Ven. Thubten Chodron

Sorvete de chocolate e lixo

Thubten Chodron nos ajuda a evitarmos a trincheira das falsas aparências do caminho espiritual

Por
Revisão: Danilo Martelli
Edição: Janaína Araújo
Transcrição: Alexandre Yugo Okamoto

O propósito do Darma é nos ajudar a relaxar e a desfrutar a vida. Ele nos ensina como libertarmos de emoções e atitudes destrutivas que nos impedem de sermos felizes: como aproveitar a vida sem nos apegarmos às obsessões e preocupações que nos afligem, limitam e aprisionam. Thubten Chodron nos ajuda a olhar para o caminho espiritual dessa maneira: sem jogarmos sorvete no lixo.

Formada em História pela UCLA, ela lecionou em Los Angeles. Em 1975, após a assistir a um curso sobre meditação ministrado pelo Lama Yeshe e por Zopa Rinpoche, ela foi para Índia e o Nepal aprofundar seus estudos. Ordenada monja budista em 1977, Chodron foi professora no Amitahba Buddhist Centre, em Cingapura, antes de lecionar na Darma Friendship Foundation.

Fundou um monastério budista nos Estados Unidos (Sravasti Abbey, em Washington) e viaja por todo mundo conduzindo retiros de meditação. Neste texto do acervo da revista Bodisatva n.08, esta experiente lama gelug, autora de vários livros, teve este artigo condensado pela Bodisatva. A tradução foi de Dorothy Gomes Carneiro e digitado por Bruno D’Avanzo e Maria Teresa Mariella, todos de Curitiba.

Ven. Thubten Chodron


Costumamos ouvir dos grandes mestres: a prática do budismo é boa. Ela dá felicidade nesta e nas futuras vidas. E pensamos: “humm… parece interessante”, mas quando tentamos segui-la, por vezes ficamos confusos. Há tantos tipos de prática! “Eu deveria fazer prostrações ou oferendas? Talvez seja melhor meditar. Mas cantar é mais fácil, talvez eu deva dedicar-me a isso.” Comparamos nossas práticas à de outros. “Meu amigo fez cem mil prostrações em um mês. Mas meus joelhos doem e eu não consigo fazê-las”. Pensamos nisso com inveja. Algumas vezes dúvidas vêm à nossa mente e imaginamos: “Outras religiões também falam sobre moralidade, amor e compaixão. Por que deveria eu limitar-me ao budismo?” Ficamos assim, rodando em círculos, e nesse processo perdemos a visão do real significado daquilo que estamos querendo fazer.

Para resolver nossos problemas necessitamos entender o que significa seguir os ensinamentos de Buda. Olhemos além do significado restrito das palavras: “Eu sou um budista.” Olhemos além da aparência de uma pessoa religiosa. O que desejamos de nossas vidas, essencialmente, não é encontrar algum tipo de felicidade duradoura e auxiliar os outros?

As pessoas não precisam se chamar de budistas para praticar o Darma e receber benefícios. No Tibete, curiosamente, não existe a palavra “budismo”. Isto é digno de nota, pois às vezes nos apegamos tanto ao nome das religiões que acabamos esquecendo seu significado e passamos a defender a nossa pela crítica à dos outros. É uma ousadia desnecessária. De fato, o termo “Darma” inclui qualquer ensinamento que, se praticado corretamente, leva à felicidade. Isso não exclui ensinamentos de outros guias religiosos. Há exemplos em abundância.

A disciplina moral que leva à renúncia do crime, do roubo, da mentira, da prevaricação sexual e do uso dos tóxicos é ensinada em muitas religiões, bem como o amor e a compaixão para com os outros. Esta é a prática do Darma, benéfica para todos, quer nos chamemos de budistas, hinduístas, ou cristãos. Isto, porém, não quer dizer que todas as religiões sejam iguais em todos os aspectos, pois não são. Contudo, os aspectos de cada uma delas que nos levam felicidade última e temporal devem ser praticados em todas elas, seja qual for a religião com a qual nos identificamos.

É extremamente importante que não nos deixemos confundir pelas palavras. Às vezes as pessoas me perguntam: “Você é budista, judia, cristã, hinduísta ou maometana? Você é seguidora do mahaiana ou do teravada? Segue o budismo tibetano ou chinês? É gelug, kagyu, sakia ou ningma?” A essa complexidade de conceitos apenas replico, “sou um ser humano em busca do caminho da verdade e da felicidade, que deseja tornar sua vida benéfica para os outros.” Este é o princípio e o fim daquelas questões.

Encontrei um caminho que se adapta às minhas inclinações, mas não há necessidade de apego às palavras, “sou budista da variedade tibetana e pratico a tradição gelug.” Já tornamos as palavras bastante simples em conceitos concretos. Não é essa prisão de categorias fixas e limitadas que estamos tentando eliminar de nossas mentes? Se nos apegarmos a esses rótulos de forma apaixonada, então não teremos outra escolha além de discutir e criticar quem possa ter rótulos diferentes. Já existem tantos problemas no mundo, para que criar outros com pontos de vista religiosos fanáticos e injuriosos aos outros?

Um coração generoso é a principal coisa que estamos querendo desenvolver. Se saímos, como criancinhas, dizendo “a minha religião é esta, a sua é aquela, mas a minha é melhor que a sua”, isso é o mesmo que jogar sorvete de chocolate no lixo – o que era uma coisa deliciosa perdeu-se. Seríamos muito mais sábios se, em vez disso, olhássemos para dentro de nós mesmos e aplicássemos um antídoto para a intolerância, o orgulho, as fixações.

O verdadeiro critério para a identificação de uma pessoa religiosa ou espiritual é saber se temos um coração generoso em relação aos outros e uma sábia abordagem de vida. São qualidades internas, que os olhos não podem ver. Elas são obtidas pela busca de uma compreensão honesta de nossos pensamentos, palavras e ações, discriminando o que deve ser estimulado e o que deve ser abandonado, para nos engajarmos em práticas que desenvolvam a compaixão e a sabedoria, com o objetivo de transformar a nós mesmos.

Enquanto tentamos praticar o Darma, é bom evitar a trincheira das falsas aparências. Há a história de um tibetano que desejava praticar o Darma e, por isso, passava os dias girando em torno dos monumentos com relíquias santas. Seu professor aproximou-se dele e disse: “O que você está fazendo é muito bonito, mas não seria melhor praticar o Darma?” O homem coçou a cabeça. No outro dia, começou a fazer prostrações. Fez centenas de milhares de prostrações, e quando contou ao mestre ele lhe disse: “Isso é muito bonito, mas não seria melhor se você praticasse o Darma?

Perplexo, o homem passou a recitar as escrituras budistas em voz alta. Quando seu professor voltou, novamente comentou: “Muito bem, mas não seria melhor praticar o Darma?” Verdadeiramente desnorteado, o homem, exasperado, perguntou: “Mas o que significa isso? Eu pensei que estava praticando o Darma!” O mestre foi conciso: “A prática do Darma consiste na mudança de atitude em relação à vida e no abandono das fixações em relação às coisas da vida.”

A verdadeira prática do Darma não se pode ver com os olhos. A verdadeira prática consiste na mudança de nossa mente, não apenas do nosso comportamento, para que pareçamos felizes, abençoados e que os outros possam dizer, “Uau! Que pessoa maravilhosa!” Anteriormente já gastamos nossas vidas simulando atitudes em um esforço para convencermos a nós mesmos e aos outros de que somos aquilo que de fato não somos. Não precisamos mais criar uma fachada de pessoa feliz. O que realmente precisamos é mudar a nossa mente, nossa maneira de ver, interpretar e reagir ao mundo ao redor e dentro de nós.

O primeiro passo para a realização do que foi dito consiste em sermos honestos com nós mesmos. Tendo uma visão precisa de nossas vidas não teremos medo nem vergonha do conhecimento de que “nem tudo está completamente correto em minha vida. Por melhor que seja a situação à minha volta, por mais dinheiro e amigos que eu tenha, apesar de minha reputação, ainda assim eu não me sinto satisfeito. É também verdade que tenho muito pouco controle sobre meu gênio e minhas emoções e não posso evitar as doenças, a velhice e finalmente a morte”.

Então verificamos por que e como estamos nesse transe. Quais são as suas causas? Pela observação de nossa própria vida chegamos a entender que nossas experiências estão firmemente ligadas à nossa mente. Quando interpretamos uma situação de uma maneira que nos desagrada ficamos infelizes e tornamos miseráveis as pessoas em torno de nós. Quando vemos a mesma situação de uma outra perspectiva, ela não mais nos parece intolerável e agimos sabiamente e com uma mente tranquila. Quando somos arrogantes, não é de se espantar que os outros sejam arrogantes conosco. Por outro lado, uma pessoa com atitudes altruísticas sempre atrai amigos. Nossas experiências são baseadas em nossas próprias atitudes e ações.

A nossa situação atual pode ser mudada? Claro que pode! Pois ela depende de certas causas – nossas atitudes e nossas ações. Se assumirmos a responsabilidade de treinar para agir mais correta e altruisticamente, então essa usual e confusa insatisfação pode ser detida e resultar numa alegre e benéfica situação. Isso depende apenas de nós. Nós podemos mudar.

O passo inicial para essa mudança é desistir do apego excessivo às coisas mundanas. Em outras palavras, devemos parar de nos enganar e de tentar enganar os outros. Precisamos entender que o problema não está em não conseguir o que desejamos, nem em que quando o conseguimos ele desbota ou se parte. O problema é que esperamos demais das coisas, em primeiro lugar. Atividades como prostrações, oferendas, cantos, meditações etc., são técnicas que nos ajudam a superar preconceitos, apego, raiva, ciúme, orgulho e mentalidade estreita. São práticas sem um fim em si mesmas e de pouco benefício se feitas pensando na reputação, nos amigos, nas posses.

Certa vez, Begunguiel, um meditante que vivia numa caverna, esperando a visita de um benfeitor, arrumou seu altar com muito mais cuidado do que de costume, para que o visitante percebesse a excelência de sua prática e fosse pródigo, dando-lhe um maior auxílio. Mas, quando percebeu a corrupção de sua motivação, ficou enojado consigo mesmo e, gritando, cobriu o altar com punhados de cinza: “jogo estas cinzas sobre o meu apego às coisas do mundo.

Em outra parte do Tibete, Padampa Sangyey, um mestre com poderes de clarividência, viu o que havia acontecido naquela caverna. Com alegria, exclamou para os que estavam à sua volta: “Begunguiel acaba de fazer a mais pura oferenda que já se viu no Tibete.

A essência da prática do Darma não está em nosso desempenho externo, mas em nossa motivação. O verdadeiro Darma não está em templos enormes, cerimônias pomposas, trajes sofisticados ou complexos rituais. Essas coisas são ferramentas, que se usadas adequadamente, com uma motivação correta, podem ajudar nossa mente. Não podemos julgar a motivação de outra pessoa, nem perder nosso tempo tentando avaliar suas ações. Só podemos examinar nossa própria mente e, em consequência, determinar se nossos atos, palavras e pensamentos são benéficos ou não.

Por isso precisamos estar sempre atentos para não deixar nossa mente cair sob a influência do egoísmo, da fixação, da raiva… Nos “Oito Versos da Transformação do Pensamento” está escrito: No momento em que uma atitude perturbadora surge, pondo em perigo a mim e aos outros, vigilante eu a enfrento e, sem demora, consigo desviá-la. Dessa forma nossa prática do Darma se torna imaculada e eficaz não só para levar-nos felicidade última e temporal, mas também capacitando-nos a tornar nossas vidas úteis aos outros.

Desta forma, se estivermos confusos sobre que tradição seguir ou que prática executar, devemos nos lembrar do significado da prática do Darma. Atermo-nos a concepções materiais de uma religião ou tradição é como nos prender numa mente limitada. Encantarmo-nos com rituais sem nos aprofundar em seus significados é simplesmente representar um papel de religiosidade. Empenho em práticas externas como prostração, oferendas e cantos, motivado pela boa reputação ou a felicidade de um encontro amoroso é como jogar sorvete de chocolate no lixo: ainda pode parecer bom, mas faz um mal para a saúde.

Se, ao invés disso, todos os dias, relembrarmos o valor do ser humano, recordando a beleza de seu potencial com um profundo e sincero desejo de vê-lo despertar, então estaremos comprometidos em ser sinceros com nós mesmos e também com os outros, pela transformação de nossas ações. Além disso, relembrando o valor e o propósito de nossa vida, se contemplarmos a transitoriedade de nossa existência, dos objetos e das pessoas a quem somos ligados, então desejaremos chegar à prática mais sincera e pura, que leva a benéficos resultados.

Os antídotos para os venenos da mente são os prescritos por Buda: quando surgir a raiva, praticar a paciência e a tolerância; para o apego, relembrar a transitoriedade; quando surgir o ciúme, opor a ele o júbilo pelas qualidades e pela felicidade dos outros; para o orgulho, lembrar que, assim como a água não pode permanecer no pico da montanha, nenhuma qualidade permanece onde há orgulho; para uma mente preconceituosa, prestar atenção e refletir sobre novas perspectivas.

Parecer santo importa apenas exteriormente, não traz felicidade real nem no presente, nem no futuro. Contudo, se tivermos um coração generoso e uma pura motivação, livre de egoísmo e de motivos ocultos, seremos verdadeiros praticantes. Então, nossas vidas se tornarão significativas, cheias de alegria e benéficas para os outros.


Thubten Chodron é autora do livro “O que é Budismo”, publicado no Brasil pela Editora Nova Era em 2002.


Acervo Bodisatva

3 Comentários

  1. Larissa disse:

    Fantástico esse artigo!

  2. Vivian Leiler Ferreira disse:

    Muito significativo o texto acima. O caminho para atingir nossos objetivos não é fácil. Mas com perseverança a gente consegue. Obrigada por compartilhar conosco.

  3. Excelente reflexão ,muito elucidativo e claro.

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