Grafitti no Rio de Janeiro. Foto: harry__george

A Refundação do Brasil

Livro de cientista político descreve a brutalidade envolvida na fundação do Brasil como uma empresa e aponta para uma refundação humana

Por
Revisão: Fábio Rocha
Edição: Lia Beltrão

Frequentemente apontado pelo Lama Samten em suas palestras como um livro-chave para entendermos o Brasil e nos reencantarmos com uma nova possibilidade de pensá-lo e vivê-lo, o livro A Refundação do Brasil, do cientista político Luiz Gonzaga de Souza e Lima, é objeto desta resenha de Dirlene Ribeiro Martins para a Bodisatva. O texto nos introduz às principais ideias trazidas pelo livro: a descrição clara sobre uma terra explorada, desde o início, por um olhar privatizador e coorporativo, mas que guarda os elementos de sua própria e humana refundação. Um livro para afinarmos nosso olhar sobre a bolha-Brasil e identificarmos os elementos que já temos para sonhar em outras e mais lúcidas direções.


O livro A Refundação do Brasil: rumo à sociedade biocentrada é fruto de 20 anos de reflexões sobre o Brasil. Em suas 338 páginas, o autor explica, de forma simples e didática, a estrutura econômica, social, política e cultural da formação social que aqui foi construída. Dentre os muitos méritos do livro está o de nos permitir um novo olhar sobre o que o Brasil é na sua essência. Sempre tentamos nos compreender com o olhar de fora, antes europeu, hoje americano. Aliás, aprendemos com muita competência a construir o olhar deles sobre nós. Mas A Refundação do Brasil traz um olhar nosso, do nosso ponto de vista. É um olhar brasileiro sobre o Brasil.

Tendo por ponto de partida a chegada dos europeus ao nosso território, o cientista político e professor Luiz Gonzaga de Souza Lima mostra que no país não foi construída uma sociedade, como sempre se supôs, mas uma grande empresa internacional, globalizada, com vocação mundial. O nosso território foi privatizado em 1532, dividido em fatias que foram entregues a consórcios empresariais internacionais. O que foi realizado nesses imensos pedaços de terra concedidos hereditariamente aos novos proprietários? Empresas!

Os engenhos eram empresas agroindustriais avançadas, que passaram a produzir para a Europa e para todo o mundo milhares de toneladas de um bem até então raro: o açúcar. O Brasil foi o primeiro elo articulador da economia global.

Aqui não existiu uma sociedade humana que tenha dado vida, na sua trajetória histórica, a um tipo novo de economia. No caso brasileiro ocorreu o contrário. Foi um tipo novo de economia, internacionalizada, que criou uma nova organização social dos humanos. Nasceu aqui o que Souza Lima chama de Formação Social Empresarial.

Tudo transformado em mercadoria

A Empresa Brasil, destaca o autor, dissolveu sociedades para se estabelecer. Dissolveu as sociedades indígenas que viviam em nosso território e submeteu os remanescentes à servidão e à escravidão. Tudo foi transformado em mercadoria, até os humanos. Os escravos eram contabilizados como bens, eram comprados e vendidos, e sua presença aqui não era fruto de imigração, mas considerada importação. Eles eram incorporados ao trabalho e excluídos de toda a vida social, reservada para uma minoria que se autodenominava de sociedade.

Outros milhões de humanos passaram simplesmente a viver uma nova situação desconhecida: a exclusão. Seus territórios foram invadidos e apropriados pela Empresa Brasil, o tal processo de colonização. Foram excluídos dentro de seu próprio país, argumenta o cientista político, sua propriedade lhes foi arrancada.

No mundo daquela época, os sistemas sociais serviam para integrar os humanos, reconhecê-los como membros do sistema – mesmo em forma desigual. Aqui não. Aqui o sistema social criou a exclusão. “Essa formação social desequilibrada, moderna e, sobretudo, injusta criou o que se pode chamar de desequilíbrio estável. Do ponto de vista formal, durará mais de 350 anos, mas suas características estruturais chegam até nossos dias”, explica Souza Lima.

Dois softwares frente a frente

O modo como os humanos são organizados e vivem constituem uma espécie de software social, conceito que é muito bem apresentado e desenvolvido no livro.

Naquele 22 de abril de 1500, naquela praia da Barra do Cahy, ficaram frente a frente dois softwares sociais: aquele centrado na vida e na harmonia com a natureza, o software social da vida, das nossas tribos, e aquele dos que chegavam, no qual a vida era uma energia instrumental para ser manipulada com fins de êxitos individuais, da dissolução de povos, culturas e natureza.

Prevaleceu o segundo. Muitas humanidades foram destruídas para assegurar sua afirmação e, junto com essa tragédia humana, foi também destruída e degradada parte significativa da herança cósmica de todas as espécies vivas do planeta Terra. O software social moderno terminou por conduzir todas as sociedades a um impasse novo para os humanos. Agora está ameaçada a sobrevivência da própria espécie humana, além de outras milhares de espécies sobre o planeta Terra.

 

Observada a quinhentos anos de distância pode-se dizer que a Empresa Brasil, a criação da Formação Social Empresarial e do Estado Econômico Internacionalizado foram como um tsunami permanente, uma gigantesca e profunda intervenção sobre a humanidade, modificando-a profundamente.

Milhões de habitantes foram dizimados, e outros milhões transportados para continentes diferentes daqueles em que nasceram. Dissolveram-se culturas e etnias. Entretanto, reconhece o autor, esta intervenção gigantesca sobre a trajetória histórica da humanidade gerará outros frutos além da Empresa Brasil e de seus derivados institucionais. Trata-se do povo novo que aqui nasceu e da cultura que este povo criou.

Uma sociedade humana de verdade

Assim, Souza Lima, embora nos mostre os detalhes brutais que envolveram a ocupação do território brasileiro, nos enche de esperanças, com seu entusiasmo, ao abordar a refundação do Brasil como sociedade biocentrada, uma sociedade humana de verdade.

Diante da crise civilizatória contemporânea, marcada por confrontos e conflitos entre civilizações, entre culturas e etnias, ser naturalmente multiétnico, aberto à cultura e às características do outro, conviver com elas, vivê-las na intimidade, possui um valor imenso. É um dos mais importantes recursos que o Brasil possui. O Brasil é o futuro. Se um dia a humanidade for um só povo, ele será parecido com o povo brasileiro”, garante o autor.

Para Souza Lima, a perversidade estrutural do encontro que nos gerou está marcada para sempre, mas a trajetória brasileira mostra que se impõe a busca de outro modo de convívio, impõe-se a criação de outra forma de organização social para abrigar este encontro tão importante, impõe-se a construção de outro modo social de ser, que acabe com a exclusão e a desigualdade.

Certamente saberemos construir este novo sistema social fundado na igualdade entre os povos que aqui vivem, descendentes daqueles que cinco séculos atrás aqui se reuniram, no respeito às populações originárias, aos que chegaram e a seus descendentes.
Um sistema social em que todos manterão suas dignidades, sua autonomia cidadã, onde o encontro e a fusão ocorrerão somente pelo prazer e pelo amor. E ocorrerá. Isso porque ser mestiço é ser esta síntese humana que os brasileiros exprimem. Um povo bonito e alegre, cheio de originalidades e belezas. A construção deste novo sistema social é a Refundação do Brasil.

O teólogo Leonardo Boff, que escreveu o Prefácio do livro, acredita que Souza Lima está na linha dos grandes intérpretes do Brasil, a exemplo de Gilberto Freyre, de Sérgio Buarque de Hollanda, de Caio Prado Jr., de Celso Furtado e de outros. “A maioria desses clássicos intérpretes olharam para trás e tentaram mostrar como se construiu o Brasil que temos. Souza Lima olha para frente e tenta mostrar como podemos refundar um Brasil na nova fase planetária, ecozoica, rumo ao que ele chama de ‘uma sociedade biocentrada’.

Como é ressaltado no final do livro, os conteúdos da refundação não precisam ser construídos nem buscados fora. Encontram-se já na nossa cultura, na intimidade da nossa alma mundial. São a essência dela e, ao mesmo tempo, seus motores criativos mais poderosos. Construir um sistema social coerente com os valores centrais da cultura brasileira é a refundação do Brasil. Como fomos fundados como empresa, toca-nos construir pela primeira vez em nosso território uma sociedade humana de verdade.

Sociedade não se faz com economia. A que se faz com economia é esta que aí está. Sociedade se faz com reconhecimento, afeto, perdão. Sociedade é a organização social que permite e ajuda seus membros a serem felizes.

a refundação do brasil

A Refundação do Brasil: Rumo à Sociedade Biocentrada, de Luiz Gonzaga de Souza Lima.

Você pode adquirir o livro, publicado pela RiMa Editora, aqui → 


1 Comentário

  1. Luciene Soares Cardoso disse:

    Me pareceu imprescindível a leitura deste livro. Abre nos uma perspectiva real de criacão de nossa nação!
    Prefácio do L. Boff já valeria como um.convite irrecusável a esta viagem, ao que me parece maravilhosa!

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