Registro do Curso de Agricultura Sintrópica. Foto: Luis Daudt

Agricultura Sintrópica e Terra Pura em diálogo

Evento reforça o sonho das Aldeias CEBB de gerar autossuficiência alimentar

Por
Revisão: Fábio Rocha

A sabedoria da terra e a indivisibilidade entre planeta e ser humano foram os temas-chave do Curso de Agricultura Sintrópica, realizado no CEBB Caminho do Meio (Viamão-RS) e CEBB Bacopari (Palmares do Sul-RS) entre os dias 11 e 14 de agosto deste ano. O evento foi promovido pelo Instituto Caminho do Meio e faz parte do Programa de Formação em Auto-organização. Entre falas expositivas e atividades práticas, o ministrante do curso, o engenheiro agrônomo especialista em agrofloresta Fernando Rebello, expôs a visão de mundo e as técnicas desenvolvidas pelo suíço Ernst Götsch.

Na mesa de abertura do evento no CEBB Caminho do Meio, ao lado do Monge Dengaku, Monja Shoden (ambos do Via Zen) e Ricardo Pellegrini (CEBB Caminho do Meio), Lama Samten demonstrou sua alegria em receber Fernando: “A proteção ambiental se manifesta em muitos âmbitos e a primeira pessoa que conheci que realmente trabalha nessa linha de frente sem perder a compaixão foi Fernando Rebello”, disse o Lama se referindo ao trabalho que Fernando exerceu como fiscal ambiental durante anos de atuação junto ao Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, gerido pelo Instituto Chico Mendes — ICMBio, ao qual está vinculado. Fernando tem estabelecido parcerias entre o ICMBio e outras organizações, como a Agenda Gotsch e o Instituto Caminho do Meio em Alto Paraíso, onde mora com a família.

O encontro com a Agricultura Sintrópica

Agricultura Sintrópica é um termo cunhado por Ernst Götsch, que aprendeu a ler a natureza e a construir agroecossistemas para caminhar junto à natureza e não contra ela. Imersa em um universo de outros conceitos, como Agricultura Regenerativa, Agrofloresta, Permacultura e outros, a agricultura sintrópica é na verdade um sistema complexo, que envolve uma cosmovisão particular e que foi se desenhando a partir do trabalho e do pensamento de Ernst ao longo dos últimos quarenta anos.

“Conheci Ernst Götsch em 1994, quando ainda era estudante de agronomia, e sua palestra na Universidade foi tão impactante para mim que, pouco tempo depois, eu e mais alguns amigos estávamos em sua fazenda, para conhecer de perto a grande transformação que ele vinha realizando naquelas terras. Seu conhecimento de como a natureza funciona é tão profundo que, até hoje, sempre que o encontro, tenho a sensação de estar ainda na primeira aula”.

É assim que Fernando Rebello inicia sua trajetória pelos campos da agricultura sintrópica, conceito que norteia seu trabalho até os dias de hoje. Durante o evento, ele nos explica:

“Agrofloresta significa fazer parte da engrenagem que move a vida do planeta, que estabelece a vida. É reorganizar o plantio de uma maneira que acompanhe o fluxo da vida e não vá contra a vida. A Sintropia é um conceito físico que significa isto: organizar a energia que tem no planeta. Graças ao sol, a energia foi sendo organizada e temos combustíveis fósseis, gás, florestas, tudo natural. A vida acumula energia e organiza a vida”.

Plantio no CEBB Caminho do Meio

Umas das atividades práticas do curso no CEBB Caminho do Meio, foi recuperar um antigo pomar e criar uma área de cultivo sintrópico. Fazendo uso de cerca de 400 mudas, foram intercalados canteiros de bananas, citrus, hortaliças e batata doce. O trabalho foi feito com o apoio de 40 pessoas — dentre elas o Monge Dengaku, com sua inesgotável energia.

Katlen Pedroso, de 16 anos, uma das participantes do curso, é estudante na Escola Técnica de Agricultura — ETA, de Viamão, e participa do projeto Ecoviamão, programa de implantação de hortas orgânicas em escolas municipais. Ela relata que aprendeu que na agricultura convencional, mesmo sem o uso de agrotóxicos, não há a preocupação com a recuperação e preservação do planeta, como é o foco da agricultura sintrópica: “Depois do curso, levo para a vida um olhar diferente, uma preocupação maior em preservar e repassar o conhecimento aos colegas”.

Já Bianca, bióloga, moradora do CEBB Caminho do Meio há dois anos, diz que, quando conheceu Fernando Rebello no CEBB Alto Paraíso, se interessou em aprofundar o conhecimento sobre a agricultura sintrópica e pôr em prática técnicas de cultivo que considerassem a linguagem das plantas. “É preciso conhecer a linguagem para poder entender como se relacionam, como uma alfabetização. E isso só se desenvolve na prática”.

Como moradora da Aldeia, tem certeza de que ocorrerá a implantação dessa técnica, recuperando áreas adormecidas do CEBB, renovando e frutificando. O que destaca do curso é a “percepção de que tudo está interligado: plantar e podar para servirem novamente de biomassa, de adubo para novos cultivos”.

Comunidade reunida no Bacopari

A segunda parte do evento aconteceu na Escola Municipal Domingos Saraiva, no Distrito de Bacopari, onde está localizado o CEBB Bacopari, a 106 km de Viamão. Fernando Rebelo, o Lama Padma Samten, membros da prefeitura de Palmares do Sul, agricultores, biólogos e professores de outras escolas foram recebidos na escola com uma calorosa apresentação de música das crianças.

Diretora da escola há 29 anos e uma das parcerias chave para a realização do evento, Dona Estelita conta que o trabalho com agricultura é comum no aprendizado, mas desejava algo diferente: “Quando Gilliard, morador da aldeia CEBB de Bacopari, nos apresentou a ideia de trazer um palestrante para falar sobre agricultura sintrópica, nos interessou muito, pois está além do plantar e do colher, é completo. Tu te trata primeiro como pessoa, aplica o aprendizado em ti, cuida de ti primeiro, e assim poder cuidar desse grande mundo”.

Na escola, o Lama Padma Samten falou da importância de uma visão ecológica em cada coisa que fazemos, seja individual ou coletivamente:

“Não há como cultivar pessoas melhores se não cultivarmos a própria alimentação, se não criarmos redes ecológicas e redes sociais. Todos funcionando juntos, não há como separar”.

No CEBB Bacopari, as propriedades vizinhas são majoritariamente voltadas ao cultivo de soja e arroz e adotam práticas extremamente danosas ao meio ambiente. O sonho é que, a partir da aplicação deste tipo de conhecimento, não apenas o CEBB Bacopari, mas as terras das demais Aldeias CEBB, transformadas em laboratórios, possam inspirar e alcançar as terras no entorno.

O mundo como está hoje, está doente. Não podemos apenas replicar e repetir o que já conhecemos. Não podemos mais empurrar os jovens numa máquina de moer gente, sem alternativas econômicas e sonhos. É uma vida sem futuro para eles e se olharmos para frente, na visão ambiental, é sem futuro mesmo!”, explica o Lama para uma sala cheia na escola Domingos Saraiva.

“Fundei o CEBB para meditar, mas vi que não há como ficarmos apenas meditando, precisamos alimentar toda essa rede de vida, esse processo amplo”.

A prática espiritual no centro da roda

Em sua fala na mesa de abertura do evento no Caminho do Meio, a Monja Shoden conectou a iniciativa com o panorama social atual:

Na década de 80 tínhamos muita esperança de fazer um Brasil melhor e, neste momento, o Brasil está dividido entre pessoas desiludidas — as que estão respondendo de forma violenta — e pessoas que estão fazendo algo para organizar a sociedade, como nesses projetos”.

Agricultura Sintrópica e Terra Pura em diálogo

Abertura do evento no CEBB Caminho do Meio. Da esquerda para a direita: Ricardo Pellegrini (CEBB Caminho do Meio), Lama Samten, Fernando Rebello, Monge Dengaku e Monja Shoden. Foto: Luis Daut

Monge Dengaku, de forma poética, trouxe uma analogia entre os ventos que derrubam árvores e os que nos movimentam internamente:

Construímos nossa casa na comunidade Via Zen onde o vento costumava vir de um lado. Hoje, o vento soprou fortemente do outro lado. Reflitam sobre isso: Quais são os ventos que nos movimentam a tomar determinadas atitudes? Quais lugares que frequentamos nos levam a eles? A terra nos aguarda a compartilhar. Quando abrimos a terra para plantar uma muda, além do fruto, plantamos boas intenções”.

Para o Lama Samten, a aspiração é que a contribuição de Fernando e de outras pessoas conectadas com a visão ambiental, enriqueça o trabalho nas áreas de cultivo das várias Aldeias e que toda prática possa ser transformada em prática espiritual:

“Trabalhando em rede, nossa energia e nossa capacidade de manter o foco são desafiadas. A nossa rigidez aparece durante o processo e as dificuldades podem ser superadas”.

A Bodisatva aproveitou a vinda de Fernando Rebello para uma breve entrevista. Confira abaixo:

RB:  Qual a relação principal entre homem e natureza na agricultura sintrópica?

F: A agricultura sintrópica é uma tecnologia que se tornou um movimento. É uma relação de harmonia e ação consciente, onde o ser humano não é o inteligente, mas faz parte de um sistema inteligente. Quando conseguimos ver o quão completa e perfeita é a natureza, onde tudo está interligado, interconectado, e que só conseguimos ver uma parte ínfima dessa beleza, por meio de sua manifestação física, podemos ver a grande tragédia que é o desaparecimento de cada ser, que faz parte de uma teia que levou 3,5 bilhões de anos para se formar.

RB:  E a espiritualidade? Qual é a sua relação com o CEBB?

F: O CEBB chegou a Alto Paraíso em 2012, estabelecendo uma aldeia na área rural no entorno do Parque Nacional Chapada dos Veadeiros​. Acabei me aproximando do budismo e me tornando um morador do CEBB. Com essa aproximação, consegui enxergar a realidade de uma forma mais abrangente, porque não é fácil manter-se calmo e sereno quando você vê 3,5 bilhões de anos de evolução serem varridos do mapa rotineiramente, e isso me permitiu também fazer uma avaliação de minha atuação como fiscal ambiental todos esses anos.

Talvez a palavra que melhor defina toda essa mudança seja lucidez. O mundo pode ter pirado, as pessoas podem achar que transformar tudo em poeira seja a melhor coisa a fazer, mas eu não posso perder a lucidez, porque como podemos ajudar quem perdeu a lucidez se nós também estamos perdidos? A meditação, estar em sangha, me ajuda muito nesse processo, que não é linear, mas o mais importante é que achei o rumo.

RB: Qual a principal semelhança e diferença da agricultura sintrópica com a agricultura tradicional?

F: Talvez a única semelhança da agricultura sintrópica com a agricultura convencional seja que ambas têm a intenção de produzir comida. Digo “intenção” porque muitas e muitas vezes o que comemos vindo da agricultura convencional está completamente contaminado com transgênicos e pesticidas.

Quando os agricultores entendem os princípios que regem a vida no planeta, eles além de agricultores se tornam filósofos. Abandonam os pesticidas e entram no fluxo da vida, se tornam muito mais felizes. A agricultura deixa de ser algo pesado, insalubre e se torna uma atividade prazerosa, onde restauramos a vida em sua plenitude.Tem um ditado que aprendi no CEBB, que adotei no meu trabalho, quando você dá um passo em direção a Gaia, ela dá mil passos em direção a você. Por isso, hoje vemos muitos jovens que aprenderam agricultura sintrópica muito felizes e exitosos em sua atividade rural, quando no mundo toda a agricultura vem sofrendo com a fuga de mão de obra.

Só nos Estados Unidos se perderam 29 milhões de agricultores desde 1900. Desconheço outra organização no Brasil ou no mundo que possa apresentar soluções tão práticas quanto a agricultura sintrópica.O pesquisador norte-americano de sistemas agroflorestais Craig Elevitch, criador do primeiro site de sistemas agroflorestais no mundo, afirma que o conhecimento de Ernst Götsch é semelhante ao dos indígenas antigos que tinham total entendimento de como a natureza funciona, o que o diferencia é que Ernst se propõe a resolver os problemas da agricultura moderna.


Saiba Mais

Mesa de abertura do Curso de Agricultura Sintrópica no CEBB Caminho do Meio | 11 de agosto de 2017


Sobre Fernando Rebello

Fernando é servidor do IBAMA desde 2002, e desde seu encontro com Ernst Götsch continua semeando a agricultura sintrópica, seja na orientação à agricultores, na recuperação de áreas degradadas, em projetos para multiplicar essa tecnologia com Ribeirinhos, no Cerrado, especialmente junto ao Instituto Caminho do Meio e CEBB Alto Paraíso, onde mora atualmente com a família.


Sobre Ernst Götsch

“O paraíso, é o lugar onde você cumpre a sua função e é feliz por cumprir sua função.”

Ernst Götsch nasceu em 1948 na Suíça. Em 1984, iniciou seus trabalhos no Brasil. Hoje, vive em Piraí do Norte, BA, onde recuperou 800 hectares de floresta atlântica. Há 40 anos, busca recriar e recuperar florestas em várias partes do planeta. Após trabalhar com melhoramento genético de plantas para resistirem às doenças, questiona-se:

E se nós melhorássemos as condições que damos às plantas ao invés de ficar tentando buscar características genéticas nelas que as façam aguentar os nossos maus tratos?. Esse questionamento e anos de trabalho levaram à criação da agricultura sintrópica em 1976.


Sobre o Instituto Caminho do Meio

O ICM (Instituto Caminho do Meio) é uma organização sem fins lucrativos com ações voltadas para a cultura de paz e responsabilidade universal, especialmente no diálogo das sabedorias e visões budistas com áreas da vida contemporânea. Atualmente, o ICM possui sedes em Viamão-RS, Canelinha-SC e Alto Paraíso-GO.

Em Viamão, o ICM está promovendo o curso de Formação em Auto-Organização, que está em seu segundo módulo. Confira a programação →

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