A liberdade que nunca cessa: Entrevista com James Low

Em entrevista exclusiva para a Bodisatva, o professor James Low nos conta sua trajetória e fala sobre os ensinamentos Dzogchen


Por
Revisão: Caroline Souza
Tradução: Lílian Moreira Mendes
Entrevista por: João Vale

James Low viveu por muitos anos na Índia, estudando a língua, a literatura e a história do Tibete. Recebeu ensinamentos de Kalu Rinpoche, Chatral Rinpoche, Kanjur Rinpoche e Dudjom Rinpoche. Quando encontrou seu lama raiz, Chhimed Rigdzin Lama, dedicou-se a servi-lo por muito tempo, recebendo ensinamentos sobre diversos aspectos da tradição. Há anos, trabalha como psicoterapeuta no serviço público de saúde de Londres e viaja o mundo oferecendo ensinamentos Dzogchen.

Em maio do ano passado, João Vale participou de um retiro com ele em Sevilha, na Espanha, e teve a oportunidade de conversar com este grande praticante numa entrevista exclusiva para a Bodisatva. Na edição 31, lançada recentemente, tivemos a alegria de traduzir e publicar seu primeiro texto em língua portuguesa. Intitulado “A pureza intrínseca das obscuridades: uma visão Dzogchen”, ele nos aponta a importância de despertarmos para a abertura — e indissociável criatividade — de cada momento.

Para saber mais sobre James Low, assistir seus seminários e palestras e ler seus artigos, acesse: www.simplybeing.co.uk


REVISTA BODISATVA: James, obrigado por aceitar o nosso convite. Vamos lá… Me interesso muito pelas trajetórias, pelos movimentos que fazemos no nosso caminho do Darma e gostaria de saber, inicialmente, como você se tornou budista.

JAMES LOW: Eu me tornei budista por ter ido à Índia. Antes disso, eu estava muito interessado no hinduísmo. Quando fui para a Índia, num primeiro momento, viajei para locais de peregrinação hindu. Mas gradualmente fui me sentindo mais atraído pelo budismo. Naquela época, Chögyam Trungpa estava morando na Escócia e eu costumava encontrá-lo no Samyé Ling Monastery, que estava só começando. Além disso, na universidade, eu estava estudando filosofia e religião indianas, história indiana, e também antropologia social. Então eu tinha uma noção do desenvolvimento histórico do budismo na Índia, do contexto. E, obviamente, também tinha curiosidade em relação a qual era o limite da vida, porque estávamos em 1966, 1967, 1968, e havia uma sensação de liberdade muito forte. Contudo, essa liberdade era colocada em termos de liberdade em relação a alguma coisa: à opressão, à limitação, etc. O budismo, por outro lado, abordava a liberdade como a liberdade de ser você mesmo, ou de despertar para a sua natureza de Buda. Então, em algum ponto na interface entre essas diferentes ideias de liberdade, eu comecei a me interessar pelo budismo.

Então, o encontro com o budismo foi muito impactante?

Na Índia, o primeiro monastério budista tibetano que eu conheci localizava-se em Sarnath. Quando eu estava chegando à porta desse monastério, vi um monge segurando uma grande vara e batendo em um cachorro de rua. Pensei: “Que imbecis!”.

Mas, na verdade, ter presenciado essa cena foi muito útil! Um grande problema no budismo é que as pessoas o idealizam – idealizam o lama, idealizam a prática… Mas se você segue essa orientação transcendente e pensa que existem algumas pessoas raras e especiais, todas as outras se tornam umas idiotas perdidas e confusas.

Na verdade, entretanto, o bom e o mau surgem juntos, e a menos que você encontre um modo de viver com a qualidade pulsante da vida, é muito difícil, porque o budismo tibetano está cheio de politicagem. E de trapaças, traições, todo tipo de coisa. As pessoas chegam muito ingênuas, e mais tarde ficam abaladas. Então, o melhor a se fazer é tentar ser calmo e transparente, sem se deixar levar nem pela idealização ou pela depreciação, a fim de encontrar um equilíbrio no meio do caminho.

O que fez você ir para a Índia? Quando entrevistei Chagdud Khadro para a Bodisatva n°30, ela contou que chegou à Índia devido a um trabalho humanitário do Jornalismo Sem Fronteiras. Acho interessante entender como encontros fortuitos inesperadamente nos levam a grandes transformações.

O meu pai foi para a Índia com o exército, então eu ouvia muitas histórias quando era pequeno. Além disso, a maior parte da filosofia ocidental, especialmente a filosofia moderna, é muito abstrata. Aristóteles e Platão falavam sobre coisas muito práticas. Sócrates andava pelo mercado, discutia sobre como viver, como não se deixar levar em diferentes situações…

Aos quinze anos de idade, eu encontrei os Upanishads. Neles, fala-se sobre a possibilidade não só de gerir a vida, mas de encontrar a base do ser. Nos Upanishads, o eu individual parece ser uma mônada, algo em si mesmo, mas na verdade é inseparável de Brahman, a base do indivíduo.

Cada uma das expressões individuais parece existir em separado, mas na verdade não é assim. Contudo, enquanto achar que é separado, você permanece com a modalidade da separação.  Na linguagem budista, a base e o que surge da base não seguem em direções diferentes: estão sempre juntos. O que faz a grande diferença é você conseguir ver isso ou não, estar aberto a isso ou não.

Nesse sentido, os Upanishads, e mais tarde o Advaita Vedanta hindu com Shankaracharya e todas as linhagens que vêm daí são muito semelhantes. Antes de entrar de fato no budismo, me envolvi com uma ordem de Sadhus Shivaístas, recebi iniciações de um mestre, e vaguei pela Índia como um Sadhu por um tempo.

Então encontrar os ensinamentos Dzogchen foi uma consequência natural… Mas por que não ter se dedicado ao caminho gradual tradicional?

Pode-se dizer que a atmosfera dos anos 1960 influenciou muito. Havia a ideia de se libertar da limitação, e também estava se propondo o gradualismo político. Na França, Charles de Gaulle argumentava que nós já tínhamos passado por uma revolução no país, não precisávamos de outra, temos o progresso gradual. Mas os estudantes demandavam: “não, nós queremos agora! Podemos ter tudo agora!”.

Assim, em relação à ideia de um caminho gradual eu tinha certa relutância política. Minha visão política era anarquista: estava interessado em comunas, vivi um pouco em comunas, pensando em como as pessoas podiam colaborar juntas, sem hierarquia. Porque a hierarquia sempre se baseia na projeção do que há de bom em você em direção a uma figura idealizada. E se você projeta sem introjetar de volta, as coisas ficam difíceis.

O tantra funciona exatamente com base nesse princípio. Você reza para as deidades, elas são maravilhosas e especiais e, pela prática, elas retornam para dentro de você. Então, a projeção e a re-internalização se equilibram. Mas dá muito trabalho! Por que você projeta para depois introjetar? É porque você é uma pessoa comum e não consegue acreditar que a sua mente é perfeita.

Tive vários professores tibetanos diferentes. A maioria deles tinham sido professores do Dzogchen em várias vidas. O meu professor principal, C. R. Lama, sempre dizia: “quando estiver ensinando, sempre comece pelo topo”. Porque se você começa pelo topo da montanha e o aluno não entende, ele vai deslizar um pouco, e aí você pode trabalhar com ele no ponto onde ele está, talvez sugerindo que ele faça uma prática tântrica, ou outra coisa. Mas não é interessante começar pela base da montanha porque nem todo mundo precisa estar lá.

Então, esta ideia de que todos deveriam fazer o ngöndro é uma espécie de “budismo de produção em massa”. Por que você deveria, necessariamente, fazer ngöndro? Se você fosse ao médico e ele dissesse “tome esses antibióticos”, você argumentaria: “Como assim? Não é essa a minha doença”. Primeiro você faz o diagnóstico, depois dá o remédio. O budismo, em geral, não tem feito um diagnóstico: “você está só vagando pelo samsara, é disso que você precisa”. Não é verdade.

É como uma imposição cultural às avessas?

Sim. E é claro que isso tem a ver com hierarquia. Porque você faz tudo de acordo com a conformidade, conformidade, conformidade… Meu professor também dizia que o principal motivo para existirem tantos monges e monastérios é que assim você impede que pessoas sem instrução saiam por aí cometendo assassinatos e estupros. Os monastérios mantêm as mulheres seguras! Ele tinha esse tipo de opinião.

Você tem um papel de décadas conciliando a prática de meditação com a psicoterapia. Alguns mestres como Tenzin Wangyal Rinpoche e Trungpa Rinpoche se dedicaram a esse tema, a achar um ponto de diálogo. Uma das questões que surgem a esse respeito é que algumas pessoas começam a meditar e sentem vontade de abandonar a psicoterapia. É muito comum. Elas dizem que não precisam mais. Outras pessoas afirmam que a meditação não pode curar tudo, que algumas coisas precisam de uma análise mais acurada e profunda. O que você sente em relação a isso?

Depende do indivíduo. Algumas pessoas avançam muito rápido na terapia, outras avançam muito devagar. Algumas pessoas avançam rápido na meditação, outras avançam devagar. Não dá para dizer estando de fora. Você precisa se envolver. Além do mais, o que significa rápido ou devagar? Isto é comparar e contrastar.

As pessoas encontram seu caminho. Há os processos que são lentos tal qual a planta amaryllis, que possui um grande bulbo, sabe? Esse bulbo surge e cresce muito, e então para de crescer e brota um grande trompete vermelho, uma flor. Há muitas plantas como esta, que florescem a cada doze anos. E algumas pessoas são assim: muito do trabalho se faz na raiz, debaixo do chão. Há outras pessoas que florescem muito rápido, depois elas murcham e morrem. Ser rápido ou devagar não é um problema, na verdade. O real ponto é encontrar a prática adequada para você.

Para algumas pessoas, o tango é a melhor dança, é simplesmente quem elas são. E para outras pessoas não, talvez elas precisem de algum tipo de salsa, ou talvez seja interessante uma dança de salão mais formal. Depende. Algumas pessoas gostam dessa música, outras gostam daquela. Tem a ver com a correspondência de energia.

Dizer que existem nove yanas e que no topo está o Dzogchen não significa nada. Porque esse é o topo para você. Talvez a prostração seja a prática de topo pra algumas pessoas. Havia um lama, um lama Drukpa Kagyu chamado Apo Rinpoche, cuja esposa fez muitas e muitas centenas de milhares de prostrações, cerca de um milhão e seiscentos mil prostrações. Esta era a prática dela, é o que considerou que a fazia amadurecer.

Outras pessoas adoram fazer oferendas de mandala. Algumas constroem estupas. Existem muitos caminhos no Darma, e as pessoas encontram a si mesmas nesses caminhos. Então, como você poderia afirmar que isto ou aquilo é o melhor para outra pessoa? As pessoas procuram seu lama e perguntam: “Rinpoche, qual é o meu Yidam?”. Bom, não existe casamento arranjado no Ocidente. Por que você perguntaria ao seu lama com quem deveria transar? Seria bobo! Por que o lama deveria saber qual deus é bom pra você? Você terá de passar muitas e muitas horas sentado fazendo a prática. Então é necessário sentir uma conexão. Se você não confiar na sua própria intuição, como vai conseguir fazer qualquer progresso?

É preciso cortar toda a ingenuidade.

As crianças não podem praticar Dzogchen. É para adultos. Adultos são pessoas que têm consciência de sua impulsividade, de seus pensamentos, de suas falhas e desejam compreendê-los um pouco mais. Mas, para avançar, você tem que começar a aprender a ensinar a si mesmo. Você pode ensinar a si mesmo por meio da devoção, através da idealização. Você pode ensinar a si mesmo sendo cético e não tendo devoção alguma. Pode ser de um jeito ou de outro.

Acho que é disso que temos que estar muito conscientes: estou ensinando a mim mesmo? E como eu vou saber se isso está funcionando para mim? Os textos tibetanos tradicionais têm todo tipo de sinais, de que você vai ter certos tipos de sonhos, ou certas coisas vão acontecer. Mas geralmente, no Dzogchen, a vida fica mais fácil. Há mais espontaneidade, mais conectividade entre você e o mundo, a sua intuição amadurece, e portanto você consegue encontrar seu caminho em diferentes situações sem pensar. Você não fica tão preso em operações mentais.

Mas é claro que isso não se mostra como uma espécie de formação particularmente budista. Você não se torna um budista melhor no Dzogchen. Não vai formular nenhum tipo de identidade social. Enquanto que, se você for tibetano e fizer o ngöndro, a prática de yidam e um retiro de três anos, você se torna um lama, e daí recebe mais comida e roupas melhores pra vestir. É uma mudança na carreira.

Como você conciliou a formação terapêutica e o budismo?

Eu me tornei terapeuta porque já tinha dois filhos e precisava ganhar algum dinheiro depois de voltar da Índia. E a terapia não era um caminho ruim pra mim. Fiz vários tipos de formação em terapia: psicodrama, arteterapia, terapia psicanalítica e psicoterapia  e assim por diante. Porque eu não acredito em nenhum dos modelos de terapia, mas eles são funções. Enquanto muitos terapeutas se comprometem ideologicamente com um único tipo de terapia, e essa é a casa deles. Mas eu já tenho a minha casa na prática do Darma.

Então, o modo como você integra o budismo e a terapia depende de qual é o seu ponto de partida, de como você entende o sofrimento humano e de como a pessoa pode ou não se relacionar com você. Às vezes recebemos uma pessoa para avaliação e claramente não somos o melhor profissional para ela. Ou às vezes há pessoas que gostam de certo espírito brincalhão. A brincadeira é muito importante, porque a brincadeira, junto com a ironia, permite uma profundidade sem seriedade, uma expansão sem frivolidade. E se você tiver essas duas coisas operando, pode avançar, seja no Darma ou na terapia. Seriedade demais não é bom, e santidade demais não é bom, eu acho.

E qual é o papel do professor nos ensinamentos do Dzogchen?

O papel do professor é dar uma indicação da natureza da liberdade e da natureza da prisão. Essas são as duas coisas. Para que o aluno possa começar a ver que ele mesmo se prendeu. Você construiu uma prisão em meio à liberdade. Então você não precisa ir da prisão para a liberdade. Você precisa enxergar: “estou em meio à liberdade! Mas eu estou construindo a prisão todos os dias”. Isso é obra da produção limitada de ideias sobre o eu e os outros e assim por diante. Esta é a função principal.

O Vajrayana – o tantra – pode ajudar as pessoas a estruturar o ego e os sentimentos? Você acha que sim?

Para transformá-los?

Sim. Por exemplo, agora você é Tara, então você estrutura sua vida como se fosse esse tipo de deidade, então você vai ver tudo, sua vida a partir dessa mandala… Você acha que o tantra poderia oferecer esse tipo de ajuda às pessoas?

Bom, você precisa ter muita fé e precisa estar em uma situação em que consiga manter isto, manter o orgulho da deidade. É necessário mantê-lo o tempo todo. Nas culturas modernas, em que você tem que se mover entre vários papéis, principalmente no trabalho, é mais problemático, porque externamente você precisa mudar seu comportamento e suas respostas de acordo com as circunstâncias. Então eu diria que sim, essas práticas são muito boas se você encontrar uma maneira de realmente adentrá-las e entender o que significam.

Às vezes não é muito fácil para as pessoas fazerem isso. Mas eu fiz muita prática tântrica. E essencialmente isso significa que você transforma o mundo profano no mundo sagrado, e então percebe que tudo é sagrado e que não existe um mundo profano. Isso diz respeito ao profundo despertar para a real sacralidade de toda a existência.

Então qual é a diferença entre o tantra e o Dzogchen?

A diferença é que o Dzogchen afirma que não é uma questão de sagrado ou profano: desde o início tudo sempre foi a radiância da mente. Então o tantra pode ser útil se as pessoas tiverem uma boa capacidade de visualização, se elas gostarem de símbolos, se realmente conseguirem se envolver esteticamente naquilo. Porque é uma atividade muito atribulada. É um tipo de prática de construção e dissolução, mas você tem que construir bastante. Já o Dzogchen não envolve construção, e shamata e vipassana tradicionais também não envolvem construção.

Você pode falar um pouco sobre o papel das práticas de Shamata com o Dzogchen?

No Dzogchen temos shamata, que não é shamata com foco na respiração. É shamata com foco em repousar no espaço aberto, deixando os pensamentos fluírem livremente e a mente fluir do jeito que ela é. Isso é vipassana na abordagem Dzogchen. Não tem a ver com “body scanning”. Mas, se você tiver feito as práticas de shamata e vipassana mais comuns, já ajuda.

Nos ensinamentos, você destaca o poder de nomear, de rotular, como uma das grandes dificuldades que temos.  Nomear as coisas pode ser tão problemático? Não é algo fundamental da nossa experiência no mundo?

A questão não é tanto a nomeação, mas o que vem junto com ela. É a ideia de que eu estou nomeando alguma coisa. Você pode nomear as nuvens, dizer, por exemplo: “ali há um elefante, agora tem uma girafa”, mas claramente aquilo não está ali. Mas se eu disser que isto é uma árvore, parece que tem alguma coisa ali definitivamente.

Tem uma árvore aqui na nossa frente. Eu começo a andar em volta dela, e a cada passo que eu dou, tenho uma árvore diferente. Não é possível apreender a árvore. Mas você pensa: “E daí? É uma árvore! Deixa pra lá!”. No nosso processo de conceitualização, é como se ao nomear nós chegássemos a alguma coisa, mas se nós ficamos com o fenômeno, percebemos que ele é inapreensível. É irrefutável, mas inapreensível. Mas se você descansa dentro do nome “ah, isso é só uma árvore”, “aquilo é só um carro” isso lhe dá um falso senso de poder e inteligência.

A fome do ego nos ajuda a mantermos mais presos? Parece que queremos segurar coisas em excesso como um meio de sobrevivência. Contentamento e satisfação não nos bastam.

Sim. Bom, as pessoas raramente sentem satisfação no samsara. Elas raramente sentem satisfação porque sempre tem alguma coisa. Por exemplo, nós estávamos sentados aqui, mas senti muito frio no assento. O assento é legal, porque nós estávamos sentados, mas é muito frio, então agora temos que nos levantar. O fluxo de experiência, de sensações, pensamentos, sentimentos, ruídos externos agora tem uma chuvinha chegando , as circunstâncias estão mudando. Então o ego acha muito difícil se sentir contente. Você come, fica satisfeito, e depois de algumas horas sente fome de novo. É simplesmente o ciclo de expansão e contração. A relação do estômago com o mundo é semelhante à forma como os pulmões se relacionam, se expandindo e contraindo o tempo todo. Nós estamos pulsando em nossa manifestação, então como encontrar estabilidade nisso? Não é possível.

O desejo de conseguir mais do que eu gosto e menos do que eu não gosto é a tarefa constante do ego de tentar se equilibrar. Mas esse equilíbrio é dinâmico, é como o equilíbrio de andar de bicicleta. Você pedala com o pé direito, e a bicicleta vai ligeiramente pra esse lado, daí pedala com o pé esquerdo… Há microajustes acontecendo o tempo todo. E é por isso que não existe paz para o ego, porque ele está tentando estabilizar uma coisa que é inerente e estruturalmente instável. É por isso que as pessoas sofrem. Elas querem que o mundo seja diferente do que ele é. Então os primeiros ensinamentos do budismo giram em torno da impermanência. Entende? Você quer uma coisa, mas não vai consegui-la aqui.

Este é um exemplo que você pode usar no Darma, mas também na psicoterapia: se quer comprar espinafre, não procure um açougue. Se quer ter paz e contentamento, não procure o samsara. Não vendem isso lá. Vá na loja certa. Chama-se “Darma”. [risos]

Em seus retiros você trabalha com textos que apontam para a natureza da mente. Por que você acha que essa é uma boa técnica para ensinar as pessoas?

Se não conhecer a própria mente, você vai se perder. É por isso. Não tem outro motivo. É claro que desenvolver suas qualidades como pessoa pode ser útil, mas você vai morrer. Você está investindo em algo que vai desaparecer.

Por outro lado, se você encontrar a mente em si a mente que nunca muda , isto é algo que vai durar vida após vida. Esta é a grande diferença. Porque você pode ser muito bom em visualização, acumular muito mérito, construir monastérios e assim por diante, mas se fizer isso achando que vai conseguir alguma coisa, você vai ter problemas.

Então você vem, fala sobre os textos e causa um estremecimento nos nossos referenciais de realidade.

Com certeza. É uma prática contínua, em que algo se abre, depois fecha, se abre, depois fecha. E, gradualmente, mesmo quando há um fechamento, ele se dá dentro da abertura. Então você percebe que a forma e o vazio não são diferentes, assim como no Sutra do Coração.

Tem uma pergunta que sinto vontade de fazer, considerando o contexto socio-político do Brasil. Você falou em agir no mundo plenamente e se considera anarquista. O pensamento político dos anos 60 e 70 influenciou, inclusive, a sua trajetória no Darma. Na sua opinião, o que as pessoas que estão envolvidas na transformação social precisam levar em conta?

Elas precisam levar em conta que este mundo é, ao mesmo tempo, um paraíso e um lugar de merda. E será sempre um paraíso e um lugar de merda. Se tiver sorte, você vive num país que está passando por seu período paradisíaco. Se não tiver, você vive num país que está na merda. Mas todo paraíso foi um lugar de merda, e todo lugar de merda foi um paraíso. E a ideia de que você pode transformar um lugar de merda num paraíso… talvez não seja muito fácil, porque há forças muito grandes.

As guerras acontecem de repente. Dez anos atrás ninguém poderia ter imaginado o que aconteceria na Síria. A mesma coisa no caso da América do Sul. Você não sabe. Um dia está no trabalho. No outro, tem soldados chegando e atirando nas pessoas. Como interromper isso através da ação social? As pessoas que se interessam pela ação social são as pessoas que se interessam pela ação social. E as pessoas que se interessam em se reunir e sair à noite com uma balaclava preta são esse tipo de pessoa. Elas não vão converter umas às outras.

É necessário evitar a arrogância, o senso inflado de que “esta é a verdade, vamos fazer isso acontecer”. Você tem que ver isso como atividade. A atividade é movimentação de energia. Algumas coisas vão mudar e outras não. Se juntos nós conseguirmos, com um grande esforço, criar algo útil, provavelmente vai haver uma força contrária. No Chile, quando Allende subiu ao poder, houve uma força contrária com Pinochet. E isso acontece no mundo todo. Do meu ponto de vista, os bons levam bala. Do ponto de vista de outros, graças a Deus o nosso ditador salvador chegou para nos livrar desses maus elementos.

Isso está acontecendo no Brasil agora.

Sim. Eu diria: aprendam um pouco de história, e vejam que essas pulsações vêm se movendo há muito tempo e elas não vão mudar. Não adianta ter um referencial muito estreito e pensar “ah, eu vou mudar isso, e vai ser assim, vai ser assado”… Não é assim. Existem tantos outros vetores, tantas outras forças operando. Relaxe! “Isso é o que eu estou fazendo, e estou feliz por fazê-lo, seja o resultado bom ou ruim, é isso o que eu faço”.

Mas se você tem muitas esperanças e medos, quando os “maus” ganham, você se irrita, chora, perde a esperança e se pergunta o porquê de tudo isso. Tudo o que você fez nesse meio tempo foi se perturbar. E se você se perturbar, não conseguirá ajudar ninguém. Então, mantenha-se claro e transparente, focado e eficaz, e pacífico.

E como você disse, apoiar-se na base, na nossa verdadeira natureza, certo?

Apoiar-se na base. Tudo é ilusão. Isso não significa que não existe diferença entre ter um líder fascista e um líder com consciência social. Claramente há uma diferença enorme. Mas ambas as formas são ilusórias e não vão durar muito. O Jardim do Éden não vai ser construído aqui, sem dúvida.

E a última: você acha que um praticante pode realmente aproveitar a vida cotidiana para praticar? Como você disse, se assumir que a vida é complicada, você anda num ritmo mais tranquilo, certo?

Sim. Se você se esforçar demais para tornar a vida simples, vai arranjar muita dor de cabeça, porque vai ficar tentando arrumar as coisas o tempo todo. Mas se você pensar, tudo bem, é muito complicado mesmo, eu preciso ficar calmo, me dar espaço, e aí ver o que é possível e o que não é. Tentar mudar pessoas que não querem mudar é uma perda de tempo. Nós deveríamos ser como a água, fluindo onde a água pode fluir.

Geralmente, assumir uma posição é muito contraproducente, porque sempre vai haver uma força contrária. Portanto, a questão não é se desesperar com a situação do mundo, e sim entender que, fundamentalmente, não existem bons e maus. Mesmo aqueles que são torturadores, cruéis, maldosos… Tudo isso são apenas padrões de energia que emergem da vacuidade. Tudo tem a mesma base. Então, se eu faço um julgamento pesado e considero que meus amigos são bons e meus inimigos são maus, estou preso exatamente na mesma matriz em que operam as pessoas que eu julgo más.

O verdadeiro problema é a dualidade, porque é a dualidade que cria a estrutura do pensamento de que as pessoas são solidamente reais, separadas, independentes, autônomas e, assim, quando nos livrarmos dos maus, todos seremos felizes. E os dois lados dizem a mesma coisa. A diferença é quem eles identificam como maus.

No Dzogchen, o caminho não é realmente um caminho: trata-se de despertar para a não-dualidade. Desde o início, tudo é uma expressão natural da mente. Se você enxergar isso, vai perceber que, como o tempo hoje aqui no sul da Espanha, agora está chovendo. O céu está claro, o céu está nublado. Não é o fim do mundo. Mas se você se fixar no desejo da luz do sol, estará criando seu próprio sofrimento. Então, é assim: sem muitas esperanças e medos, mas dando um jeito de acordo com as circunstâncias. Se está chovendo, preciso de um guarda-chuva.

Muito bom. Agradeço, James.

Eu que agradeço.


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1 Comentário

  1. Ormando disse:

    Muito boa entrevista 🙂 gratidão ^.^

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