Primeira mulher a servir como presidente do Monastério do Karmapa, ela deu entrevista exclusiva à Revista Bodisatva
A Lama Lodrö Lhamo veio ao nosso país no final de 2025 a convite do Lama Karma Tartchin, em comemoração aos 20 anos da Karma Tchagtchen Druling (KTD), centro de budismo tibetano aqui no Brasil vinculado ao Monastério do 17º Karmapa, o Karma Tryiana Dharmachakra, que fica em Woodstock, Novo Iorque, nos EUA.
Essa é a sua quinta visita ao nosso país, novamente recebida pela KTD. Nessa ocasião, além do Rio de Janeiro, ela também ampliou suas atividades para São Paulo e Bahia.
Em bate-papo franco num apartamento onde está hospedada no Rio de Janeiro, a jornalista e praticante Carmen Navas Zamora captou dela respostas e lições de Darma, suavidade e simpatia.
Carmencita explorou essas questões e outras mais, através de uma entrevista especial para a Revista Bodisatva, que pode ser conferida logo abaixo.
É relaxante conversar um tempo com a Lama Lodrö Lhamo, da linhagem Kagyu. A primeira frase que ouvi foi: “Sente aqui do meu lado no sofá”, numa voz tranquila e inglês impecável. Ocasionalmente, quando conta trechos de sua vida, ela solta uma risada contagiante.
Por trás da simplicidade de sua presença, está uma incansável dedicação ao Darma e uma trajetória impressionante que a levou a se tornar a primeira mulher presidente do monastério Karma Tryiana Dharmachakra (KTD), nos Estados Unidos, escolhida pelo 17o Karmapa.
A bagagem inclui nove anos em retiro fechado e atividades de mestra de retiro feminino, de tradutora das biografias dos Karmapas, do tibetano para o chinês — entre outros textos — e um mestrado em Estudos Budistas pela Universidade de Columbia.
Antes de se tornar Lama Lodrö, ela estudou Literatura Inglesa em seu país natal, Taiwan, mas não se sentia muito motivada a perseguir uma carreira. “Eu não era boa aluna. Só estudava o suficiente para passar. O que eu precisava era aprender inglês”, lembra, entre risos.
Quando encontrou seu principal professor, Khenpo Karthar Rinpoche, ela se aprofundou no Darma e, em 1996, começou seu primeiro retiro de três anos. Emendou mais dois retiros na sequência, depois se tornou mestra de retiros femininos e, finalmente, há quatro anos, a presidente da KTD.
Nessa entrevista, Lama Lodrö explora alguns temas difíceis, como a reduzida presença de mulheres detentoras de linhagem no budismo tibetano, e as etapas indispensáveis na escolha de um mestre ou mestra. Suas respostas tendem a ser curtas e diretas, mas ela não se nega a explicar detalhes, quando necessário.

Revista Bodisatva: A sua posição nos parece muito incomum, quando consideramos que as mulheres ainda têm pouco destaque entre Lamas e detentores e detentoras de linhagem, e é uma inspiração para as mulheres praticantes. Como a senhora descreveria sua trajetória, que é tão extraordinária?
Lama Lodrö Lhamo: O retiro de mestra aconteceu meio que naturalmente, porque depois que completei três retiros de três anos e três meses, meu professor, Khenpo Karthar Rinpoche, quis que eu assumisse um papel de mestra de retiros. Acho que, como já estava ali pelos 80 anos, ele queria alguém que pudesse assumir sua posição em algum momento. Naquela época, eu considerava minha posição como a de uma aprendiz, porque Rinpoche ainda estava vivo e liderava os retiros. Embora eu desse muitas instruções, eu ainda estava aprendendo.
Então, aconteceu naturalmente, porque temos o retiro de homens e o retiro de mulheres. Não seria muito conveniente um homem chegar e se tornar mestre de retiro [de mulheres], portanto, eu era uma escolha natural, já que fui a primeira a ter completado três retiros de três anos e três meses. Hoje em dia, temos uma segunda mestra de retiros — ela também completou três retiros de três anos e três meses. Está lá o tempo todo, guiando as retirantes.
Depois de ter guiado as retirantes por três retiros, aconteceu a pandemia [da COVID-19]. No fim desse período, surgiu a pergunta sobre quem seria líder da KTD. Não sei o que aconteceu, nem como aconteceu, enfim, eu me tornei a escolha. Fui informada pela própria irmã do Karmapa. Um dia, estávamos juntas e ela me disse: “Tenho uma notícia importante para você”! E eu: “O quê?” [risos]. E ela me contou.
Naquele ponto, pensei sobre meu trabalho como mestra de retiros. Eu não podia ter dois trabalhos importantes como aqueles ao mesmo tempo. Então, Sua Santidade o Karmapa disse: “Você precisa de uma assistente que possa assumir os retiros para você”. Felizmente, Lama Zangmo, que hoje é a mestra de retiros, já tinha sido escolhida por Khenpo Karthar. Acho que ele já tinha essa visão de que eu não poderia fazer as duas coisas. Por isso. indicou Lama Samo. Eu ainda dou instruções no retiro, mas ela faz a parte do dia a dia.
Então, minha posição como presidente da KTD vem da visão de Sua Santidade o Karmapa de elevar o nível das praticantes mulheres. Ele realmente quer elevar as mulheres ao mesmo nível dos praticantes homens, creio. Acredito que essa seja sua visão e ele me usou como uma forma de realizá-la. Não creio que seja a primeira vez, nem o único caso, mas como se trata de um dos assentos mais elevados de Sua Santidade o Karmapa, é bastante incomum, tenho que reconhecer. Eu mesma fiquei surpresa, mas acho que isso está alinhado com o esforço de Sua Santidade, que já vem de muitos anos.
Especialmente no Ocidente, as mulheres recebem exatamente a mesma educação que os homens e, em muitos casos, sabe, elas são mais dedicadas ao trabalho do que os homens. Não ficam a dever em nada. Então, acho que já é tempo e está acontecendo. Nas atividades mundanas, isso já não é novidade. Ainda é novidade no mundo budista, porque, de alguma forma, ele ainda está preso na velha tradição. Mas acho que, ao fazer isso [promover a liderança feminina], Sua Santidade supera toda essa ideia. Eu não me sinto alguém especial, somente grata por sua visão. Por isso, quero fazer tudo que eu puder para apoiar sua iniciativa.
Lama Lodrö, acredita que a desigualdade entre praticantes homens e mulheres no budismo tibetano pode ser reduzida no futuro?
Com certeza! E essa desigualdade já está sendo reduzida! Já existem as Khenmos e as Geshemas, sabe? As eruditas que têm sido reconhecidas na tradição budista… Então, tenho certeza que os gaps [distâncias entre um gênero e outro] já estão diminuindo. Acho que no futuro haverá também mais e mais mulheres professoras, não necessariamente da forma tradicional de encarnações reconhecidas. Já existem exemplos, como Chagdud Khadro e Lama Tsering Everest, que eu visitei em São Paulo. Fiquei muito impressionada. São professoras maravilhosas! Então, eu não tenho dúvidas.
Como descreve suas atividades de Darma (retiros, viagens etc) e qual atividade considera mais difícil?
Entre administrar o Monastério KTD, ensinar nos retiros, viajar, traduzir professores e apenas ensinar por mim mesma, acho que essa última parte é a mais difícil, porque exige muita preparação. Em geral, sou muito preguiçosa [risos], mas quanto a isso penso: “OK, é algo que simplesmente tenho que fazer” [risos]. Não sinto que eu seja realmente qualificada para ensinar ou algo desse tipo, mas se me pedem, eu geralmente digo que sim, porque acho que é uma das formas em que posso contribuir com praticantes que querem aprender mais sobre o Darma.
É comum que cada Lama dê ênfase especial a uma determinada parte do caminho. Por exemplo, há lamas que enfatizam a motivação, outros falam mais de devoção. Quando dá ensinamentos, que parte a senhora prefere destacar?
Acho que a bodhicitta é a chave para qualquer prática do Darma. Sem ela, [a prática] poderia facilmente cair num tipo mundano de religião. Existem bodhicitta relativa e bodhicitta absoluta. A bodhicitta relativa pode facilmente ser entendida por qualquer pessoa. Você pode ajudar os seres a alcançá-la, mas só isso já é muito diferente de qualquer outro tipo de crença ou práticas espirituais.
E a bodhicitta absoluta, o ensinamento que diz que você e cada ser senciente já são o Buda, isso é absolutamente surpreendente! Isso precisa ser ensinado a cada um, porque você poderia estar praticando cegamente e pensar que você está indo para algum lugar, quando, na verdade, aquilo que procura está bem aqui [a Lama aponta para o próprio coração], na sua mente. Então, esses dois aspectos da bodhicitta, eu acho muito importante compartilhar em todos os ensinamentos que eu puder e que eu conseguir inserir [risos].
Claro que devoção é importante, mas eu não falo muito sobre devoção ao guru, porque nem todo mundo gosta de ouvir falar sobre isso. As pessoas pensam: “Por que eu não posso fazer tudo sozinho?” Se eu colocar muita ênfase na devoção ao guru, elas podem ter dificuldades para acreditar, então eu costumo deixar de lado. Mesmo assim, na minha mente, eu acredito que a devoção ao guru é absolutamente essencial. Sem ela, você só anda, anda e anda em círculos sozinha e isso é muito difícil.
Seria uma perda de tempo?
Não, você não estaria exatamente perdendo tempo; só não estaria andando rápido o suficiente [risos].

Uma questão muito difícil para o budismo no Ocidente é a escolha do(a) guru. Para nós, praticantes, é angustiante ouvir todo tipo de comentário sobre falsos gurus que podem nos enganar, roubar nosso dinheiro e manipular nossas mentes. Que conselhos a Lama Lodrö oferece sobre esse assunto?
O conselho que o Khenpo Karthar Rinpoche costumava dar é: olhar bem para as qualificações. Esse professor tem que estar numa certa linhagem conhecida, como as quatro linhagens principais do budismo tibetano. Se eles falam que são seus próprios professores ou que não tiveram professores e criaram a própria linhagem, não os procure. Eles até podem ser autênticos, mas o budismo tântrico está fundamentado em linhagem. Sem a linhagem, nada funciona. Nada. Mesmo uma transmissão simples, por exemplo, o Ngondro. Se você pegar um livro, começar a ler e a fazer [a prática], é inútil. Em geral, ensina-se que você não pode, porque você tem que receber a transmissão de um lama da linhagem.
A linhagem é a chave e o professor precisa, antes de mais nada, ter uma linhagem viva e sem interrupções. Essa linhagem também tem que ser conhecida. Não pode acontecer que a deidade particular de uma pessoa criou aquela linhagem e a pessoa se tornou um professor, sem ela mesma ter tido um professor. Isso não funciona!
Outro conselho é que, se você não consegue julgar, se você não tem a capacidade de identificar se alguém é um professor autêntico, então a melhor forma de decidir é confiar nas recomendações ou nos comentários de outros professores autênticos. Você pode perguntar a alguém que seja detentor de linhagem: “O que você pensa desse professor? Você o recomenda?” Você pode fazer isso.
Terceiro, é claro: você precisa ter uma conexão de coração para coração, uma sensação de que você tem uma ligação forte com aquele professor. Depois disso, se aquele professor não for muito conhecido, você precisa perguntar para alguém que já seja bem conhecido e que tenha uma linhagem bem estabelecida, confirmar com os principais detentores de linhagem, se aquele é realmente um bom professor. Você vai e pergunta: “Tenho uma forte conexão com esse professor ou essa professora. O que você acha? O que você recomenda?” Dessa forma, eu acho que você pode ter certeza.
Uma das atividades muito recomendadas a nós, praticantes, é estudar as vidas de nossas mestras e mestres. Entre esses seres supremos que nos legaram o Darma, qual é a figura que mais lhe influencia?
Definitivamente, é Sua Santidade o Karmapa. Na verdade, eu traduzi as biografias dos dezesseis Karmapas para o chinês e, também, há biografias em inglês. [Em português, foi lançado o título “Música no Céu”, de Michele Martin, pela editora Lúcida Letra em parceria com a KTD Brasil, falando sobre a vida, a arte e os ensinamentos de Sua Santidade — confira AQUI.]
Estamos falando do atual Karmapa ou de toda a linhagem?
Da linhagem, mas, claro, é natural se sentir mais próxima do atual, porque você pode encontrar pessoalmente com ele, falar com ele. Todos são muito inspiradores, mas acho que o que mais me impressionou foi o 2º Karmapa. Seu exemplo de vida foi tão extraordinário!
Ele foi, na verdade, o 1º Karmapa. Tradicionalmente, consideramos Düsum Khyenpa o 1º Karmapa, mas Düsum Khyenpa nunca disse que era um Karmapa. Foi o 2º Karmapa, Karma Pakshi, quem disse: “Eu sou Karmapa”. Seus escritos e seu poder mental eram capazes de produzir qualquer coisa que ele quisesse, sabe? É o que chamamos de “poderes milagrosos”. É impressionante, realmente espantoso! Ele foi provavelmente o mais destacado, em termos de suas demonstrações externas de realização. Muito impressionante!
Também o 13º Karmapa, conhecido por ter a habilidade de se comunicar com os animais. Ele sabia falar com os animais. Em sua biografia, há muitas conversas suas com vários tipos diferentes de animais — não somente os passarinhos. Há conversas nas quais os animais falam uma coisa ou outra para ele e ele responde: “OK, vão meditar. Façam isso ou aquilo” [risos]. Sim, é espantoso [risos]. Havia coelhos e outros animais que o visitavam regularmente. Animais também são seres sencientes e podem se tornar praticantes muito bons.

SOBRE A KTD BRASIL
A KTD Brasil foi fundada pelo Lama Karma Tartchin, a pedido de Khenpo Karthar Rinpoche — Lama-Raiz tanto da Lama Lodrö, quanto do Lama Tartchin. Desde então, ele tem se dedicado incansavelmente a difundir e preservar o Darma autêntico e, de forma especial, as atividades do Karmapa, regente da Linhagem Karma Kagyu no Brasil.
Ao longo de suas duas décadas de existência, a KTD Brasil recebeu diversos mestres renomados, como Khenpo Karthar Rinpoche, Mingyur Rinpoche, Chokyi Nangpa Rinpoche, Ringu Tulku Rinpoche, Drukpa Chogon Rinpoche, Lama Kathy e Lama Karma, entre outros, todos sempre demonstrando apoio e profundo respeito às atividades do Centro de Darma e do Lama Tartchin.
A KTD Brasil está aberta sempre aos domingos, das 17h às 19h, com atividades semanais de estudo e prática, situada na Rua Visconde de Caravelas, nº 115, bairro Humaitá, no Rio de Janeiro.
Matéria publicada em 15/11/2025
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