna o nosso próprio sentimento de bem-estar. Cultivando um sentimento de carinho para com outros a mente automaticamente se tranquiliza. Isto ajuda a remover quaisquer medos ou inseguranças que possamos ter e dá-nos força para lidar com qualquer obstáculo que encontremos. É a fonte suprema de sucesso na vida.

Enquanto vivermos neste mundo estamos fadados a encontrar problemas. Se, em tais momentos, perdemos a esperança e ficamos desencorajados, diminuímos nossa capacidade de enfrentar dificuldades. Se, por outro lado, recordamos que não somos os únicos a ter sofrimentos mas que todos os experimentam, esta perspectiva mais realista aumentará nossa determinação e capacidade de sobrepujar nossos problemas. Sem dúvida, com esta atitude, cada novo obstáculo pode ser considerado mais uma valiosa oportunidade para melhorar a nossa mente!

Assim, podemos fazer um esforço gradual para aumentar nossa compaixão, o que quer dizer que podemos desenvolver tanto uma genuína simpatia em relação ao sofrimento alheio como o desejo de remover sua dor. O resultado disso será o aumento de nossa própria serenidade e força interior.

Nossa necessidade de amor

Afinal de contas, a razão pela qual amor e compaixão trazem a maior felicidade é simplesmente que nossa natureza os prezam acima de tudo. A necessidade de amor está na própria base da existência humana. É o resultado da profunda interdependência que todos nós compartilhamos um com outro. Por mais capaz e hábil que um indivíduo possa ser, ficando só, ele ou ela não sobreviverá. Por mais vigoroso e independente que se possa sentir durante os períodos mais prósperos da vida, quando se está doente, ou muito jovem, ou muito velho, há que se depender do apoio de outros.

Interdependência, é claro, é uma lei fundamental da natureza. Não apenas as mais altas formas de vida, como também muitos dos menores insetos, são seres sociais. Sem nenhuma religião, lei ou educação eles sobrevivem através de cooperação mútua baseada num reconhecimento inato de seu inter-relacionamento. O nível mais sutil dos fenômenos materiais também é governado pela interdependência. Todos os fenômenos, do planeta que habitamos até os oceanos, nuvens, florestas e flores que nos rodeiam, surgem em dependência de modelos sutis de energia. Sem a sua interação própria, eles se dissolvem e entram em declínio.

É porque nossa existência humana depende tanto da ajuda de outros que nossa necessidade de amor está na própria base de nossa existência. Portanto, precisamos de um verdadeiro senso de responsabilidade e uma sincera preocupação pelo bem-estar de outros.

Temos de considerar o que nós, seres humanos, realmente somos. Não somos semelhantes a objetos fabricados por máquinas. Se fôssemos meramente entidades mecânicas, então as próprias máquinas poderiam aliviar todos os nossos sofrimentos e satisfazer nossas necessidades. No entanto, como não somos apenas criaturas materiais, é um erro depositar todas as nossas esperanças de felicidade sobre o desenvolvimento externo e o que precisamos e nada mais. Em vez disso, deveríamos considerar nossas origens e natureza para descobrir o que precisamos.

Deixando de lado a complexa questão da criação e evolução do nosso universo, podemos pelo menos concordar que cada um de nós é produto dos nossos próprios pais. Em geral, nossa concepção se deu não só no contexto do desejo sexual mas da decisão de nossos pais de ter uma criança. Decisões como esta são baseadas em responsabilidade e altruísmo – o comprometimento compassivo dos pais de cuidar da criança até ela ser capaz de cuidar de si mesma. Assim, desde o momento de nossa concepção, o amor de nossos pais está diretamente envolvido na nossa criação.

Além disso, somos completamente dependentes dos cuidados de nossa mãe desde os primeiros estágios do nosso crescimento. Segundo alguns cientistas, o estado mental de uma mulher grávida, seja ele calmo ou agitado, tem um efeito físico direto sobre a criança por nascer.

A expressão amorosa também é muito importante na hora do nascimento. Como a primeira coisa que fazemos é sugar o leite do seio de nossa mãe, sentimo-nos naturalmente próximos dela, e ela deve sentir amor por nós a fim de nos alimentar corretamente; se ela está irada ou ressentida, seu leite pode não fluir livremente.

Vem então o período crítico do desenvolvimento do cérebro, do nascimento até a idade de pelo menos três ou quatro anos, durante o qual o contato físico amoroso é o fator mais importante para o crescimento normal da criança. Se a criança não é posta no colo, abraçada, ninada ou amada seu desenvolvimento será prejudicado e seu cérebro não amadurecerá corretamente.

Como uma criança não pode sobreviver sem o cuidado de outros, amor é sua nutrição mais importante. A felicidade da infância, o apaziguamento dos vários medos e o desenvolvimento sadio da autoconfiança da criança dependem todos diretamente do amor.

Hoje em dia, muitas crianças crescem em lares infelizes. Se não recebem a devida afeição, elas raramente amarão mais tarde os próprios pais, e com frequência terão dificuldades em amar outras pessoas. Isso é muito triste. Ao chegarem à idade de entrar na escola, as crianças precisam encontrar apoio para suas necessidades nos professores. Se um professor ou professora não oferece apenas educação acadêmica mas também assume responsabilidade de preparar os alunos para a vida, seus alunos sentirão confiança e respeito, e aquilo que foi ensinado deixará uma impressão indelével em suas mentes. Por outro lado, assuntos ensinados por um professor ou professora que não mostre verdadeiro interesse pelo bem-estar geral de seus alunos serão tidos como temporários e não retidos de maneira duradoura.

Da mesma forma, o doente tratado num hospital por médico ou médica que transmite caloroso sentimento humano sente-se mais à vontade. E o próprio desejo deste último de dispensar o melhor tratamento possível já é curativo, seja qual for o seu grau de habilidade técnica. Por outro lado, se falta ao médico sentimento humano e ele ou ela carrega uma expressão pouco amistosa, de impaciência ou de falta de interesse, o paciente fica ansioso, mesmo se o médico for o mais altamente qualificado, o diagnóstico correto e o remédio receitado certo. Inevitavelmente, os sentimentos do paciente fazem diferença na qualidade e no alcance da recuperação.

Mesmo numa conversação no nosso dia-a-dia, se alguém fala com sentimento humano nós gostamos de ouvir, e respondemos de acordo; toda a conversa torna-se interessante, por menos importante que seja o assunto. Por outro lado, se uma pessoa fala fria e asperamente, sentimo-nos pouco à vontade e desejosos de encerrar logo a interação. Do mais insignificante ao mais importante dos acontecimentos, a afeição e o respeito dos outros são vitais para nossa felicidade.

Recentemente encontrei um grupo de cientistas nos Estados Unidos que me falaram da alta taxa de doença mental em seu país — cerca de 12% da população. Ficou claro durante nossa discussão que a causa principal de depressão não era a falta de necessidades materiais mas a privação do afeto de outros. Então, como podem ver em tudo que escrevi até agora, uma coisa me parece clara: estando nós conscientes disso ou não, desde o dia em que nascemos, a necessidade de afeto humano está no nosso próprio sangue. Mesmo se o afeto vem de um animal ou de alguém que normalmente consideraríamos como inimigo, tanto crianças como adultos gravitarão naturalmente em sua direção.

Creio que ninguém nasce livre da carência de amor. E isso demonstra que embora algumas modernas escolas de pensamento assim o queiram, seres humanos não podem ser definidos como somente físicos. Nenhum objeto material, por mais lindo e valioso, pode nos fazer sentir amados, porque nossa identidade mais profunda e o verdadeiro caráter ficam na natureza subjetiva da mente.

Desenvolvimento da compaixão

Alguns de meus amigos me disseram que, embora o amor e a compaixão sejam bons e maravilhosos, não são realmente relevantes. Nosso mundo, dizem eles, não é um lugar onde tais crenças têm muita influência ou poder. Eles afirmam que raiva e ódio são uma parte tão integrante da natureza humana que a humanidade será sempre dominada por eles. Eu não concordo.

Nós, humanos, existimos na nossa forma atual há cerca de cem mil anos. Creio que se durante esse tempo a mente humana tivesse sido controlada principalmente por raiva e ódio a nossa população teria, em geral, decrescido. Mas hoje, apesar de todas as nossas guerras, vemos que a população humana é maior do que nunca. Isso indica claramente para mim que amor e compaixão predominam no mundo. E é por isso que acontecimentos desagradáveis são “notícia”; atividades compassivas fazem parte tão integrante da vida cotidiana que são tidas por evidentes e, por isso, muitas vezes ignoradas.

Até aqui, venho discutindo principalmente os benefícios mentais da compaixão, mas ela contribui também para a boa saúde física. De acordo com minha experiência pessoal, estabilidade mental e bem-estar físico estão diretamente relacionados. Sem dúvida, raiva e agitação nos deixa mais suscetíveis à doença. Por outro lado, se a mente está tranquila e ocupada com pensamentos positivos, o corpo não cairá facilmente nas garras da doença.

Mas, claro, também é verdade que todos nós temos a tendência inata de nos centrarmos em nós mesmos, o que inibe nosso amor por outros. Assim, como desejamos a verdadeira felicidade que só uma mente calma pode trazer e como tal paz de espírito só chega através de uma atitude compassiva, como podemos desenvolver isto? Obviamente, não basta simplesmente pensarmos em como a compaixão é bela! Precisamos fazer um esforço harmônico para desenvolvê-la, devemos usar todos os eventos de nossa vida cotidiana para transformar nossos pensamentos e comportamento.

Antes de tudo, devemos deixar claro o que entendemos por compaixão. Muitas formas de sentimentos compassivos estão misturados com desejo e apego. Por exemplo, o amor que os pais sentem por sua criança está com frequência fortemente associado com as necessidades emocionais dos primeiros, não sendo, pois, completamente compassivo. Também, no casamento, o amor entre marido e mulher — especialmente no começo, quando cada parceiro pode ainda não conhecer muito bem o caráter profundo do outro —depende mais do apego do que do amor genuíno. Nosso desejo pode ser tão forte que a pessoa à qual estamos apegados parece ser boa, quando de fato ele ou ela é muito negativa. Além disso, temos a tendência de exagerar as pequenas qualidades positivas. Assim, quando a atitude de um parceiro muda, o outro parceiro muitas vezes fica desapontado e a atitude dela ou dele também muda. Esta é uma indicação de que o amor foi motivado mais por necessidade pessoal do que por genuína atenção para com o outro indivíduo.

Compaixão verdadeira não é somente uma resposta emocional mas um firme compromisso baseado na razão. Logo, uma atitude realmente compassiva para com outros não muda nem mesmo quando eles se comportam negativamente.

Claro, desenvolver este tipo de compaixão não é fácil, absolutamente! Para começar, consideremos os seguintes fatos:

As pessoas podem ser lindas e amigáveis ou feias e desagregadoras mas, no fundo, são seres humanos, exatamente como a gente. Assim como nós, elas querem a felicidade e não querem sofrimento. Além disso, o direito delas de vencer o sofrimento e ser feliz é igual ao nosso. Agora, quando você reconhece que todos os seres são iguais tanto no desejo de felicidade quanto no direito de obtê-la, automaticamente você sente empatia e proximidade com elas. Acostumando sua mente a este sentido de altruísmo universal, você desenvolve um sentimento de responsabilidade para com os outros: o desejo de ajudá-los ativamente a superar seus problemas. E este desejo não é seletivo, ele aplica-se igualmente a todos. Enquanto houver seres humanos experimentando prazer e dor exatamente como você experimenta, não há nenhuma base lógica para discriminar entre eles ou alterar a preocupação com eles ao se comportarem negativamente. Deixe-me enfatizar que está em nosso poder, com paciência e tempo, desenvolver este tipo de compaixão. É claro que nosso caráter autocentrado, nosso peculiar apego ao sentimento de um “eu” independente e auto-existente, funciona basicamente como inibidor de nossa compaixão. Na realidade, a verdadeira compaixão só pode ser experimentada quando este tipo de auto-agarramento é eliminado. Mas isso não significa que não podemos começar e progredir agora.

Como podemos começar

Deveríamos começar removendo os maiores empecilhos da compaixão: raiva e ódio. Como nós todos sabemos, essas emoções são extremamente poderosas e podem arrasar emoções negativas se tornarão uma praga para nós — sem o menor esforço da parte delas! — e impedirão nossa busca da felicidade de uma mente amorosa.

Sendo assim, é um bom começo investigar se a raiva tem ou não tem valor. Algumas vezes, a impressão de trazer com ela mais energia, confiança e determinação.

Aqui, no entanto, devemos examinar nosso estado mental cuidadosamente. Embora seja verdade que a raiva traz energia extra, se observarmos a natureza dessa energia descobriremos que é energia cega: não podemos ter certeza se seu resultado será positivo ou negativo. Isto porque a raiva ofusca a melhor parte do nosso cérebro: sua racionalidade. Assim, a energia da raiva quase nunca é confiável. Ela pode causar uma enorme quantidade de comportamentos destrutivos e infelizes. Ademais, se a raiva chegar ao extremo a pessoa fica como louca, agindo de maneiras tão danosas para si como para os outros.

É possível, no entanto, desenvolver uma energia igualmente forte mas muito mais controlada para lidar com situações difíceis.

Esta energia controlada vem não apenas de uma atitude compassiva, mas também da razão e da paciência. Estes são os antídotos mais poderosos para a raiva. Infelizmente, muitos consideram essas qualidades, erroneamente, como sinais de fraqueza. Creio que o oposto é verdade: elas são os verdadeiros sinais de força interior. A compaixão é gentil por natureza, pacífica e macia, mas é também muito poderosa. Aqueles que facilmente perdem a paciência é que são inseguros e instáveis. Logo, para mim, o surgimento da raiva é um sinal direto de fraqueza.

Então, logo que o problema surgir, tente permanecer humilde e manter uma atitude sincera e cuide para que o resultado seja justo. Claro, outros podem tentar se aproveitar de você, e se seu desapego apenas encorajar injusta agressão, adote uma posição firme. Isto, no entanto, deve ser feito com compaixão, e se for necessário expressar suas opiniões e tomar fortes medidas contrárias, faça-o sem raiva ou má intenção.

Você deve se dar conta de que mesmo se seus oponentes estiverem aparentemente lhe prejudicando, no fim, as atividades destrutivas deles apenas a eles causarão danos. A fim de controlar seus próprios impulsos egoístas de retaliação, você deveria se lembrar do desejo de praticar a compaixão e assumir a responsabilidade de ajudar a evitar que a outra pessoa sofra as consequências dos atos dele ou dela.

Assim, tendo as medidas que você emprega sido escolhidas com calma, elas serão mais eficazes, mais acuradas e mais enérgicas. A retaliação baseada na energia cega da raiva raramente atinge o alvo.

Amigos e inimigos

Devo enfatizar novamente que apenas pensar que compaixão e razão e paciência são coisas boas não será suficiente para desenvolvê-las. Precisamos esperar que venham as dificuldades e então tentar praticá-las.

E quem cria tais oportunidades? Não os nossos amigos, é claro, mas nossos inimigos. São eles que nos dão mais problemas. Então, se realmente quisermos aprender, devemos considerar que os inimigos são nosso melhor mestre!

Para quem preza compaixão e amor, a prática de tolerância é essencial, e, para tanto, um inimigo é indispensável. Portanto, devemos ser gratos aos nossos inimigos, pois eles é que podem melhor nos ajudar a desenvolver uma mente tranquila! Além disso, como acontece tanto na vida privada quanto na pública, com uma mudança de circunstâncias, inimigos tornam-se amigos.

Então raiva e ódio são sempre prejudiciais, e a menos que treinemos nossas mentes e que trabalhemos para reduzir sua força negativa, eles continuarão a perturbar e a atrapalhar nossas tentativas de desenvolver uma mente calma. Raiva e ódio são nossos verdadeiros inimigos. Estas são as forças que mais precisamos confrontar e vencer, e não os “inimigos” temporários que aparecem de vez em quando pela vida.

Claro, é certo e natural que todos nós queiramos amigos. Muitas vezes digo, brincando, que se você realmente quer ser egoísta você deveria ser muito altruísta! Você deveria cuidar bem dos outros, preocupar-se com o bem-estar alheio, ajudá-los, servi-los, criar novos amigos, criar novos sorrisos. O resultado? Quando você precisar de ajuda vai encontrar muitos ajudantes! Se, por outro lado, você negligenciar a felicidade alheia, a longo prazo será você o perdedor. E a amizade se produz através de brigas e raiva, ciúme e competitividade intensa? Acho que não. Apenas o afeto nos traz amigos íntimos genuínos.

Na sociedade materialista de hoje, se você tem dinheiro e poder, você parece ter muitos amigos. Mas eles não são amigos seus; eles são amigos do seu dinheiro e poder. Quando você perder sua fortuna e influência, terá muita dificuldade para descobrir o paradeiro dessas pessoas.

O problema é que quando as coisas no mundo vão bem para nós, ficamos confiantes de que podemos nos arranjar sozinhos e pensamos que não precisamos de amigos, mas quando nosso status e saúde decaem, logo compreendemos o quanto estávamos errados. E nesse momento que conhecemos quem realmente ajuda e quem não serve para nada. Então, para nos prepararmos para este momento, para fazer amigos genuínos ajudarão quando for necessário, nós mesmos devemos cultivar o altruísmo!

Embora algumas vezes as pessoas riam quando digo isto, eu pessoalmente sempre quero mais amigos. Eu adoro sorrisos. Por isso eu tenho o problema de saber como fazer mais amigos e como conseguir mais sorrisos, especialmente sorrisos genuínos. Pois há muitos tipos de sorriso, como o sorriso artificial, o diplomático, o sarcástico. Muitos sorrisos não produzem nenhum sentimento de satisfação, e às vezes, eles podem até criar suspeita ou medo, não podem? Mas um sorriso genuíno dá-nos realmente um sentimento de frescor e é, creio, exclusivo dos seres humanos. Se estes são os sorrisos que queremos, então nós mesmos precisamos criar as razões para que eles surjam.

Compaixão e o mundo

Em conclusão, eu gostaria de rapidamente expandir meus pensamentos além do tópico deste breve artigo e fazer uma observação mais ampla: a felicidade individual pode contribuir de uma maneira eficaz e profunda para a melhoria geral de toda a nossa comunidade humana.

Porque todos nós compartilhamos de uma idêntica necessidade de amor, é possível sentir que qualquer pessoa que encontramos, seja em que circunstância for, é um irmão ou irmã. Não importa quão nova é a face ou quão diferentes o comportamento e a roupa, não existe divisão significativa entre nós e outras pessoas. É tolice examinar diferenças externas, pois nossas naturezas básicas são a mesma.

Em última análise, a humanidade é uma e este pequeno planeta é nosso único lar. Se formos proteger este nosso lar, cada um de nós precisa experimentar um senso vívido de altruísmo universal. Apenas este sentimento pode remover os motivos autocentrados que levam as pessoas a abusarem e enganarem umas às outras. Se você tem um coração sincero e aberto, sente-se naturalmente confiante e consciente do seu próprio valor, e não é necessário temer os outros.

Creio que em todos os níveis da sociedade — familiar, tribal, nacional e internacional — a chave para um mundo mais feliz e bem-sucedido é o crescimento da compaixão. Não precisamos nos tornar religiosos, nem temos de acreditar numa ideologia. Só é necessário que cada um de nós desenvolva nossas boas qualidades humanas.

Tento tratar quem eu encontro, seja quem for, como um velho amigo. Isto me dá um sentimento de felicidade genuíno. É a prática da compaixão.


(*) Bodisatva agradece por este artigo a Wisdom Publications, da Fundação pela Preservação da Tradição Mahayana (FPMT), que o publicou originalmente em Boston, em 1991. A tradução do inglês é de José Fonseca.

Matéria publicada no dia 06/07/2025
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