Foto: Chris Lawton

O sutra de Hui Neng

Na Bodisatva n. 10, José Eishin Fonseca – então editor da Revista e hoje um querido colaborador – fez uma maravilhosa adaptação deste tradicional texto zen para um gênero bem brasileiro: o cordel.

Por
Revisão: Daniela Pires
Transcrição: Mariana Luz

Utilizando recursos clássicos da literatura brasileira de cordel, José Eishin Fonseca, editor de Bodisatva número 10, reconta em versos de sete pés a cativante história de Hui Neng, sexto patriarca Zen da China. Esta história se tornou conhecida pelo nome de Sutra da Plataforma, ou…

O sutra de Hui Neng

Há mil e trezentos anos
houve um patriarca zen
que se chamava Hui Neng
e entendia muito bem
a mente que ilumina.
Ele vivia na China,
pobrezinho, sem vintém.

Vendia lenha na feira.
Menino, perdera o pai.
Mas era um iluminado.
Foi com a mãe para Nan-Hai.
Um dia ouviu um freguês
cantar um sutra que o fez
perguntar o que aí vai:

Como se chama este sutra?
Onde o senhor o aprendeu?
É o Sutra do Diamante –
o homem lhe respondeu –
que corta nossa ilusão.
Chamam-no, por esta razão,
Vajrachedika. Entendeu?

Ouvi-o de Hung-jen,
nosso quinto patriarca,
no mosteiro de Tung-shan
que de Feng-mu leva a marca,
no distrito de Huang-mei.
Ademais, pelo que sei,
É um sutra que tudo abarca.

Quem trouxer claro na mente
o Sutra do Diamante
verá sua natureza
original bem diante
do próprio nariz, e há de
atingir a budidade
no mesmo e exato instante.

sutra de hui neng

Sutra do Diamante

Ouvindo isso, Hui Neng
sem hesitar um segundo
disse adeus à sua mãe
pronto a correr meio mundo
ou até o mundo inteiro
para chegar ao mosteiro
de Tung-shan – o mais profundo.

Tinha bom carma, o rapaz,
diga-se, a bem da verdade,
pois alguém lhe deu de graça
para a mãe já de idade
dez taéis e um conselho:
Vá para Huang-mei, meu velho,
ver o Quinto Patriarca.

Em menos de trinta dias
chegou lá, e foi assim
que Hung-jen lhe perguntou:
Que é que tu queres de mim?
De onde vens, aliás?
Hui Neng não deu pra trás.
Respondeu na bucha: Vim

de Hsin-chou, de Ling-nan,
trazer-vos o meu respeito.
Quero alcançar buditude
apenas. Ou nada feito.
Mestre Hung-jen disse: O quê!
Um sulista que nem você
é um bárbaro, não tem jeito.

O outro insistiu, Por que não?
Não existe sul nem norte
para o estado de Buda
que é sempre da mesma sorte.
Nosso corpo é desigual,
sou bárbaro, não faz mal.
A menos que se importe…

Hung-jen não respondeu.
Havia gente por perto.
Mandou Hui Neng juntar-se
aos outros monges, decerto
por não querer, como abade,
problemas de vaidade
com algum elogio aberto.

Santo abade, à minha mente
vem Prajna, sabedoria
transcendental, amiúde.
Quem dela não se desvia
planta méritos gerais.
Não sei bem o que quereis
que eu faça, Hui Neng dizia.

– Você é um sujeito esperto.
Saia, e não diga mais nada.
Vá trabalhar no galpão.
Mantenha a boca fechada.
Hui Neng foi e se pôs
calado a pilar arroz
e a rachar lenha empilhada.

Oito meses se passaram
até o Patriarca, um dia,
ver Hui Neng e lhe dizer
que budismo ele sabia
mas devia se cuidar
para não enciumar
os malfeitores da via.

Compreende? Sim, Senhor!
Pra nem lembrarem de mim
não ouso passar tão perto
de vossas salas assim.
Satisfeito, Hung-jen
deu tempo ao tempo também,
mas chegou a hora, enfim.

Reunidos os discípulos,
Hung-jen pôs a questão:
Ninguém aqui quer ser livre?
Se querem, por que razão
sofrem dor de toda sorte
num mar de vida e de morte?
Por méritos? O que eles são?

Se causam renascimento
são espúrios; valem nada
se a essência da mente for
obscurecida. Cada
um de vocês, vá buscar
Prajna no próprio mentar
e compor uma toada.

Um simples verso dará
para ver quem compreendeu
o que é essência da mente.
A quem souber, darei eu,
o nome, o manto, a marca
zen do Sexto Patriarca
e o Darma será seu.

Continuou, Vão depressa
pois quem conhece a essência
não precisa nem pensar
para falar com fluência
dessa mente, desse estado,
se acaso for questionado
sobre a lei da impermanência.

Quem sabe não pode mais
perder o conhecimento.
nem no calor da batalha.
E a partir desse momento
só se ouviu, “Não tem mais jeito,
Shen-hsiu já está eleito”,
nos pavilhões do convento.

Shen-hsiu é instrutor,
pensavam uns. Pois então
será mais fácil segui-lo
do que perder um tempão
tentando remar a barca
do próximo patriarca.
Não vou mexer com isso, não.

Meus alunos – refletia
por sua vez Shen-hsiu –
Não vão disputar comigo.
Mas não sei de onde saiu
tão ardiloso dilema:
se não escrevo o poema
como explicar o vazio?

Como irá o Patriarca
saber se é raso ou profundo
o que eu sei ou não sei?
Mas se estou nesse mundo
a fim de o Darma obter,
motivo não pode haver
mais puro, neste segundo.

Se eu quiser, todavia,
apenas o patriarcado
nem roubando o próprio manto
podia estar mais errado.
Fazendo nada, meu carma
será nunca ter o Darma.
Foi estudar no seu canto.

O instrutor, entretanto
não entendia um mistério:
toda vez que acompanhava
os muros do monastério,
com o Lankavatara-sutra,
pintado de ponta a outra
por Lu-chen, um pintor sério…

O sexto patriarca cortando bambu, por Liang Kai (梁楷, c.1140-1210), Dinastia Song (960-1279). Foto: China online museum

Onde os cinco patriarcas
tinham genealogia –
o pobre Shen-hsiu suava
o pobre Shen-hsiu tremia.
Quatro dia vezes treze
tentou mostrar, em que pese
estar pronta a poesia.

Não conseguiu a coragem
de ao Patriarca mostrar,
mas no meio de uma noite
saiu para procurar
uma parede branquinha
não distante da cozinha
onde Hung-jen ia passar.

Com a velha lamparina
e um pedaço de carvão
escreveu a sua estrofe.
Hung-jen gostaria, ou não.
Se gostasse, lhe diria,
“Fui eu”. Se não poderia
buscar outra profissão.

Corpo é árvore de Bodi,
escreveu o instrutor.
Mente tem brilho de espelho.
Se o limparmos com amor
e atenção verdadeira
jamais pegará poeira.
Ninguém viu o escritor.

Hung-jen, no dia seguinte
procurou o artista Lu
para acabar de pintar
o Lankavatara-sutra.
Foi então que viu os versos,
leu-os, nos traços diversos
do instrutor Shen-hsiu.

Depois chamou Lu e disse,
Não precisamos pintar.
Tudo que tem aparência
é ilusório sem cessar.
Não pinte em cima dos versos.
Vejo neles universos
d’méritos a recitar.

Mandou buscar o incenso,
urgindo que o buscador
ressuscitasse os versinhos
até sabê-los de cor.
Porque assim, pelo menos
afastava os seis venenos
e limpava derredor.

Quanto mais se recitava,
mais gente dizia “timo”
achando que a mente ia
naturalmente ao íntimo.
Mas o Patriarca, não
querendo mais confusão,
tomou decisão num átimo:

“Shen-hsiu! Foi você
quem escreveu neste lado?”
“Foi sim, Mestre, mas não o fiz
para ter o Patriarcado.
O que quis saber seria
se eu tenho sabedoria.
Achais que escrevi errado?”

Era meia noite então
e a voz de Hung-jen
apascentava os ouvidos:
Nesse caminho, está bem,
você chegou bem à porta,
mas não abriu a comporta
para iluminar ninguém.

Sua própria natureza
que é essência da mente
mesmo não sendo criada
não pode, absolutamente,
sofrer aniquilação
quando há compreensão
pensada de instante a instante.

Ela é clara o tempo todo.
Se Tatata, a Talidade,
é o que é o que é
conhecida de verdade
mais que palavra ou poema
é iluminação suprema
na eterna Liberdade.

Se espontânea não for
a sua compreensão
de nada adianta ficar
buscando iluminação.
Reflita mais sobre isso.
Faremos um compromisso.
Livre-se da Ilusão.

Quando a essência da mente
compreendida estiver
escreva um verso e me mostre.
Dependendo do que eu ler
renderei-lhe a transmissão,
o manto, o Darma, o bastão.
Assim é que tem que ser.

Shen-hsiu, obediente,
retirou-se, pelejando
por uma ideia qualquer
que acabasse demonstrando
a sua profundidade,
enredado de verdade
num pesadelo nefando.

Perdera o sono e a paz
querendo sem conseguir
escrever alguma coisa.
Não tinha por onde ir.
Um ou dois dias depois,
Hui Neng pilava arroz
quando passou um guri.

E passou cantarolando
os versos que o instrutor
escrevera na parede.
Hui Neng, sem a menor
dúvida, viu que a poesia
era de quem não sabia
ainda a verdade mor.

Ele, que jamais tivera
lições de essência da mente,
teve uma idéia geral
ali mesmo, facilmente,
“Menino, vem cá” chamou.
“Onde foi que decorou
esses versos, de repente?”

Bobão!, o menino disse,
todo mundo no convento
já sabe, só tu que não!
A questão neste momento
é quem será Patriarca.
E por que a gente embarca?
Renascer sem cessação?

O mestre diz que dará
o seu manto a quem souber
o que é essência da mente.
Este verso aqui, vem ver,
no muro do corredor,
escrito pelo Instrutor
faz bom carma dar semente.

Continua…


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2 Comentários

  1. Ormando disse:

    Incrível! 😀

    Ler em versos
    é mais do que bom
    o ritmo das palavras
    compõem a dança do som ^^

  2. Tai disse:

    Genial Eishin-San! 🙂

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