Slow art no Sesc Campinas. Foto: Tiffani Gyatso

A pintura intuitiva e a arte como caminhos do Darma

O mergulho transformador no processo artístico, o SlowArt e a intuição

Como assim, pintar me transforma? Pintar faz-me entender a mim e a realidade a minha volta. Então, se eu não sei pintar, esse caminho não é pra mim… só “para quem sabe”.

Esse é um pensamento que surge com frequência, quando apresento o meu trabalho. Na verdade, eu só pude me convencer da transformação pela arte passando por ela, eu mesma.

O exercício de pintura que proponho não é o de copiar a realidade — um desenho “bom” não se limita a um desenho realista. A capacidade de expressar e materializar temas abstratos é o exercício artístico de modo que o resultado final é sempre uma surpresa. Você não se arruma para o espelho mas faz uso dele para se arrumar. A pintura é isso; você não pinta para ter uma obra bela, você usa a pintura para se tornar bela.

Como o processo acontece

pintura intuitiva

Slow art no festival de Serpa, Portugal. Foto: Tiffani Gyatso

Vivemos em um mundo onde somos treinados a nos comportar, falar e nos mover de uma certa maneira. Muitas vezes, sentimos que não concordamos mas discordar dá muito trabalho e acabamos por sucumbir à imitação cultural.

Por exemplo, se me der vontade de andar inocentemente nua, de certo não receberei reações inocentes. Por isso, em sociedade, são usados códigos de conduta para que haja um entendimento em comum.

Certo, isso é importante. Mas e todos os sonhos, desejos e visões que estão guardados em meu ser? Ao olhar para eles, muitas vezes, podemos nos sentir loucos ou, então, limitados, o que nos entristece a alma. Vivemos migalhas de nós mesmos, seguindo uma vida de muros de proteção e medo.

pintura intuitiva

Slow art no Sesc Campinas, em 2016. Foto: Tiffani Gyatso

A arte opera como um veículo. Ela não é dogma, não é religião, não é uma conduta ensinada. É uma estrada composta pelos sonhos de cada indivíduo, uma visão única que, por mais “louca” que seja, representa a realidade de um ser.

Estou falando de arte e não cópia ou especulação de técnicas de realismo. Estou falando sobre o processo que o indivíduo é capaz de passar ao mergulhar em si mesmo e encarar, sem censura, seu próprio universo.

Produzir sons, movimentos, frases, riscos, desenhos e cores são exercícios de exteriorização da natureza abstrata dos sentimentos ou dos elementos do inconsciente. Esses processos de criação são sempre uma forma de codificação do mundo interno.

Ao darmos forma a esses elementos, começamos a nos ler, nos olhar, nos acolher e não mais ignorar. O processo artístico é de extrema coragem. Até hoje, ouço de grandes artistas, e vejo por mim, que a tela em branco segue amedrontadora. É um passo ao desconhecido, à morte das minhas expectativas e é bom. É o espelho da alma.

Esse processo não se limita à pintura. Pelo contrário, quando incluímos o corpo, trazemos a experiência interior para um plano físico. Não fazemos arte. Nos tornamos arte.

E o simples fato de lavar a louça pode se tornar um ato artístico, que é o mesmo que uma meditação — mas sem intenção de ser um bom meditante — , só estando presente na qualidade de pureza do momento.

O corpo guarda memórias, não só a mente, embora ambos respondam, um ao outro, sucessivamente. Nesse processo artístico, cada vez mais, noto a importância de integrar o corpo — como um lutador de kung fu que consegue concentrar a energia do corpo e do espírito na ponta dos dedos de modo que, com um único movimento, ele derrube alguém.

A mão e o pincel devem ter essa qualidade e isso não é técnica. É espírito. É chi. Para despertar a força do chi, é preciso passar pelas experiências diretas. E ter acesso a esse potencial desperto, requer uma jornada de cura, de autoanálise, de uma real caminhada interna para se conhecer e despertar. Saber quem é.

A vivência do SlowArt

pintura intuitiva

Slow art no festival de dança de Serpa, Portugal. Foto: Tiffani Gyatso

Nessa caminhada, a arte é um veículo. Com esse intuito, desenvolvi a vivência do SlowArt, que se divide em alguns estágios, começando pelas experiências sensoriais, como o contato da respiração consciente e o movimento do corpo de maneira caótica, até o momento que alcançamos o estágio de exaustão, acessando a inteligência de reserva de energia que usualmente não acessamos. O momento de pausa é quando permanecemos imóveis, olhando uns para os outros durante algum tempo. Nesse momento, as pessoas riem ou choram, evidenciando as máscaras que usamos para resguardar nossa imagem perante o outro e para que nós mesmos não encaremos com nossas inquietações. Com tudo isso exposto, pintamos o primeiro gesto que se manifesta no corpo e na mente. Fazemos o exercício de nos expressar de forma autêntica, além das máscaras. É muito belo! Cada passo percorrido do caminho é muito inspirador.

A prática espiritual através da arte é um caminho de amor. É apaixonar-se pelo que surge e dançar. É um caminho de exploração e coragem, de inclusão e de união, de tornar-se um mestre de si mesmo — através do despertar da sabedoria intuitiva, não procuramos por respostas em outros mestres além de nós mesmos — que no fim é a mensagem de todos os mestres. Somos seres perfeitos, só nos falta sentir e viver sem medo.

Foto: Tiffani Gyatso

 

Tiffani Gyasto realiza retiros artísticos do SlowArt, pintura intuitiva e arte tradicional tibetana de thangka pelo Brasil e no seu atelier, YabYum, em Extrema, MG.

Em novembro 2017, guiará o terceiro ArtTrip para Índia. Para saber mais acesse→

Acompanhe a agenda e a galeria aqui →

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