Foto por Adam Loften

Como se preparar internamente para o que quer que aconteça

A ecofilósofa, estudiosa do budismo e da teoria geral dos sistemas, Joanna Macy, aborda o futuro do planeta e da humanidade e nos mostra que um engajamento alegre é possível


Por
Revisão: Caroline Souza
Tradução: Daniela Chaves

Agradecemos a prontidão com que o Films For Action atendeu ao nosso pedido de traduzir e publicar esta entrevista.

Joanna Macy é ecofilósofa, budista e estudiosa da teoria geral de sistemas. Somos profundamente gratos pelas palavras dessa grande mulher que, para além do incansável ativismo, projeta-se como uma fogueira radiante em tempos de pessimismo pervasivo. Nessa entrevista concedida originalmente ao site ecobuddhism.org, Joanna mergulha na dor e destruição sem tamanho que já acometem o planeta e os seres, recordando-nos, ao mesmo tempo, do milagre da vida e da bênção incomparável que nos permite testemunhar tudo isso.


Joanna Macy sobre como se preparar internamente para o que quer que aconteça

 

“Pessimistas” como  Albert Bates  e Guy McPherson  são equilibrados por outros que vêem e sentem muito do que eles estão vendo e sentindo e, ainda assim, são capazes de revestir a totalidade em uma luz infinitamente maior e mais rica. Exemplos de pessoas assim são Carolyn Baker e, sobretudo, Joanna Macy. Interessante que ambas são mulheres. –  Ann Kreilkamp

 

EcoBuddhism: Como você se sente em relação à Sexta Extinção em Massa?

Joanna Macy: Está acontecendo. E acontece junto com muitas outras coisas que prometem um colapso total. Como começamos a lidar com o plástico no oceano, que cobre áreas do tamanho de países? O que os telefones celulares e micro-ondas estão fazendo com nossos ritmos biológicos? O que, exatamente, está na nossa comida? Como lidamos com a modificação genética do cultivo? Estamos tão viciados, em todos os níveis. Como começamos a conter tudo isso?

O nível mais imediato de crise diz respeito à capacidade que a Terra tem de suportar. Muitas civilizações anteriores à nossa, começando com a Mesopotâmica, não conseguiram mais se sustentar devido ao esgotamento dos seus recursos naturais. A capacidade de sustentação é o nível sobre o qual a maioria das pessoas fala. É um aspecto definidor da crise climática. Como vamos cultivar a comida de que precisamos, com as grandes variações e os extremismos do clima? Como vamos lidar com os desastres naturais e a fome que resultarão de um clima caótico?

O segundo nível – e ainda mais profundo – é que as consequências se estenderão para muito além do colapso dessa civilização. Estamos acabando com as possibilidades para as futuras gerações e civilizações, pois temos usado os recursos minerais e petrolíferos sem pensar neles por um instante sequer. Quando esta civilização entrar em colapso, o futuro terá, em grande parte, possibilidades da Idade da Pedra.

O terceiro nível de crise é o enorme aumento na taxa de extinções – aniquilando o tecido da vida, criando uma perda de biodiversidade tão extrema que podemos vislumbrar a destruição de formas de vida complexas. São necessários sistemas altamente diferenciados, integrados e diversos para produzir formas de vida suficientemente complexas para a consciência.

O quarto nível de crise seria a destruição de tudo aquilo que é mais complexo do que a forma de vida anaeróbica, devido à perda de nossa produção de oxigênio nos oceanos e na terra.

De qualquer forma, eu levo muito a sério todas essas crises e não as questiono. Ao mesmo tempo, dedico minha vida e cada respiração ao trabalho de abrir nossas mentes, de transformar nossa mente-coração.

 

O pôr do sol também é lindo

EB: De onde você tira os recursos psíquicos para testemunhar tudo isso e, ainda assim, seguir com alegria?

JM: Há muita alegria nisso tudo! Sinto-me muito estimulada pelo trabalho que faço. Chamo isso de O Trabalho Que Reconecta. Envolve falar a verdade sobre o que estamos enfrentando. Eu acho que é muito difícil para as pessoas fazerem isso sozinhas, então esse trabalho vai crescendo e demandando grupos.

Precisa ser feito em grupos para que possamos ouvir um ao outro. Então, você percebe que o isolamento que fomos condicionados a experimentar nos últimos séculos, especialmente por essa sociedade de consumo hiper individualista, trata-se de uma mentira. As pessoas podem evoluir de seu senso de isolamento em direção a uma compreensão da sua inter-existência com tudo o mais.

Sim, parece sombrio. Mas você ainda está vivo agora. Você está vivo com todos os outros, no momento presente. E porque a verdade está acesa no Trabalho, o coração se destrava. E há uma sensação e uma experiência de aventura. É como um toque de trombeta anunciando uma grande aventura. Em todas as grandes aventuras, chega um momento em que o pequeno bando de heróis se sente em total desvantagem e desanimado, como Frodo em O Senhor dos Anéis ou Peregrino em O Progresso do Peregrino. Então, você aprende a dizer: Parece sombrio. Grande coisa que pareça sombrio!

Nossas pequenas mentes acham que é o fim, mas o próprio fato de que estamos vendo tudo isso é entusiasmante. E nós sabemos que não podemos ver a coisa toda, pois somos apenas uma parte de um conjunto vasto interdependente – uma célula em um corpo maior. Portanto, não tomamos nossas próprias percepções como as últimas. Minha visão de mundo tem sido bastante entrelaçada entre os ensinamentos budistas e a teoria dos sistemas vivos. Eles se informam mutuamente de uma forma tão poderosa.

“Os seres são inumeráveis. Faço o voto de liberar todos eles.”

Este pode ser o último suspiro da vida sobre a Terra, e que grande último suspiro terá sido, se percebermos que nos apaixonamos uns pelos outros! Se você está realmente no momento de experienciar a nossa realidade, você não diz “Oh, eu não vou experienciar isso porque não vai durar para sempre!” Esse momento é o que há. É a verdade, por enquanto. Podemos ter uma preocupação justificada sobre o que está por vir, sem necessariamente ficarmos presos na ideia de que algo vai durar.

EB: Mesmo no budismo, onde a impermanência é uma coisa óbvia, não há conceitos óbvios para lidar com a super-impermanência, no sentido de que os humanos estão agora colocando um fim na era Cenozoica. Na melhor das hipóteses, ela talvez seja seguida por uma era Ecozoica. Continuar no mesmo ritmo como se nada estivesse acontecendo irá acidificar os oceanos e desencadear o aquecimento global descontrolado, uma extinção em massa épica e um ciclo completamente novo de tempo geológico. Alguns cientistas do clima consideram que podemos já ter adentrado uma mudança climática descontrolada.

JM: Suspeito que eles estejam certos. Em termos lógicos, eles estão certos: nós não temos absolutamente nenhuma chance. Na minha última oficina, as pessoas estavam dizendo “É tarde demais“, na Mandala da Verdade que costumamos fazer. Em seguida, elas saíram e foram presas na Casa Branca, acorrentadas à cerca para protestar contra as guerras. Portanto, nossa ação com dedicação apaixonada à vida não parece ser afetada. Eu prefiro viver assim. O que te mantém seguindo? Você não é nutrido pelo seu trabalho?

EB: Sim, é uma demanda evolutiva pessoal muito poderosa que tem de ser vivida. Não há escolha.

JM: Que sorte nós temos de estarmos vivos agora, de podermos nos colocar à altura de tudo isso!

EB: No filme sobre a vida de Jung, Questão do Coração, Marie-Louise van Franz revela algumas visões que ele teve pouco antes de morrer, nas quais uma grande parte do planeta foi destruída, mas uma pequena porção resistiu.

JM: Certas previsões e profecias tibetanas também indicam que não haverá extinção total dos humanos.

EB: James Lovelock afirma que os Estados Unidos e a China continuarão usando combustíveis fósseis e competindo pelos últimos recursos até que seja tarde demais. A civilização e a maioria dos grandes ecossistemas entrarão em colapso. Uma população humana de poucos milhões talvez sobreviva em torno do Círculo Ártico.

JM: Isto é o que o Buda chamaria de “visões”. Elas são baseadas em uma porção de evidências científicas, e eu as levo muito a sério. Mas o que acontece é que estamos aqui agora. A escolha que nos cabe é sobre como viver, neste momento. Poderíamos usar o pouco tempo que nos resta para acordar mais. Poderíamos permitir que toda essa experiência do planeta, que é intrinsecamente gratificante, se manifeste através de nossas mentes-coração, para que o planeta possa ver a si mesmo, para que a vida possa ver a si mesma. E, de alguma forma, podemos abençoá-la. Assim, há uma fonte de bênçãos em nós, mesmo na hora da morte. Recordo-me de um monge coreano que uma vez disse: “O pôr do sol também é lindo, não apenas o seu nascer”.

Podemos agir lindamente. Se nós vamos sair, podemos sair com nobreza, generosidade e beleza, para que não resvalemos no sentimento de choque e medo.

Chamamos o trabalho que faço de ‘O Trabalho Que Reconecta’. Desde o momento em que comecei, há pouco mais de 30 anos, senti que, em certo nível, eu estava ajudando as pessoas a serem melhores ativistas – mais resilientes, mais criativas, mais responsáveis, mais eficazes. Em um nível mais profundo, entretanto, percebi que estava fazendo isso para que, quando tudo desmoronar, nós não nos voltemos uns contra os outros.

EB: Lovelock considera que a humanidade poderia se tornar uma corja desorganizada liderada por senhores de guerra rivais.

JM: Isso já está acontecendo! Olhe para os Estados Unidos. Estamos nos estrangulando uns aos outros. Estamos mergulhados em delusão e mentiras.

EB: E isso poderia muito bem ser uma estratégia do capitalismo de desastre. Talvez um movimento transpessoal no inconsciente coletivo possa levar a um ponto de ruptura social.

JM: Ou mesmo na consciência coletiva. Nunca podemos afirmar, desde nosso limitado ponto de vista, que é tarde demais para isso.

 

A privatização da prática

EB: No livro A Corporação, Joel Bakan pediu a um psiquiatra renomado que examinasse o comportamento corporativo (externalizando todos os custos para a sociedade) usando critérios de diagnóstico padrão. O médico descobriu que estava olhando para o perfil de um psicopata. A instituição dominante de nosso tempo foi criada à imagem de um psicopata e é legalmente designada a se comportar como tal.

JM: É verdade, eles são obrigados a isso! E nenhum sistema onde você tenta maximizar apenas uma variável pode evitar o descontrole. De fato, a má notícia se tornou exacerbadamente ruim, desde que a maioria da Suprema Corte dos Estados Unidos concedeu às corporações o direito de fazer doações políticas ilimitadas e secretas no famoso caso dos Cidadãos Unidos vs. FEC (comissões eleitorais).

EB: Nós temos uma conjunção de “psicopatia corporativa” com o imenso poder dos combustíveis fósseis – o negócio mais lucrativo da história humana. E embora seja potencialmente fatal para nossa espécie, é tão difícil ouvir esse lado da história. A mídia americana é completamente controlada pela propriedade corporativa ou pela renda de publicidade.

JM: Eles reduziram a população a um estado de tamanha estupidez… Eu nem assisto televisão. Suponho que eu deveria, pelo menos para ver o que está acontecendo com o meu país. É uma degeneração terrível, uma náusea cultural. Mesmo o rádio, que é sustentado pelos ouvintes e que costuma fornecer algum oxigênio, está sendo atacado. Nos Estados Unidos, agora vivemos em um “estado de segurança nacional”, com um elemento debilitante de servidão/controle mental.

Quanto ao budismo, penso que os budistas ocidentais tendem a privatizar sua prática e procuram o que chamo de equanimidade prematura. Buscam pela paz de espírito, e essa é uma resposta tão inadequada.

EB: Prática espiritual como anestesia? Se pudermos dar um nome a certas coisas, existe a possibilidade de abrir novos espaços para a criatividade espiritual. Assim como a professora Zen australiana Susan Murphy nomeou algo importante quando escreveu sobre A incontável não-história do aquecimento global. Toda semana, agricultores australianos cometem suicídio porque suas terras e suas vidas foram completamente arruinadas pela seca, enquanto grandes empresas de mineração corrompem sua política e exportam seu carvão para aquecer os altos-fornos da China.

Ilustração: Daniel Barreto – @danielbarretoes

Incerteza, Desespero e Desintegração Positiva

JM: Eu acho que muito do que me atrai na minha tarefa de ensinar, o trabalho experiencial, é ajudar as pessoas a fazer amizade com a incerteza, transformando sua percepção e passando a vê-la como uma maneira de se ganhar vida. Porque nunca há garantias, em nenhum momento da vida. Sobretudo no cidadão americano, talvez seja mais enraizada a sensação de que nós devemos saber, devemos ter certeza, devemos estar no controle, devemos ser otimistas, devemos estar sorrindo, devemos ser sociáveis. Esse feitiço cultural tem um tremendo poder de nos manter entorpecidos e acalmados. Portanto, tem sido central na minha vida e no meu trabalho fazer amizade com nosso desespero, fazer amizade com nossa dor pelo mundo. E, assim, dignificá-lo e honrá-lo. Isso é muito libertador para as pessoas.

EB: Imagino que isso também signifique abraçar a sombra.

JM: Sim, e é uma sombra grande. Considero que certa ficção científica, a imaginação, seja muito útil aqui. Olaf Stapledon escreveu na década de 1930, antes da era nuclear, com uma imaginação incrível que também era profundamente espiritual. Em The Star Maker, a mente humana da Terra, na cabeça de um homem em particular, começa a viajar através do espaço/tempo e vê o drama em que estamos envolvidos, reconhecendo nosso mútuo pertencimento antes de nos matarmos. Ele vê esse drama básico de muitas formas diferentes, e é tão rico. Claro, existem planetas nos quais a consciência brotou e que simplesmente falharam. Mas a aventura como um todo é tão grande!

A teoria dos sistemas vivos tem sido muito útil para mim. Eu acho que há um impulso dentro dos sistemas vivos no sentido de se complexificar, despertar – há um movimento evolutivo. Eu falo do amor e do entusiasmo gerado pelo meu pequeno trabalho, que muitas pessoas estão fazendo comigo. Ele requer ser capaz de experienciar a dor. Requer lágrimas e indignação. Requer desintegração positiva. Toda a nossa cultura precisa de desintegração positiva. Ela tem de morrer para si mesma. Aqui, minha educação cristã se torna relevante: Sexta-feira Santa e Páscoa, a necessidade de morte e renascimento. Nós vamos morrer enquanto cultura, e é melhor que façamos isso conscientemente, para não infligir nossa morte sobre todos os outros.

 

O Desejo de Morte e a Quarta Joia

EB: Nós vamos morrer como espécie também? A morte do ego de nossa espécie precederia ou modificaria a extinção de nossa espécie?

JM: Bem, suponho que alguém poderia argumentar, com base na ecologia profunda/ativismo profundo, sobre a necessidade de se inserir, no sistema, um veneno específico para a nossa espécie, a fim de se livrar dos humanos pelo bem dos não-humanos. Mas já é tarde demais, porque envenenamos o planeta com nossos materiais radioativos e todas as nossas outras toxinas. Somente nós sabemos o que todas essas coisas são, então precisamos ficar por perto para mantê-las fora da biosfera na medida do possível. Não podemos nos dar ao luxo de cometer suicídio enquanto espécie.

EB: E, no entanto, o famoso biólogo evolucionista Edward Wilson escreveu um artigo notável, intitulado “A humanidade é suicida?”.

JM: Estamos agindo assim. Estamos agindo como se tivéssemos um desejo de morte colossal.

EB: Suas oficinas são obviamente provenientes do lado experiencial. Olhando para a Ecopsicologia, tudo o que Rozsak e seus colegas têm feito, me pergunto se seria possível desenvolver um treinamento prático certificado. Você acha que seria útil?

JM: Oh meu Deus, sim. Mas as instituições acadêmicas não são nada amigáveis ​​com algo que escapa ao controle de disciplinas estreitamente definidas. Então, provavelmente há outros lugares onde você pode ir.

Onde quer que eu vá com as oficinas, encontro a disposição de experimentar um despertar coletivo. Fico admirada com o quão explícito isso é. É uma sensação de querer pertencer à Terra, um anseio de reverenciar a Terra. De novo e de novo, eu acredito que as pessoas estariam prontas para morrer pelo nosso mundo, para salvar o processo da vida. Há algo premente dentro da mente-coração que é simplesmente enorme. Está acontecendo muito rápido.

Esse é um lado bom de já estar tão velha. Estou com 81 anos e tenho observado a mentalidade das pessoas nos anos 40, 50, 60, 70, 80, 90 e na primeira década deste século. Até os anos 70, ainda estava envolvida com o trabalho de doutorado. As mudanças desde então são surpreendentes.

Uma mudança crucial diz respeito à relevância que as pessoas estão encontrando nos ensinamentos nativo-americanos atualmente. Há um profundo respeito pela sabedoria que existe ali e pela nobreza de caráter que ela projeta. Eu acho que é uma adição preciosa à nossa joia tripla – esta quarta joia do nosso tempo, que os povos nativos estão propagando.


A ecofilósofa Joanna Macy (1929) é uma estudiosa do budismo, da teoria geral de sistemas e da ecologia profunda. Uma voz respeitada em movimentos pela paz, justiça e ecologia, alia sua atuação acadêmica a quatro décadas de ativismo. Ela criou um sistema teórico inovador para a mudança pessoal e social, bem como uma poderosa metodologia de oficinas para sua aplicação.

Seu trabalho abrangente aborda questões psicológicas e espirituais da era nuclear, o cultivo da consciência ecológica e a ressonância frutífera entre o pensamento budista e a ciência contemporânea. As muitas dimensões deste trabalho são exploradas em seus 10 livros.

Milhares de pessoas em todo o mundo já participaram de suas oficinas, que ajudam a transformar o desespero e a apatia, diante de crises sociais e ecológicas avassaladoras, em ação construtiva e colaborativa. Elas despertam uma nova maneira de ver o mundo como nosso grande corpo vivo, nos libertando das suposições e atitudes que agora ameaçam a continuidade da vida na Terra.

Joanna viaja continuamente oferecendo palestras, oficinas e treinamentos nas Américas, Europa, Ásia e Austrália. Ela mora em Berkeley, Califórnia, perto de seus filhos e netos.


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1 Comentário

  1. Rosane de Lourdes Silva Vianna disse:

    Muito encorajadora está entrevista.
    Gostaria de ter acesso aos livros de Joanna.
    Se possível em português ou espanhol.

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