Foto: Cassi Josh

Saúde mental na medicina tibetana

Uma perspectiva fundamental, holística e dinâmica sobre conceitos de saúde e doença.



Há, na tradição médica tibetana, uma teoria compreensiva sobre a personalidade, um sistema de diagnóstico e uma teoria de patologia. As influências da Ásia Central, principalmente da Índia, China e Pérsia, amalgamaram-se intimamente no Tibete. Ali, na medicina como no budismo, foi preservada com mínimas alterações a maioria das teorias e dos conceitos correntes entre o 8º e o 13 º séculos. Para os ocidentais, intrigados pela concepção pan-asiática de uma energia vital universal subjacente, chamada de prana ou chi, o sistema médico religioso tibetano dá uma visão detalhada dos padrões desta energia e das manifestações de seus distúrbios. Uma compreensão especial das armadilhas mentais da prática da meditação faz parte o estudo tibetano da doença mental. A tradição tibetana da compreensão da mente data de uma época remota mas viva, e de grande valor para a pesquisa. A análise de plantas usadas por essa tradição nos últimos 200 anos, por exemplo, apenas começou.


 

Os sistemas de filosofia, religião e medicina asiáticos partilham uma crença fundamental: há uma energia, força vital que perpassa o organismo humano. Esta energia viva, chamada prana em sânscrito e de chi pelos chineses, subjacente aos fenômenos psicológicos, move-se em canais pelo corpo. Diz-se que ela se dissolve na morte, está bloqueada ou rompida na doença e é canalizada ou controlada pela prática da meditação. Uma energia semelhante é postulada por terapias ocidentais, como bioenergética.

Prana ou chi deve estar em equilíbrio nos diversos fenômenos – respiração, ar, vento – e na força vital. Neste texto, “vento” pode referir-se aos efeitos vitais da respiração, e o termo “energia” não parece ter exatamente o significado que a ciência ocidental lhe atribui. Todas as forças do universo, tais como as da mente humana, da mais alta consciência ao âmago do subconsciente, são modificações de prana. Portanto, esta palavra pode não significar exatamente respiração física, embora a respiração, no sentido estrito, seja uma das manifestações da força universal primordial chamada prana. Pela respiração extrai-se essa energia do ambiente. Assim, o controle do processo respiratório durante a meditação afeta o movimento de prana.

Há, na medicina e na psiquiatria chinesa, um conceito fundamental, holístico e dinâmico sobre saúde e doença. Saúde e doença são descritas como fluxo e impedimento de fluxo de energia vital pelo corpo. Esta energia, denominada chi, que significa literalmente ar ou gás, pode ainda significar vento, respiração, energia, grão ou arroz. O ideograma chi associa ar e alimento no corpo, sugerindo o processo de combustão ou metabolismo gerador de energia.

Os três aspectos do prana

  1. A energia subjacente
  2. Os canais em que a energia se movimenta
  3. As correntes no interior dos canais

A energia subjacente é a fonte da vida. Frequentemente simbolizada pelo sêmen, semente de todas as formas, ela permeia todas as coisas e é indefinível. Não tendo realidade em si mesma, é fruto da interdependência.

Os canais onde esta energia se move chamam-se nadis, em sânscrito, e tsas em tibetano. Eles são uma espécie de sistema nervoso psíquico, cuja anatomia os praticantes de meditação tântrica conhecem bem. Os chineses também postulam a existência, no corpo, de meridianos, através dos quais chi se movimenta.

O movimento desta energia nos canais do organismo é vayu, em sânscrito, e lung, em tibetano. Vayu vem de “va”, respirar, soprar, e refere-se ao poder motor de prana. Este movimento controla as funções corporais.

A saúde depende da manutenção de cada “ar vital” em estado de normalidade, dentro de seu próprio canal.

A tradição tibetana provou, explorou e descreveu os padrões complexos desta energia tão profundamente quanto possível. Tanto os médicos quanto os religiosos dão ênfase a estas correntes de energia psíquica. Muito da medicina e da psiquiatria tibetana está relacionado a manifestações e tratamentos de rompimentos ou bloqueios no fluxo de prana. Sempre que a tradição tibetana fala de lung está se referindo ao movimento ou fluxo desta energia no ser humano.

De fato, quando a medicina tibetana examina a mente e as desordens mentais, torna-se claro que essas correntes de prana promovem a saúde ou a doença. Os textos médicos tibetanos estão repletos de descrições de disfunção no fluxo prânico. E os textos religiosos extensamente elucidam a reorganização dessas correntes em situações como a morte ou a meditação. Uma compreensão da abordagem tibetana da mente não é possível sem a apreciação do caráter das correntes prânicas.

Sistemas de psicologia

Os conceitos tibetanos de personalidade derivam de dois ramos dos textos budistas: os ensinamentos tântricos sobre a natureza da mente (particularmente os chamados “Yoga Tantra Superior”), e o sistema de sutras de Abidarma.

Os ensinamentos tântricos enfatizam os aspectos espiritual e emocional da mente nas manifestações de consciência sutil durante a morte, durante o estado intermediário (Bardo) e durante o nascimento. Esses estados são especificamente cultivados em práticas de meditação avançada.

O Abidarma é uma teoria psicológica sistematizada na observação momento-a-momento da mente humana em meditação. Ele descreve a mente como uma constelação de fatores mentais salutares, aflitivos e neutros, que apresentam qualidades perceptivas, cognitivas e afetivas. E segue analisando a radical reestruturação dos conteúdos mentais que ocorre através da prática de meditação. Dos três tipos de fatores mentais, os fatores aflitivos (ganância, ódio, orgulho, inveja, falta de introspecção, etc.) são vistos como as causas básicas e últimas, tanto de doenças mentais quanto orgânicas. Fatores aflitivos só podem ser arrancados e destruídos pela prática de meditação.

Três fatores mentais aflitivos em particular são considerados como as raízes de todos os estados predisponentes da mente, quais sejam: desejo ou apego (agarrar-se aos objetos e experiências prazerosas); ódio, raiva ou aversão (fugir ou evitar objetos e experiências desagradáveis); ignorância ou confusão (compreensão não-clara da natureza de um dado objeto ou experiência).

A saúde mental, definida como a mente liberta da inflamação dos fatores mentais aflitivos, é a meta do processo de meditação.

Para quem não atingiu esta meta, uma certa quantidade de desarmonia é inevitável. Ao lidar com distúrbios mentais, a medicina tibetana reconhece a imperfeição da mente não-iluminada e não tenta alcançar o impossível. Porém, certos estados mentais “ainda não-iluminados” são descritos e tratados pela medicina tibetana.

Em psicopatologia, a classificação de doenças nervosas e mentais é feita em textos de medicina superior. A psiquiatria tibetana é um aspecto do sistema médico como um todo. Conceitos de etiologia, método de diagnóstico e formas de tratamento são aplicados tanto a distúrbios físicos como mentais. Os médicos são treinados para reconhecer e tratar desordens mentais tão bem quanto outra disfunção orgânica, e não há “especialistas” no tratamento das psicologias.

História

O Tibete abriu suas portas às influências culturais e religiosas de outras sociedades no século VII. Com o alfabeto tibetano adaptado do sânscrito durante o reinado de Songtsen Gampo (627-649), surgiram as primeiras traduções dos textos budistas indianos e chineses. A preservação desses ensinamentos durou até o século XIII, quando a Índia foi invadida pelos muçulmanos e a China dominada por Gengis Khan. Mas, durante os séculos de transmissão cultural, os mais famosos tradutores e líderes religiosos foram também mestres da teoria médica.

A ciência médica tibetana pode ter surgido numa conferência de medicina organizada pelo rei Songtsen Gampo, que convidou doutores da Índia, China e Pérsia para sua corte. Cada um deles traduziu um texto para o tibetano e seus debates contribuíram para o surgimento de outras obras. O doutor persa, chamado Galeno, cujo nome refletia a origem grega e seus ensinamentos, ficou no Tibete como médico do rei.

Houve uma conferência internacional ainda maior no reinado de Trisong Detsen (800-815). Representações da Índia, de Khasmir, China, Pérsia, Nepal, Afeganistão e Sinkiang estiveram na corte. Novamente, cada visitante traduziu ao menos um texto da sua tradição. Houve discussões e debates, e vários jovens tibetanos foram escolhidos como guardiões do conhecimento médico até então acumulado. Entre eles estava um dos mais célebres médicos tibetanos, Yutok Yonten, que viveu de 786 a 911. Na oportunidade, o representante chinês permaneceu no Tibete como médico real.

A parte mais importante dos textos médicos tibetanos é a quarta, cujo capítulo 156, chamado Gyu Shi, ou “Os quatro tantras orais secretos sobre os oito ramos da tradição médica”, é uma compilação do texto sânscrito Amirta Ashtanga Guhyopadesha Tantra, por sua vez compilado no quarto século. O trabalho original jamais foi encontrado ou citado na tradição médica indiana.

O Gyu Shi ainda é o mais popular, estudado e comentado dos textos médicos tibetanos. Divide-se em quatro partes. A primeira, ou Tratado Essencial, examina oito grupos de doenças: corporais, femininas, infantis, nervosas, por ferimentos, por envenenamento, geriátricas e infertilidade. A segunda, ou Tratado de Explicativo, classifica o diagnóstico, o tratamento e a doença. A terceira, ou Tratado de Instrução, descreve em detalhe cada doença, incluindo uma seção sobre doença nervosa e mental. A quarta parte, ou Tratado Final, descreve métodos de diagnóstico, inclusive a anamnese, o modo de examinar pulso e urina, e métodos terapêuticos como prescrição de dietas, modificação comportamental e de hábitos, ervas medicinais e moxabustão. Este e outros textos estão catalogados e disponíveis, muitos ainda sem tradução para línguas ocidentais, no Centro Médico Tibetano, Dharamsala, Índia.


Mark Epstein é formado em medicina pela Universidade de Harvard e Sonam Topgay, monge budista tibetano, pela Universidade de Vishwa Bharati, da India. Este artigo, publicado originalmente em ReVision Magazine, foi adaptado, traduzido para o português por Enio Burgos e publicado na Revista Bodisatva nº6, em 1993. Hoje, revisitamos parte desta matéria que contém treze páginas recheadas de informações sobre a importância do equilíbrio, a natureza do lung, desordens, distúrbios, sintomas de lung e tratamento e convidamos vocês para ler a matéria completa e seu conhecimento atemporal na Bodisatva nº6, disponível em nossa loja online.

Acervo Bodisatva

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2 Comentários

  1. Ormando M.N. disse:

    Que incrível este texto! Um tesouro! Adorei ler sobre a história da medicina tibetana ^^

    Hoje traduzi uma entrevista com Tenzin Wangyal onde ele fala sobre os cinco elementos (terra, água, fogo, ar e espaço) no xamanismo, no tantra e no dzogchen: https://medium.com/@andarolhar/descobrindo-o-sagrado-uma-entrevista-com-tenzin-wangyal-rinpoche-232cc4d66a93 :}

    Om Mani Padme Hum ~;~

  2. Gabriel disse:

    Muito bom! Uma riqueza que complementa nossa visão atual da saúde mental. No ocidente ainda há muitos debates com relação à classificação das doenças psi e seus subsequentes tratamentos. De um lado, autores entendem que a proliferação de diagnósticos reflete uma tendência em patologizar toda esfera de expressão subjetiva, ou ainda por se tratar de um efeito do contexto geral que está propiciando tantas desordens; outros, entendem como manifestações genéticas/sociais que só são devidamente diagnosticadas no presente, antes passadas “em branco” pelas limitações epidemiológicas da época. O texto instiga nossa curiosidade para saber um pouco mais sobre como se dá esse tratamento com o foco nos lugs ou chi. Obrigado!

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