Floresta Amazônica. Foto: Torrenegra

Frei Betto e a Amazônia

“Devemos sair da zona de conforto e salvar nossa Mãe”. Frade e ativista pelos Direitos Humanos fala sobre decretos que liberam a exploração de minérios

Por
Revisão: Fábio Rocha

Frade dominicano e autor de mais de 60 livros, Frei Betto atendeu rapidamente ao pedido da revista Bodisatva para falar sobre a situação da Amazônia e a extinção da Reserva Nacional do Cobre e Associados, proposta pelo governo Temer. O decreto libera (dentro do nosso pulmão precioso de vida) uma área do tamanho do Espírito Santo para exploração de minérios.

A área tem quase 4 milhões de hectares e havia sido delimitada em 1984, durante o regime militar, para exploração mineral estatal. Duas áreas indígenas das etnias Aarai, Wayana e Wajapi, próximas da reserva, também são protegidas. Todas são ricas em ouro, manganês, ferro e cobre.

A exploração era premissa apenas do Estado e segundo fontes ambientalistas, a área havia sido pouco utilizada até agora, apesar do governo informar em nota oficial que o garimpo ilegal está depredando a região.

Temos uma visão utilitarista da natureza, como mera fonte de lucro. Perdemos a consciência de que somos parte e fruto da natureza. Não temos consciência de que a natureza pode muito bem viver sem nós, como ocorre em bilhões de anos do passado, mas nós não podemos viver sem ela. Viver é dar um beijo na boca da natureza, pois quando aspiramos absorvemos oxigênio que nos é fornecido pelas plantas e os plânctons, e quando expiramos alimentamos de gás carbônico as plantas e os plânctons”, afirma Frei Betto.

Doutor Honoris Causa em Filosofia, concedido pela Universidade de Havana em outubro de 2015, Frei Betto é ligado a Teologia da Libertação, militante de movimentos pastorais e sociais, sócio fundador do Programa Todos pela Educação e colabora com vários jornais, revistas, sites e blogs, no Brasil e no exterior. Ele envia sua mensagem dedicada aos brasileiros e brasileiras: “Devemos sair da zona de conforto. Para isso, precisamos organizar a esperança. Precisamos nos comprometer com todos que lutam pela preservação ambiental”, nos convoca o frei.

RB  –  Diante das imagens da nossa Amazônia, dos noticiários sobre as resoluções do governo, dos decretos liberando áreas para exploração de mineração, como o senhor se sente?

Sinto-me triste, pois a Amazônia é um dos raros pulmões do mundo e dela dependem as chuvas que irrigam o continente do sul da Flórida ao sul da Patagônia. Nossos governos são capachos do capital e desinteressados na preservação do meio ambiente. Não pensam nas futuras gerações. A Terra já perdeu sua capacidade de autorregeneração.

Ou há intervenção humana, urgente, ou o desequilíbrio ambiental pode apressar o Apocalipse. Insisto para que todos leiam e estudem a encíclica socioambiental do papa Francisco, “Louvado Sejas”, o mais importante documento de toda a história da ecologia, pois além de apontar os efeitos, denuncia as causas da devastação.

Como o senhor percebe esse movimento de exploração desenfreada, quando os seres humanos olham para natureza apenas como recursos que podem ser explorados?

Temos uma visão utilitarista da natureza, como mera fonte de lucro. Perdemos a consciência de que somos parte e fruto da natureza.

amazônia

Amazônia. Santarém, Pará, Brasil. Foto: Irene Nobrega

Foram precisos 13,7 bilhões de anos de evolução do Universo para que, nos últimos 250 mil anos, surgissem esses seres inteligentes chamados homens e mulheres.

Não temos consciência de que a natureza pode muito bem viver sem nós, como ocorreu em bilhões de anos do passado, mas nós não podemos viver sem ela.

  Viver é dar um beijo na boca da natureza, pois quando aspiramos absorvemos oxigênio que nos é fornecido pelas plantas e os plânctons, e quando expiramos, alimentamos de gás carbônico as plantas e os plânctons. Como descreveu Teilhard de Chardin, toda a natureza é dotada de consciência.

O senhor acredita que existe um movimento ao mesmo tempo de transformação e auto-organização no mundo, diante desses tempos de profundas mudanças rápidas e líquidas?

Existem muitos que lutam bravamente por isso, mas a força do capital, das corporações transnacionais, é muito maior. A mídia nos incute o medo do próximo, que pode ser um bandido, um oportunista, um terrorista, mas não nos incute o temor de destruição acelerada do nosso planeta. Porém, é preciso resistir e, em especial, tornar a questão um tema transversal na educação.

Alguns autores, como Michel Maffesoli, nos lembram que estamos vivendo o retorno da espiral afetos, que inclui o reencantamento do mundo, onde o afeto e as relações humanas estão retornando como prioridades. Muitos autores o criticam por isso, mas, na sua visão, existe um caminho em espiral?

Infelizmente não sou tão otimista quanto o Maffesoli, embora eu adote como axioma “há que guardar o pessimismo para dias melhores”. As novas tecnologias, positivas em si, favorecem o individualismo. Há mais amizades virtuais que reais. Temos muitos conhecidos, porém poucas amizades. E Aristóteles enfatiza que, para ser feliz, uma pessoa precisa, como primeira condição, ter amizades.

Como conseguir nos acalmar e ter uma vida de virtudes, relacionando a nossa vida com a da própria natureza?

Praticando a meditação, tendo contato direto com a natureza, aprendendo a amar o silêncio.

O senhor fala em meditação como prática. Como é sua relação com o Budismo?

Buda me ensinou duas coisas muito importantes: graças à meditação, posso me desapegar de pessoas, gostos, cargos, ambições, invejas, competições etc. E assim evito o sofrimento. A dor se tira com medicamento; o sofrimento, com meditação. A segunda lição é que a mente não é confiável, e a meditação ajuda a discipliná-la.

Por fim, gostaria que o senhor nos enviasse uma mensagem, em especial, relacionada às questões ambientais, como o aquecimento global, as mudanças climáticas e as nossas florestas e povos indígenas.

Vamos organizar a esperança! Sair de nossa zona de conforto e nos comprometer com todos que lutam pela preservação ambiental. Vamos denunciar a ganância do capital e exigir rigorosa punição às devastações, como no caso da Samarco, em Mariana (MG), ainda impune. Somos filhos e filhas da Terra, a Pacha Mama, como dizem os indígenas andinos, e devemos salvar a nossa Mãe com todo ardor e amor.


Para saber mais


Outros artigos e livros de Frei Betto sobre o tema

  • “A obra do Artista — uma visão holística do Universo”, Frei Betto. Editora José Olympio.
  • “Felicidade foi-se embora?”, Frei Betto, Leonardo Boff e Mario Sérgio Cortella. Editora Vozes.
  • “O budista e o cristão — diálogos pertinentes”, Frei Betto e Heródoto Barbeiro. Editora Fontanar.

Para apoiar o movimento contra o decreto e pela Amazônia

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