Lama Padma Samten. Foto: Cristiano Ramalho

Crise e auto-organização

Lama Samten comenta sobre o tempo que vivemos e como enxerga as iniciativas que estão “contornando as estruturas econômicas e de poder”

Por
Edição: Stela Santin
Transcrição: Ana Carolina Boero

Em tempos de crise, o Darma realmente está expandindo ou não está?

Eu acho que o Darma está expandindo. Eu acredito mesmo que entre as várias manifestações religiosas ou culturais, talvez o Darma esteja entre as que tem tido mais sucesso em conseguir dialogar com a nossa própria cultura. A nossa cultura está sem referencial. Ela está estranha, ela se olha e não se entende. Talvez entre as coisas mais lúcidas que a gente tenha visto seja o fato de que agora a realidade é líquida. Líquida seria mais ou menos assim: eu não consigo entender o que está acontecendo, aquilo está indo e eu não consigo compreender nada. A gente está como que abdicando de compreender as coisas, pois as coisas estão se deslocando de um jeito que a gente não entende.

Meios de comunicação 

Por exemplo, os próprios meios de comunicação estão presos no paradigma econômico e na estrutura formal de poder, enquanto tem outras coisas acontecendo que estão contornando essa estrutura econômica e essa estrutura de poder. As notícias que vêm são sempre assim: “as estruturas de poder estão abaladas”. Isso se dá porque nós vemos contravenções por todos os lados. Nesta visão, é como se só as estruturas de poder importassem. Mas isso não importa muito. A gente acha um escândalo que coisas horríveis estejam acontecendo por todo lado, mas coisas horríveis por quê? Porque a estrutura de poder não está conseguindo responder à demanda para ela se manter no controle das coisas. É isso. Essas são as notícias. O tempo todo a gente está dizendo: “Olha, não dá. A polícia não dá conta, o judiciário não dá conta, o legislativo não dá conta, o executivo não dá conta, o sistema democrático não dá conta, o exército não dá conta, nada está dando conta.”

O processo econômico não dá conta. Essa é a notícia que a gente ouve o tempo todo. Mas e aí? O mundo desabou? Não, o mundo não desabou.

Universidade 

Às vezes, eu associo isso à análise de como a universidade vai perdendo a importância. Esse é um processo parecido. Por exemplo, a universidade também é uma estrutura de poder que domina profissões e dá autorizações. Ela tem um poder muito grande. Se a universidade não fosse o único caminho de acesso ao mercado de trabalho de muitas diferentes profissões, ela virava 5% do que ela é hoje. Ela é dominada por um processo férreo — a pessoa não pode saber nada se não fizer um certo curso e ter uma certa autorização. Isso é uma coisa complicada. Por outro lado, o conjunto de áreas de saber que é operado pelas universidades é limitado, ele não responde à nossa demanda atual. Ele é limitado em perspectiva, em profundidade, em vários níveis. E o que acontece? As pessoas precisam de soluções. Então elas começam a encontrar soluções de outros modos.

Saúde 

Outro dia eu estava conversando com uma pessoa cuja mãe tem pressão alta. Eu digo: consulta um naturopata. O naturopata recomendou três ou quatro coisas simples e a pressão da pessoa baixou. Estabilizou. É como com os acupunturistas também. Há todo um conjunto de práticas de medicina de vários tipos, que a gente pode não aprender na universidade, mas pode aprender de um outro jeito. Existem meios.

Dentro do tema da saúde, o processo mais interessante é não adoecer. As perspectivas de doença estão ligadas à indústria química, à lógica do seguro saúde, à previdência social. Está tudo assim, como se fosse um conjunto de coisas inevitáveis. Nós vamos tratando aquilo tudo dentro de uma perspectiva estatística, nós vamos operando assim. É como se a pessoa não tivesse uma centelha lúcida capaz de fazer as transformações na sua vida.

Educação 

Na perspectiva budista, o aspecto de educação é o aspecto mais próximo da saúde. Como é que a própria pessoa pode fazer para ter uma vida melhor? Os vários panoramas de crise dependem das estruturas que nós estamos utilizando para analisar. A crise atual é a crise dos poderes legislativo, judiciário, executivo e econômico — da estrutura econômica. É uma crise. Por exemplo, na Europa, o desemprego entre os jovens está muito elevado. Isso está causando uma repopulação de vilas que estavam praticamente abandonadas. Mas a gente nem ouve sobre isso. Outro exemplo: toda a economia informal não existe dentro do processo econômico, não é vista. A economia informal é o que faz tudo andar. As pessoas trabalhando, ajudando umas às outras. Elas não estão trocando dinheiro, passando por dentro do banco, não têm investimento nem pedido de empréstimo, não têm nada disso, mas têm uma rede que garante que as pessoas não vão passar fome. É o aspecto solidário, onde todo mundo começa a operar. E isso nem sequer é visto. Não tem estatística disso. Não aparece, não é considerado, não é política pública, não é nada.

A crise não está vendo como é que as pessoas estão se articulando e como é que elas vão contornar os paradigmas atuais e vão surgir de um outro jeito. Isso simplesmente não é visto.

Um contorno possível 

Esse é um ponto interessante. Todos esses processos que vão contornando as estruturas são processos a partir da originação dependente. Tem uma mente luminosa, que pega alguma coisa, ressignifica aquilo, dota de energia, e aquilo vira um ponto seguro, ou mais ou menos seguro, e depois a gente passa um outro fio e conecta uma outra coisa ali e as redes vão acontecendo e vão se estruturando. Isso é auto-organização. A auto-organização é a base, é a mente luminosa produzindo as coisas. Só que é esse processo de auto-organização da mente luminosa que construiu o samsara inteiro. É a base, a gênese do samsara. O mundo não está pronto. O mundo está em constante construção. Constantemente ele se constrói em diferentes níveis.Nós estamos aqui vendo alguns níveis em construção, mas há múltiplos níveis operando e produzindo essas manifestações da origem dependente.


Saiba mais

* Trecho de um ensinamento oferecido por Lama Samten no retiro de Verão de 2017.
Veja o vídeo completo:

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