Pema Khandro e Jetsunma Tenzin Palmo (atual presidenta da organização Sakyadhita International), na 14º Conferência Internacional Sakyadhita.  Foto: Olivier Adam.

A natureza da mente é a mesma para todos

Ven. Karma Lekshe provoca mulheres a superarem qualquer hesitação e se tornarem o que já são: budas

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Revisão: Lia Beltrão, Flori Cavalcanti
Tradução: Lara Albuquerque

Em décadas recentes, a atenção dada ao tema das mulheres no budismo expandiu dramaticamente. Desde os anos 1960, este interesse tem crescido exponencialmente por todo o mundo graças aos grandes professores budistas, às pesquisas e publicações sobre o budismo em línguas modernas, à internet, ao crescimento de centros educacionais budistas de excelência, e também graças a uma abundância de vibrantes atividades budistas ligadas ao serviço social. Especialmente em países ocidentais, os ensinamentos do Buda sobre paz, compaixão, ética e psicologia humana tiveram um impacto significativo. O pensamento e a cultura budistas têm permeado a cultura ocidental de forma marcante, da religião à política, da arte ao mercado de consumo.

Essa nova onda de interesse pelo budismo coincidiu com novas oportunidades educacionais e profissionais para mulheres e com um olhar crescentemente consciente sobre suas capacidades e potenciais. Ainda assim, infelizmente, mulheres nem sempre têm acesso a uma educação budista, nem são representadas de forma igualitária em instituições budistas.

Apesar de o Buda ter ensinado o caminho para a liberação para benefício de todos os seres, reconhecimento completo e oportunidades iguais não são estendidos às mulheres em muitas tradições budistas. Se os ensinamentos do Buda são liberadores, eles não deveriam ser igualmente liberadores para mulheres e homens?

A resposta para esta pergunta é francamente óbvia. Os ensinamentos budistas falam sobre a natureza da mente e sobre como purificar as delusões que a enevoam, de forma a alcançar paz e felicidade duradouras. A natureza da mente — que é a consciência pura — é a mesma para mulheres e homens. O potencial humano para dissipar a delusão e alcançar a felicidade perfeita também é idêntico para mulheres e homens. Isto significa que os ensinamentos do Buda são igualmente liberadores, tanto para mulheres quanto para homens.

Então, por que na história do budismo a maior parte das histórias sobre seres realizados é sobre homens? Se todos os seres humanos podem praticar os ensinamentos do Buda e tornarem-se livres de apego, raiva e ignorância, por que não temos mais histórias sobre mulheres realizadas? Se todos os seres vivos têm o potencial de se liberar do sofrimento, por que não ouvimos mais sobre mulheres atingindo a liberação?

Pema Chodron. Foto: Andrea Roth.

Em anos recentes, essas questões conduziram acadêmicos budistas e praticantes a reflexões e pesquisas sérias sobre o papel e o potencial da mulher no budismo. Muitos novos livros têm surgido sobre mulheres na história budista, bem como em tradições budistas contemporâneas. Muitos livros têm sido escritos por autoras mulheres sobre sua prática e seus insights acerca dos ensinamentos do Buda.

A monja americana budista Pema Chodron, uma das mais populares escritoras budistas dos nossos dias, tem aparecido em muitas diferentes mídias, desde a revista Newsweek até o programa de televisão Oprah Show. Seus livros têm se tornado uma grande influência entre pessoas de todas as religiões e entre aquelas sem religião alguma. Muitos estudos documentam como as mulheres estão assumindo novos papéis em organizações budistas e tornando-se professoras budistas extremamente respeitadas, sobretudo em países ocidentais. Mas a questão que continua é: o que ainda está fazendo as mulheres budistas hesitarem?

Superando a hesitação

Para budistas sensatos, a resposta é fácil. Como o Buda ensinou, nós precisamos reconhecer e eliminar as fontes do sofrimento humano: avareza, raiva e ignorância. Se conseguirmos identificar as causas raiz desses problemas — tanto enquanto indivíduos como enquanto sociedade — nós teremos uma boa chance de transformar o mundo e alterar o curso da história humana. Mas avareza, raiva e ignorância não desaparecerão sem que haja esforço. Ou seja, nós precisamos estudar e praticar os ensinamentos budistas — sincera e intensamente — para sermos realmente capazes de mudar as coisas. Precisamos de ensinamentos e precisamos de professores para ensiná-los! Mas talvez seja ainda mais importante o fato de que precisamos de pessoas que sejam exemplos vivos de valores budistas e que possam servir como fontes de inspiração para outros. Precisamos de professores budistas qualificados que tenham desenvolvido um coração de compaixão, sabedoria suficiente e métodos de ensino habilidosos para motivar outras pessoas no caminho. É triste, mas parece haver uma carência de professores inspiradores no mundo de hoje.

O Buda foi um grande exemplo, e continua a inspirar milhões de pessoas até hoje! Ao deixar para trás sua vida cheia de luxo no palácio e colocar em marcha a descoberta do sentido da existência humana, ele demonstrou a importância de fazer a vida ter sentido. Ter um trabalho e cuidar de nossas crianças é muito importante, mas isso não é o propósito último da existência humana. Outros aninais — até mesmo formigas e abelhas — também trabalham e cuidam de suas crias e alguns parecem estar fazendo isso melhor do que os animais humanos… O que nos diferencia — como seres humanos — de outros animais, é a nossa inteligência elevada e a nossa capacidade especial para a prática espiritual.

Temos a capacidade de decodificar o segredo e descobrir o sentido da vida. Ao evitar ações prejudiciais e ao realizar bons feitos, podemos alcançar a felicidade nesta vida, um renascimento mais elevado na próxima ou — se realmente trabalharmos a fundo! — podemos até mesmo alcançar a perfeita iluminação. Mas precisamos de professores! E precisamos de modelos exemplares para nos ajudar no caminho.

Espiritualmente, não há limitação

É aqui onde mulheres budistas entram em cena. Se a humanidade irá sobreviver, precisaremos de toda a ajuda que pudermos.

Não podemos nos dar mais ao luxo de desperdiçar metade de nossos preciosos recursos humanos ignorando ou desvalorizando o potencial espiritual das mulheres.
Em lugar algum os textos budistas mencionam que professores devem ser de gênero masculino.

Em lugar algum o Buda afirma que ser uma mulher é resultado de mau carma, apesar de esse rumor continuar a circular em sociedades budistas. Aliás, quando o Rei Pasanadi expressou desgosto diante do nascimento de uma filha, o Buda disse que ter uma menina poderia se revelar melhor do que ter um filho homem. Quando a madrasta do Buda pediu para se juntar à ordem budista, ele confirmou que mulheres têm igual potencial para alcançar os frutos do caminho, incluindo a liberação. Dessa forma, não deveria haver nada impedindo mulheres de praticarem os ensinamentos do Buda, de atingirem realizações, e de tornarem-se os exemplos inspiradores que a humanidade precisa tão fortemente. Ao praticar as seis perfeições — generosidade, conduta ética, paciência, esforço alegre, concentração e sabedoria — mulheres podem alcançar diretamente o estado búdico. Ao desenvolver bondade amorosa, compaixão e sabedoria mulheres podem despertar e ajudar a conduzir seres sencientes para fora do sofrimento.

 

Uma vez que as mulheres configuram metade da população mundial, precisamos fazer nossa parte e ajudar a chamar a atenção para os sérios problemas que afetam a humanidade hoje.

Qualquer que seja o gênero que calhou de termos nesta vida, precisamos deixar de lado quaisquer concepções errôneas que tenhamos sobre as capacidades das mulheres e encorajá-las a tornarem-se os exemplos que precisamos ver no mundo.

Precisamos cortar qualquer pensamento equivocado que possamos ter sobre as limitações das mulheres e perceber que todos os seres humanos têm igual potencial para o despertar. Espiritualmente falando, não há qualquer limitação. Se direcionarmos nossa mente para isto, podemos purificar as delusões que nos tornam infelizes e, no lugar delas, gerar amor ilimitado por todos os seres vivos.

Em uma mente de puro amor, nenhuma escuridão pode existir. Se cultivarmos paciência, bondade amorosa, contentamento e sabedoria, então raiva, ódio, avareza, ciúme, apego, orgulho e negatividade não podem mais nos afligir. Um coração de pura compaixão é feliz, pleno e uma fonte de felicidade para os outros.

Responsabilidade compartilhada

É claro que não conseguimos purificar a mente de uma só vez. Precisamos estar constantemente alertas e atentos, momento a momento. Com a prática diária, emoções aflitivas terão cada vez menos poder sobre nós, liberando uma tremenda energia que poderemos usar para ajudar a aliviar o sofrimento dos seres vivos. Uma pessoa com uma mente pura e amorosa pode trazer benefícios ilimitados para o nosso mundo em sofrimento.

Enquanto metade da população aqui no Planeta Terra, as mulheres compartilham a responsabilidade pela transformação global, tanto quanto os homens.

Com pleno acesso aos ensinamentos libertadores do Buda, nós mulheres podemos assumir nossa responsabilidade e trabalhar para benefício do mundo, incorporando os valores de paz e amor que ele ensinou. Não há nenhum aspecto da vida contemporânea que não possa se beneficiar dos valores budistas.

Monjas budistas na 15ª Conferência Internacional Sakyadhita. Foto: Olivier Adam.

Se nós, mulheres budistas, entendermos a lógica desta proposição, então deveríamos assumir nossa responsabilidade com seriedade. Trabalhar em direção à liberação para benefício do mundo é o significado mais elevado que podemos dar às nossas vidas! O compromisso do Bodisatva de trabalhar para se tornar um ser perfeitamente iluminado a fim de liberar todos os seres do sofrimento é chamado de bodhiccita. Tão logo nós geramos essa aspiração pura e perfeita, começamos a trabalhar passo a passo para chegar ao estado búdico.

De acordo com os ensinamentos Mahayana, todos os seres sencientes têm esse maravilhoso potencial. Mulheres e homens têm igualmente a semente do despertar dentro deles, apenas esperando para criar raízes. Não apenas todos os seres sencientes podem se tornar perfeitamente iluminados, como eles definitivamente irão realizar seu potencial e se tornar Budas; é apenas uma questão de tempo. Um de meus professores tibetanos disse: “A única diferença entre nós e o Buda Shakyamuni é que nós somos preguiçosos”. Já não é tempo de começarmos a fazer o trabalho duro de purificar nossas mentes e realizar este potencial?

Primeiro passo: vigilância e uso de antídotos

O primeiro passo para liberarmos a nós mesmos é desvencilhar-nos de atividades inférteis e eliminarmos as emoções que estão nos causando problemas e drenando nossa energia. Podemos conseguir isso se formos vigilantes em reconhecer e afastar as emoções negativas tão pronto elas surjam. Emoções destrutivas são nossos piores inimigos, mais perigosos do que qualquer inimigo externo. Por exemplo, quando a raiva surge, há o perigo de que ajamos a partir dela, falemos palavras que machuquem os outros, ou façamos algo que cause mal a nós ou a outros. Se permitirmos que a raiva nos tome de conta, podemos perder o controle e atacar, ou mesmo matar alguém. Precisamos estar alertas e capturar a raiva assim que ela surgir. Mesmo a prima sutil da raiva — a irritação — pode ser remediada, se usarmos a paciência.

Para tomar outro exemplo, quando o desejo surge, há o perigo de agirmos a partir dele. Podemos querer comprar itens de consumo que não precisamos, contribuindo para a degradação dos recursos da Terra e atulhando nossas casas e nossas mentes. A atração pela beleza física e o encantamento causado pelo desejo, pode nos fazer entrar em situações dolorosas. Pode nos aproximar de parceiros incompatíveis, causando grande confusão e sofrimento para nós e para os outros. Precisamos estar atentos e perceber o desejo tão pronto ele surja. Ao reconhecermos o truque da mente, podemos evitar nos enredar em situações complicadas e desagradáveis. Como disse o Buda, “O contentamento é a maior das riquezas”.

Jetsunma Tenzin Palmo

Jetsunma Tenzin Palmo, atual presidenta da organização Sakyadhita International. Foto: Buda Virtual.

 Segundo passo: ação na vida cotidiana

O segundo passo em direção a liberarmos a nós mesmos é transformar os ensinamentos do Buda em ação em nossa vida cotidiana.

Recitar os sutras e refletir sobre a bondade amorosa já não é mais suficiente. Já não seria hora de engajarmo-nos ativamente em aliviar os sofrimentos do mundo?

Isto começa em nossa própria família, vizinhança e local de trabalho, e gradualmente se estende para benefício de quem quer que esteja em necessidade. O ativismo social budista pode tomar muitas formas, desde o aconselhamento familiar até o trabalho de assistência internacional. Podemos nos voluntariar em um hospício, em um hospital prisional ou em um presídio. Podemos fazer contribuições a projetos de educação ou prestar socorro em áreas atingidas por furacões. Qualquer que seja a forma que nosso ativismo tome, é evidente que budistas precisam se tornar mais engajados socialmente em aliviar os problemas assustadores que atualmente assolam a família humana. Podemos praticar a virtude da generosidade ao oferecer nosso tempo e recursos e também enriquecer nossas mentes através da prática da compaixão. Esta é uma situação na qual todos saem ganhando.

Cuidar dos outros como prática

Teriam as mulheres maior potencial para o trabalho interno de purificar a mente e uma maior responsabilidade com o trabalho externo da ação social compassiva? Eu acredito que todos os seres humanos têm igual potencial e compartilham igual responsabilidade. No entanto, as mulheres parecem trabalhar especialmente duro.

As Nações Unidas documentaram que sessenta por cento do trabalho mundial é feito por mulheres, apesar de frequentemente elas não serem recompensadas por ele. A história prova que as mulheres são cuidadoras exemplares para seres em necessidade, ainda que sua bondade amorosa e compaixão sejam comumente desvalorizadas.

Muitas mulheres aliviam o sofrimento diário daqueles que estão doentes, fracos ou incapazes de cuidar de si próprios, ainda que suas contribuições compassivas possam ser negligenciadas ou ofuscadas pelos desejos e expectativas dos outros. É frequente que mulheres deixem de lado seu próprio desenvolvimento espiritual para poder cuidar de outros, reservando pouco tempo para a prática formal do Darma. Como podemos resolver este dilema?

Uma solução é transformar o ato de cuidar dos outros em uma prática de bodisatva.Se formos capazes de gerar a atitude de um bodisatva, toda ação compassiva pode se tornar “a prática de um bodisatva”. Mas cuidar de outros não significa que precisemos colocar nosso desenvolvimento espiritual em segundo plano. Precisamos equilibrar nosso tempo entre prática espiritual e serviço. Entender quando, onde, como e quanto praticar e como servir requer sabedoria, honestidade pessoal e, algumas vezes, coragem. Desenvolver sabedoria requer educar a nós mesmos para continuamente aprofundar nossa compreensão dos ensinamentos do Buda.

É preciso realizar os ensinamentos aqui e agora

Os ensinamentos do Buda são uma verdadeira arca do tesouro. Eles não existem simplesmente para serem entoados. Precisamos colocá-los em prática. Mulheres estão desenvolvendo a confiança de aprender e aplicar esses ensinamentos aqui e agora. Nós temos uma responsabilidade especial em despertar nossa sabedoria e compaixão e colocar em prática esses valores inestimáveis. Podemos nos inspirar em grandes praticantes, do passado e do presente, tanto homens quanto mulheres.

Hoje, um movimento global, liderado pela Associação Internacional de Mulheres Budistas Sakyadhita, está inspirando e encorajando mulheres budistas a trabalharem juntas e aperfeiçoarem seu potencial para a iluminação.

 

 A vida humana é preciosa e fugidia. Ao aproveitarmos ao máximo cada momento e trabalharmos em conjunto, o futuro pode ser brilhante. Mulheres têm, definitivamente, o poder de transformar o mundo.

Karma Lekshe Tsomo é monja budista, pesquisadora e ativista social. Atualmente é professora da Universidade de San Diego, onde ensina Budismo e Religiões do Mundo. É co-fundadora do Sakyadhita International Association of Buddhist Womene diretora fundadora da Jamyang Foundation, que apoia a educação de meninas e mulheres na região dos Himalaias.


Título original do artigo: “The Future of Women in Buddhism”
Versão para o português: Lara Albuquerque


Para Saber Mais

  • Noticiamos a 15ª Conferência Internacional Sakyadhita no texto “Filhas do Buda no compromisso com o ativismo social”. Leia mais.

1 Comentário

  1. Margarete Tironi disse:

    Texto maravilhoso e inspirador! gratidão

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