A luta pela vida no Samsara: como podemos ajudar?

Relatos e insights divertidos de uma praticante sobre o funcionamento do samsara.


Por
Revisão: Cristiane Schardosim Martins
Edição: Carol Franchi

“O samsara não tem solução”. Dentro do budismo, escutamos essa expressão recorrentemente. Mas sabê-la na teoria difere de conseguir aplicá-la, na prática. Nesse divertido e (profundo) relato, a autora Carmem divide suas reflexões ao se deparar com a alegria do nascimento de pintinhos no seu quintal, contra a inevitável impermanência da vida.


Não, eu não sei o que vocês fizeram no verão passado. Da minha parte, posso contar o que fiz, com alguma nostalgia e muito arrependimento. Estive quase todo o verão passado tentando salvar da morte uma ninhada de pintinhos. E fracassei!

Quando as galinhas do Nico começaram a chocar, todo mundo na nossa casa de verão entrou em expectativa. Quando? Quantos? Depois de preparar o almoço, eu partia na missão de levar sobras para nossas formidáveis parceiras de quintal. O arroz meio queimado que grudou na panela, cascas das frutas, bagaço de laranja, tudo isso provocava um alvoroço de penas e bicos e em questão de segundos não sobrava nada. Numa dessas viagens ao galinheiro, vi os primeiros dois pintinhos: um de penas pretas, todo atrapalhado para caminhar, e outro amarelinho que ensaiava seus primeiros passos sob os olhos vigilantes da mamãe.

A partir daquela semana, os piados agudos passaram a fazer parte da nossa rotina, porque logo apareceu mais um e depois mais três. Enquanto cozinhava ou bebia mates na nossa rústica cozinha de lenha e barro, eu não me cansava de observar o passeio dos pintinhos, um desajeitado pelotão de filhotes ansiosos para explorar o pátio e suas possibilidades. Por um bom tempo vivi assim: mais um dia de calor, abana daqui, transpira dali, feijão cozinhando devagar na lenha e lá vão os seis filhotes, correndo, piando, saltando, invadindo os canteiros da horta, sempre o pretinho que era manco fechando a fileira porque não conseguia correr. Quando os avistavam, as senhorinhas que chegavam para comprar ovos davam gritinhos de alegria: Pollitos! 

Até a madrugada em que acordei com ruídos no teto. Parecia que um objeto pesado tinha caído sobre as telhas. Acendi a lanterna, abri a porta, fui olhar. Vi passar uma cauda peluda e cinzenta e o bicho saltou do telhado para árvore. Rato de telhado ou gambá, pensei.

Amanheceu e assim que tive forças acendi o fogo para tomar mates; pouco depois chegaram Nico e Abel com a notícia triste: gambás estiveram muito ativas durante a noite e agora não havia sinal do pintinho manco. Esfregando a testa suada numa expressão de tristeza e impotência, Nico pronunciou a frase que eu temia ouvir: Lo mató la comadreja. A gambá o matou. E agora? O que podemos fazer para poupar os outros? Depois de uma rápida conversa, concluímos que seria necessário podar uns galhos de árvores que facilitavam acesso ao galinheiro e torcer para que não acontecesse de novo.

Mas aconteceu. Houve uma noite em que todos escutaram um carnaval nas copas das árvores, um tal de salta daqui e se esconde dali. 

Perto da meia-noite, Abel e outro amigo, que vou chamar de Flaco porque esqueci o nome, saíram com lanternas. Eu os ouvi comentando que as gambás estavam enlouquecidas, correndo, subindo pelos troncos e sacudindo os galhos, e que faltava um dos pintinhos marrons. Como conseguiram invadir o galinheiro, apesar da poda dos galhos? Meu coração se apertou de tristeza. Eram nove da manhã e fazia um calor sufocante; dei uns tapas no ar para afastar os mosquitos, coloquei um vestido e levantei da cama sem nenhuma vontade a não ser a de tomar mate. Quando abri a porta do quarto, dei de cara com o Abel na varanda, fumando um cigarro com cara de chateado.

Já soube que morreu outro, Gemi, o que podemos fazer?

As gambás também devem estar alimentando filhotes e vão matar todos eles se a gente não agir rápido, foi sua resposta. A partir de amanhã, os pintinhos vão passar as noites numa gaiola de madeira que a gente vai fazer.

Foi, então, que a dura realidade do samsara caiu sobre a minha cabeça como um meteoro de uma tonelada, como uma martelada cósmica. Como eu tinha sido capaz de esquecer o básico do samsara! Os seres sem sabedoria se esbarram, se chocam e se agridem sem parar, movidos por suas necessidades e ambições. As gambás, como as galinhas, têm seus filhotes para criar! A fofurinha recém-nascida de um animal quase sempre é o prato preferido de outro, desde os tempos do Buda, que um dia se viu interpelado por um falcão esfomeado, enquanto tentava salvar uma pomba. Mas eu tinha os pés firmes na minha bolha de realidade e me recusei a mudar de ponto de vista. Vamos dar um jeito nessas malditas gambás, pensei, os pintinhos merecem crescer e viver em paz.

Eu tinha folga no dia seguinte e saí para caminhar pelas trilhas que contornam o rio. De vez em quando uma sensação de pesar me invadia. Como era mesmo o conto sobre a vida anterior do Buda? Abençoado, me dê essa pomba, disse o falcão, eu a persegui o dia inteiro e preciso alimentar minhas crias. E a pomba, trêmula e exausta, implorando por sua vida. Entre um ser faminto e outro, estava o coração do bodisatva e seu voto de trazer felicidade aos seres. Como, se eles sempre estão se metendo em encrencas, caçando ou sendo caçados?

Voltei no final da tarde e havia uma consternação geral na casa. Era o horário em que os filhotes se juntavam a suas mães e o Flaco tinha recém constatado a falta de mais dois. Agora sim é uma tragédia, pensei, com lágrima nos olhos, sobraram só dois da ninhada inteira. Nunca mais o passeio barulhento que me encantava todos os dias, nunca mais as senhorinhas exclamando Pollitos.

Como os dias de verão são longos, o Nico usou as últimas horas de luz solar pra preparar um verdadeiro “bunker” , uma pesada caixa de madeira com um par de minúsculos furos, para abrigar os sobreviventes durante a noite. Abel e eu, de longe os mais obsessivos, fizemos uma busca minuciosa e encontramos uma gambá gorda e assustada. Foi conduzida solenemente para a mata a um quilômetro da casa e deixada lá.

[Atenção: spoiler] No filme “Meu Professor Polvo”, o diretor Craig Foster decide testemunhar a vida de uma fêmea octópode e se surpreende com a complexidade de sua rotina. Quando ameaçada por tubarões, por exemplo, ela é capaz de tomar decisões de vida ou morte em frações de segundos e quase sempre se dá bem. Durante as perseguições que filmou, Craig tinha o poder de afastar os tubarões e salvar sua amiga polvo, mas preferiu que a ação seguisse seu curso natural. Quando assisti o documentário, foi inevitável lembrar da nossa frenética corrida para salvar os pintinhos do Nico. Também lembrei das terríveis lutas entre aranhas e moscas que eu presenciava na cabana em que fiz retiro de seis meses. Quase sempre eu “torcia” pelas moscas; me arrepiava a paciência com que as aranhas aguardavam a exaustão de suas prisioneiras. Acho que devo minhas sinceras desculpas ao Craig por ser tão parcial.

O “bunker”, enfim, salvou a vida dos dois últimos filhotes daquela problemática ninhada de verão. O Abel descobriu um ninho de ratos gigantes e ficou no ar a dúvida: quem tinha matado os bichitos? A gambá seria, no fim das contas, inocente?

Fevereiro é aquele mês-relâmpago que prenuncia o silêncio das cigarras e o encurtamento dos dias; em março eu me mudaria para outra casa. Numa das últimas tardes em que “dei expediente” na cozinha de barro, fui lavar a louça do almoço no tanque que fica no centro do pátio. Trabalhar ali reduzia bastante os efeitos do calor; eu me salpicava água enquanto lavava as panelas maiores. Um dos pintos, que já começava a parecer um clone da galinha amarela, ciscava ao lado do tanque e a repetição de seu piu bem agudo distraía meus pensamentos.

De repente ele parou de piar. Olhei para baixo e o vi de boca aberta, engolindo uma minhoca avermelhada do tamanho do meu dedo mindinho. A minhoca se debateu freneticamente, depois sumiu na goela de seu algoz. Sim, ele, o pintinho inocente, que tanto nos mobilizamos para proteger, já tinha entrado na roda da vida e precisava matar outro ser para preencher o vazio de sua pancinha. O Craig tinha razão e o budismo também. Quem sabe em vez de interferir eu deveria ter feito meditação metabavana por todos esses seres que precisam matar para viver. Inclusive eu! 

Créditos de imagem: inteligência artificial Canva
Apoiadores

2 Comentários

  1. Ana Luiza disse:

    Um dilema terrível e diário. Obrigada amiga querida pela reflexão profunda. Me vi na cozinha, ouvi os pios, senti uma certa angústia… Não faço ideia se existe um “certo a fazer”. Tudo, absolutamente tudo, que fazemos traz consequências. Só nos resta mesmo rezar pra que nossas ações tragam benefícios a todos os seres. Sem discriminação…

  2. Teresa Guida Massa disse:

    Este texto nos mostra, com grande sabedoria, a lei do sansara. Ele nos leva a uma melhor compreensão e aceitação da vida como ela é!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *