S. Ema. Chagdud Tulku Rinpoche. Khadro Ling, 2002. Foto: Buda Virtual

Conversando com Chagdud Tulku Rinpoche

O nosso precioso mestre tibetano responde a perguntas sobre meditação, como lidar com as emoções e mantras

Por
Transcrição: Jéssica Amorim

“Seria ingênuo supor que praticantes novos conseguirão imediatamente eliminar todas as suas deficiências e desenvolver todas as qualidades positivas da prática. Porém, se ao entrar pela porta do Darma, seja em que estágio for de suas vidas, eles continuarem a praticar, então o amor, compaixão e sabedoria crescerão. Se as pessoas praticam, conseguem melhorar. Aqui não há diferença alguma entre orientais e ocidentais.”

Chagdud Tulku Rinpoche, um mestre de meditação altamente realizado, artista e médico tibetano, nasceu no Tibete Oriental em 1930. Reconhecido na primeira infância como a reencarnação do abade do monastério de Chagdud Gonpa, recebeu treinamento completo, junto com muitos dos melhores lamas do Tibete, na filosofia e prática de meditação do budismo vajrayana.

Deixou seu país por ocasião da ocupação chinesa, em 1959, e, por solicitação de S.S. Dudjom Rinpoche, auxiliou na administração do estabelecimento de vários campos de refugiados na Índia e no Nepal. Atendendo a pedidos de vários alunos americanos, Rinpoche transferiu-se para os Estados Unidos em 1979. Desde então, por intermédio da Fundação Chagdud Gonpa, criou centros para a prática e estudo do budismo vajrayana nos Estados Unidos, Canadá, Europa e Brasil.

As perguntas dirigidas a Chagdud Tulku Rinpoche neste trecho foram feitas por estudantes brasileiros. O texto completo foi  organizado pelo Dr. Manoel Vidal, do Centro Nyingma Odsal Ling, de São Paulo, fundado sob a responsabilidade Chagdud Rinpoche.

Nós transcrevemos a publicação feita pela revista Bodisatva nº 7. Confira:


O senhor sempre ensina que a diferença entre o praticante e o não-praticante está em que este último percebe o mundo dos fenômenos como se estivesse olhando por uma janela, ao passo que o praticante o faz como se estivesse olhando num espelho.

Se queremos ajudar os outros a eliminar seus defeitos e desenvolver suas qualidades positivas, precisamos nos assegurar de que, primeiro, nós mesmos estejamos livres de defeitos e dotados de qualidades positivas. Mesmo que não estejamos totalmente isentos de defeitos, mesmo que não tenhamos revelado por inteiro todas as nossas qualidades positivas, devemos, pelo menos, ter purificado nossa mente o suficiente para ajudar os outros, ao invés de simplesmente criticá-los.

Por isso é tão importante examinarmos nossa própria mente. Quando temos um pensamento negativo, ou mesmo um pensamento neutro, – um que não seja particularmente não-virtuoso -, precisamos tentar transformá-lo em virtuoso.

Quanto mais redirecionamos a mente, mais sua expressão externa em palavras e ações se torna virtuosa. A raiz de todos os fenômenos do samsara e nirvana está na mente. Os estados mentais virtuosos e não-virtuosos são responsáveis pelo carma que leva ao sofrimento ou à felicidade.

Se repetidamente examinarmos nossos pensamentos, palavras e ações, e domesticarmos nossa mente, nossas deficiências começarão a diminuir e nossas qualidades positivas a crescer.

Quanto mais se reduzirem nossos defeitos, mais irão beneficiar se beneficiar as pessoas a nossa volta. Quanto mais forem incrementadas as nossas qualidades positivas, maior será nossa capacidade de ajudar os outros a cultivarem eles próprios essas qualidades.

Dentre as três jóias – Buda, Darma e Sanga – as qualidades preciosas da Sanga são, às vezes, as mais difíceis de enxergarmos. Como é que podemos fazer nascer a visão pura e apreciarmos as qualidades positivas dos membros da Sanga?

Se considerarmos o número infinito de seres nos seis reinos do samsara, em termos proporcionais, poderíamos dizer que o número de seres no reino dos infernos é como um número de partículas de pó de um país imenso. O número de pretas(**), ou fantasmas famintos, é equivalente aos grãos de areia do rio Ganges, e o número de animais, ao número de grãos em uma grande tina de malte, usada para fermentar cerveja. Os semi-deuses são iguais ao número de flocos de neve em uma nevasca ou os pingos d’água numa tempestade. O número de deuses e humanos é como o número de grãos de areia que cabem sobre a unha de um dedo.

Portanto, antes de mais nada, a existência humana é muito rara, pois os seres humanos são, de longe, menos numerosos que os outros seres. Além disso, embora muitos países sejam povoados por centenas de milhões de seres humanos, quantos destes estão efetivamente buscando um caminho de virtudes e benefícios ao próximo, por meio de seus pensamentos, palavras e ações? Quantos estão tentando evitar ferir os outros, evitar agir por formas não-virtuosas? O número de tais pessoas pode ser comparado ao número de estrelas que podemos ver durante o dia – de fato, muito poucas.

A palavra em tibetano que corresponde ao termo sanga é “gedun”, que quer dizer “aquele que anseia pela virtude”, ou que é motivado por ela. Se uma pessoa possui essa qualidade de procurar a virtude, muito embora não esteja isenta de defeitos, sua motivação e compromisso pessoal a tornam muito especial.

Os membros da Sanga Mahayana tomam votos não só de libertar a si mesmos da existência cíclica, como de liberar também os outros. Como podemos deixar de ver nesse compromisso a melhor de todas as qualidades? Não deveríamos ignorar isso e nos voltarmos para as deficiências pessoais que são mais temporárias.

Aqueles com quem nos associamos na Sanga, são nossos companheiros até que alcancemos a iluminação. Quando os enxergamos com respeito e apreciação, estamos beneficiando a nós mesmo porque isso faz crescer o nosso mérito; purifica nossos hábitos negativos e os efeitos do carma negativo. Existe então uma relação direta entre nossa atitude de respeito pela Sanga e o benefício que auferimos como praticantes individuais.

Como o praticante que inicia pode desenvolver entusiasmo e constância?

Para desenvolvermos diligência, precisamos pensar, vez após vez, sobre a oportunidade preciosa que a vida humana oferece – recordamo-nos da liberdade e oportunidade que temos de buscar o desenvolvimento espiritual, e lembrarmos que a prática espiritual é o único meio de descobrirmos a essência da nossa existência humana.

Além disso, deveríamos compreender que precisamos fazer um bom uso dessa oportunidade preciosa, pois não temos noção de quando iremos morrer. Apenas sabemos que iremos morrer. Depois que estivermos mortos, a única coisa que contará será o nosso carma positivo ou negativo. O carma positivo vai nos levar à felicidade temporária e última, e o carma negativo a mais sofrimento. Esta compreensão deve ser assentada sobre uma sólida crença na infalibilidade do carma, e não apenas em uma noção abstrata.

Se a nossa mente seguir padrões cármicos negativos, seremos impelidos em direção a condições de renascimento onde haverá apenas mais sofrimento – contemplá-los, trazê-los à mente, vez após vez, e, por fim, meditar sobre eles, constitui a melhor forma de cultivarmos diligência inabalável.

Por vezes, emoções como a raiva, desejo ou paixão aparecem em nossa mente com tanta força que parecem ter vida própria, podendo nos obcecar. Que fazer?

Quer experimentemos apego ou aversão, o objeto da nossa emoção – a pessoa ou a coisa pela qual sentimos raiva ou desejo – não é permanente, individualizado ou autônomo.

Todos os objetos das nossas emoções são impermanentes, compostos de muitas partes diferentes, sujeitos a influências externas, desprovidos de autonomia ou poder próprio.

Uma vez que tenhamos entendido isso, precisamos contemplar esse fato vez após vez.

Não basta reconhecer que isso seja verdade, e então deixar de lado esse dado. Precisamos pensar sobre ele infinitas vezes, para que, gradualmente, cheguemos à compreensão de que objetos do nosso apego ou aversão, na realidade, não existem, mas são como imagens em um sonho. Este é o principal antídoto para emoções fortes.

Uma outra abordagem implica em usarmos uma emoção, como a raiva, como antídoto de si mesma: a forma da raiva é empregada com habilidade, para domar o aspecto ordinário e confuso da raiva.

Por exemplo, em certas práticas vajrayana iradas, podemos utilizar imagens em que os inimigos estão mortos. No entanto, isso não implica em uma agressão externa, pois reconhecemos que o inimigo, que sentimos existir fora de nós, não é o que está impedindo de alcançar a liberação: o obstáculo real é a nossa raiva em relação ao inimigo.

Então nós focamos nossa mente não em derrotar o inimigo externo, mas em liberar o inimigo interno, o verdadeiro inimigo: nosso próprio ódio e raiva, que, quando nos levam a agir, acabam por criar carma negativo. Nessas práticas, liberamos esse inimigo interno no contexto das quatro qualidades incomensuráveis do amor, compaixão, alegria e equanimidade, e, da perspectiva da sabedoria, através da compreensão de que nem o “eu” nem os fenômenos possuem uma natureza intrínseca real.

Podemos usar uma abordagem semelhante com o desejo. Por exemplo, a atração sexual abrange o objeto do desejo de uma pessoa, ela própria que deseja, e a atividade sexual ou as interações entre a pessoa e o objeto de sua atração. Dentro do vajrayana estas são as chamadas “três esferas” do sujeito, objeto e atividade entre eles.

Do ponto de vista de sua natureza essencial, nunca será possível estabelecer que o objeto do desejo, ou a pessoa que é o sujeito que deseja, ou qualquer atividade baseada naquele desejo, possuem existência própria e verdadeira. Não obstante, a energia dinâmica que é inerente à vacuidade manifesta-se de forma incessante. Temos aqui a consciência primordial exibindo-se através dos fenômenos que se manifestam.

Dessa forma, podemos praticar uma atividade baseada no desejo de uma perspectiva mais elevada. Se nós o compreendermos do ponto de vista de sua natureza essencial, e não em termos daquilo que acontece quando sentimos e agimos impulsionados por ele, podemos experimentar o prazer ordinário da atividade sexual de forma não-dualista, como sendo a união da felicidade extasiante e da vacuidade. Assim, usamos a forma do desejo como habilidade para domar o desejo comum e confuso.

Entretanto, sem essa visão de sua natureza essencial, nossa atividade vai estar baseada no desejo comum e iremos acumular carma.

Mesmo que tenhamos optado por seguir por esse caminho, e façamos uso de tal meditação, não iremos imediatamente transformar nossas percepções, pois estamos lidando com padrões habituais muito potentes.

Entretanto, através de muita prática consistente e estável, nossas negatividades gradativamente diminuirão, e tudo aquilo que é positivo, virtuoso e contribui para a iluminação crescerá. Independentemente de quais meios específicos estejamos empregando, o importante é aplicá-los vez após vez, sem desanimarmos, recordando que o processo leva tempo.

Chagdud Tulku Rinpoche

S. Ema. Chagdud Tulku Rinpoche. Khadro Ling, 2002. Foto: Chagdud Gonpa Brasil


Há uma menina na nossa Sanga cujo gatinho quebrou a perna. Ela fez orações a Tara, pedindo ajuda, mas o animal terminou morrendo. Em outro caso, uma jovem saudável fez práticas meditativas com Vajrasattva por um ano, e sentia-se protegida pela divindade, mas um câncer declarou-se e ela passou a ter uma visão negativa do Darma.

Para dar uma explicação que a menina entenda, podemos usar o exemplo de um excelente mecânico. Se você tem um carro que não está funcionando bem, quão realista é esperar que um mecânico muito habilidoso possa consertá-lo? Na maioria dos casos, podemos esperar que o mecânico consiga isso. Porém, por mais habilidoso que ele seja, se o carro estiver muito desgastado, não haverá conserto possível.

O que acontece com um ser vivo, quer que seja uma pessoa ou um gato, depende do carma, bem como das circunstâncias incidentais e imediatas da sua vida. Se tivermos o carma para sustentar este nosso corpo, vamos viver. Mas quando a força que sustenta a nossa existência se dissipa, não há quem consiga trazê-la de volta.

Embora as orações da criança terem dado a impressão de não produzir resultado imediato, isso não significa que a prática feita em proveito do gatinho foi equivocada ou inútil; ela irá beneficiar aquele ser em uma vida futura.

Uma pessoa, às vezes, mesmo nesta vida, superar obstáculos enormes através de sua prática, quando três fatores se juntam: fé, carma que permita que os obstáculos sejam superados, e as bênçãos e compaixão do objeto a que a pessoa dirige suas preces.

Qual é a origem dos mantras? Qual sua função?

A força e eficácia dos mantras advém, em primeiro lugar, do fato de que os sons e as formas da sílabas mântricas, em essência, não estão além da vacuidade ou do Darmakaia e, portanto, são estabelecidos pela verdadeira natureza da própria realidade.

Em segundo lugar, a forma particular que os mantras assumem – a combinação de certas sílabas e seu som – surge por si só da compaixão inata dos Budas e bodisatvas. Assim se estabelece sua força intrínseca no nível dos fenômenos. Em terceiro lugar, os mantras foram usados por grandes praticantes que provaram seu valor, consagraram-nos e imbuíram-nos com suas próprias preces e aspirações. A isso chamamos o estabelecimento por meio das bençãos.

Por fim, se uma pessoa com fé, em sua eficácia recita mantras repetidamente, ela purificará seus obscurecimentos e carma, e adquirirá siddhis tantos ordinários quanto sublimes, ou seja, as realizações espirituais.

A isso chamamos o estabelecimento através da força e da energia do mantra. Em nossa prática, tanto os mantras que usamos quanto as deidades associadas a eles, são dotados desses quatro tipos de estabelecimento.

Em última análise, qual é, de fato, a natureza daquilo que chamamos “deidade”?

O termo “deidade” refere-se tanto a Darmakaia quanto a Rupakaias, ou seja, manifestações com forma. Quando dizemos “o Darmakaia do Buda”, estamos nos referindo a um estado sem imperfeições, dotado de todas as qualidades positivas, no qual a natureza fundamental de todos os fenômenos encontra-se inteiramente evidente, livre de elaborações conceituais. A radiância do Darmakaia manifesta-se incessamente como Rupakaias: como Sambogakaia, na percepção daqueles com carma purificado, e como Nimarnakaia para aqueles com carma comum, não-purificado.

Atualmente, por estarmos temporariamente, superficialmente, sujeitos à confusão, vivenciamos a realidade de modo dualista, como esperança e medo, como “eu” e o “outro”, alto e baixo.

Embora as máculas superficiais e distorções da nossa corrente mental não tenham sido purificadas, nossa natureza essencial é pura.

A diferença entre a deidade e nós mesmos está em que ela corporifica uma pureza dupla – a da natureza essencial da mente e a devida à purificação dos obscurecimentos -, ao passo que nós somos, em essência, puros, mas ainda não-puros no nível temporário, superficial.

Por causa disso, vivenciamos a deidade como separadas de nós. Uma vez que o hábito de perceber as coisas como distintas de nós tenha sido purificado e nossos obscurecimentos tenham assim sido removidos, iremos reconhecer que não há deidade alguma além das aparências auto-manifestadas da deidade e da terra pura, as quais estão adiante dos conceitos de separado ou idêntico.

Como são os praticantes ocidentais e como se dá sua relação com o Darma?

Muitos são inteligentes, capazes de avaliar aquilo que as diferentes tradições têm a oferecer e tomar boas decisões sobre o que é importante, com base nesse exame inteligente. Mas os estudantes ocidentais do Darma padecem de falta de informação, simplesmente porque os ensinamentos budistas não têm estado disponíveis no Ocidente por muito tempo.

Além disso, quando novatos, os ocidentais às vezes não são capazes de discernir se os ensinamentos do Darma estão sendo apresentados de uma maneira tendenciosa ou preconceituosa. Isto não acontece com muita frequência – a maioria dos lamas ensina de uma forma não-sectária e com bom coração – mas quando isso acontece e os alunos são inexperientes para reconhecer a distorção do Darma genuíno, isso pode representar um obstáculo sério.

Fora isso, não vejo nenhum problema especial que seja característico deles. Os praticantes ocidentais têm facilidade para alterar comportamentos e hábitos externos, etc., mas também se dão conta de que uma transformação interna, através da prática, é mais importante.

Num sentido mais amplo, estamos todos lidando com padrões habituais e carma negativo, que vêm sendo reforçados ao longo do tempo sem princípio. A maioria dos ocidentais tem ainda que lidar com o fato de que, durante a primeira parte de sua vida, não teve contato algum com os ensinamentos do Darma, e, portanto, não teve oportunidade de se familiarizar com sua prática, muito menos se dedicar a ela o tempo necessário à transformação interior. Estão começando do zero.

Seria ingênuo supor que praticantes novos conseguirão eliminar todas as suas deficiências e desenvolver todas as qualidades positivas da prática. Porém, se ao entrar pela porta do Darma, seja em que estágio for de suas vidas, eles continuarem a praticar, então o amor, compaixão e sabedoria crescerão.

Se as pessoas praticam, elas conseguem melhorar.

Aqui não há diferença alguma entre orientais e ocidentais. Se, ao tomarmos nosso primeiro contato com o Darma, pensarmos que vamos ser perfeitos desde o início, e que se isso não acontecer não há razão para praticarmos, estaremos nos afastando do único meio que temos de nos tornamos perfeitos, de nos tornarmos verdadeiros praticantes. Primeiro precisamos ser expostos aos ensinamentos para que, então, passo a passo, possamos nos tornar verdadeiras corporificações do Darma.

Possam todos os seres ser beneficiados!


(**) Segundo a cosmologia budista, Preta é o nome em sânscrito dado aos seres que se encontram dentro do Reino dos Fantasmas Famintos, que também pode ser conhecido como “Pretaloka”. Ou seja, os pretas são seres que não enxergando o que possuem, estão sempre carentes desejando mais e mais coisas.  


O texto acima foi publicado originalmente na Revista Bodisatva nº 07, em 1994. 


Acervo Bodisatva

 

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