Durante a auspiciosa celebração Buda Purnima, monges de diversas localidades vão a Bodhgaya para praticar juntos (Foto: Olivier Boëls)

A vida monástica vista de dentro

Conheça os desafios enfrentados por monjas e monges contemporâneos, narrados por eles mesmos


Por
Revisão: Breno Airan
Edição: Cristiane Bremenkamp Cruz e Breno Airan

Você já teve a curiosidade de saber mais sobre a experiência de ser parte de uma Sangha ordenada? A gente também!

Neste ensaio, a jornalista Carmen Navas Zamora saiu em campo para saber como alguns monges e monjas sentem e vivem essa profunda decisão de tomar votos. E o resultado foram boas e surpreendentes conversas.


A Sangha ordenada do Buda existe há 2.600 anos e, desde aquela época, a gente sabe que nunca foi fácil fazer a escolha de se tornar um monge ou uma monja. Primeiro, era preciso se afastar das famílias, às vezes, contrariando as expectativas dos pais. Segundo, sabemos que nossos ancestrais espirituais levavam uma vida duríssima, andando a pé e mendigando alimentos. Terceiro, o código Vinaya, balizador do comportamento monástico em meio ao mundo, incluía nada menos que 227 votos para bikshus (monges) e 311 votos para as bikshunis (monjas).

O que pouco se discute é como seres monásticos de diferentes origens e personalidades vivem suas próprias emoções, em meio a um mundo repleto de mudanças tecnológicas, climáticas, comportamentais etc. Confesso que eu não pensava muito nisso, até ver uma monja chorar. Isso mesmo!

Foi num Dia das Mães qualquer, bem naquele momento em que a Sangha está reunida em torno de um bolo para comemorar a data. Uma monja puxa o lenço de dentro da roupa e enxuga as lágrimas para, logo em seguida, revelar que sua mãe tinha falecido quase dois meses antes.

Sim, pessoas ordenadas também têm mães e ficam tristes quando elas se vão. A tal da impermanência não alivia o lado deles só porque se ordenaram. E como passar pelo luto de alguém da sua família, quando você tem a responsabilidade de manter um centro de Dharma funcionando, com várias atividades semanais e num país distante do seu? Sobre isso, aquela monja que nunca esqueci falou mais ou menos o seguinte:

        Não gosto de demonstrar tristeza quando estou entre meus alunos. Escolhi ser monja para cuidar de um grande número de pessoas, não só da minha família. Algumas pessoas me procuram quando estão passando por problemas. Por isso, acho melhor não compartilhar o sofrimento.”

Comovida por sua fala tão simples, porém cheia de dignidade e compaixão, decidi ampliar a conversa, ouvindo outras vozes monásticas sobre seus sentimentos e experiências.

Para Wahō Degenszajn, brasileira ordenada na linhagem Soto Zen (Japão), a trajetória de uma pessoa monástica envolve muita desconstrução. Primeiro, de suas próprias fantasias. Segundo, das expectativas e preconceitos das pessoas da Sangha, que quase sempre não fazem a menor ideia do que realmente significa ter votos e compromissos.

Nome de ordenação: Wahō; nome de registro: Sandra Degenszajn; linhagem: Soto Zen; mestra: Coen Roshi; e onde atua? No Mosteiro Urbano Zen Terigatha (Foto: Rosângela Andrade)

   Nós, monásticos, somos insuficientes ainda, somos praticantes. A diferença é que a gente fez um compromisso da nossa família ser uma família ampliada, não só a família sanguínea. Mas isso não quer dizer que eu não cuido da minha mãe, do irmão, dos sobrinhos. Isso é o bonito do caminho, porque põe a gente nesse lugar de seres humanos”, opina Wahō.

Já o Lama Rinchen Khyenrab, brasileiro ordenado em 2004 na linhagem Sakya do budismo tibetano, teve que pedir autorização da família para começar seu treinamento, inclusive da ex-esposa e dos filhos. Essa exigência, comum a várias tradições da árvore budista, assegura que exista um mínimo de paz dentro do grupo familiar, para que o ser consiga passar pelas etapas do caminho até a ordenação. Ele enfatiza, porém, que demonstrar as próprias emoções pode ser bastante útil na hora de aprofundar o contato com o público leigo.

        Muitas vezes, se a gente é monástico e tem que esconder nossas emoções, então nunca vamos entender as emoções daqueles a quem nós auxiliamos. Quando a gente fala de empatia e compaixão, é preciso que algo em mim me aproxime da dor do outro. Saber lidar com as emoções é um dos principais ensinamentos do Buda. Não significa negar a emoção e, sim, saber qual é sua origem”, aponta o Lama Rinchen.

Nome de ordenação: Thubten Kalden; nome de registro: Marcos Troia; linhagem: Gelugpa; mestres: Lama Zopa Rinpoche e Sua Santidade o Dalai Lama; e onde atua? Internet e Centro Shiwa Lha (Foto: Thubten Kalden/ Arquivo pessoal)

Para o monge Thubten Kalden, brasileiro ordenado na linhagem Gelugpa por Sua Santidade o Dalai Lama, não é desejável excluir as emoções do diálogo entre monásticos e leigos.

      Se a gente fizer isso, vai parecer que o Dharma é inacessível para as pessoas e só existe para quem é monge e monja no alto da montanha. Gosto de estar no dia a dia, fazendo coisas normais. Às vezes, boto uma bermudinha e uma camisa e vou à praia com minha família, para que não se crie uma rejeição dentro deles. Isso traz uma normalidade que me parece positiva”, ressalta. 

A experiência pessoal de Kalden demonstra a delicadeza da situação. Ele relata seu primeiro contato com a realidade de um monástico, durante a primeira viagem que fez logo depois de ter sido ordenado no Nepal, por Lama Zopa Rinpoche. Enquanto caminhava com roupas monásticas pela zona turística de Paris, na companhia de um de seus irmãos, era impossível não notar que uma profusão de gente dirigia os celulares em sua direção. Kalden estava sendo fotografado sem a devida permissão, como se fosse um animal exótico.

Meu irmão ficou chateado com essa falta de privacidade. Isso não acontecia no Nepal, porque lá eu era só mais um monge”, lembra ele.

Outro momento delicado surgiu quando Kalden começou a mexer na agenda de viagens ao exterior para cuidar do pai, que tem 89 anos e mora em Nova Friburgo, interior do Estado do Rio de Janeiro. Nas Sanghas, houve gente que expressou surpresa e até um ligeiro desagrado, como se as pessoas monásticas não devessem dedicar tempo aos idosos de sua família. Ele recorda que houve gente que até perguntou se seu pai seria budista, ou seja, compartilhar da mesma filosofia seria um condicionante para um idoso receber carinho do filho. Se você tem a sorte de conhecer o gelong Kalden, vai imaginar a gargalhada que ele deu quando me contou isso.

Nome de ordenação: Rinchen Khyenrab; nome de registro: Carlos Henrique Amaral de Souza; linhagem: Sakya; mestres: SE Chogye Trichen e SS Sakya Trizin; e onde atua? Mosteiro Sakya Tsarpa e onde for convidado (Foto: Escritório de Sua Santidade o Dalai Lama)

Na Ásia, principalmente na região dos Himalaias, é comum que crianças sejam enviadas por suas famílias para ser criadas em monastérios. A regra geral no budismo tibetano, por exemplo, é que meninas e meninos em treinamento monástico se afastem de seus pais por longos períodos. Não é incomum que alguém tenha sua cabeça raspada aos oito anos e só volte a encontrar a família aos 18. Já no Ocidente, a decisão de se ordenar costuma acontecer já na vida adulta, com os vínculos familiares bem consolidados. Isso explica, em parte, porque esses monásticos não eliminam de suas vidas o cuidado com seus familiares.

Uma questão que costuma afligir as mentes dos monásticos, segundo Wahō, é a preocupação de que um simples gesto da monja ou do monge possa afastar um praticante de seu centro budista. Ela acredita que até o desabafo sobre a tristeza do luto pode ter causado rejeição entre os frequentadores do centro.

Do mesmo jeito que você se sensibilizou ao ouvir aquela monja, outras pessoas podem ter pensado: ‘Como ela é fraca! Vou embora daqui. Vou procurar um lugar onde os mestres sejam capazes de se controlar’. Isso poderia acontecer se alguém me visse bebendo uma cerveja num boteco, por exemplo, que é uma coisa que já fiz sem nenhum problema”, supõe Wahō.

O fato é que pessoas monásticas são constantemente julgadas e criticadas pelo mundo em redor. Por quê? Por aquilo que compram. Por aquilo que comem e bebem. Pela maneira como falam ou com quem falam.

Waho, por exemplo, sofre enxurradas de críticas a cada vez que manifesta suas opiniões e posicionamentos políticos ou que comparece a algum protesto de rua. As ameaças de cancelamento aconteceram também com sua mestra, Coen Roshi, em julho de 2018, quando visitou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na prisão, em Curitiba. Na época, a visita de líderes religiosos, sempre às segundas-feiras, fazia parte da vigília organizada por simpatizantes de Lula para acompanhar sua rotina durante o período de reclusão.

Fico pensando que as mesmas pessoas que defenderam Coen Roshi naquela época talvez disparassem uma metralhadora de críticas, se ela decidisse visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro que, no momento em que escrevo essas linhas, está cumprindo prisão domiciliar.

Isso também é um sintoma de que nós, Sangha laica, não estamos muito acostumados com monásticos que têm ideias próprias e exercem sua liberdade da forma como bem entendem. Acontece que: 1) monja ou não, a cidadã Coen Roshi é livre para ir onde quiser; e 2) o budismo prega a equanimidade, ou seja, tratar todos os seres com compaixão, independente da tendência política. Portanto, ninguém que se diz budista deveria se intrometer em suas escolhas.

Monge com Iphone? Jamais!

Para piorar, as redes sociais amplificaram o patrulhamento em um nível absurdo. Um dos casos mais polêmicos ocorreu em outubro de 2014, no Vietnã, quando o abade Thich Thanh Cuong postou fotos desembrulhando um Iphone 6, que ainda não tinha sido lançado em seu país (você pode ler sobre o caso aqui).

Cancelado por budistas do mundo todo, ele depois apagou a publicação e se livrou do aparelho, para não sofrer punições severas de sua ordem. Um escândalo semelhante envolveu o Venerável Unan, do monastério Sein Yadana, em Mianmar, em 2015. Ele foi um dos pioneiros a ter perfil em rede social. Unan ficou famoso ao defender que, sem falar inglês, nem usar redes sociais, não conseguiria se comunicar e transmitir o Dharma a pessoas no mundo todo (veja aqui).

Para Kalden, a situação da pessoa ordenada que não vive em monastérios é ainda mais complicada, porque ela não conta com um grupo que compartilha a mesma motivação e estilo de vida. Se essa pessoa for ocidental, a vida pode se tornar ainda mais desafiadora.

Nosso mestre, Lama Zopa Rinpoche, falava que os monges e monjas ocidentais são verdadeiros heróis e heroínas. Porque a gente não é e nunca vai ser tibetano. Não é nossa cultura e a gente não é parte da cultura deles [dos tibetanos]. Ao mesmo tempo, a gente não faz mais parte da realidade ‘normal’ da nossa cultura. A gente não tem mais um trabalho, nem uma casa para viver a nossa vida, em família ou não. Então, a gente está no limbo. Para ser sincero, a sociedade ocidental, em geral, não vê a utilidade de um monge ou uma monja. Ela não vai perceber que aquela pessoa abriu mão de ideias e desejos considerados normais. Por causa disso, às vezes, os monges ficam em uma situação de pensar: ‘Não tenho dinheiro, não tenho onde morar. E se alguma coisa me acontecer?'”, pontua Kalden.

Não é surpreendente que a maioria dos monásticos ocidentais tenha algum tipo de ocupação remunerada, em geral como palestrantes ou professores em cursos de meditação. O Lama Rinchen foi aconselhado pela grande yogini de sua linhagem, Sua Eminência Jetsun Kushok, a compartilhar a responsabilidade financeira pelas despesas da Sangha, algo que ele costumava arcar sozinho. Mais tarde, depois de um intervalo na carreira de professor para se dedicar só ao budismo, ele decidiu voltar a trabalhar. Foi bolsista universitário, trabalhou em hospitais e hoje dá palestras sobre o método de Treinamento da Compaixão na Base Cognitiva (CBCT), em espaços de saúde e educação ou em empresas.

    Fiquei meio triste, porque se considera que os monges não deveriam trabalhar. Conversei isso com Sua Santidade o Dalai Lama e com Sua Santidade Sakya Trizin. Eles acharam ótimo, porque entendem que, no Ocidente, não existe uma cultura de doadores dos mosteiros, como existe na Ásia. Agora, nossos eventos se pagam, mas a manutenção básica vem principalmente do meu trabalho. Se surgir essa pergunta ‘De onde veio esse carro?’, posso responder ‘Eu trabalho!'”, relata Lama Rinchen.

Monge tem que ser good vibes?

Outro problema é o estereótipo da pessoa monástica que está sempre serena, em perfeita paz, transmitindo aquilo que os hippies chamam de good vibes (em livre tradução, boa energia). De acordo com esse padrão mental, qualquer mínimo gesto de irritação pode ser enquadrado como uma desqualificação do indivíduo para a carreira monástica. A monja Waho tem uma boa história para contar sobre isso:

Lembro do dia em que eu estava no carro, dirigindo, com meu cabelo raspado e minhas ‘roupas de trabalho’, quando um cara me fechou e eu fiz aquele gesto de … [palavrão]. A gente emparelhou no farol e fiquei chocada com a surpresa dele por ter sido xingado por uma monja. Então, não posso mais fazer certas coisas, porque estou nesse lugar que toca o outro e tem um imaginário que, às vezes, se traduz assim: ‘Como é que ela tem carro? Ela não fez um voto de vida simples?’ Isso é da condição humana. Não vai deixar de acontecer. Ao mesmo tempo, se eu tenho essa possibilidade de tocar as pessoas, isso é um meio hábil para atraí-la para o Dharma”.

Os monges Zen parecem ter uma habilidade especial de rir de si mesmos, ao mesmo tempo em que abraçam as próprias contradições. No processo de pesquisa para este texto, encontrei o documentário Crows Are White (Corvos São Brancos), de 2022. Talvez por ter sido dirigido por um cineasta árabe, radicado nos Estados Unidos e acostumado a lidar com choques culturais, o filme consegue traçar um retrato ao mesmo tempo caótico e sensível do monge Kyushin, da tradição Tendai do Japão. Em seu mosteiro, Kyushin passa horas exercitando a caligrafia e atendendo a telefonemas. Sem tentar disfarçar, nem se entregar à culpa, ele confessa ao diretor Ahsen Nazeem que as tarefas o aborrecem. As filmagens são a oportunidade que ele sonhava para aproveitar seus maiores prazeres: tomar sorvete e ouvir Heavy Metal no último volume.

O Lama Rinchen explica por que, às vezes, a questão dos votos pode se apresentar de forma complexa e induzir as pessoas a fazer julgamentos apressados.

Aprendi que os votos não são algemas, eles são sentinelas que me ajudam a perceber se aquilo que eu pensei em adentrar seria ou não causa de infelicidade. Um monge não recebe 153 votos e, de repente, fica imune. Voto não é vacina! Voto é treino, um treino de todos os dias. Além disso, só quem os mantém sabe. As pessoas de fora têm sua própria percepção e imaginação, seu próprio sonho do que é um voto. A gente deve ter muito cuidado com isso e não julgar o voto do outro”, afirma Lama Rinchen. 

Essa conversa me lembrou que pessoas leigas, como eu, ocasionalmente fazem votos. Não os votos do Vinaya estabelecidos no tempo do Buda, claro, mas pelo menos nos comprometemos a lembrar dos primeiros cinco preceitos. Você consegue? Nem eu.

No Mahayana, somos ensinados que, às vezes, pode ser melhor driblar alguns votos da liberação individual, para reforçar nosso compromisso com o ideal bodisatva. No Vajrayana, aprendemos que a motivação deve ser o balizador da nossa relação com os votos. Mesmo assim, muitos de nós adoramos fiscalizar a vida dos seres ordenados e comentar seus supostos “deslizes”.

Certa vez, participei de um jantarzinho para arrecadar fundos para o projeto Dipamkara, da nossa querida monja Ani Zamba Chözom, no Rio de Janeiro. Pelas minhas contas, aconteceu em 2007. Eu me aproximei discretamente dela para perguntar se queria um suco ou uma água e a resposta soou bem clara, para quem quisesse ouvir: “Traz uma cerveja”. Imediatamente, me senti mal, desgostosa, como se alguém estivesse fazendo algo inadequado diante de mim e ainda exigindo minha concordância. Naquele momento, eu bem que podia ter considerado os meus próprios votos, em vez de julgar o comportamento dela. Até hoje, agradeço Ani Zamba, falecida em dezembro de 2023, por aquela chacoalhada na minha hipocrisia.

A conclusão a que cheguei de tudo isso é: se você conhece monges ou monjas budistas de linhagem autêntica ou se você tem a sorte de morar perto deles, cuide bem dessas pessoas. A Sangha monástica fez e segue fazendo inúmeros sacrifícios para passar a lâmpada adiante. Você e eu não estaríamos aqui, nos conhecendo por meio de uma plataforma digital budista, se um número incalculável de pessoas antes de nós não tivesse acordado um belo dia com a decisão de raspar a cabeça e “vestir o uniforme” das Três Joias Preciosas. E aos que tomaram essa difícil decisão, mesmo que tenham se arrependido depois, quero transmitir aqui todo meu respeito e gratidão.    

Robina Courtin, a monja que nunca se interessou por meditação

Muitas pessoas laicas têm dificuldades para meditar. Mesmo assim, a tradição budista chega a nós principalmente pela meditação, sua ferramenta mais famosa. O que acontece com uma monja que não quer fazer horas de prática formal na almofada? Ela é forçada, punida ou expulsa? Nada disso. A trajetória da Venerável Robina Courtin, da linhagem Gelugpa do budismo tibetano, é uma prova de que é possível dedicar a vida ao Dharma de infinitas maneiras.

Encontrei uma comovente carta escrita por Robina no final do ano passado, neste site da Fundação Internacional para a Preservação do Mahayana (em inglês, FPMT). Lembrei de sua passagem pelo Rio de Janeiro, um furacão de energia urbana, querendo passear nos lugares mais lotados de gente, para que os seres vissem seus mantos monásticos e assim criassem uma conexão com o budismo. Lembro do vizinho do apartamento de baixo, reclamando comigo que andava ouvindo ruídos estranhos na madrugada, alguém deitando e levantando do chão. Eram as prostrações da Venerável Robina.

Monja Rubina Courtin (Foto: Arquivo Imisangha)

Seu estilo intenso e direto, sem nenhum compromisso com o estereótipo de monja “boazinha”, ficou conhecido no mundo inteiro. Levantar dinheiro é um seus de pontos fortes e, nessa carta, ela dá detalhes sobre investimentos que estão rendendo para os projetos do Dharma, enquanto a gente dorme. Como a carta é longa, separei e traduzi os trechos que me pareceram mais importantes logo abaixo, mas você pode ler o original clicando aqui.


Cumprimentos aos meus muito queridos irmãos monges e irmãs monjas e nossos apoiadores

            Moro sozinha em Nova York atualmente. Passei minha vida em comunidades — primeiro numa família de nove, depois no colégio interno católico, em comunidades hippies, comunidades feministas e, finalmente, em comunidades budistas. Devo dizer que gosto desse jeito: somente eu.

            Quando você está sozinha, é muito tentador não se vestir adequadamente — isso aconteceu principalmente durante a pandemia. Mas sempre quero ser uma monja, então uso meus mantos: isso deixa uma boa marca.

            Passei muitos anos na estrada com somente uma maleta e os únicos mantos que eu tinha estavam no meu corpo. Você lava de noite e volta a colocar no dia seguinte. Agora tenho um armário, mas, mesmo assim, só um conjunto de mantos me parece o bastante. Tenho três pares de sapatos e dois casacos. Um luxo!

            Por que quero ser uma monja? Porque pelo que entendi dos ensinamentos de Lama Zopa Rinpoche, sair do samsara é uma batalha ladeira acima, quase impossível, sem fazer votos, especialmente o voto de não ter sexo.

            Muitas pessoas laicas atualmente vivem em celibato, como se fossem monges e monjas. Mas se isso não for feito no contexto dos votos, não há poder. E a única vez em que a ação de se abster de atividade sexual deixa uma semente cármica é quando a mente está envolvida; em outras palavras, quando há intenção. E para que essa semente valha a pena, a intenção precisa ser guiada por uma motivação pura. Quantas vezes por dia isso acontece?

            Como diz o Rinpoche, apenas ser bom não é o suficiente. […]

            Viver nos votos purifica todas as quatro maneiras com que o carma amadurece: o tipo de renascimento, as tendências, as experiências e o ambiente. Quanto às tendências, só isso já é fantástico. Você consegue imaginar acordar na próxima vida sem nenhum pensamento sobre sexo, nenhum apego a pessoas e coisas? Que alívio!

            Gosto de acordar cedo e então fazer oferendas nas tigelas de água. Eu esvazio a oferenda de ontem, depois levo a água abençoada em garrafas numa sacola de compras — mais fácil de carregar do que um balde — pelo elevador, descendo quatro andares, e esvazio as garrafas nas árvores cercadas que temos na rua. Uma vizinha outro dia me agradeceu por molhar as plantas — não contei a ela que esse não é o nome da ação que eu estava fazendo.

            Então, faço algumas prostrações. Foi a primeira prática que o Lama Yeshe me passou: “Boa yoga física”, ele disse. Rinpoche me falou para fazê-las “a cada manhã e cada noite” da minha vida. Há alguns anos, eu podia fazer cinco conjuntos de trinta e cinco prostrações, muito rápido — e nua, por que quem vai querer usar mantos suados? Agora mal consigo fazer vinte, com esse corpo de oitenta anos. Faço vestida, mas ainda rápido.

            O que mais eu faço todo dia? Além de meus vários compromissos, que divido em sessões ao longo do dia, porque não sou muito de ficar horas sentada, eu respondo alguns e-mails; ocasionalmente, faço sessões no Zoom ou algumas viagens para centros aqui e ali; também edito ensinamentos do Rinpoche. Escrever a biografia do Rinpoche está na minha lista de coisas para fazer.

            Com a melhor bodhichitta que consigo reunir, estou tentando levantar muito dinheiro para a miríade de projetos do Rinpoche. Administro o Bodhichitta Trust, que investiu em duas start-ups e que faz doações mensais a vários projetos. Também gerencio um fundo chamado The Buddhist Group LLC, que investiu em outra start-up: todos os 28 parceiros, inclusive o Trust, são devotos da FPMT. Vamos rezar para que nossos esforços rendam frutos quando o Rinpoche estiver de volta para nós.

            Não vou a muitos ensinamentos, infelizmente. Esse é meu grande arrependimento nessa vida: não estudei o suficiente. Mas eu nunca vou esquecer meus dois anos do Programa de Geshe, quando estudei Dura, Lorig, Drubta e Tarig com Geshe Jampa Tegchog, no começo dos anos 1980. Todo Dharma que sei hoje foi me passado pelo que aprendi naquele tempo. Sinto como se fosse ontem.

            Inicialmente, eu não tinha ideia do que significava estudar. Eu nunca tinha estudado nada: saí da escola aos 16 anos e tinha zero interesse em tudo que se ensinava nas universidades. Quando encontrei o Dharma, 15 anos depois, tudo o que eu sabia é que queria ser monja e fazer coisas, por isso fui para o centro na Inglaterra e trabalhei para a Wisdom Publications, logo após a ordenação. Eu tampouco tinha interesse em meditação — queria entender minha mente, mas não ficando sentada com os olhos fechados. […]

            De que outras formas uso meu tempo? Dou uma caminhada a cada dia ou dois. Vivo a cinco minutos do rio Hudson; é bonito ver a água. Também gosto de ler jornais no meu iPad. Assino The New York Times, Washington Post, Financial Times, Wall Street Journal, The Guardian, The Economist, New Yorker, Vogue e Vanity Fair. O samsara desnudado: grãos para o moinho da prática. […]

            Morei em Nova York há 50 anos, durante a fase final dos meus dias de ativismo político. Lembro de pensar naquela época que, se algum dia eu me estabelecesse em algum lugar, seria aqui. Agora vivo a cinco minutos da esquina onde eu costumava morar, na Rua Christopher, no West Village.

            Mas sabe de uma coisa? Eu poderia ir embora daqui amanhã – realmente não me importo. E como nos lembra Rinpoche, essa é a melhor maneira de pensar, porque, de fato, pode ser amanhã que eu tenha que deixar tudo para trás.

            Muito amor e muitas bênçãos para todos!
Robina


Quando este texto ficou pronto, os monásticos que entrevistei puderam revisar suas falas. A monja Wahō nos presenteou com uma resposta muito carinhosa, que tomamos a liberdade de reproduzir aqui.

Muito obrigada! Vamos seguir de cabeças raspadas, visíveis e invisíveis, por fora e por dentro.


PARA SABER MAIS


Matéria publicada em 07/07/2026

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