Lama Elizabeth Mattis Namgyel (Foto: The Middle Way Initiative)

‘A vacuidade está além de ideias opostas’, diz Lama Elizabeth Mattis Namgyel

A mestra estará no Brasil em 2026 para retiro presencial sobre o Sutra do Coração; confira entrevista


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Revisão: Breno Airan
Edição: Breno Airan
Tradução: Equipe de tradução Paz & Mente e The Middle Way Initiative

A natureza das aparências não é o que parece. Muitas pessoas olham para a vacuidade como um espaço vazio em si mesmo. Mas trata-se de algo que vai além dessa definição precisa; além do ser e não ser.

É sobre isso que a Lama Elizabeth Mattis Namgyel vem falar nos dias 14 e 15 de novembro deste ano aqui no Brasil, em Florianópolis. Ela realizará o retiro presencial “Desvendando o Sutra do Coração”.

Exclusivamente presencial, o evento ocorrerá no Mercure Florianópolis Hotel, no bairro de Itacorubi, com tradução do inglês para o português.

As vagas são limitadas, com inscrições podendo ser feitas pelo www.pazemente.com.br.

Por sua vez, o Sutra do Coração é um dos mais conhecidos no Budismo e desvela como realmente nos relacionamos com nós mesmos e com o mundo ao redor. 

Durante as quatro sessões do retiro na capital catarinense, a Lama Elizabeth mergulhará no contexto do referido sutra, em seu significado e sua aplicação prática por meio de ensinamentos, meditação guiada, recitação, diálogo e perguntas & respostas.

Diante dessa oportunidade, a Revista Bodisatva conversou francamente com ela, a respeito de sua vinda para o nosso país novamente e sobre o tema trazido, a quem agradecemos grandemente por dedicar parte do seu precioso tempo para responder a essas perguntas. Que seja de benefício!


Recebemos com grande alegria a notícia sobre a vinda da Lama Elizabeth Mattis Namgyel ao Brasil em novembro deste ano, para um evento em Florianópolis organizado pelo Instituto Paz & Mente e pela The Middle Way Initiative, em parceria com Nalandabodhi Brasil e o Centro Budista Guna Norling.

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Sabemos que existe uma conexão muito preciosa entre ela e a Sangha brasileira, construída ao longo de muitos anos. E a Revista Bodisatva também tem a alegria de compartilhar dessa conexão.

Nos últimos anos, é perceptível que o Brasil tem recebido diversos professores do Dharma, sendo observado um movimento de crescimento e expansão das Sanghas e do interesse pelos ensinamentos budistas. 

Dentro desse contexto, conversamos um pouco sobre a próxima visita da Lama Elizabeth ao nosso país, abordando temas como o Sutra do Coração e, de maneira mais ampla, a prática do Dharma em nosso tempo. Confira logo abaixo.

Lama Elizabeth Mattis Namgyel está contente em voltar para o Brasil (Foto: The Middle Way Initiative)

REVISTA BODISATVA: Em novembro, você oferecerá um retiro presencial de um fim de semana dedicado ao Sutra do Coração, aqui no Brasil. Dentre tantos temas preciosos que poderia escolher para compartilhar conosco, você escolheu justamente esse ensinamento. Quais foram as razões que a levaram a escolhê-lo para este retiro no Brasil?

LAMA ELIZABETH MATTIS NAMGYEL: Quando soube que viria ao Brasil para ensinar em novembro, não precisei pensar duas vezes. Decidi imediatamente que ensinaria sobre o Sutra do Coração. Esse é o sutra Mahayana mais estimado e amplamente recitado no mundo. Apenas recitá-lo já evoca bênçãos. Mas, quando começamos a explorar seu significado implícito, ele realmente ganha vida. 

É como uma mina de ouro: cada palavra e cada frase contêm um significado profundo. Aos poucos, torna-se claro que estamos diante de um caminho de investigação e engajamento e não de um dogma.

Na última vez em que ensinei no Brasil, falei sobre o Caminho do Bodhisattva. Uma mulher cristã que participou do nosso programa me disse que estudar bodhicitta fez dela uma cristã melhor. Minha experiência com os brasileiros é que eles se conectam facilmente com o Caminho do Bodhisattva e com os ensinamentos sobre interdependência e vacuidade, porque vocês têm muito afeto e inteligência. Por isso, pensei que seria perfeito dedicar tempo a esses ensinamentos, a esse sutra em particular.

O Sutra do Coração acontece em um contexto muito especial, quase como uma apresentação teatral. O início do texto nos conduz a um cenário no qual uma assembleia de seres terrenos e celestiais aguarda, com expectativa, receber os ensinamentos do Buda. Quando estudamos o sutra, nos tornamos parte dessa assembleia e nós mesmos recebemos as bênçãos dos ensinamentos. Essa é uma característica especial do Sutra do Coração.

Tenho amor e uma devoção em especial pelo Sutra da Prajñāpāramitā e, de modo geral, gosto muito de explorar o tema da vacuidade… então pensei: “Por que não ensinar no Brasil aquilo que mais amo?” Além disso, prefiro ensinar a partir de um texto, porque isso me conecta diretamente à sabedoria autêntica do Buda. O Sutra do Coração é conciso e, ao mesmo tempo, profundo, o que nos permite explorá-lo cuidadosamente e aprender com a riqueza de seus ensinamentos.

Como a Lama relatou, o Sutra do Coração é um dos textos mais importantes do Budismo Mahayana e apresenta, de maneira extremamente condensada a sabedoria da vacuidade. Em sua visão, como esses ensinamentos podem nos ajudar a navegar nossa própria experiência e quais aspectos desses ensinamentos você considera especialmente relevantes diante dos desafios do mundo em que vivemos hoje?

O Sutra do Coração são ensinamentos sobre a natureza das aparências, que é vazia. Esse texto possui muitas características extraordinárias e cada uma de suas palavras nos conduz ao reconhecimento da natureza da vacuidade.

Podemos nos perguntar: “Por que é importante compreender a vacuidade?” Ou mesmo: “O que ela significa?” Muitas pessoas têm dificuldade com o termo vacuidade. 

É preciso nos aproximarmos dele com uma mente aberta e curiosa, pois frequentemente carregamos muitas suposições não examinadas sobre as palavras. À primeira vista, o termo vacuidade pode não parecer relacionado a um caminho prático para compreendermos como estar no mundo.

Por exemplo, podemos pensar na vacuidade como “nada” e no mundo (como o encontramos) como “algo”. Se a vacuidade fosse um vazio, quem estaria interessado em aprender sobre a vacuidade? Ou podemos pensar na vacuidade como algo divino, completamente separado da nossa “vida cotidiana comum”. Mas isso faria da vacuidade e de nossa experiência ordinária do mundo duas coisas separadas. 

Se o mundo que experienciamos e a vacuidade fossem duas coisas separadas, então a vacuidade nunca afetaria nossa vida “ordinária”, não é mesmo? Por isso, o termo vacuidade precisa ser compreendido e contemplado dentro do contexto dos ensinamentos. É isso que faremos. E, à medida que a nossa compreensão se torna mais clara, o que descobrimos é bastante surpreendente.

A vacuidade não pode ser expressa em um único parágrafo. É preciso tempo para investigá-la, mas posso oferecer algumas pistas.

Em primeiro lugar, a única maneira de compreender a vacuidade é investigando a natureza das aparências.

Além disso, a vacuidade está além das ideias opostas de “algo” e “nada”. Ela nos apresenta uma maneira de ver as coisas para além das categorias limitadas de “é” ou “não é”. Podemos também reconhecer que experienciar as coisas para além dos extremos dualistas não é algo desconhecido para nós.

Por fim, reconhecer que as coisas são “vazias” libera a mente do medo e das emoções perturbadoras, ainda que por um breve momento.

Quando começamos a suavizar as visões não examinadas que sustentamos sobre nossa experiência, o mundo começa a se abrir de uma nova maneira. Ao compreendermos a natureza vazia das coisas, flexibilidade, visão clara e amor começam a orientar a maneira como navegamos pela vida.

Tema trazido ao nosso país é um dos preferidos da Lama (Foto: The Middle Way Initiative)

Considerando a vastidão do Buddhadharma, com suas diferentes tradições, ensinamentos e métodos, o que você considera essencial compreender e cultivar? Quais práticas considera particularmente importantes para que nosso caminho floresça e possamos desenvolver uma relação mais saudável com nossa mente e o mundo?

O propósito dos ensinamentos da Prajñāpāramitā não é estabelecer uma visão. Na verdade, trata-se de expor as visões que impedem nossa capacidade de ver com clareza. 

Nāgārjuna, conhecido como o pai dos ensinamentos Mahayana do Caminho do Meio — que elucidam os ensinamentos dos Sutras da Prajñāpāramitā —, disse: “Eu me prostro diante daquele que abandonou todas as visões.” 

Ele se referia ao Buda, que encontrou um caminho para além das visões dualistas extremas do eternalismo e do niilismo; do é e do não é; da esperança e do medo; da vacuidade e da forma. Sei que isso pode soar filosófico, mas, como experiência, é algo muito profundo.

Há muitas coisas que impedem a visão clara. A questão aqui é: “Como podemos posicionar a nossa mente para ter insight sobre a natureza da realidade?” e “É possível sustentar a rica energia da experiência sem ‘transformá-la em uma coisa’?” E se não nos fecharmos diante da experiência, ainda será possível discernir? Essa é uma boa questão para observarmos em nós mesmos. 

Sua mente é mais inteligente quando está aberta ou fechada? A abertura impede que você se relacione com a vida de maneira positiva ou, ao contrário, favorece essa relação?

Voltando, então, à ideia de estabelecer uma visão, poderíamos usar o termo visão da seguinte maneira. Quando vamos a um hotel, pedimos: “Por favor, me dê um quarto com vista.” O que queremos dizer com isso é que podemos abrir as cortinas e não haverá nada “obstruindo” a  nossa capacidade de ver a paisagem. Podemos nos referir à vacuidade como uma visão… mas apenas no sentido de que, quando nossa mente está aberta, podemos ver com clareza. Não há nada no caminho. Esses ensinamentos foram concebidos para nos ajudar a revelar as suposições não examinadas que temos sobre as coisas e sobre a maneira como as percebemos. Nesse sentido, não estamos “estabelecendo” visões; estamos começando a enxergar através daquilo que “impede” a visão clara.

Desse modo, Lama, podemos ver que os ensinamentos sobre a vacuidade ocupam um lugar central na visão do Mahayana. De uma forma direta e acessível aos nossos leitores, o que significa, de fato, estabelecer a base da visão e como podemos fazer isso? E quais desafios você observa quando os praticantes deixam de lado o estudo e a prática da base da visão?

O termo tibetano para meditação é “gom”, que significa “familiarizar-se”. Precisamos familiarizar nossa mente a relaxar com a rica energia da experiência, sem simplesmente reagir ou tentar controlar o que surge. Nessa prática, aprendemos a observar, em vez de nos colocar em resistência ou nos perder no impulso da atividade da mente, maneiras pelas quais tentamos escapar da rica expressão da mente e das aparências. Não seria incrível se pudéssemos simplesmente relaxar com nossa experiência? Imagine treinar dessa maneira, familiarizar-se com isso e, então, levar essa prática para o mundo. Se praticarmos e contemplarmos os ensinamentos, a abertura e a clareza começarão a permear nossa experiência cotidiana.

Além da meditação, também praticamos aquilo que chamamos de seis pāramitās: generosidade, disciplina, paciência, esforço, concentração e sabedoria. Aplicamos essas práticas à medida que nos movemos pelo mundo, para nos mantermos dentro dos limites de nossa intenção de moldar nossa mente e trabalhar com os outros de maneira positiva.

Muitos professores do Dharma dizem que a prática realmente se revela quando saímos da almofada e levamos aquilo que cultivamos na prática formal para os desafios e relações da vida cotidiana. Como você compreende a relação entre a prática formal e a maneira como vivemos, agimos e nos relacionamos com o mundo?

A sabedoria da vacuidade é um aspecto do Caminho da Bodhicitta. Bodhicitta é um termo sânscrito que significa despertar a mente e/ou o coração e possui dois aspectos: a bodhicitta relativa e a bodhicitta absoluta.

A bodhicitta relativa, por sua vez, possui duas partes. A primeira é o compromisso ou aspiração de usar nossa vida para servir aos seres sem parcialidade. Esse compromisso molda, enriquece e dá direção à nossa vida. A segunda é a bodhicitta do engajamento, que consiste em colocar em prática as seis pāramitās mencionadas anteriormente. Esses treinamentos nos ajudam a responder de maneira positiva quando se trata de beneficiar os outros, o que também nos beneficia.

O outro aspecto da bodhicitta, como mencionei, é o aspecto da sabedoria: a bodhicitta absoluta ou vacuidade.

Esses dois aspectos da bodhicitta — relativo e absoluto — oferecem um caminho completo para nos engajarmos com a vida de uma maneira profundamente saudável, sustentando um bem-estar incondicional tanto para nós mesmos, quanto para os outros. Não se trata de um dogma… é simplesmente uma prática que nos permite fazer melhor e mais significativo uso de nossa vida, para que possamos vivê-la em seu maior potencial como seres humanos.

Para a Lama Elizabeth, a recitação desse sutra já é em si uma espécie de bênção (Foto: The Middle Way Initiative)

O Buddhadharma ainda é relativamente recente no Brasil, mas temos acompanhado seu crescente enraizamento, com o fortalecimento das sanghas e a presença de importantes professores. Como você vê esse processo diante das diferenças culturais entre a realidade brasileira e os contextos em que esses ensinamentos se desenvolveram? O que precisamos preservar para que o Dharma possa verdadeiramente florescer em nossa cultura sem perder sua profundidade e essência? E como você percebe sua própria conexão com o Brasil ao retornar depois de tantos anos?

Qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode se conectar com a sabedoria do Sutra do Coração e as pessoas realmente se conectam. Essa sabedoria é atemporal. O Dharma emerge dos anseios mais profundos da cultura humana. Todos os seres desejam felicidade incondicional e estar livres do sofrimento. É isso que nos move, de maneiras benéficas e, muitas vezes, também não benéficas. Para colocarmos nossas ações em sintonia com nossas intenções mais profundas, precisamos de uma direção, um caminho.

No nível mais básico, será que somos assim tão diferentes? Quando o Budismo chega a uma nova cultura, as próprias estátuas dos Budas assumem os traços dos artistas que as criam! As estátuas indianas parecem Budas indianos, as tibetanas parecem Budas tibetanos e as ocidentais parecem Budas ocidentais.

Quando recitam o Sutra do Coração, os praticantes o fazem em sua própria língua, com suas próprias melodias, utilizando instrumentos rituais de sua própria cultura. Queimam incenso feito com as ervas que crescem em sua própria terra. É muito bonito! Gosto de imaginar os budistas brasileiros valorizando e preservando, com respeito, a autêntica e ancestral sabedoria do Buda, mas expressando-a à maneira singular do Brasil, como, por exemplo, com celebração, música e dança. Estou certa?

De fato, Lama, esse aspecto cultural é notório. Aonde o Budismo vai, ele se adapta. Por fim, que mensagem e convite você gostaria de deixar para aqueles que estão considerando participar do seu retiro sobre o Sutra do Coração, em Florianópolis?

O Sutra do Coração é um texto clássico e belíssimo, enraizado na tradição budista, mas profundamente relacionado à condição humana. Penso que ele apresenta uma sabedoria que está muito além daquilo que podemos sequer imaginar até começarmos a conhecê-la. 

Quero compartilhar com vocês meu amor por esse sutra e também ouvir o que vocês têm a dizer sobre ele. 

Para mim, ensinar é sempre uma colaboração respeitosa. Acredito que será muito agradável e cheio de vida estarmos juntos e juntas em novembro em Florianópolis.


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Matéria publicada em 02/10/2026

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