Nascer do sol em Varanasi. Foto: Lia Beltrão

Varanasi, um templo a céu aberto

Uma cidade que implode nossas zonas de conforto e nos faz aprender a fluir com as circunstâncias e relaxar

A cidade de Varanasi, na Índia, oferece uma infinidade de lendas místicas, rituais, templos, sadhus, peregrinos, cânticos e mantras entoados o dia inteiro. As cremações a céu aberto são um lembrete constante da morte e da impermanência. No nível grosseiro, há muitas manifestações de espiritualidade e, não à toa, a cidade é considerada a capital espiritual da Índia. Diariamente, milhares de indianos viajam longas distâncias para banhar-se no rio Ganges e purificar seu ser. Também é considerado muito auspicioso ter o corpo cremado às margens do rio e as cinzas oferecidas a ele.

Em um lugar como este, podemos facilmente manifestar a tendência de simplesmente nos tornarmos espectadores de hábitos espirituais exóticos, como turistas da espiritualidade: “Uau! Esta cidade é incrível! As cremações nos ghats, os templos hindus em cada esquina, os rituais acontecendo o tempo todo, as pessoas se banhando no Ganges!” Tudo parece fantástico, espiritual e místico.

Mas, quando retornarmos para casa, o que fazemos com essa espiritualidade toda que vimos?

Mulheres performam oferendas ao Ganges ao nascer do sol. Foto: Lia Beltrão

Teremos as fotos e as memórias para relembrar. Mas, ainda assim, teremos que seguir com nossa vida e as fotos podem não fazer muita diferença nela. Porém, parece haver uma outra espiritualidade disponível em Varanasi; uma espiritualidade que não pode ser vista ou fotografada, mas apenas experienciada — por ser sutil e inseparável de nós mesmos.

Lugar para se praticar o “soltar”

Percebendo ou não, nós vivemos diariamente em meio ao desafio de nos tornarmos mais flexíveis e de soltarmos nossas teorias sobre como a vida, nós e os outros deveriam ser. Consciente ou inconscientemente, parece que todos estamos trilhando um caminho espiritual, uma vez que todos temos que lidar com o fato de que nossas visões de mundo são sempre desafiadas pela realidade. O mundo teima em nos desobedecer. Somos constantemente convidados pela vida a soltar nossas fixações.

A cidade de Varanasi, e a Índia como um todo, oferecem um campo para praticarmos esse soltar.

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Banhar-se e beber a água do Rio Ganges é considerado extremamente auspicioso. Foto: Lia Beltão

Implodir nossas zonas de conforto parece ser uma das especialidades do país, que nos convida o tempo todo a relaxar e a fluir com as circunstâncias.

É curioso, pois talvez a maioria das pessoas vai à Índia para encontrar um mestre, ou para fazer peregrinações, estudar alguma religião, vivenciar experiências exóticas e espirituais. De fato, a Índia oferece tudo isso abundantemente, e Varanasi num nível ainda mais intenso. Mas parece que, mesmo sem procurar essas coisas, a experiência de apenas estar na Índia e, principalmente em Varanasi, já é uma oportunidade para nos abrirmos e soltarmos nossas áreas rígidas, o que naturalmente nos deixará mais leves, abertos e amorosos — que enfim é o que buscamos nas práticas espirituais.

Varanasi interna: deparar-se com nossas fixações

Não temos muito como fugir de sermos impactados por essa Varanasi grosseira, com seus hábitos e imagens tão radicalmente diferentes do nosso. Mas na Índia, e principalmente ali, não conseguimos ser do tipo de turista que se protege o tempo todo, olhando o mundo por trás da lente da máquina fotográfica e de seus confortos. Varanasi nos oferece muito mais do que belas fotos e histórias interessantes para levar para casa. Ela nos mostra toda a desobediência às nossas fixações que a vida já nos oferece, só que num nível hardcore.

Varanasi nos invade sem pedir licença e essa parece ser justamente a maior riqueza que ela tem a oferecer.

Como você reage ao se deparar com uma manada de búfalos que caminha na sua direção na ruela minúscula que você acaba de adentrar? O que fazer com todo o seu suposto senso de consciência e respeito social ao pegar um rickshaw cujo dono pedala com muito esforço para nos levar até nosso destino? Ou quando vemos senhores de cabelo branco carregando nossas malas pesadas na cabeça? E como reagimos quando gostaríamos de tomar aquele banho gostoso para limpar toda a sujeira da rua, mas a ducha do banheiro do nosso hotel é fraca e morna, e está frio? (E nosso hotel é considerado ótimo pelos guias!) E como reagimos quando levamos sacolas de lixo para a recepção do hotel que gentilmente agradece e joga tudo no meio da rua, na nossa frente, para as vacas comerem? É isso mesmo: as vacas, que estão por toda a parte, vão naturalmente dando um jeito no lixo de Varanasi. Ou como você reage quando pega um taxi que não consegue sair do lugar, porque está rodeado de vacas? Ou quando vê que os lençóis brancos lavados no rio Ganges são colocados para secar nas escadarias (ghats) empoeiradas? Como encaixar isso tudo nos nossos esquemas?

Não tem como encaixar, é um outro mundo. São tantas as situações que não se encaixam nos referenciais do “nosso mundo”, que vamos desistindo de comparar, de querer entender e simplesmente relaxamos. E percebemos o quanto é cômico ficarmos agarrados ao nosso jeitinho usual de fazer as coisas, de sentir e de viver. E, assim, vamos do desconforto e da perplexidade, para o relaxamento e boas risadas.

Vacas, varais abertos e, ao fundo, madeira para cremação. Foto: Lia Beltrão

Coração aquecido, aberto e relaxado

Não só nossas fixações são desafiadas, mas nosso coração é constantemente convidado a se ampliar e a se aquecer. Nos deparamos com sofrimentos variados: mulheres trabalhando pesadamente na construção civil, muitas crianças pedintes, sujeira por todo canto… Muitas pessoas com doenças graves vão a Varanasi para morrer, pois é considerado muito auspicioso fazer a passagem lá. Vemos essas pessoas nas ruas.

Não é fácil, mas vale a pena: se estamos abertos e relaxados, ao invés de nos incomodarmos ou de passarmos mal por ver o sofrimento dos outros, nosso coração se enche constantemente de compaixão, aspirando que o sofrimento dessas pessoas possa ser minimizado e superado.

Trabalhadores em uma rua do bairro mais recente em Varanasi. Foto: Lia Beltrão

Vivenciar a Índia desse modo é muito enternecedor. Vemos claramente que quando focamos excessivamente o nosso conforto, a experiência em Varanasi pode ser extremamente cansativa e desgastante. Os ensinamentos sempre nos dizem isso:

uma vez que tiramos o foco de nós mesmos e o direcionamos para os outros, a intensidade e a importância de nossos problemas e desconfortos diminuem enormemente.

Em Varanasi temos a oportunidade de encontrar de forma mais intensa aquilo que já temos no cotidiano de nossas vidas: o incômodo diante do caos, da sujeira, do barulho e das fragilidades humanas e, ainda assim, tentar manter nossa dignidade e ampliar nossa compaixão. Nós até podemos tentar olhar isso tudo de longe e manter nosso casulo confortável e limpo em algum lugar. Mas a peculiaridade da Índia e, principalmente de Varanasi, é tornar essa tentativa de permanecer num lugar confortável uma missão impossível. Isso nos possibilita descobrir que podemos estar em meio a um aparente caos externo e, ainda assim, estáveis, serenos e compassivos.

Vista do Rio Ganges desde Varanasi. Foto: Lia Beltrão

É evidente que isso nem sempre funciona. Lembro-me da raiva que senti ao ter sucessivos obstáculos para conseguir me mover em meio ao caos do aeroporto de Varanasi. Mas de raiva em raiva, de irritação em irritação a gente vai se dando conta que elas são desnecessárias e contraproducentes. E que somos muito mais hábeis para lidar com a situação se não nos perdermos nessas emoções perturbadoras.

Me parece muito simbólico que o Buda tenha dado os ensinamentos sobre as Quatro Nobres Verdades em Sarnath, nos arredores de Varanasi. Se gerarmos o olho para ver, Varanasi é uma imersão nas Quatro Nobres Verdades do Buda, um laboratório muito interessante para a prática. Ela parece nos dizer constantemente: “desista, aqui você não vai conseguir controlar nada. Apenas relaxe”. Uma amiga belga me disse, antes de eu chegar à cidade: “Varanasi é um bombardeio constante dos 5 sentidos”. De fato, há tantas imagens e cores intensas, cheiros fortes, texturas marcantes, sons impactantes, sabores peculiares, que podemos mais facilmente lembrar do ensinamento de que essa nossa experiência é um sonho.

Não sei se algum outro país do mundo oferece uma experiência tão desconcertante para ocidentais quanto a Índia. Acho interessante pensar que, embora o budismo formal tenha praticamente desaparecido da Índia, para quem já conhece um pouco do Darma, o país se torna um grande templo a céu aberto, pois ele te lembra constantemente que o que temos que fazer é soltar, relaxar e nos abrir.

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