Judeu em momento de prece. Foto: Banco de Imagens

O retorno dos judeus à prática da meditação

Rabino Rubem Sternschein, de São Paulo, fala das intersecções entre as filosofias judaicas e budistas na contemporaneidade

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Revisão: Janaína Araújo
Edição: Janaína Araújo

Apresença do divino em cada uma das coisas, a plenitude em nós, a impermanência da vida e o desapego são algumas das intersecções que budismo e judaísmo encontram em suas tradições. E, muito recentemente, o judaísmo começou, ou melhor, voltou a praticar abertamente a meditação, base do budismo, em várias partes do mundo.

No Brasil, o rabino Ruben Sternschein introduziu, há cerca de dois anos, práticas meditativas na Congregação Israelita Paulista. O primeiro contato com a meditação e o budismo de Sternschein foi ainda na Universidade Hebraica de Jerusalém, onde fez optativas em zen-budismo e se ampliou em Barcelona, onde participou de um núcleo de diálogo inter-religioso.

A meditação saiu do armário judaico”, brinca o rabino. “Cada vez, medita-se mais nas Sinagogas, seja através de mantras ou práticas silenciosas”. Sternschein aproveita a entrevista para o Bodistava e nos presenteia com uma aula sobre a história do que chama de vertente mística de sua tradição, cuja a linha mais conhecida é a Cabala.

Rabino Ruben Sternschein

Rabino Ruben Sternschein. Foto: Giovana Pasquini.

No judaísmo moderno, as práticas meditativas chegaram a ser consideradas subversivas e eram feitas às escondidas. Educador, mestre e doutorando em Filosofia Judaica, o rabino considera, do ponto de vista do rigor científico, os anos de 1980 como os da retomada da meditação na tradição por meio do pensador Moshel Idel que fez uma releitura cabalista Abraham Abulafia, místico que viveu no século 13. A partir dos textos medievais, foi possível perceber uma antiga linhagem de praticantes, bem anteriores à Abulafia.

Mais recentemente, o grande influenciador dessa nova linha é o autor do livro Radical Judaism, Artur Green. E foi a partir da leitura de Green, que Sternschein decidiu participar recentemente de um retiro de meditação de 50 dias, parte na Costa Rica e parte nos Estados Unidos.

Para o rabino, essas práticas ajudam a entender o conceito de divino que está implícito no judaísmo e se assemelha ao budismo. Em síntese, o divino está em tudo. “Para nós, a divindade não é um ser separado da existência e do humano. A transcendência e a imanência são a mesma coisa”, diz, lembrando de uma frase da Torá que os judeus repetem todos os dias: “a Terra toda é a honra divina”.

Assim, como o divino, meditar pode ajudar os judeus a entender o conceito de paz ou plenitude, que, para o rabino, é outra intersecção entre as duas religiões.

Sternschein explica que paz em hebraico é Shalom, que é a mesma raiz para diversas outras palavras que lembra conceitos como íntegro, completo ou pleno.

“No mundo do apego e da disparidade se diz que a paz é um acordo de concessões. Você vai ceder um pouco, eu vou ceder um pouco e vamos encontrar a paz. A paz no judaísmo não é uma questão de ceder porque quando eu estou em paz, eu preciso de você para me completar. A paz é uma completude. Na paz, você está ganhando, ampliando”.

E ainda lembra: “corpo, mente, emoções e espiritualidade são uma coisa só. Claro, nem sempre podemos ter todas harmonizadas, mas devemos procurar essa harmonia para ter plenitude”. Por fim, entre as intersecções de judaísmo e budismos, o rabino lembra da questão do desapego e do fluxo permanente da vida.

“Uma das coisas mais famosas e mais admiráveis no budismo, que também cultivamos, é o desapego. Há vidas, onde tudo é shopping, comprar, construir, vencer, acabar com o outro seja pessoa, objeto, seja empresa. Na verdade, essa vida é uma grande farsa. Não é preciso ser um sábio ou um religioso para perceber que você chega sem nada e vai sem nada. As coisas perduram muito mais do que você. Existe uma grande criação onde o ser humano é um membro, um membro que nasce e morre. A vida não nos pertence”, diz o estudioso que aponta esse pensamento em todos os livros e textos da tradição judaica.

 

Diálogo inter-religioso

Encerrando nossa conversa que foi acompanhada pela fotógrafa Giovana Pasquini, o rabino, adepto do diálogo inter-religioso, aponta o que acredita ser um bom caminho para essas ações.

Estudar junto com o outro as tradições para elucidar, com honestidade, onde estão as diferenças e semelhanças é o primeiro passo”, diz o rabino que participou da elaboração do documento Uma Ética Universal, da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

“As diferenças são boas para que cada um cumpra sua missão individual. Já há várias diferenças de linguagem, mas, muito vezes, falamos a mesma coisa, usamos mesmo repertório. E isso é importante aprofundar. E, por fim, podemos passar para a ação.

A necessidade das religiões trabalharem juntos é imensa, precisamos trabalhar pela paz, pelas necessidades, pela honestidade e pela integridade”, conclui o rabino Ruben Sternschein.

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