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O caminho da felicidade

Lama Padma Samten nos ensina sobre como ouvir e praticar os ensinamentos da Natureza da Mente em etapas

Por
Revisão: Danilo Martelli
Transcrição: Wimerson Gomes

Sempre brincamos quando falamos de Maharaja, dizendo que ele é aquele que nos traz a impermanência. Maharaja é como se fosse o agente que faz com que tudo aquilo que não queremos que aconteça se manifeste. No entanto, é de grande importância aproveitarmos esse movimento inevitável de Maharaja como caminho espiritual, ou seja, aproveitar as adversidades como caminho espiritual.

Todos nós dispomos de qualidades positivas, mas, infelizmente, em geral, temos uma certa inconsciência dessas qualidades, uma inconsciência daquilo que realmente pode nos favorecer. Nem sempre somos capazes de localizar esses fatos como uma vantagem. Quando achamos que alguma coisa seja boa, favorável, nem sempre a utilizamos da melhor maneira.

Frequentemente, simplesmente desgastamos essas condições favoráveis. Mas quando desgastamos as condições favoráveis, as condições desfavoráveis vão surgir, uma vez que tudo gira. Assim, é interessante olharmos esse aspecto, pois, quando atravessarmos as condições menos agradáveis, vamos ter de aprender como lidar com elas e tentar atravessá-las com aquilo de que dispomos. Aqui, vamos conversar sobre como utilizar aquilo que é vantajoso de fato como caminho espiritual.

Lembro-me de um exemplo de uma aluna de um mestre zen que entra em uma grande crise e pede conselhos ao seu mestre, que lhe diz, “Quando caímos, usamos o chão para nos levantar”.
Em outras palavras, quando a mão de Maharaja nos bate, pegamos a sua própria mão para subir novamente. A adversidade é, enfim, o que temos. Sendo assim, utilizamos a própria adversidade para subir, para ir adiante.

Existem vários tipos de abordagens sobre como olhar os ensinamentos. Vamos utilizar aqui uma abordagem tibetana, ou seja, o caminho é o ouvir, o meditar e, posteriormente, o agir. Dentro dessa abordagem, é necessário ouvir os ensinamentos, meditar sobre eles e, então, praticá-los de uma forma natural na nossa vida, a partir daquilo que compreendemos e sabemos fazer.

Por outro lado, o próprio caminho é trilhado em corpo, fala e mente, todos esses aspectos também devem ser observados. Quando estamos em uma situação favorável, nem sempre conseguimos ouvir, e isso é um obstáculo. Nós não nos damos conta de que temos um corpo humano precioso, e que ele é impermanente. Simplesmente utilizamos os aspectos favoráveis como se eles fossem eternos. Também não nos damos conta de que todos os aspectos favoráveis se desgastam se não soubermos mantê-los, alimentá-los.

É um pouco semelhante a um adolescente vivendo na casa dos pais. Ele pensa que a casa é eterna, que as condições são eternas. Não vê o esforço dos pais, acha tudo completamente natural e se acha merecedor disso, sem perceber as surpresas que podem surgir mais adiante. No entanto, se a pessoa se dá conta de todos os aspectos positivos, do esforço de seus pais, pode ser que brote em seu coração o impulso de ajudá-los nesse esforço ou de, pelo menos, alegrar-se com isso.

Agindo desta forma, provavelmente suas condições positivas vão durar por um tempo um pouco mais longo. Mas, se a pessoa simplesmente desgastar a boa vontade de seus pais, chegará o momento em que eles se cansarão e decidirão que é melhor a pessoa tomar seu próprio rumo.

Condição humana preciosa

De um modo geral, dentro das linhagens tibetanas, os mestres nos lembram repetidas vezes que nós temos uma vida humana preciosa e isso é extraordinário. Por quê? Porque se reuniram condições para os seres humanos que não existem para outros seres. Nós podemos ouvir os ensinamentos, o que não existe para seres de outros âmbitos. A vida humana é uma vida realmente especial.

Ainda que a nossa vida humana esteja dominada por avydia, pela ignorância, pelo não reconhecimento da nossa Natureza Ilimitada, muitos mestres vieram e se manifestaram dentro da condição humana. Eles fizeram isso para gerar uma linguagem, gerar métodos que nós, dentro deste sonho da vida humana, dentro desta situação ilusória, onírica, limitada, possamos reconhecer o que é ilimitado.

Todas as doutrinas de todas as tradições fazem apenas a ponte entre a experiência limitada e o reconhecimento da Natureza Ilimitada, que já está presente. Nenhuma tradição poderá nos oferecer mais do que essa Natureza Ilimitada, e ela nós já temos. É por não reconhecer a experiência ilimitada que temos o sentimento de aflição nas diversas circunstâncias.

No entanto, a condição humana é tal que muitos mestres vieram e deixaram um legado de ensinamentos que nos permitem reconhecer, a partir daquele âmbito limitado, o que é ilimitado. Na compreensão budista, todos os seres têm a Natureza Ilimitada. O que nos diferencia dos seres de outros âmbitos é que eles não têm o ensinamento de como reconhecer essa Natureza Ilimitada a partir de suas próprias experiências. Mesmo os deuses, que vivem imersos em grande felicidade, não têm esses ensinamentos.

Nós temos faculdades perfeitas. Mesmo os ensinamentos existindo, se tivéssemos dificuldades de audição e de visão, não teríamos como recebê-los. Se tivéssemos um corpo humano doente, isto seria sempre uma perturbação intensa, que praticamente nos impediria de ir adiante no nosso caminho. Mas nós somos saudáveis. Poderíamos estar dominados por outros seres que nos impedissem, mas este não é o caso. Mesmo as pessoas que trabalham ainda têm um tempinho que as permite ouvir os ensinamentos. Por outro lado, a nossa forma de vida não contraria o Darma. Não estamos torturando ou matando pessoas, ou roubando para poder viver.

Todas essas condições são favoráveis. Diz-se que os mestres vieram e poderiam não ter ensinado, mas ensinaram. O ensinamento poderia ter desaparecido, mas perdurou. Eles poderiam não existir em nossa região, mas eles existem. Tudo isso é muito favorável.

Ouvir

O vaso emborcado

Mesmo tendo uma vida humana preciosa, pode ser que não consigamos ouvir os ensinamentos, e isso seria desperdiçar uma condição favorável. É como se uma pessoa estivesse em uma festa com muitas comidas e bebidas e ela não bebesse e nem comesse. Com muita música, mas ela não dançasse. Tudo o que a pessoa precisaria para desfrutar da festa seria estar lá. No entanto, apesar de ela estar lá, existe ainda um obstáculo que a impede de tirar proveito da festa.

As coisas estão oferecidas, e nós temos a condição perfeita para usufruí-las. No entanto, pode ser que por orgulho não consigamos ouvir. Podemos dizer que isso não nos interessa, que já sabemos como andar o caminho e que não precisamos ouvir. Desta forma, uma oportunidade preciosa pode ser facilmente desperdiçada.

Por outro lado, pode ser que a pessoa não possa ouvir por ter a mente competitiva. Ela pode dizer, “Eu não tenho nada para ouvir, se eu ouvir, estarei valorizando isto. Eu pertenço a outra doutrina que é superior a esta”. Existe um processo de competição que a impede de ouvir.

Foto: Igor Ovsyannykov

A experiência de estar envolvido em um desses processos que nos impede de ouvir os ensinamentos se compara a um vaso emborcado. Um vaso emborcado não consegue receber coisa alguma.

Tomando o exemplo de uma casa, se construirmos as janelas para o sul, o sol não vai penetrar. Mas o problema não está no sol, e sim na posição das janelas. Mesmo que haja a condição de felicidade pela disponibilidade do sol, não há a penetração do sol ali, porque existe uma posição incorreta. Isso entra na categoria do ouvir impróprio, um vaso emborcado, nada pode ser colocado ali dentro.

O vaso rachado

O nosso vaso é rachado, ele não é perfeito. Mesmo que consigamos receber aquilo que seja favorável, nós terminamos por esquecer. Ouvimos um pouco, achamos bonito, na semana seguinte acabou. Muitas vezes, até no dia seguinte, ou mesmo no momento em que saímos da sala, já esquecemos o que ouvimos. Ouvimos, mas a forma como estamos vinculados externamente faz com que a nossa posição mental retorne a uma condição anterior, e aqueles ensinamentos parecem inúteis. Assim, tudo se perde, e nós vamos precisar ouvir tudo novamente. Após ouvir várias vezes, aos poucos, alguma coisa vai se fixando.

O vaso contaminado

Ao ouvir os ensinamentos, podemos pensar, “Que método excelente de ganhar dinheiro!” Existem, por exemplo, pessoas em várias cidades muito eficientes na organização de eventos, mas não conseguem sentar para ouvi-los. Elas organizam tudo, mas não ouvem. Elas têm essa excelente motivação de organizar, de serem generosas para com os outros. Infelizmente, a motivação não é forte o suficiente para ouvi-los. É como se eles misturassem com alguma outra coisa, não conseguem ficar disponíveis para ouvir. É uma pena, pois elas fazem o trabalho, mas não chegam a usufruir dele propriamente.

Pior do que isso é ouvir e gerar uma doutrina parecida, mas com um objetivo outro que não a motivação de atingir a liberação. Ouvimos sobre coisas muito sutis, como as pessoas mudam de opinião ou superam certos obstáculos e transformam suas posições mentais. Então, pensam, “Hummm, então posso usar isso para obter sucesso na minha profissão de …” Ou mesmo a motivação de usar os mantras, por exemplo, para produzir uma linha de CDs com mantras musicados. Assim, com o tempo, a pessoa perde a sua condição favorável, perde a sua saúde, o seu tempo e, apesar de muitas vezes atingir objetivos desejados, a impermanência vem e faz com que tudo desabe.

O ouvir Vajra

Vajra significa diamante. Temos ainda o caminho vajraiana. Temos o sutra do Diamante, que também é conhecido como Vajracchedika Prajna Paramita. É o sutra que revela a natureza vajra das coisas. Essa natureza vajra é aquela que substitui a compreensão separativa. Quando avançamos no caminho, começamos a perceber que a natureza das coisas não é separativa. Ela é mágica, inseparável. Assim, começamos a dizer que todas as coisas têm a natureza vajra. Elas são plásticas, todas as coisas são vivas. Mesmo os objetos inanimados são vivos, porque eles têm a natureza vajra. Eles não estão congelados, são vivos, incessantemente eles podem se modificar, são multifacetados, amplos. Quando reconhecemos isso, estamos reconhecendo a natureza vajra em todas as coisas.

O nosso processo de treinamento vai nos levando ao reconhecimento da inseparatividade, da natureza vajra de todas as coisas. O que isto significa? Que ultrapassamos em cada um dos âmbitos da nossa ação o aspecto convencional. Quando estamos falando sobre o ouvir, parece ser alguém falando e outro ouvindo. Mas o ouvir também é vajra. Este é um ponto bem delicado, e devemos avançar dentro dele. Por quê? Porque temos de trabalhar o ouvir convencional de tal forma que ele se transforme no ouvir vajra. Precisamos trabalhar o meditar convencional até que ele se transforme no meditar vajra. Devemos transformar o agir convencional até que ele se transforme no agir vajra.

O que seria o ouvir vajra? Como podemos compreender essa natureza vajra no próprio ouvir? Convencionalmente, parece que enquanto eu estou aqui falando, eu falo e vocês ouvem. Isso seria o ouvir usual. Tem alguém que fala e outros que ouvem, existe uma separatividade nisso. Essa separatividade parece completamente evidente. Mas tem dois níveis sutis de separatividade atuando, e nós podemos trabalhar nesses dois níveis, ou seja, tentar avançar nessa prática.

A ressonância

O primeiro dos níveis é o reconhecimento de que, enquanto eu falo, eu não faço nada mais do que produzir uma vibração no ar. Essa vibração chega em vocês, e vocês atribuem os significados. Logo, ainda que o som se origine daqui, o significado propriamente não se origina daqui. No entanto, o significado é inseparável daqui também, porque nós estamos trabalhando em ressonância, as nossas mentes estão em ressonância.

Enquanto eu produzo o som, eu o produzo de tal forma que estruturas internas de vocês ressoem a esse som, e é exatamente isso o que eu quero, que os elementos de sabedoria que estão dentro de vocês surjam. Mas essa sabedoria, se ela não estiver dentro de vocês, ela não vai surgir, porque ela não vem daqui.

Existe, portanto, uma inseparatividade. Se vocês não tiverem a sabedoria, vocês não a escutarão. Mas se o som não for produzido, vocês também não a ouvirão. Existe uma inseparatividade atuando. Ainda que pareça, ainda que convencionalmente o som brote daqui, da minha boca, não é verdade. É importante que vocês, enquanto estão ouvindo, percebam que vocês ouvem de dentro.

Percebam que o ouvir é vivo.
O mesmo acontece quando nós lemos, também tem um som.

Transmissão mente a mente

Tem ainda um segundo aspecto de inseparatividade, que é mais útil e que diz respeito à ressonância. Quando alguém produz sons, significados, ensinamentos, podemos ouvi-los, mas esse ouvir estará com nós mesmos, nós daremos o significado para os ensinamentos. Se nós não temos a sabedoria dentro de nós, não vai brotar nenhuma sabedoria dos ensinamentos. Se tivermos uma má motivação, vão surgir ensinamentos equivocados dos ensinamentos corretos, assim se dá com o vaso contaminado.

Assim é a inseparatividade: vamos gerar uma má ação ou ensinamentos equivocados e diremos que isso surgiu da outra pessoa, como se fosse alguém separado de nós, de quem ouvimos algo que vamos praticar. Não percebemos que, mesmo tendo nós ouvido aquilo, esse ouvir é inseparável de nós mesmos. Portanto, o que nós recebemos é vivo, o som é vivo. Sem percebermos, nós damos vida, atribuímos significado a ele. Parece que o significado vem junto com a audição; quando ouvimos, já ouvimos o significado junto.

Quando compreendemos isso, percebemos que sempre foi assim, nunca ouvimos nada que não tenha sido assim, sempre ouvimos dessa maneira. Os sons sempre foram sons vajra, a audição sempre foi audição vajra. Mas nós achávamos que a audição era separativa, que ouvíamos de outro à distância.

Mesmo que a separatividade funcione, que possamos calcular a preparação do som em três dimensões, ainda que calculemos a absorção do som nas paredes, ainda que toda essa física do som funcione, a inseparatividade segue, assim como o aspecto vajra do ouvir. O aspecto convencional não substitui o aspecto ilimitado.

Copiando a mente do mestre

Além desse aspecto de inseparatividade, existe outra característica ainda mais sutil do ouvir vajra. É quando nós ouvimos os ensinamentos, não olhamos apenas o ensinamento, mas vemos como ele está sendo produzido na mente de quem o produz. Isso é mais sutil. Quando ouvimos, os significados brotam de nós. Para os significados brotarem dentro de nós, é como se tivéssemos um sino que, quando o som bate, o nosso próprio sino interno gera os mesmos ensinamentos que estamos vendo chegar. Aquele significado que brota é como se brotasse dentro de nós verdadeiramente – nós temos a consciência de que aquilo está brotando dentro de nós.

Foto: ritesh singh

Ao mesmo tempo, aquilo só está brotando dentro de nós porque também estamos ouvindo. Se tivesse de brotar dentro de nós sem que pudéssemos ouvir, talvez não fosse possível. Assim, tentamos ouvir um som que não tem som, mas que se manifesta junto com o som, tentamos ouvir adiante, ou seja, tentamos ouvir a forma pela qual aquela sabedoria brota na mente de quem está falando.

Quando alguém fala, essa pessoa produz o som que é ouvido por nós. Procuramos perceber, então, como a pessoa bate o sino para produzir aquilo e tentamos bater o nosso sino dentro exatamente como a outra pessoa bate e comparamos os sons.

Nós não apenas pegamos a sabedoria que o outro está expressando, como tentamos ouvir o método pelo qual ele gera a sabedoria. Olhamos dentro dos olhos da pessoa e tentamos descobrir como ela está produzindo, manifestando a sabedoria.

Quando utilizamos o método para transmitir ensinamentos, produzimos o som, mas o próprio método não é expresso pelos sons. O próprio método não se manifesta, não é visível. No entanto, é possível localizar como esse método ocorre, pois a mente não é local, não está centrada no nosso corpo. Ela pode operar através dos cinco sentidos, mas não está limitada a eles. Podemos facilmente deslocar a atenção em várias direções e obter resultados como se estivéssemos vendo ou ouvindo em diversos outros lugares.

Sendo assim, podemos também nos colocar na condição do mestre que está falando e vamos tentar copiar as condições que ele utiliza para produzir essa sabedoria. Desta forma, vamos terminar por copiar o silêncio mental e os condicionamentos que o mestre utiliza para produzir a sabedoria que vai produzir os sons. Isso é copiar a mente do mestre, esse é o ouvir mais sutil, isso é a transmissão de mente a mente. Isso pode ocorrer com sons, com gestos ou com qualquer movimento.

Usualmente, se retornamos à condição convencional, parece que ouvimos de alguém separado de nós. Ouvimos informações, com as quais podemos concordar ou não. Podemos lembrá-las durante um tempo, mas em breve as esquecemos. Pode ser ainda que, mesmo lembrando as próprias palavras, não consigamos pôr aquilo em prática, parece que a compreensão não brota mais, parece que perdeu a vida, o brilho. Às vezes, ouvimos e anotamos para não esquecer mais. Uma semana mais tarde, lemos as mesmas palavras, mas elas já perderam o brilho. Nós não conseguimos entender, não sabemos o que dá e tira a vida das palavras. Olhamos aquilo e pensamos, “Mas tudo isso estava nítido, visível, claro. Como isso é possível?

As palavras não estão nas palavras, elas são vajra. Assim, tentamos capturar, contemplar esse aspecto vajra. A nossa compreensão é inseparável da paisagem na qual estamos operando. Temos um conjunto de referenciais sutis não expressos, que não são referenciais lógicos, racionais, discursivos. Esses referenciais dão significado, sentimento, vida a todas as coisas.

Assim, as palavras não vivem sozinhas, elas adquirem seus significados dentro das paisagens em que estamos atuando. Quando nos deslocamos de paisagem, as palavras perdem o brilho. Assim, é necessário retornar à paisagem original e olhar as mesmas palavras novamente para que elas, de novo, ganhem vida.

Quando estamos sob o efeito de algum vento especial, de alguma circunstância como, por exemplo, em pé no ônibus indo para a faculdade fazer uma prova, é como se estivéssemos no meio de um sonho. Tudo aquilo que ouvimos antes não tem valor, parece que não tem significado. Depois que passa a febre, o nosso estado, olhamos novamente, e os ensinamentos readquirem seu significado.

O mesmo acontece quando estamos em meio a uma emoção perturbadora muito intensa, como a raiva, por exemplo. Nesse momento, parece que os ensinamentos do Buda não funcionam. Quando a raiva passa, a pessoa volta aos ensinamentos e pensa, “Claro, por que eu não me dei conta disso no meio da raiva? Eu certamente não teria agido daquela forma!” Mas em meio a tais circunstâncias, parece impossível ouvir a sabedoria que tínhamos no dia anterior.

A mente Vajra

A sabedoria não está nas palavras, ela é um aspecto sutil. Ela vai ressurgir. Mesmo que nós escrevamos pela segunda vez o que acabamos de relembrar, de novamente entender, vamos perder outra vez. Por quê? Cada vez que lermos as palavras que nós próprios geramos e escrevemos, vamos precisar reconstruí-las. Essas palavras são vajra, nós geramos as palavras vajra e escrevemos no papel vajra, com tinta vajra. Vamos precisar fazer ressurgir o significado ao ler aquilo. Para isso, teremos de nos colocar na mesma condição, na mesma paisagem. Como fazer aquela paisagem ressurgir para que possamos compreender mais uma vez os ensinamentos?

Nós nos recolocamos na paisagem de sabedoria, na paisagem não construída. Acendemos uma vela ou um incenso e fazemos prostrações diante da imagem do Buda. Tomamos refúgio na Natureza Ilimitada, na natureza de brilho, na motivação de trazer benefícios aos seres e sentamos um pouco em silêncio. Tendo, então, estabilizado a mente, procuramos relembrar os ensinamentos. De repente, vemos que as palavras voltaram a ter vida.

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Tudo é vajra, tudo muda. Ainda que pareça impossível, por exemplo, um livro mudar, todos vocês já reencontraram livros antigos e perceberam que eles tinham mudado. Percebemos que vemos outras coisas nas fotos, nos desenhos, nas palavras. Cada vez que vemos alguma coisa, recriamos uma experiência. Essa experiência pode ser igual à anterior ou não. Ela não precisa ser igual. Isso é a compreensão da inseparatividade de todos os objetos. Todos eles são vajra. Esse aspecto é o reconhecimento da Natureza Ilimitada presente em todos os objetos e todas as experiências. Essa compreensão é muito importante e ela é indolor. Justamente utilizamos a lucidez da nossa mente para compreender isso. Isso está na categoria de “mente vajra”.

A natureza da mente

Todas as construções são transitórias, incluindo a própria sabedoria. No entanto, existe uma natureza da mente que produz as construções, e ela está sempre presente em qualquer construção. Ela se manifesta como se fosse um brilho de atividade da nossa mente que opera incessantemente, dia e noite, fisicamente acordada ou sonhando. Ela não dorme, não descansa, ela troca de uma atividade para outra sem cessar, está sempre em atividade, vida após vida. Na vida, ela tem a atividade da vida; na morte, tem a atividade da morte; no desmaio, ela tem a atividade do desmaio; no sono, a atividade do sono; no sonho, a atividade do sonho. Como teríamos o sonho se não fosse essa atividade? Como teríamos qualquer das nossas experiências se não fosse essa atividade?

Essa atividade é permanente, mesmo que a face pela qual ela se manifesta mude. Ela é como o espaço, que pode ter diferentes objetos, mas permanece o espaço. Ou o céu, que pode estar escuro, estrelado, nublado ou ensolarado. O céu é como o espaço onde tudo isso ocorre, e ele é permanente. Suas manifestações são impermanentes.

A Natureza Ilimitada que contém essas manifestações é como se fosse o espaço onde tudo acontece, é como se fosse o princípio de atividade, a energia básica que faz seja o que for acontecer. É o conteúdo sutil de cada coisa. Essa natureza segue, ela está sempre se manifestando de algum jeito, ela é a essência de todas as experiências. Assim, quando buscamos a origem da sabedoria, vamos localizar que a mente de todos os grandes mestres repousa nesse grande conhecimento, nessa natureza de espaço e energia, de onde brotam todas as experiências e manifestações.

Os grandes mestres repousam nessa compreensão e, quando eles olham as manifestações, eles naturalmente reconhecem através de que tipo de condicionamento as manifestações brotam. Eles são capazes de explicar por que a aparência que surge é luminosidade e liberdade. Assim, eles liberam a experiência ilusória da aparência. A compreensão da natureza vajra vai até este ponto, no qual nós compreendemos a natureza fundamental que anima todas as manifestações.

É como se fosse o barro primordial que está em todos os potes. Podemos, com uma bolota de barro, gerar muitas formas. No entanto, nunca vamos contemplar qualquer coisa que não a própria bolota original de barro. É sempre a mesma bolota, não importa a forma, não há outra essência. A essência original e luminosidade e espacialidade se manifestam sob condições em diferentes formas.

Quando aprofundamos a condição do ouvir, vamos chegando nessa região. Esta é a maneira através da qual vamos ouvir com sabedoria. Assim, vemos que o ouvir é inseparável do falar, é inseparável da nossa sabedoria interna e, portanto, inseparável do nosso próprio som interno. Nós nunca vamos ouvir sabedoria se não tivermos um som interno também sábio, nunca vamos conseguir ouvir, fazê-lo brotar de fora. O som interno, essa sabedoria, depende dessa experiência. Assim, quando vamos ouvir os ensinamentos, é importante reconhecermos o som interno brotando na mente do Buda.

Como podemos ouvir dessa forma? Precisamos das condições favoráveis. Se os deuses da felicidade ouvissem esses ensinamentos, isso seria útil para eles. Só quem está em uma condição muito favorável pode ouvir esses ensinamentos. Se estivéssemos em grande sofrimento nesse momento, esse ensinamento não serviria.

Ele só funciona quando a mente do ouvinte está bem, receptiva. Isso é o caminho da felicidade. Estamos felizes de uma forma condicionada, temos condições favoráveis e estamos aprendendo como utilizá-las da melhor forma. Não estamos sob quatro montanhas, não tem um desastre acontecendo conosco. Por isso, podemos nos direcionar para esse tema. Como todas as condições favoráveis são impermanentes, é bom aproveitarmos isso para gerar essa estrutura e solidificá-la.


O texto acima foi publicado originalmente na Revista Bodisatva n 14, em 2005.


1 Comentário

  1. Sergio luis bravo disse:

    hoEste realmente é o caminho vamos colocar em pratíca.

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