Foto: Simon Launay

O cultivo de Bodicita

Neste texto, Gampopa fala sobre o desenvolvimento da mente da iluminação, que tem como base a bondade amorosa, a compaixão e o refúgio

Por
Revisão: Douglas Lodro Zangpo
Transcrição: Dirlene Ribeiro

Tendo por base a bondade amorosa, a compaixão e o refúgio, cultivamos bodicita, a mente da iluminação. Essa mente não apenas está focada na felicidade dos seres sencientes, mas também busca a ação para liberá-los da confusão e do sofrimento e alcançar a paz e a felicidade, tanto temporárias quanto absolutas.

Bodicita é a mente universal, ilimitada como o espaço, e significa mente preciosa. Ela é a espinha dorsal do budismo. Sem bodicita a iluminação não é possível, independentemente do esforço aplicado neste ou naquele método ou caminho espiritual. Eles seriam como uma semente apodrecida, da qual não podemos esperar nenhum fruto.

Bodicita é uma luz tão forte que pode dissipar a escuridão da ignorância e da confusão como nenhuma outra luz conseguiria. Bodicita é um machado tão grande que pode cortar a raiz do samsara, o que nenhum machado comum poderia fazer. É uma vassoura tão grande que pode varrer a poeira da causa e o sofrimento do samsara, o que nenhuma vassoura comum poderia fazer. É um fogo tão intenso que pode queimar por inteiro a floresta da confusão, o que nenhum fogo comum poderia fazer. É um remédio tão potente que pode curar a doença crônica das emoções aflitivas, o que nenhum remédio comum poderia curar.

Bodicita é uma espada tão grande que pode cortar a teia da dualidade, o que nenhuma espada comum poderia fazer. Para quem estiver interessado em se liberar do sofrimento e trazer benefícios aos seres sencientes, bodicita é o ponto a ser sustentado, cuidado e realizado. A iluminação é a formação mental perfeita de bodicita.

Por isso o senhor do Darma, Gampopa, explicou meticulosamente como a bodicita deve ser realizada e como exercitá-la. Estudem-na com cuidado e tragam essa mente preciosa aos seus corações. Quem possuir bodicita terá uma coragem indômita — sem nenhum medo ou dúvida de permanecer em samsara para beneficiar os seres sencientes até o fim.

Quem possuir bodicita não pensará em cuidar apenas de si mesmo, nem se interessará apenas pela própria paz. Essa pessoa se tornará completamente dedicada aos outros seres sencientes, sem discriminações, como a terra que serve de base imparcial para que os seres sencientes e não-sencientes se movam e cresçam, sustentando suas vidas.

O treinamento da Bodicita da aspiração

A bodicita de aspiração baseia-se em grande compaixão e sabedoria. A grande compaixão vem da projeção dos seres no samsara e da observação de sua natureza de sofrimento. Para liberar-se desse ciclo de sofrimento, grande sabedoria deve ser desenvolvida. Até tornar-se um Buda, ninguém possui a capacidade de beneficiar todos os seres sencientes.

Para beneficiá-los por meio da manifestação infinita de atividades sem esforço é preciso alcançar a iluminação. Portanto, essa mente deve ser cultivada. Há três maneiras de cultivar a bodicita de aspiração: como rei, como um capitão de navio e como pastor.

A realeza é cultivada reunindo inicialmente as qualidades de um líder de um reino. Depois de se tornar rei, ele governa o reino e os seres são beneficiados. Igualmente, a bodicita de aspiração “como um rei” é cultivada primeiramente fazendo esforços para purificar os obscurecimentos e reunir as qualidades da iluminação. Então, segue-se a ajuda aos seres sencientes.

O capitão de um navio embarca os passageiros, guia o barco pelos mares e chega à outra margem com esses passageiros. Da mesma forma, o bodisatva cultiva a bodicita de aspiração dizendo: “Possamos eu e todos os seres sencientes atingir juntos a iluminação”.

O pastor leva todos os animais para pastar em um local com água e boa grama e protege o rebanho dos predadores. Ao anoitecer, ele os traz de volta para a fazenda e os guarda em segurança nos seus currais. Só depois vai para casa e descansa. Da mesma forma, o bodisatva cultiva bodicita dizendo: “Não me afastarei ou passarei para o nirvana até que todos os seres sencientes estejam livres do samsara e atinjam a iluminação.

O treinamento na Bodicita de ação

Depois de cultivar a bodicita de aspiração, o bodisatva deve se esforçar para aperfeiçoar a mente, a fim de realizar o precioso pensamento altruísta e aplicá-lo para o bem dos seres sencientes. Tanto o estudo como as práticas, mesmo sentar por um momento, fazer uma prostração ou recitar um mantra, se tornam métodos para desenvolver essa mente.

Todas as emoções aflitivas estão incluídas nas três categorias de venenos: desejo, aversão e ignorância. Eles são o núcleo a partir do qual as emoções aflitivas se manifestam e criam incontáveis carmas negativos, que nos levam ao sofrimento e obstáculos sem fim. Para purificá-los e, finalmente, desenraizá-los, o Buda ensinou os respectivos antídotos para cada um. Portanto, os ensinamentos do Darma podem ser em três grupos: Vinaya, Sutra e Abidarma.

O tema principal do Vinaya tem por foco a ética moral, a disciplina e os preceitos. Os sutras abordam com maior ênfase a permanência serena e outros métodos de concentração mental. O Abidarma enfatiza mais a originação interdependente e a sabedoria discriminativa ou insight.

Apesar dessa classificação, os ensinamentos do Darma estão fortemente interconectados. Além de ética moral, o Vinaya inclui instruções sobre a meditação e a sabedoria discriminativa do insight. Além das técnicas de meditação, os sutras também ensinam ética moral e a sabedoria discriminativa do insight. Além de ensinamentos sobre essa sabedoria, o Abidarma ensina ética moral, disciplina e concentração meditativa.

Ao estudar esses três cestos e, efetivamente, seguir o treinamento em ética moral, concentração meditativa e sabedoria discriminativa, sua interdependência se tornará bastante clara. Sem o apoio dos outros dois, apenas um dos treinamentos não é suficiente para alcançar a iluminação.

Quando possuirmos uma conduta pura, isso nos ajudará a nos liberarmos das ações não-virtuosas, manterá nossas mentes claras e nos fortalecerá para domá-las com sucesso. Quando a mente é sustentada através do apoio da ética moral, é muito mais fácil alcançar a estabilidade mental e a permanência serena.

Não é possível estabilizar as qualidades positivas da concentração meditativa sem ética moral. Quando a mente está concentrada nas dez virtudes, se torna calma, pacífica e clara. Com esta base é muito mais fácil acender a luz do insight especial.

A chama da sabedoria discriminativa será mantida quando estiver protegida do vento dos pensamentos dispersivos, o que se torna uma forma bastante poderosa de dissipar a escuridão da confusão e das emoções aflitivas e de atingir a liberação do samsara.

Essas são as ações que devemos desenvolver em nossas mentes e aplicar ao longo do aperfeiçoamento dos cinco caminhos. O senhor do Darma, Gampopa, divide os três treinamentos em seis paramitas: a Perfeição da Generosidade, a Perfeição da Ética Moral, a Perfeição da Paciência, a Perfeição da Perseverança, a Perfeição da Concentração Meditativa e a Perfeição da Sabedoria Discriminativa.

A prática da generosidade corta o apego a qualquer coisa que seja para o benefício próprio. A prática da ética moral desenvolve a disciplina física, verbal e mental para evitar as propensões inveteradas do samsara e canalizar a atenção para a iluminação. A prática da paciência é um antídoto para todas as emoções aflitivas, especialmente a aversão, a raiva e o ódio. A prática da perseverança, como uma “mão” com a qual coletamos as riquezas das virtudes, da sabedoria e da compaixão, é um antídoto especial para a preguiça. A prática da concentração meditativa organiza nossas mentes, livra-nos de toda confusão e nos abre as portas para a liberação. A prática da sabedoria discriminativa transcende todas as diferenças de cultura, crença e religião, permitindo-nos experimentar a natureza universal, não-fabricada.


Texto acima foi publicado originalmente na Revista Bodisatva nº 21, extraído das sinopses dos capítulos 9, 10 e 11 da obra clássica de Gampopa: O Ornamento da Preciosa Liberação; A Joia Que Realiza Desejos; Dos Nobres Ensinamentos.


Tradução do tibetano para o inglês: Khenpo Konchog Gyaltsen Rinpoche | Editado por Ani K. Trinlay Chödron. Tradução do inglês para o português: Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB), 2009.

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