Foto: Michelle Magrini

A resposta é apenas uma: compaixão

No primeiro dia de ensinamentos de seu retiro anual em Viamão (RS), Lama Alan Wallace oferece preciosas instruções aos brasileiro(a)s


Por
Revisão: Bruna Crespo
Edição: Lia Beltrão
Transcrição: Caroline Souza e Jana Macedo
Tradução: Caroline Souza

O Lama Alan Wallace escolheu dirigir sua primeira fala no retiro que está oferecendo no CEBB Caminho do Meio a nós, brasileiro(a)s, pela complexa situação política que estamos vivendo. Fez um paralelo entre o que ele mesmo – enquanto cidadão estadunidense – tem vivido em seu país e o atual cenário do Brasil, que enfrenta talvez o momento de maior polaridade política de sua história. O Lama nos ofereceu preciosas chaves para integrarmos visão e conduta e encontrarmos um equilíbrio entre os dois, sem deixar que um se sobreponha ao outro.

Consideramos bastante simbólico que, neste retiro, dedicado à transmissão e aos comentários sobre um texto do grande mestre Dzogchen Dudjom Lingpa, o Lama Alan Wallace faça sua fala inicial sobre o Brasil e nos alerte para o perigo de encarar o retiro ou mesmo a prática espiritual como uma “fuga” da vida cotidiana. Para ele, quanto mais acesso ao Darma tivermos, maior a nossa responsabilidade.

Esta poderosa fala, oferecida a nós em 12 de outubro de 2018, dia de Nossa Senhora da Conceição Aparecida – a padroeira do Brasil – foi editada pelo próprio Lama, a quem agradecemos pela autorização de publicarmos na Bodisatva.


Agora nos voltamos a Viamão (RS), hoje, 12 de outubro de 2018. Entendo que vocês estão enfrentando tempos muito desafiadores. Nos Estados Unidos, cerca de dois anos atrás, passamos por algo similar em alguns aspectos, apesar de não ter sido de todo igual. Foi um momento de muitas dificuldades, que, na minha perspectiva, tem apenas se agravado. As coisas não melhoraram de lá para cá. Estão ficando ainda piores.

Gostaria de fazer alguns comentários, deixando claro que não falo sobre políticos. Minha fala não tem nada a ver com política – não enquanto sento neste trono. Entretanto, há um equilíbrio que é absolutamente crucial e pode nos auxiliar a integrar o Darma a este mundo, aqui e agora.

Temos, de um lado, a visão do Caminho do Meio: todos os fenômenos são vazios de uma natureza intrínseca e surgem em interdependência mútua, originação dependente. A partir dessa base, temos a visão do Dzogchen, a Grande Perfeição, que se trata de perceber a realidade desde a perspectiva da consciência prístina. Assim, vemos todos os fenômenos se manifestando igualmente puros, como a expressão da consciência prístina. Essa é a visão do caminho do meio.

Por outro lado, entretanto, talvez nos encontremos neste conflito: o que fazer quando sairmos daqui, na próxima sexta-feira, e nos depararmos com a situação política do Brasil, com a situação econômica a nível privado e global, com a situação ambiental – que a cada dia se torna mais urgente?

De minha parte, sei muito bem como é fácil acabar se enredando nas circunstâncias diárias do nosso próprio microcosmo, do nosso próprio mundo: família, trabalho e assim por diante. Ao longo dos dias, vamos sendo apanhados por tais circunstâncias e o nosso retiro se torna uma mera lembrança.

Da mesma forma, diante das crises e desafios políticos, é com facilidade que caímos nos emaranhados da dimensão política, ambiental, social, econômica, e a visão é perdida. Assim, essa semana que estamos vivendo aqui se tornará a lembrança de uma fuga muito agradável, mas então diremos que “agora é hora de voltar ao mundo real”.

Portanto, temos dois desafios que são o cerne do Dzogchen: não permita que a visão seja soterrada pela sua vida – pela economia, pela política e assim por diante. Não deixe que a visão se perca enquanto você é apanhado pelo que acontece no dia-a-dia e pela sua própria conduta. Este é o primeiro desafio.

O segundo é: não permita que sua visão do Caminho do Meio, a visão da Grande Perfeição, sufoque e apague o seu interesse pelas questões do dia-a-dia – sua vida, sua família, a situação política, dentre outros. Não deixe que a visão exclua as situações da vida como se elas não tivessem importância, porque elas têm. Mantenha em mente esta expressão: “quietude frente ao movimento”.

Assim que sairmos daqui, todos nós enfrentaremos uma grande quantidade de movimento e atividade no mundo lá fora. Não há dúvidas quanto a isso. Seremos apanhados e carregados por estas condições e situações em contínua mudança do mundo, retornando ao sonho não-lúcido da vida acordada?

Ou será que desligaremos a internet, a televisão, o rádio e todas as mídias a fim de não precisarmos ver nem ouvir nenhum “mal”, certos de que “isto não é para mim, sou um praticante de Dzogchen”? Se fizermos isto, nos tornaremos irrelevantes, não é mesmo? Não seremos de significância nenhuma para o mundo.

Nossa prática, portanto, é a quietude em meio ao movimento.

 

Foto: Ahmad Odeh

 

Sinto que, hoje, o Brasil está profundamente dividido – como os Estados Unidos. E as paixões afloram em ambos os lados. Essa divisão pode acontecer tanto em igrejas cristãs como, inclusive, nas sangas do Buda. E há uma baixa que acomete os dois lados, igualmente. Uma baixa em decorrência da qual os dois lados perdem. Há um número igual de vítimas em ambos os lados, tal qual numa guerra. E essa baixa – aquilo que é ferido ou assassinado – é a paz de espírito.

Somos capazes de enfrentar e estar completamente conscientes daquilo que acontece no nosso país e no mundo sem perder a paz mental? Ou será que somos obrigados a sacrificar nossa paz para sermos cidadãos responsáveis? Acredito que algumas pessoas, de fato, fazem essa divisão: “esse é a hora de ficar em paz” e “essa é a hora de brigar por aquilo que é certo”. Eu brigo com você e você briga comigo também.

Por conseguinte, o que se perde é a paz mental. O que se perde é qualquer resquício de empatia pelo outro lado. Há uma bifurcação radical que estabelece “o meu lado” e “o seu lado”, e a maior baixa de todas é a perda da sabedoria e da inteligência. Estas são as verdadeiras vítimas.

Não sejamos essa perda. Eu não trago nenhuma mensagem política. Afinal, sou um estrangeiro: o que posso saber? Mas eu conheço um pouco do Darma. E, assim como o Lama Padma Samten, sei muito bem que, quanto mais recebemos do Darma – quanto maior o nosso entendimento do Darma –, maior a nossa responsabilidade.

Então, para aqueles de vocês que se sentem muito impelidos, nesse momento, a ir para um centro de retiro e permanecer um mês, seis meses, um ano imersos na prática vinte e quatro horas por dia, eu digo: “Emaho! Emaho! Bravo! Bravo!” Fico encantado! Maravilhoso! Entretanto, os realistas podem argumentar: “Ah sim, e se todo mundo resolvesse fazer isso também?” A esta pergunta, eu responderia: “Sim! Imagina se todos fizessem isso!” (risos). Acabariam as guerras, acabariam os conflitos. O Brasil viraria uma Terra Pura (risos).

Desse modo, àqueles de vocês que querem se aplicar de forma completa e unifocada à prática, eu digo: Maravilhoso! Àqueles que desejam trazer o entendimento e a experiência do Darma para o mundo, a política, a economia, o meio ambiente, a educação, eu digo: Bravo! Contudo, não permita que a sua paz mental, a sua empatia e a sua sabedoria se tornem as vítimas.

É muito fácil achar que existe um país chamado Brasil com duzentos milhões de perspectivas sobre uma mesma realidade. Mas tal realidade de um Brasil que existe independentemente de duzentos milhões de perspectivas, por si só, não existe. Não há um Brasil “lá fora”. E, então, o que imediatamente decorre disto é que, somente entre seres humanos no Brasil, há duzentos milhões de “Brasis”. Cada um de nós está no centro da nossa mandala.

Assim, se um ser altamente iluminado surgisse de outro lugar ou entre os próprios brasileiros, a experiência que essa pessoa teria do Brasil seria completamente diferente da experiência de uma pessoa sem qualquer prática do Darma.

E, como vimos da preliminar direta da iniciação nesta manhã, cada um de nós possui a habilidade, a escolha de dissolver todas essas aparências impuras na vacuidade e desde a vacuidade, a fim de gerar uma identidade divina e visão pura. É aqui que nós temos uma escolha.

Qual Brasil você gostaria de habitar? Nós vamos ao encontro dos “Brasis” das outras pessoas, empatizando com as suas perspectivas. E a única resposta é a compaixão. Seja Brasil, China, Rússia, Estados Unidos… a resposta é apenas uma: compaixão.

É como se a sociedade moderna estivesse cultivando uma horta de delusão, ganância, ódio, e contemplando tudo isso como alimentos deliciosos. Em inglês, nós não possuímos uma palavra para klesha. Tivemos de criar uma expressão: “aflições mentais”. Penso que este é o caso de todas as línguas europeias. Temos apenas palavras como desejo, raiva, ego, arrogância, e nem ao menos consideramos tudo isso aflitivo: “ah, mas é da natureza humana!”.

Portanto, vá ao encontro das múltiplas realidades das outras pessoas e do meio ambiente com compaixão. Você irá perceber que é como se estivéssemos nos deparando com sonâmbulos: as pessoas caminham e dormem ao mesmo tempo, estão entorpecidas, estão vivendo um sonho.

Contudo, quando você for ao encontro dos outros, repouse na sua própria realidade. Repouse na quietude da sua própria sabedoria, da sua própria paz mental, da sua própria visão. Quanto mais nossas mentes estiverem aflitas pelos cinco venenos, mais inativos devemos nos manter. E, à medida que formos purificando nossas mentes, nossa responsabilidade de estar no mundo também irá crescer.

Esta foi uma breve introdução sobre por que os ensinamentos do Dzogchen são relevantes, sobretudo, para tempos difíceis. Não se trata de uma fuga do Brasil ou da política moderna. Em meio a situações bastante difíceis, eles nos apontam uma avenida em direção à clareza, à compaixão e à sabedoria.

E, independentemente de persuasão política ou preferência partidária, são as pessoas que praticam compaixão e sabedoria que verdadeiramente preservam a sociedade.

Tenha compaixão por todos aqueles que estão vivendo em aparências demasiadamente impuras, e transforme o seu Brasil numa Terra Pura.


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12 Comentários

  1. Elke Beatriz Riedel disse:

    Agradeço por este texto tão lúcido, que nos faz lembrar que podemos agir a partir da natureza da própria mente. Repousando sobre nossa própria natureza estaremos imersos em lucidez, podendo oferecer sabedoria e compaixão. Obrigada, Lama Alan Wallace, obrigada Lama Samten e obrigada a todas as pessoas que fazem a Revista Bodisatva.

  2. Nuno Moura disse:

    Sou praticante budista há cerca de dois anos e este foi um dos ensinamentos mais sábios e lúcidos que eu tive o privilégio de ler. Sinto-me muito agradecido por isso.
    Namastê.

  3. Isis Cerqueira Chagas Rodrigues disse:

    Excelente!!!
    Obrigada!!! 🙏🏻

  4. MAURO BORBA disse:

    Muito esclarecedor para esse momento conturbado!

  5. MARCOS disse:

    MUITO SUPERFICIAL. NÃO SE PODE FICAR NEUTRO ENQUANTO OS OUTROS TOMAM DE TUDO ,PARA DESTRUIR.
    [E A HORA DE TOMAR A DESIÇÃO DE UM BRASIL NOVO EM QUE TODOS PODERAM MEDITAR, POIS ELES QUEREM PROIBIR TUDO!!!

  6. Virginia b c dantas disse:

    Realmente o maior de todos os desafios, manter a lucidez frente ao que julgamos incongruencia , irresponsabilidade social e falta de empatia pelo outro. Seguirei tentando praticar o Dharma…

  7. Sirlei vilella disse:

    Perfeito! Obrigada 🙏

  8. Vanessa disse:

    Perfeito !

  9. Rosângela Carnevale disse:

    Obrigada !

  10. Giovana Diaz disse:

    Muita gratidão por estas palavras, que possamos seguir cultivando a compaixão!

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