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Que felicidade você quer?

por 5/09/2010 13 comentários

Coisas da vida:

–  Sabe aquele emprego que você tanto almejava? Agora é dele e do seu chefe  que você tanto quer se livrar?

– Aquela linda e carinhosa namorada, com a qual você passou anos radiantes e felizes, agora é o ser que você gostaria de ver longe o mais rápido possível?

– Aquele carro que fez teus olhos brilharem na concessionária, que você tanto sonhava ter e finalmente conseguiu, é hoje a fonte da sua dor de cabeça, porque você não está conseguindo vendê-lo por um bom preço?

– O apartamento mobiliado, que lhe rendeu tantos longos sorrisos quando você o conquistou, agora parece um fardo, pois você tem que se mudar para outra cidade e precisa se desfazer dos pertences de alguma forma.

– A foto de um ser amado causava-lhe calafrios de felicidade e agora você não consegue nem olhar para a foto. Aliás, você já pensou várias vezes em rasgá-la?

O que há de comum em cada uma dessas historinhas tão corriqueiras em nossas vidas? O simples fato de que aquilo que um dia nos fez feliz, com certeza nos trará algum tipo de sofrimento. É quase matemático: o sofrimento virá na mesma medida e intensidade da felicidade, ensinam os mestres. A vida nos enche de tantos exemplos disso, e, mesmo assim, a maioria de nós nem desconfia desse fato. Como pode uma simples foto ser adorável e depois de um tempo detestável? Nada mudou na foto, certo? Mas o que mudou, então? Mudaram nossas disposições internas! Se nossas disposições internas mudam, aquilo que consideramos fonte de nossa felicidade hoje, amanhã pode já não ter mais esse poder!

Haveria então algum tipo de felicidade, que não trouxesse o sofrimento “de brinde”?

Para a nossa alegria essa felicidade existe! VIVA! Mas não é uma felicidade baseada em condições, é alguma outra coisa que não conhecemos bem.  E é justamente isso que o Budismo ensina: a alcançar a felicidade plena, e não a felicidade usual que estamos habituados a buscar. A felicidade usual é como um presente de grego, é uma farsa, uma fraude, porque  tem prazo de validade, é temporária, já que logo adiante nos traz sofrimento, pois nos desencantamos com as coisas.  Essa felicidade usual está dentro do que o Budismo chama de Roda da Vida, que nos leva inevitavelmente ao sofrimento.  É tão certo como 2 + 2 = 4.

Entendido isso?  Então, um passo importante agora seria não passar para o próximo passo, mas tentar compreender melhor essa história da felicidade.

Em geral, as línguas ocidentais chamam de “bom” aquilo que é positivo ou que traz prazer e de “ruim” aquilo que é negativo ou prejudicial. Pois existe uma palavra em páli que contém nela mesma o significado de felicidade e de sofrimento. Trata-se da palavra dukkha, que significa felicidade e sofrimento juntos, isto é, não há felicidade, que não traga junto com ela a semente do sofrimento. Isso pode parecer estranho para nós, porque não temos esse termo no nosso idioma, então achamos que o referente do termo não exista. Mas existe! Basta observarmos! Esse não é um dogma religioso, no qual os budistas acreditam cegamente e por isso são budistas. Basta olharmos para nossas vidas, para as coisas mais comuns do dia-a-dia, que acharemos muitos exemplos de dukkha. Aqueles casos citados acima, todos são dukkha!

Então, ao observamos essa felicidade que estamos buscando, essa felicidade condicionada, percebemos que lá pelas tantas ela nos trará algum tipo de sofrimento: quanto mais alto o salto, maior a queda.

Já ficamos como que avisados, e, quando o sofrimento de fato chega, não “nos pega” tão de surpresa, porque já sabíamos que viria! Diz-se que essa felicidade é condicionada, porque depende sempre de condições flutuantes. Colocamos sempre um “se”, isto é, um condicionante antes de nossas aspirações: se eu comprar aquela casa…, se ele ficar comigo…, se eu emagracer…, se fulano parar de me encher a paciência…, se não estivesse frio…, se eu morasse em tal lugar…

Esse “se” nos faz seres constantemente insatisfeitos, que pensam que mudando a configuração externa das coisas vão dar um jeito de eliminar o sofrimento.

Ao final do doce gostinho de dukkha, vem, inevitavelmente, o amargo gosto de dukkha. Aí fazemos cara feia e ficamos deprimidos, porque ignoramos o fato inevitável de que toda a experiência de felicidade condicionada trará algum tipo de sofrimento. TODA, sem exceção!

Aí o Budismo vem e diz: Se você realmente reconheceu que a felicidade condicionada traz o respectivo sofrimento condicionado, você pode optar por uma OUTRA felicidade, que não traga o sofrimento embutido. É simples assim.

Aí perguntamos com caras cheias de esperança: E que felicidade seria essa?  Como encontrá-la? O que eu tenho que fazer?

Então os mestres nos explicam minuciosamente, com métodos detalhados, passo a passo, como alcançar essa OUTRA felicidade, que não traga sofrimentos de brinde.

Enquanto vamos seguindo no caminho em busca dessa felicidade plena, podemos sorrir diante das nossas aspirações de felicidade comum. “É pelo riso que liberamos nossas fixações, que tiramos a solidez das coisas”, nos lembra Lama Samten incansavelmente. Podemos rir das situações-dukkha que vivenciamos. De tanto rirmos, de tanto percebermos que essa felicidade comum e autocentrada que buscamos não nos levará a lugar nenhum, reforçaremos nossa motivação para seguir um caminho espiritual.

São infinitos os exemplos de dukkha que achamos em nossas vidas, mas quero compartilhar um com vocês, para que possam rir também. Há uns anos atrás eu tinha tempo, mas não tinha dinheiro para fazer retiros. Na época eu pensava: “ah, se eu tivesse dinheiro…” Agora tenho dinheiro, mas não tenho tempo! É engraçado! Boa e velha dukkha!

Se você tiver situações-dukkha que queira compartilhar para que todos possamos rir juntos escreva um comentário.

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Stela é uma aspirante à iluminação. Porém, tem diferentes distrações e desculpas esfarrapadas para não meditar. Pode ser encontrada no CEBB Caminho do Meio. | Leia outros posts de


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13 comentários »

  • Tweets that mention Que felicidade você quer? | Bodisatva: um olhar budista -- Topsy.com disse:

    […] This post was mentioned on Twitter by Janayna Samya, fernando vargas. fernando vargas said: Que felicidade você quer? | Bodisatva: um olhar budista http://goo.gl/SxIb […]

  • Sandra disse:

    Meu momento Dukkha e o seguinte: Fui casada com um homem muito rico e tinha tudo que desejava materialmente.Eu era infeliz pois ele era muito louco e para poder viver este dinheiro todo bebia e me drogava muito. Me divorciei dele faz cinco anos e neste momento sofro uma situaçao financeira deploravel. Nao tenho dinheiro pra nada…..acabei de criar uma marca de bolsas e estou trabalhando por conta. Porque estou no começo passo dificuldade financeira todo dia.As vezes nao tenho oque comer. O outro lado desta situaçao e que nao bebo e nao me drogo mais. Realmente estou vivendo em Dukkha!

    Tem como mudar o momento de Dukkha?

  • Ana Carmen Castelo Branco disse:

    Essa de tempo versus grana sempre me pegou. Durante muitos anos, fiquei desempregada, dentro de casa e nunca tinha dinheiro prá nada. Fiz tanto Ngöndro e nada de fazer o Dzogchen. Agora, aposentei e tenho o dinheiro e o tempo, mas estou velha e falta-me coragem de viajar sozinha. Tenho que fazer um esforço danado prá vencer minha insegurança! Dukka!

  • Ana Carmen Castelo Branco disse:

    Ah! O Dzogchen eu fiz! Mas fui sozinha pro Khadro Ling! Agonia. Dukka!

  • Ralph Antunes
    Ralph Antunes disse:

    No Dukkha, a ordem não é necessariamente felicidade e depois sofrimento. Pode ser o inverso também. Qualquer um que torça por um time de futebol sabe do que eu estou falando. A ilusão está em querer congelar os bons momentos e fugir dos maus. Querer ser campeão todo ano.

  • Lucas disse:

    No começo do texto comecei a pensar: “se a felicidade baseada na objeto-referência trará sofrimento, então o que irá fazer eu me mover? Ou seja, o que irá fazer eu seguir em frente?”

    No meio do texto passei para o seguinte: “bom, talvez deveria buscar a auto-referência e realizar meus carmas com alegria. Ou seja, toda e qualquer busca pela felicidade baseada no objeto-referência pode se chamar de carma? Mas eu não quero mais os carmas? Será que não mesmo? E agora? Conflito!”

    No final: “buscar a felicidade interna ou externa, seria apenas questão de enxerga-las no modo como aparecem. Tanto interna como externa, estão lá. Sempre. Realização de carmas com alegria e gratidão depende do nosso conhecimento do quanto estamos interligados a tudo e o quanto eu posso realizar de maneira tranquila e alegre que irá trazer alívio para tudo ao meu redor. Começando em mim.
    Criar felicidade mesmo sendo dukka, não é o problema. Basta ter o conhecimento que pode ter vários formatos e tudo é transitório. No final, a fonte inesgotável de refúgio estará disponível e poderá ajudar a nos organizarmos de forma clara a aos poucos, sentimos que depois de um longo tempo, estamos desfrutando de resultados positivos e uma vida um pouco mais tranquila.”

  • Be disse:

    Sandra e Ana, estou apenas começando a aprender. Percebo esse sofrimento relatado pelas duas, e às vezes quando me vejo no auge de algum sofrimento, busco tanto tanto a compaixão! E justamente hoje li uma frase do Lama: “Compaixão é reconhecer no outro sua natureza estável, perfeita, luminosa, sua condição verdadeira, quebrando o encanto dos jogos mentais que estão produzindo as complicações.”
    Então, parece tão simples não é mesmo? Simples assim, reconhecer nossa natureza e condição verdadeira e quebrar o encanto de tais jogos mentais geradores de complicações. Tomei então a decisão de prosseguir nesse “refúgio” de valor incalculável que encontrei e que flui e se realiza através do CEBB. Além disso gostaria de compartilhar um momento especial, o de assistir a esse vídeo de onde flui compaixão:
    http://youtu.be/bkS1HounA7Q

    Gostaria de pedir àqueles que estão mais lúcidos que me corrijam em quaisquer palavras e idéias veiculadas que não estejam em concordância ou não sejam benéficas por causa de minha condição de aprendiz, posso cometer erros e peço ajuda dos demais. Obrigada a todos do CEBB por tudo o que têm me ensinado.

  • Dayse Galhardo Camara disse:

    Meu dukkha é que sonhava em trabalhar num lugar, e ganhar bem, para poder comprar as coisas que quisesse. Hoje tenho esse trabalho (informática)O mas não sou feliz, e agora acho que mudando para outra area (moda) é que seria a solução da minha infelicidade. Só que na verdade isso seria outro dukkha né?

  • rosimeire silva disse:

    Gostei muito eu queria poder encontrar com a minha verdadeira e momentanea felicidade,conseguir realizar pelo menos alguns dos meus sonhos.mas vivo na expectativa de dias melhores e sonhos realizadoos.sou com a tartaruga ando em pssos lentos sem muitas espectativas

  • Roberio disse:

    O comentário de Lucas me fez lembrar do Filósofo,Psicólogo e Psiquitra Viktor Frankl que sobreviveu aos campos de concentração mais letais.Ele foi criador da Logoterpia, a cura através dos sentidos.Ele relata que mesmo vivendo o pior dos infernos qualquer ser humano é capaz de guardar dentro de si, lá o íntimo, a chama que o faz ser dignamente humano. E a busca por essa dignidade humana é que faz do homem ser feliz.

  • Luiz Nicolau disse:

    Equanimidade, paciência, amor, compaixão e disciplina pra meditar.
    Que em 2013 todos possam alcançar suas metas com lucidez e equilibrio!
    Luiz Nicolau

  • paulo cesar pomermayer disse:

    minha mensagem e de vida. tenho 45anos , sou homem feliz porque , tenho 4 filhos. sim, so poriso ja ganhei vida…agora passo vcs assim saiba admistrar zero. em sua s vidas, primeiro tire tudo ruim de saus vidas. pessoas coisas , ruins roupas velhas, sabatos velhos tire tudo , fora ,de sua vida. olhe sempre uma estrela diga eu posso eu vou eu quero.ser feliz se r feliz. assim vc se conhecera , primeiro desejo sorte primeiro vc depois , para os outros.dsejo amor vc primeiro de pois outra pessoa. sempre de melhor d e suas vidas sempre de melçhor nunca de qaulquer coisa pela metade, por metade vc ganhar viu. sempre , lembre quem planta vento cobre temporal..beijos

  • paulo cesar pomermayer disse:

    vc tem ter gosto pela vida. sinta sempre bela e belo pra vida. se olhe assim dseje assim, so assim vc sabera que vento lhe troce. daquele dia ou na quela noite. nunca duvide de vc , se vc duvida de vc mesma , quem noa duvidara vc.felicidades so so se conquisatr com atos de carrinho bondade principalmente muita amizades sinceras. olha tem muitas , por ai. neste momento olhando sua direçao , so basta vc, tb crer e tudo possivel. noa seja um preza facil. noa facilite , observe observe. respire. respire. amor facil preza facil . beijos..

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