Foto: Banco de Imagens

Monge Koho e Lama Samten conversam sobre economia como prática de lucidez

Outras formas de sustentação econômica, baseadas na ética, transparência e modo de vida correto, são possíveis

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Revisão: Gabriela Souza

Em tempos de crise econômica e desemprego é possível construir uma economia com base na ética, na generosidade, na abundância não financeira, nos relacionamentos e em meios de troca?

Para o Monge Koho, da tradição Zen, e o Lama Padma Samten, da tradição Nyingma, isso é muito possível.

“Nós temos agora 14 milhões de desempregados no Brasil. É importante entender que essas 14 milhões de pessoas são acolhidas em uma rede de solidariedade que não é descrita dentro do processo econômico. Na verdade, o processo econômico se dá dentro de algo muito maior, que é um ambiente que Sua Santidade Dalai Lama chama de ambiente da compaixão.

Para o Monge Koho, é preciso que alguém comece

Dizem que numa ocasião perguntaram ao George Bernard Shaw como ele havia sido tão criativo. E ele disse: ‘É muito simples! Onde as outras pessoas perguntam por que, eu pergunto por que não?’. E essa é uma pergunta chave. Por que não construir uma economia cotidiana baseada na ética, na generosidade, na transparência, na confiança? Eu diria: ‘Porque alguém tem que começar! E para isso a gente precisa ter ferramentas.”, afirma Koho.

Koho Mello e Lama Samten

Lama Padma Samten e Monge Koho falam sobre o Programa Lótus. Foto: Carol Rosim.

Em encontro no CEBB Caminho do Meio, em Viamão-RS, os dois, amigos de longa data, conversaram sobre economia, desemprego e novos projetos. Juntos, comentaram o Programa Lótus, uma nova maneira de operar a economia, com a utilização de uma moeda complementar de mesmo nome, transparência integral, banco de horas integrado e unificado, feiras de trocas e parcerias, e apoios vinculados a projetos claros, de forma que o colaborador saiba o que está apoiando.

“Nesse conceito de economia budista, a gente colhe muito da visão do Ernst Friedrich Schumacher, e, claro, do meio de vida correto”, conta o Monge referindo-se ao economista britânico Ernst Friedrich Schumacher, conhecido por sua crítica às economias ocidentais e suas propostas de adequação e descentralização.

“Daquilo que o Schumacher falou dessa abordagem diferente na relação com o dinheiro e o trabalho, nós vamos ter: proporcionar a utilização e o desenvolvimento do potencial humano, e não apenas o cumprimento de uma função em um sistema; o incentivo à colaboração e ao compartilhamento de metas e não de benefícios pessoais; e, também, a opção que incentiva a escolha por produtos e serviços saudáveis e sustentáveis. Schumacher diz que isso se relaciona à simplicidade e à não violência no trato. Ele coloca a ética budista junto a esses valores na sociedade

Monge Koho sugere a criação de notas de um, cinco, dez, vinte, cinquenta e cem lótus, cada uma associada a uma paramita. Para ele a moeda é um meio pelo qual é possível introduzir ensinamentos. “Um lótus seria a generosidade. Ele também deve ter uma versão on-line, um bitcoin”, diz Koho.

Para o Monge, as feiras de troca e compartilhamento e o banco de tempo são outros dois meios econômicos muito importantes. Koho destaca a primeira como momentos de interação e relacionamento:

“Nas iniciativas de trocas, feiras de troca e compartilhamento daquilo que nós não necessitamos mais, há muito divertimento. Elas necessariamente requerem contato entre as pessoas. Para trocar, a gente negocia.”

Koho também destaca o valor do tempo: “o tempo é uma moeda. Mas precisa de um controle, possibilitado hoje pela informática. A grande vantagem do banco de horas é que ele é sem fronteiras. A pessoa pode prestar um serviço lá no CEBB Salvador, e isso reverter em crédito para um retiro aqui em Porto Alegre”, explica.

As parcerias e os apoios solidários amplos são dois dos aspectos mais importantes do Programa Lótus

Koho esclarece que ambos devem ser de alcance mundial. Uma rede planetária de apoio solidário. Ele pergunta como nós podemos fazer com que uma pessoa que mora na Europa possa acessar uma possibilidade de ser generosa? E responde, dizendo assim:

“Eu não aceito o seu dinheiro, mas o programa aceita que você compre lótus e destine esse crédito para algum projeto à sua escolha, dentro de um portfólio. Você tem a convicção que esse dinheiro convertido em lótus vai reverter no benefício direto daquele projeto. E se, eventualmente, você quiser reconverter, 10% na origem você já doou. Porque isso vai manter a ideia funcionando. 30% você pode converter em moeda do mercado de novo, seja euro, real, dólar, franco etc. Os outros 60% ficam no sistema indefinidamente, mas você vai saber para onde vai. Você inclusive pode fazer um curso. Que tal fazer um retiro com o Lama!?”

Apoiado em seus cinco anos de trabalho no Gaia Education, um programa de educação global para o desenvolvimento sustentável, Monge Koho vê uma enorme vontade das pessoas em serem generosas, éticas e bondosas.

“O ser humano se sente bem fazendo isso. Qualquer experiência humana digna de ser referida é qualitativa, enquanto a economia como vemos hoje se baseia no quantitativo.”, diz o Monge.

Confundimos a sociedade com os indicadores econômicos

Para o Lama Samten, nós vivemos em uma época onde confundimos o desenvolvimento e a estabilidade do mundo, com o crescimento econômico.

“O ambiente da compaixão é o que nos permite sustentar a vida de fato. Então, existe uma inteligência ampla. Na visão budista isso é Chenrezig ou Avalokiteshvara (Buda da Compaixão). Essa é base para a sustentação da sociedade humana. É isso, não é o processo econômico. O olhar econômico olha as coisas todas como recursos. É um tipo de perturbação. No momento em que o processo econômico encontra uma estagnação surge um desafio claro.”, explica o Lama.

Koho destaca que dentro dessa nova visão econômica, os relacionamentos passam a ser muito nutritivos. Passamos a nos relacionar com seres e não com alguém que presta um serviço.

“Não existem utilitarismos nos relacionamentos. Brota um senso lógico, um senso de pertinência, além de qualquer identidade cultural, baseado muito mais numa identidade humana. Em suma, a economia passa a ser um instrumento a favor da nossa humanidade, da nossa natureza essencial e não um obstáculo, um fator de medo e de desconfiança.”, afirma o Monge.

“Nós precisamos transpor para a economia aquilo que nos une como sanga. Nas relações interpessoais que nós aprendemos. Como eu também gosto de dizer nos ensinamentos, o nosso principal gerente de projetos é o Sakyamuni Buda. O nosso CEO é o Sakyamuni Buda. Ele legou uma tecnologia organizacional, que precisa, no meu entendimento, ser atualizada. E por que não fazer isso na economia?”, pergunta Koho.


Agradecimento especial à Andiara Paz.


Para saber mais sobre o Programa Lótus

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