Foto: Matthew Fassnacht

Modelos sociais refletem estruturas internas

Henrique Lemes nos convida a transformar a realidade social, ampliando nossa visão estreita à Roda da Vida em direção à Responsabilidade Universal e à Cultura de Paz

Por
Revisão: Jéssica Amorim
Transcrição: Juliana Araújo

Batalhas, fronteiras, discriminação, dominação. Palavras que se repetem nos livros de história da humanidade estudados no Ocidente. Verdade? Mentira? Mais do que isso: as consequências deste ponto de vista são, a exemplo dos modelos sociais até então criados, fracassadas, para não dizer avassaladoras. Muitos já tentaram apontar caminhos para a construção de uma vida social digna de ser denominada “humana”. Socialistas, anarquistas e – acreditamos – até mesmo os liberais, tinham em mente a solução, ao invés da complicação. E por que até hoje estes modelos de convívio social não deram certo? Onde está o “furo”?

Vindo de uma época antiga (500 anos a.C.) e do outro lado do mundo, o budismo procura apresentar uma justificativa coerente para toda esta confusão e, além disso, elucidar uma saída através de uma ação muito singular e que não ignore nenhuma esfera da vida senciente. No budismo, se diz que o mundo que nos circunda é inseparável de nós mesmos. Tudo aquilo que olhamos como sendo a “realidade” surge como um reflexo de nossas estruturas internas. A estes mundos inseparáveis chamamos mandalas. Mandala não se refere apenas a como um mundo material surge, mas especialmente como surgem as experiências deste mundo, o observador, os limites cognitivos, as energias de ação, as emoções e o corpo.

Podemos utilizar a noção de mandala tanto para construir um diagnóstico de nossa situação atual enquanto sociedade, como também – a partir do cultivo de um bom coração e da noção de responsabilidade universal – trilhar um caminho em direção à superação da existência cíclica, ou samsara.

Se olharmos atentamente o modo como se estrutura o modelo de sociedade existente nos dias de hoje (assim como os modelos que visam contestá-la) e o sobrepusermos à Roda da Vida e aos Doze Elos da Originação Interdependente – ensinamento do Buda sobre como os seres ficam presos à Roda da Vida – vamos encontrar profundas coincidências. O Buda concluiu que este processo ocorre em doze etapas sucessivas, causais e, portanto, passíveis de dissolução.

Detalhe da roda da vida

No sexto elo, por exemplo, operamos a partir de um corpo ligado aos sentidos físicos, que filtram todas nossas experiências no mundo. No sétimo elo, passamos a agir por experiências de gostar ou de não gostar, fazendo inúmeros esforços para conquistar aquilo que nos satisfaça e para nos afastarmos daquilo que consideramos indesejável, além de sermos indiferentes a tudo que não se encaixe neste “código binário”. No oitavo elo, geramos apego ao que nos agrada e rejeitamos o que julgamos repulsivo e, no nono elo, colhemos os frutos dessas escolhas. A partir do décimo elo, especialmente no décimo primeiro, balizamos nossa vida buscando realizar essas aspirações, custe o que custar.

Ao expandirmos esse modelo de análise para a sociedade em geral, introduzindo a noção dos seis reinos¹, vemos claramente os reflexos destas estruturas internas operando em larga escala. A culminância deste processo de satisfação dos próprios interesses, nos dias atuais, é representada por um modelo de sociedade que se denominou capitalista, tendo o indivíduo como o “centro do mundo”. Neste tipo de sociedade, o acúmulo de capital torna-se um meio hábil para a busca de felicidade e satisfação através da obtenção de bens materiais. O ideal de vida no sistema capitalista encontra-se relacionado ao Reino dos Deuses: muito conforto, deleite, prazer. As “coisas boas” da vida são vistas como infinitas.

Faz parte também deste modelo de sociedade, como meio de sustentá-lo, as inteligências ligadas ao Reino dos Semideuses: a racionalidade econômica incita a competitividade e a busca de poder sobre as situações do mundo. Todavia, os que conseguem desfrutar completamente destes ideais são poucos e a quase totalidade da humanidade se engalfinha em referenciais dos reinos inferiores, como dos infernos e dos seres famintos, manifestando raiva, indignação e carência. O carma e a cultura ocidental se fundem.

“A verdadeira felicidade não pode ser encontrada na superficialidade e volatilidade dos referenciais do samsara e da nossa sociedade que, expostos à lei da impermanência, perdem seus significados num piscar de olhos.”

Porém, esta perspectiva de análise sobre a realidade apresenta uma fragilidade básica: não são os objetos que nos trazem equilíbrio e felicidade duradoura, muito menos nos afastam do sofrimento. Isto pode ser constatado no exemplo dos países considerados economicamente desenvolvidos, nos quais as pessoas não são necessariamente mais felizes, e as consequências deste processo econômico-industrial podem ser vistas na destruição do meio ambiente. Não compreendemos que a felicidade genuína diz respeito a um nível muito mais profundo, nem percebemos que está ligada à noção de interdependência de todos os seres, à prática do bom coração e à responsabilidade universal. A verdadeira felicidade não pode ser encontrada na superficialidade e volatilidade dos referenciais do samsara e da nossa sociedade que, expostos à lei da impermanência, perdem seus significados num piscar de olhos.

Como se não bastasse, esta lógica de sociedade cria instituições que permitem sua sobrevivência e reprodução, como o Estado e as escolas. Por não ser possível nenhum tipo de ética elevada e altruísta a partir dos referenciais da roda da vida, cria-se um conjunto de leis às quais os indivíduos devem se submeter. Assim, o Estado Moderno tem seu surgimento. Do mesmo modo, o processo educacional transmite uma visão limitada do mundo, em que somos instigados a preencher espaços pré-determinados no sistema social e não somos capazes de ver saída para nós mesmos. Nossa visão da realidade passa a ser fragmentada, levando em consideração, preferencialmente, aquilo que pode nos beneficiar de imediato. Dentro do sistema capitalista, os processos de relações humanas pouco importam: o que importa é ter algo que produza satisfação. As consequências das nossas ações num âmbito maior, ou mesmo dentro do que acontece ao nosso redor, parecem pouco relevantes.

É interessante ressaltar que muitos movimentos de contestação ao modelo de sociedade capitalista surgiram no próprio seio da cultura ocidental, sendo o Socialismo, a partir de Karl Marx, o de maior relevância. Marx talvez tenha sido o primeiro e mais surpreendente pensador a se rebelar de forma intensa, e a criar um movimento contra à “burguesia” e ao desenvolvimento industrial calcado na acumulação do capital. Esse viés de crítica econômica à civilização ocidental sofreu atualizações no decorrer do século XX, mas todos os seus pressupostos estão fielmente ancorados no samsara. Pode-se dizer que grande parte da crítica de “esquerda” está focada na desigualdade da distribuição de renda e de oportunidades dos indivíduos, além da “opressão” a quem é submetida grande parte da humanidade. O foco é o conflito. Objetiva-se lutar contra aquele que oprime.

Ainda que, em um nível relativo, esse tipo de crítica seja relevante, no sentido de apontar as condições de subumanidade a que grande parte da população mundial está submetida, ela não aponta para qualquer transcendência da roda da vida: apenas almejamos galgar posições rumo a um reino mais elevado; em geral, todos nós buscamos o reino dos deuses. Essencialmente, ao falarmos em desigualdade e disputa de poder, olhamos com referenciais do samsara. Logo, queremos a possibilidade de usufruir dos mesmos recursos daqueles que nos dominam, oprimem, tiram vantagem. A partir da instauração de novos conflitos, buscamos melhorar nossa posição dentro da roda da vida.

As limitações destas perspectivas de contestação são claras: os modelos de crítica à sociedade atual vão até a distribuição de renda, promoção de “inclusão social”, melhores orçamentos e políticas públicas. A preocupação com uma vida mais saudável e a preservação do meio ambiente, mesmo que gerem algum resultado, infelizmente, podem adquirir um aspecto técnico. As alternativas ao modelo de sociedade atual são pensadas sempre como transformações externas, ou seja, criar sistemas mais sofisticados de trocas econômicas ou de desenvolvimento. Ignora-se o fato de que a crise de nossa civilização reflete uma crise de relacionamento humano, em que a cultura ocidental pode ser vista emergindo e refletindo as estruturas internas de cada pessoa. Estes referenciais internos, tradicionalmente não levados em consideração nos processos de compreensão da realidade, acabam emperrando as alternativas desenvolvidas no sentido de superar as contradições de nossa sociedade. Assim, entendemos porque todas as ideologias possuem seus pressupostos dentro da roda da vida e que operar a partir de referenciais estreitos independe de classe social.

“As verdadeiras transformações nos modelos de sociedade não passam por uma derrubada das estruturas de poder ou destruição de um sistema capitalista. Vamos entender que estes referenciais utilizados socialmente refletem nossas estruturas internas, que os referenciais daqueles que atacamos são, em grande medida, os mesmos que os nossos.”

São justamente os referenciais “internos” que o budismo pode oferecer quando pensamos modos mais harmônicos de conviver em sociedade. A visão budista nos ajuda a entender que o mundo em que vivemos é aquele que construímos. Como costuma dizer o Lama Padma Samten: “O que vemos ou deixamos de ver não depende da luz que entra pelos nossos olhos ou dos fatos que aparentemente estão diante de nós. Depende de nossas estruturas internas”. Sendo assim, as verdadeiras transformações nos modelos de sociedade não passam por uma derrubada das estruturas de poder ou destruição de um sistema capitalista. Vamos entender que estes referenciais utilizados socialmente refletem nossas estruturas internas, que os referenciais daqueles que atacamos são, em grande medida, os mesmos que os nossos. Tampouco se trata apenas de aperfeiçoar sistemas democráticos ou de desenvolvimento, mas de mudar os referenciais com que construímos o mundo e com os quais nos relacionamos. Não nos opomos frontalmente aos modelos estabelecidos em nossa sociedade como forma de alcançar as transformações que almejamos, mas invertemos a equação: mudamos a forma de nos relacionarmos com o mundo, dando a ele um “nascimento positivo”. Esta relação se torna elevada, e gradualmente irá refletir as mudanças externas que tanto aspiramos, de forma natural. Não precisamos gastar toda nossa energia nos opondo e criticando os modelos de organização existentes, já não há mais tempo a perder. Nossa energia deve ser canalizada na construção de relações positivas, baseadas na noção de responsabilidade universal no nível do indivíduo, das relações interpessoais, com a sociedade em geral e com a biosfera.

O primeiro passo para esta transformação começa com a compreensão de que somos todos interdependentes: dependemos não apenas das pessoas que estão ao nosso redor, como também daquilo que elas produzem e do ambiente natural que a tudo sustenta. Portanto, se quisermos preservar a nossa vida, devemos preservar a vida daqueles que nos cercam, pois tudo aquilo que fizermos para o mundo, repercutirá sobre nós. Deste raciocínio surge a noção de responsabilidade universal, segundo a qual se buscamos alcançar algum nível de felicidade e estabilidade, o cultivo de relações positivas, em todas as direções, se torna imprescindível. O aprofundamento e ampliação desta visão propiciam um contentamento verdadeiro em nosso ser e sentimos a necessidade de compartilhá-lo com os demais. Mas essa experiência não é possível se estivermos imersos num mundo de objetos e compromissos, em que tudo parece fugaz e perene. A prática espiritual, neste sentido, conduz naturalmente a uma vida mais simples e “sustentável”, pois vemos que aquilo que pode verdadeiramente nos alegrar não se encontra em lojas, shoppings centers, mas no cultivo de relações positivas com todos os seres.

Para a construção de uma cultura de paz não é necessária nenhuma ética artificial ou imposição de regras e normas; basta aprender com as circunstâncias reais a respeito de um fato que já ocorre em nossas vidas. A realidade passa a surgir como uma mandala elevada. A partir de agora, os Doze Elos não serão mais a realidade, mas uma forma particular de construir a realidade. Aos poucos, vamos entendendo que somos uma liberdade de ser e que a verdadeira revolução começa em nossos corações.

¹Ensinamento sobre as seis emoções perturbadoras, cada uma delas ligada a um reino correspondente: raiva ou medo (infernos); aflição e carência (fantasmas famintos); obtusidade mental e cansaço (animais); desejo e apego (humanos); inveja e competitividade (semideuses); e orgulho e contentamento transitório (deuses).

O texto acima foi publicado originalmente na seção Sociedade da revista Bodisatva nº 16, em janeiro de 2008.


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2 Comentários

  1. Matheus Conde disse:

    Acho que tem um erro no texto no trecho:

    Mas essa experiência não é possível se estivermos imersos num mundo de (objetos)* e compromissos, em que tudo parece fugaz e perene.
    Acho que seria objetivos, né?

    Att, Matheus Conde!

    • Equipe Bodisatva disse:

      Matheus, olá!
      Agradecemos muito pelo seu comentário. Conferimos aqui e na realidade está correto, é objetos mesmo. Se você reparar, lá em cima, o Henrique cita essa nossa relação com um “mundo de objetos”.
      Grande abraço!
      Equipe Bodisatva

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