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Bardo da realidade

Prepare-se para usar o período entre esta vida e próxima para atingir liberdade completa

Por
Revisão: Lia Beltrão
Tradução: Caroline Garcia de Souza

A morte e a experiência do pós-morte não eram temas tabus ou irrelevantes para o meu professor, Tulku Urgyen Rinpoche. Muito pelo contrário, ele frequentemente falava sobre como utilizar a transição entre esta vida e a próxima enquanto uma oportunidade de liberdade total, sobre como usar o bardo de darmata para a realização, e sobre como nos prepararmos para o momento da morte neste exato instante. Realidade, aqui, não se refere à realidade superficial que experienciamos no dia-a-dia, mas à realidade última, darmata, na qual outros tipos de fenômenos acontecem.

Inicialmente, tais fenômenos não possuem qualquer estrutura ou traços reconhecíveis, constituindo-se, por outro lado, de uma exibição espantosa e tremenda – a viagem de ácido suprema. Não é como o céu aberto em um dia sem nuvens: coisas acontecem nesse espaço, e essas coisas são chamadas de sons, cores, luzes. Tulku Urgyen dizia que os sons comparam-se à explosão simultânea de 100.000 trovões vindos de todas as direções: de cima, de baixo, de todo lugar. As cores são todas as cores do arco-íris, mas com uma intensidade muito superior àquela que normalmente experimentamos nesta vida. Os raios de luz são como agulhas ou espadas pontiagudas, furando todas as coisas. O bardo da realidade é transparente, completamente puro e infinito.

O bardo da realidade é o momento que temos para ganhar maestria sobre o ponto crucial: gerar destemor e assim reconhecer a natureza da mente, que se manifesta como a auto-radiância da cognoscência.

Tal radiância tem três formas, sons, cores e luzes. Frente à sua manifestação, não tenha medo das exibições pacíficas e iradas que surgem: elas são a expressão de você mesmo. Para a maioria das pessoas, essa exibição desprovida de chão, de centro ou de qualquer limite não é nada familiar e parece, portanto, profundamente assustadora. Não há nada no que se segurar, nada com o qual se relacionar como estando aqui ou lá. Reconheça que esse é apenas o jogo do bardo, Tulku Urgyen dizia, e não tenha medo, não se apavore, não entre em pânico: não tenha medo das cores, não se apavore com os sons e não entre em pânico diante da intensidade dos raios de luz. Desista completamente do medo. É só o jogo de darmata.

Darmata é a natureza da sua mente, a natureza búdica. Em outras palavras, a exibição é o próprio jogo da natureza búdica, sua essência emergindo e se fazendo ver. A mente despreparada fica aterrorizada diante de sua própria natureza, tal qual um asno que se assusta com o roçar do vento na grama seca, e inutilmente tenta escapar. Aqui, no bardo da realidade, não há mais ninguém além de você – absolutamente ninguém. Ninguém o persegue: trata-se da sua própria sombra, e a sombra é o jogo de darmata. Esse é o ponto mais importante de darmata: reconhecer que tudo o que você experiencia é você mesmo, e não outra coisa ou outra pessoa. Assim como a sua mão projeta uma sombra quando colocada em frente à luz, não tenha medo da sombra, saiba que ela não é outra coisa além da sua própria mão. Tal entendimento não é necessariamente fácil, principalmente quando as exibições vêm de todos os lados. A terra, o céu, e tudo ao redor são a auto-radiância da cognoscência. Reconheça tudo isso, relaxe nesse reconhecimento, permaneça firme e, desse modo, a liberação é garantida no bardo de darmata.

Como nos preparamos para a exibição impressionante e avassaladora da experiência do pós-morte? Em primeiro lugar, familiarize-se com uma consciência estável: calma, compassiva e clara.

Então, familiarize-se com sua realidade aberta e sem nenhum chão. Especificamente, pratique na transição entre a vigília e o sono e, posteriormente, ao acordar no estado de sonho. A prática de visualização pode ajudar no bardo de darmata, manifestando-se a partir dos três samadis como uma deidade tântrica. Há também algo que é conhecido como prática tögal, tanto no dia quanto na noite. Por exemplo: sente-se numa sala completamente escura, ou do lado de fora numa noite chuvosa e sem lua, e veja que as estruturas na percepção, os traços reconhecíveis, são todos criados pelos seus próprios pensamentos. Há ainda mais, entretanto, e a liberação durante o bardo da realidade depende da sua familiarização com sua própria exibição. Por si só, esse entendimento irá ajudá-lo a se livrar do terror, a relaxar na sua natureza e a conquistar a liberdade última. Sobretudo, cultive a familiarização durante essa vida.


Texto originalmente publicado na seção Insights da revista Levekunst Art of Life em 22/06/2017.


6 Comentários

  1. Numa primdira leitura, muito a aprender, reler, contemplar…. Uma das observações nessa leitura inicial é a coemergencia… Muito. Muito auspicioso, o texto.

  2. Texto maravilhoso. Um dia este corpo cessa, e vivemos este processo de morte. Porém, temos a benção de todos os dias dormir, e podemos tomar isso como prática, para gerar familiaridade com a transição da consciência entre os bardos.

  3. Beatria disse:

    Muito interessante!!Vou reler várias vezes.

  4. Jose Edson de Farias disse:

    Preciso urgentemente aprofundar o treinamento durante o Bardo da vida e no Bardo do sonho reconhecer essa experiência, que pelo que entendo, é o que mais se aproxima do Bardo da Morte, mas só consigo ter lampejos de consciencia durante o sonho. O texto reforça a compreensão de que preciso trinar muito para ganhar essa habilidade e vencer o medo que está sempre presente. Gratidão!

  5. Constansa disse:

    O bardo da realidade muito se assemelha à experiência com a ayuascha e demais plantas de poder. Usadas em rituais xamanicos. Onde a experiência se a morte p encontrar a cura.

  6. Guilherme N. Valadares disse:

    Precioso!

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