E quando a energia lá fora se esgota?

O grande mestre Thinley Norbu reflete sobre o modo de vida ocidental e sobre os limites da mente voltada ao desenvolvimento do mundo externo


Por
Revisão: Dirlene Ribeiro Martins e Caroline Souza
Edição: Caroline Souza
Tradução: Lílian Moreira Mendes

Thinley Norbu Rinpoche, grande professor da linhagem Nyingma do budismo tibetano, deixou seu país nos anos 70 para desbravar os desconhecidos horizontes – físicos e mentais – do Ocidente. Buscando tratamento para uma doença, Rinpoche embarcou na rota percorrida por muitos outros mestres, antes e depois dele, que começavam a descobrir um interesse cada vez maior pelo Darma nessas terras estrangeiras. Em sua autobiografia, ele narra seus primeiros contatos com as novas paisagens, costumes e pessoas de maneira comovente, permitindo-nos acompanhar seus passos e mergulhar junto com ele em insights cada vez mais profundos. Proveniente de um país cujas maiores conquistas e explorações se deram no âmbito do mundo interno, não é pequeno o seu espanto diante do assombroso desenvolvimento industrial e tecnológico do Ocidente. No trecho abaixo, traduzido pela Bodisatva, Rinpoche reflete sobre o modo de vida ocidental e a mente da qual ele se origina. Segundo ele, esta mente poderosa é capaz de produzir coisas fantásticas na esfera do mundo físico, mas parece ainda não ter compreendido um ponto-chave: os benefícios resultantes do progresso material, diferentemente daqueles gerados pela mente natural incessante, são inerentemente temporários e exauríveis. E o que acontece quando a energia lá fora se esgota?


Existem muitas regiões nos Estados Unidos, e em cada uma delas as pessoas têm diferentes hábitos e estilos, mas geralmente seus hábitos mentais são muito semelhantes. Isso acontece porque, em virtude de seu carma, o país é vasto e rico, com muitos recursos naturais; por causa de seus vários grandes inventores, sua riqueza e tecnologia cresceram e progrediram; e graças ao governo democrático, as pessoas podem expressar suas esperanças livremente.

Essas três causas levaram a uma vida mecânica e tecnológica, que resultou em um estilo de vida rico e fácil. Por esse motivo, do ponto de vista dos fenômenos mundanos, os estadunidenses se tornaram os mais poderosos do mundo em termos materiais nesta geração.

Como eles têm possibilidades ilimitadas de criar incontáveis coisas no âmbito da substância, a mente de todos pode se transformar em um criador material. As criações materiais ocorrem de modo tão diligente e persistente, com uma mente tão rápida e competitiva, que eles colocam toda a sua energia na criação de substâncias externas visíveis e tangíveis. Essa ênfase é a causa da mente “o-que-está-acontecendo-vamos-descobrir” dos estadunidenses.

Acho que, de certa forma, de acordo com a visão mundana, eles aparentemente têm uma vida fácil e confortável. O transporte por metrô nas cidades é fácil; o transporte terrestre por ônibus é fácil; o transporte aéreo por avião é fácil. Se você quiser uma refeição fria, é fácil tirá-la da geladeira num instante. Se quiser uma refeição quente, é fácil prepará-la no fogão ou no micro-ondas num instante. Se quiser fazer compras, é fácil colocar sua comida num carrinho e comprá-la via computador num instante. Se estiver com frio no inverno, é fácil se esquentar em sua casa com o aquecimento central. Se estiver com calor no verão, é fácil se refrescar em sua casa com o ar-condicionado num instante. Se quiser conversar, é fácil ligar para alguém num instante. Se estiver sozinho e quiser companhia, é fácil ligar a televisão, escolher o canal e se entreter com os comerciais num instante. Como se diz, “leve numa boa ”.

Mas, para tornar as qualidades materiais confiáveis, a mente mecânica automaticamente isola os elementos externos dos elementos internos e, separados da energia de seus elementos internos, os elementos externos se tornam empobrecidos e áridos. O cimento duro e sem vida da rua fere os pés sensíveis e vivos. O calor seco e sem vida da casa envelhece a pele sensível e viva. Os canos de gás sem vida do fogão embotam o paladar sensível e vivo. O frio elétrico e sem vida da geladeira apaga o sabor sensível e vivo. As histórias rápidas e sem vida da televisão amortecem a mente sensível e viva.

Obviamente, se a energia mecânica fosse inesgotável, as qualidades materiais das invenções mecânicas poderiam servir inesgotavelmente. Mas, no fim das contas, as máquinas têm apenas uma energia material inerte e externa, e, uma vez que por natureza a matéria muda, e por natureza a energia externa diminui, “levar numa boa” às vezes nos leva ao extremo de já não aguentarmos mais. Como se diz, “já cheguei ao meu limite”.

Pela dependência constante das máquinas, a pessoa desenvolve o hábito de separar os elementos internos, invisíveis, intangíveis, dos elementos externos, visíveis, tangíveis. Como resultado desse hábito de separação, não se acumula energia nenhuma dentro e, cedo ou tarde, toda a matéria lá fora se esgota. Quando as qualidades materiais externas se esgotam, a mente, mimada pela dependência do conforto instantâneo das invenções mecânicas, também fica esgotada. Assim, o ânimo temporário e inerte das máquinas, por fim, é a causa do desânimo.

Dessa forma, quando a energia de uma máquina se esgota, causando uma pane mecânica, a mente que depende dela também fica esgotada, causando uma “pane nervosa”. Isso ocorre porque, diferentemente da mente natural incessante e confiável, uma máquina oferece apenas benefícios temporários, e não se pode contar com ela para oferecer conforto profundo e duradouro com qualidades naturais inesgotáveis. Assim, quando os benefícios temporários se esgotam, a depressão vem e as pessoas dizem: “Por que fazer qualquer coisa? Nada faz sentido”. Isto, contudo, é a depressão. Não é como a visão do praticante sobre o cansaço do samsara. O triste é que essa ideia de que nada faz sentido fica por isso mesmo. Elas não sabem ir do “nada faz sentido” para a criação de um sentido, por não acreditarem em um caminho espiritual.


Trecho extraído de “A Brief History Fantasy of a Himalayan”.


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