Foto: Jake Melara – Unsplash

A porta de trás da nossa mente

Lama Alan Wallace destrincha detalhes da prática de meditação e sua relação com a inteligência conativa e emocional

Por
Revisão: Fábio Rocha
Edição: Lia Beltrão
Transcrição: Rosana Rita Folz
Tradução: Rosana Rita Folz

Quando nos dedicamos de forma mais intensa à prática da meditação e estamos repousando na consciência, em quietude, podemos ver os pensamentos e aparências vindo até nós. Eles podem facilmente nos arrastar, mas somos capazes de vê-los. Há o pensamento vindo, há a aparência vindo, e nós somos capazes de vê-los.

Mas se um impulso subjetivo, como um desejo ou emoção surgem, eles não vêm até nós pela porta da frente. Eles vêm até nós pela porta de trás. Pode ser que você esteja apenas sentado ali e surge um desejo, como um desejo de tomar água por exemplo. Assim que o desejo vem e atrai sua atenção, ele chama sua atenção para a água. E você “sai de casa”. Agora você tem que ir atrás da água. Quando a emoção surge – qualquer tipo de emoção, incluindo raiva, medo e assim por diante –  ela também vêm por trás. Você fica com raiva disso, fica com medo daquilo.

Na minha experiência, é muito mais difícil sustentar a quietude [em meios aos impulsos subjetivos], ou seja, estar ciente não apenas dos pensamentos e das imagens que vêm pela porta da frente, mas também estar consciente, sem se mover diante deles, dos desejos e das emoções que surgem pela porta de trás. Esse é um grande desafio.

Se cada vez que surgir um desejo, uma emoção ou um impulso, acontecer também uma fusão cognitiva da consciência, da nossa própria identidade, com esse impulso subjetivo, nunca estaremos livres.

Quando o sistema corpo-mente está muito unido é quase impossível estarmos conscientes e não ficarmos presos assim que um desejo ou uma emoção surgem. Nós iremos percebê-los apenas depois que se manifestarem por meio do comportamento. E, mesmo assim, mesmo quando nos comportamos, falamos ou agimos a partir de algum desejo ou emoção, se a nossa atenção estiver unicamente focada no objeto do desejo ou da emoção, pode ainda acontecer de não percebermos o desejo ou a emoção, porque estamos focados totalmente no objeto.

Sempre que surgem desejos ou emoções e não temos consciência deles, sempre que há uma fusão involuntária da consciência com esse desejo ou emoção, então surge a questão: “Temos livre arbítrio ou não?” A resposta é: “Não”.

Sob uma perspectiva completamente laica, sob a perspectiva científica, o reconhecido psicólogo Paul Ekman destacou este ponto e enfatizou fortemente que é extremamente importante para o bem-estar psicológico e para a harmonia com as outras pessoas, tomarmos consciência da emoção antes que ela se manifeste sob a forma de comportamento.

Muitos de vocês já ouviram isso, mas vou dar novamente uma analogia muito útil, uma analogia muito clara na qual ele fala da “faísca não convidada”, ou seja, a faísca de um desejo – ou mais especificamente de uma emoção – que apenas aparece sem ter sido planejada, e que gera a chama do comportamento. Ele enfatiza a enorme importância de reconhecermos essa faísca da emoção ou do desejo antes que ela se manifeste na chama do comportamento, isto é, antes de falar ou agir publicamente.

Retiro Lama Alan Wallace

Retiro do Lama Alan Wallace no CEBB Caminho do Meio em 2016. Foto: arquivo CEBB.

Podemos chamar esse pequeno intervalo – que dura talvez meio segundo, ou ainda menos –  entre o surgimento inicial da emoção e sua expressão de “Liberdade”. Se você preencher esse intervalo com a consciência de que você sabe o que está acontecendo em sua mente, você tem a possibilidade de fazer uma escolha sábia.

Você pode escolher agir com base nesse desejo ou emoção ou não. Não vale a pena expressar todo tipo de desejo e nem vale a pena expressar todo tipo de emoção.

Isso não vem naturalmente. Tenho certeza de que algumas pessoas são naturalmente dotadas, têm grande talento, uma habilidade natural. Mas, em geral, essa capacidade de estar ciente dos desejos, das emoções que surgem antes de serem manifestadas, vem com treinamento.

Então, se estiver ciente de qualquer um desses, desejos ou emoções, antes de serem expressados, você poderá fazer a escolha certa usando a inteligência conativa, a inteligência emocional. “Devo expressá-la ou não? Farei uma escolha sábia ou não?”

É para isso que serve a experiência. Para isso que serve envelhecer, ter memória, lembrar os erros cometidos e não repeti-los. Se não fizermos isso, qual seria a razão de termos esse enorme córtex pré-frontal? Qual seria a razão de termos toda essa inteligência se não estivermos utilizando-a para isso? Esse talvez seja o seu melhor uso! A partir da experiência você vê: “bem, senti muita raiva e expressei”.

Agora, como isso aconteceu? Como funcionou? Você conseguiu o que queria? Veja quais desejos que você seguiu que trouxeram realmente felicidade genuína para você e para os outros e quais não. Veja se você realmente está cultivando a inteligência conativa com respeito aos desejos, e a inteligência emocional para reconhecer quais emoções são destrutivas e quais são saudáveis.

Se realmente cultivarmos a inteligência conativa e a inteligência emocional, então faz total sentido que, com o passar dos anos, nos tornemos cada vez mais felizes.

Transcrição de trecho de ensinamento do Lama Alan Wallace, oferecido em 25 de fevereiro de 2016 no CEBB Caminho do Meio durante retiro sobre “O Darma Tolo de um Idiota Vestido de Barro e Penas”.

Este e outros ensinamentos do retiro estão disponíveis no Canal do YouTube do CEBB.
Acesse a playlist neste link.


2 Comentários

  1. Mauricio disse:

    Preciso,.. científico…uma abordagem direta da *escravidão imposta pelos objetos dos sentidos., muito obrigado excelente texto!

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