Foto: Noonexy | Pixabay

Bardo da realidade

Prepare-se para usar o período entre esta vida e próxima para atingir liberdade completa

Por
Revisão: Lia Beltrão
Tradução: Caroline Garcia de Souza

A morte e a experiência do pós-morte não eram temas tabus ou irrelevantes para o meu professor, Tulku Urgyen Rinpoche. Muito pelo contrário, ele frequentemente falava sobre como utilizar a transição entre esta vida e a próxima enquanto uma oportunidade de liberdade total, sobre como usar o bardo de darmata para a realização, e sobre como nos prepararmos para o momento da morte neste exato instante. Realidade, aqui, não se refere à realidade superficial que experienciamos no dia-a-dia, mas à realidade última, darmata, na qual outros tipos de fenômenos acontecem.

Inicialmente, tais fenômenos não possuem qualquer estrutura ou traços reconhecíveis, constituindo-se, por outro lado, de uma exibição espantosa e tremenda – a viagem de ácido suprema. Não é como o céu aberto em um dia sem nuvens: coisas acontecem nesse espaço, e essas coisas são chamadas de sons, cores, luzes.

Tulku Urgyen dizia que os sons comparam-se à explosão simultânea de 100.000 trovões vindos de todas as direções: de cima, de baixo, de todo lugar. As cores são todas as cores do arco-íris, mas com uma intensidade muito superior àquela que normalmente experimentamos nesta vida. Os raios de luz são como agulhas ou espadas pontiagudas, furando todas as coisas. O bardo da realidade é transparente, completamente puro e infinito.

O bardo da realidade é o momento que temos para ganhar maestria sobre o ponto crucial: gerar destemor e assim reconhecer a natureza da mente, que se manifesta como a auto-radiância da cognoscência.

Tal radiância tem três formas, sons, cores e luzes. Frente à sua manifestação, não tenha medo das exibições pacíficas e iradas que surgem: elas são a expressão de você mesmo. Para a maioria das pessoas, essa exibição desprovida de chão, de centro ou de qualquer limite não é nada familiar e parece, portanto, profundamente assustadora. Não há nada no que se segurar, nada com o qual se relacionar como estando aqui ou lá.

Reconheça que esse é apenas o jogo do bardo, Tulku Urgyen dizia, e não tenha medo, não se apavore, não entre em pânico: não tenha medo das cores, não se apavore com os sons e não entre em pânico diante da intensidade dos raios de luz. Desista completamente do medo. É só o jogo de darmata.

Darmata é a natureza da sua mente, a natureza búdica. Em outras palavras, a exibição é o próprio jogo da natureza búdica, sua essência emergindo e se fazendo ver. A mente despreparada fica aterrorizada diante de sua própria natureza, tal qual um asno que se assusta com o roçar do vento na grama seca, e inutilmente tenta escapar.

Aqui, no bardo da realidade, não há mais ninguém além de você – absolutamente ninguém. Ninguém o persegue: trata-se da sua própria sombra, e a sombra é o jogo de darmata. Esse é o ponto mais importante de darmata: reconhecer que tudo o que você experiencia é você mesmo, e não outra coisa ou outra pessoa.

Assim como a sua mão projeta uma sombra quando colocada em frente à luz, não tenha medo da sombra, saiba que ela não é outra coisa além da sua própria mão. Tal entendimento não é necessariamente fácil, principalmente quando as exibições vêm de todos os lados. A terra, o céu, e tudo ao redor são a auto-radiância da cognoscência. Reconheça tudo isso, relaxe nesse reconhecimento, permaneça firme e, desse modo, a liberação é garantida no bardo de darmata.

Como nos preparamos para a exibição impressionante e avassaladora da experiência do pós-morte? Em primeiro lugar, familiarize-se com uma consciência estável: calma, compassiva e clara.

Então, familiarize-se com sua realidade aberta e sem nenhum chão. Especificamente, pratique na transição entre a vigília e o sono e, posteriormente, ao acordar no estado de sonho. A prática de visualização pode ajudar no bardo de darmata, manifestando-se a partir dos três samadis como uma deidade tântrica.

Há também algo que é conhecido como prática tögal, tanto no dia quanto na noite. Por exemplo: sente-se numa sala completamente escura, ou do lado de fora numa noite chuvosa e sem lua, e veja que as estruturas na percepção, os traços reconhecíveis, são todos criados pelos seus próprios pensamentos.

Há ainda mais, entretanto, e a liberação durante o bardo da realidade depende da sua familiarização com sua própria exibição. Por si só, esse entendimento irá ajudá-lo a se livrar do terror, a relaxar na sua natureza e a conquistar a liberdade última. Sobretudo, cultive a familiarização durante essa vida.


Texto originalmente publicado na seção Insights da revista Levekunst Art of Life em 22/06/2017.


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14 Comentários

  1. Numa primdira leitura, muito a aprender, reler, contemplar…. Uma das observações nessa leitura inicial é a coemergencia… Muito. Muito auspicioso, o texto.

  2. Texto maravilhoso. Um dia este corpo cessa, e vivemos este processo de morte. Porém, temos a benção de todos os dias dormir, e podemos tomar isso como prática, para gerar familiaridade com a transição da consciência entre os bardos.

  3. Beatria disse:

    Muito interessante!!Vou reler várias vezes.

  4. Jose Edson de Farias disse:

    Preciso urgentemente aprofundar o treinamento durante o Bardo da vida e no Bardo do sonho reconhecer essa experiência, que pelo que entendo, é o que mais se aproxima do Bardo da Morte, mas só consigo ter lampejos de consciencia durante o sonho. O texto reforça a compreensão de que preciso trinar muito para ganhar essa habilidade e vencer o medo que está sempre presente. Gratidão!

  5. Constansa disse:

    O bardo da realidade muito se assemelha à experiência com a ayuascha e demais plantas de poder. Usadas em rituais xamanicos. Onde a experiência se a morte p encontrar a cura.

  6. Guilherme N. Valadares disse:

    Precioso!

  7. joao disse:

    ‘Aqui, no bardo da realidade, não há mais ninguém além de você – absolutamente ninguém. Ninguém o persegue: trata-se da sua própria sombra, e a sombra é o jogo de darmata. Esse é o ponto mais importante de darmata: reconhecer que tudo o que você experiencia é você mesmo, e não outra coisa ou outra pessoa.’ E o que é você mesmo?

  8. maria da aparecida disse:

    Gratidão! tanto o texto como os comentários..esclarecedores….interessante que tornam as”informações”, relatos…mais claros….não há contradição…complementam-se!!

  9. Elizabeth disse:

    Fantastico! Que os budas nos guie!

  10. Lucia verônica de Assunção disse:

    Sou covicta de que o budismo é libertação.

  11. Gabriel Madeira disse:

    Muito incrível o texto! Parabéns revista bodisatva! Dá vontade de que o autor siga tratando do tema tamanha sua mestria, dando-nos detalhes maiores sobre a prática e falando mais sobre o que esperar desse momento tão inquietante.

    Gostei da menção que ele fez ao tögal, mas achei um pouco imprecisa.. Não chega a constituir um roteiro. Imagino que, como descrevem alguns textos, da mesma forma que se manifestem os bindus nessa prática pela luminosidade da mente, o bardo de dharmata seja uma manifestação com mais “efeitos especiais” desse brilho interno, rs.

  12. Maravilha adorei as vezes temos medo de nós por não saber lidar com os pensamentos.

  13. Mahan kali disse:

    Creio que o bardo do dharmata mantem-se constantemente presente na vida de todos nós, podendo ser notado com precisão pelos excelsos mestres. Luzes, sons, odores e cores sinalizam e pontuam uma interação e surgem em intervalos (bardo). Essas sinalizações auspiciosas e condutoras de vida insurgem, podendo apresentar-se entre pensamentos ou entre interações às quais eles participam. Gratidão pela publicação!

  14. Cassiano Copetti disse:

    Muito interessante este texto. Pratico Zazen e estudo um pouco o budismo tibetano. Ja li alguma coisa do Osho sobre práticas durante o sonho (Livro dos Segredos). Também ja li sobre o Xamaninsmo de Carlos Castaneda que fala sobre o sonhar e especifica técnicas para manter a consciência (como não focar o olhar mas manter a fluidez). Desta perspectiva tenho procurando treinar a meditação ou mente atenta durante o sono. Já percebi que quando assumo uma prática mais contundente, de permanecer atento, aí sim é que a coisa desanda e perco a sessão. Por outro lado quando assumo uma postura de me manter atento mas deixando as coisas fluirem, talvez alimentando-as parece que os sonhos se tornam mais vívidos. Sobre o medo confesso que nestas idas e vindas ja passei por sonhos realmente apavorantes mas isto tem diminuindo e foram, talvez, os mais lúcidos, diga-se de passagem. POR FAVOR DESENVOLVAM MAIS O ASSUNTO!!!

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