Banares | Começando pelo fim

Primeiro relato de um diário (sem data) de peregrinação


Por
Revisão: Cristiane Schardosim Martins
Edição: Carol Franchi

— Yeah… you’re going back to Brazil. At least one more time. You’re not here for good, not yet.¹

Puxei minha mão, frustrada. Estava ali, numa das cidades mais antigas do mundo, com ruas povoadas de iogues e templos marinados pela brisa do Rio Ganges… e o que me ocorreu fazer? Deixar que um suíço — de aparência e currículo constrangedoramente duvidosos — fizesse a leitura da minha mão pra revelar meu futuro. Me senti um pouco ridícula. Mas também incomodada. Quem era ele pra me dizer o que não me interessava ouvir?

Seguimos descendo as escadas do restaurante. Poucos minutos antes, no terraço, o sol esmaecia vagaroso por detrás da arquitetura em ruínas dos velhos ghats, cujas escadas desembocavam no rio. Pássaros sobrevoavam as águas em polvorosa, como que tomados de surpresa pelo entardecer. Os barcos a remo compunham, na margem próxima, uma longa e resignada fila. No torpor laranja da golden hour, éramos todos trabalhadores em mais um fim de expediente.

Já estava em Varanasi há cerca de uma semana. Poderia dizer que foi uma escolha minha ir até lá, mas não estaria sendo sincera. Varanasi era o único destino possível naquele momento. Eu buscava um solo para morrer. Um solo capaz de abarcar o incêndio que me consumia. Varanasi me alcançou antes mesmo de eu chegar até ela.

Nos primeiros dias, entrei em contato com um amigo que havia conhecido poucos meses antes. Éramos alunos do mesmo professor. Ele, mexicano, era praticante do budismo tibetano e do hinduísmo e já residia em Varanasi há duas décadas. Perguntei se ele conhecia um bom astrólogo védico, alguém de confiança com quem pudesse me consultar. Ele respondeu que sim e se ofereceu para me levar. Também me convidou para acompanhá-lo, no dia seguinte, em uma visita a um renomado guru do hinduísmo. Prontamente aceitei.

 

Arquivo pessoal da autora

 

Movimentar-se pelas cidades da Índia é sempre uma odisseia. Começa na discussão com os motoristas de tuk-tuk, que tentam cobrar de nós, estrangeiros, no mínimo três vezes o preço normal. Como já estava acostumada, após uma breve encenação e ameaças de negociar com outro motorista, consegui um valor razoavelmente justo e embarquei. Saímos de uma rua próxima ao Chausathi Ghat, onde ficava minha guesthouse (pousada, em portugês), em direção ao badalado Assi Ghat. Encontrei meu amigo, sua companheira e um grupo de cerca de vinte mexicanos que eles levariam para conhecer esse professor. Dividimo-nos entre alguns carros e fomos para o seu centro.

O centro ficava à beira do Ganges. Nunca imaginei que, no coração de uma das cidades mais efervescentes da Índia, seria possível encontrar um local tão silencioso e calmo. Pelas trilhas do jardim, via-se aqui e ali alguém caminhando sozinho. O ambiente todo tinha uma atmosfera contemplativa, que permeava também os funcionários. Após alguns minutos, o atendente do mestre nos chamou. Fomos conduzidos a uma sala arejada, com grandes janelas que se abriam para o pôr do sol no Ganges. Ao centro, em uma poltrona, estava o professor. Nosso grupo sentou-se à sua volta e, depois de um breve silêncio, ele iniciou a conversa.

Sua presença era assustadoramente pacífica. Naquele ambiente de um branco quase casto, perfumado com o aroma suave de incenso, eu tinha a sensação de que até o ar era almofadado. Sua fala girou em torno de vivermos uma vida melhor, mais íntegra, mais virtuosa, com menos problemas e complicações. Eu sabia que, dado o público a quem ele se dirigia — curiosos pelo caminho espiritual, com pouco ou nenhum conhecimento, ou experiência —, era apenas natural que ele utilizasse aquela abordagem. Mas eu queria saber mais. Queria saber se, afinal, todos os caminhos levam de fato ao ponto último.

Assim, quando ele finalmente abriu para questões, fui a primeira a erguer o braço. Um pouco desconfiada, perguntei qual era o ensinamento mais elevado, mais profundo, mais secreto da sua tradição (se é que ele podia revelar assim, de modo aberto). Sua resposta me decepcionou. E o meu rosto não escondeu.

— It’s to become one with God.

Ele me olhou, inabalado. Não falei mais nada, nem ele. E ele seguiu adiante com as outras questões.

Passados alguns minutos, me dei conta da minha arrogância. Presumia saber o que “deus” significava no contexto de uma tradição que me é completamente alheia. Presumia que a palavra “deus” invariavelmente carrega o sentido atribuído a ela pelas religiões abraâmicas. Presumia, inclusive, saber o que essa palavra significa para tais religiões. Presumia que meu raso entendimento cognitivo dava conta de relegar a complexa gama de experiências que recebem esse rótulo a um balaio de baboseiras.

É, se eu fosse o mestre, também não me abalaria.

 

Arquivo pessoal da autora

 

No dia seguinte, como combinado, meu amigo me levou para a consulta com o astrólogo védico. Descobri que ele pertencia a uma antiga família que, há gerações, transmitia de pai para filho o conhecimento da astrologia. Era o que se poderia chamar de uma linhagem de astrólogos. Seu método era simples: as pessoas alinhavam-se no saguão do consultório e esperavam sua vez. O pagamento era por dana — doação — e não havia sugestão de valor.

Não sei bem o que eu procurava. Pedi ao meu amigo, que estava servindo de intérprete, que indagasse sobre os obstáculos do meu mapa. “Não há nenhum grande obstáculo. Na verdade, está tudo fluindo bem, muitas coisas auspiciosas.” Pedi para ele checar de novo, com mais cuidado. Tem certeza? “Sim. Júpiter, que representa o guru, está com todos os outros planetas sob o seu poder. É ele que está no comando.” Depois de um breve silêncio, ele acrescentou: “Em termos dos planetas no mapa, estão todos te ajudando. Se ainda assim tiveres algum problema, aí não é culpa deles. É tua mente que está criando.”

É… o que eu esperava ouvir? Naquela hora, percebi que tinha viajado quilômetros, catado um astrólogo a quem só se chega por recomendação e pedido que analisasse a conjuntura dos corpos celestes, pois — sim! — estava resistindo às boas notícias. Será mesmo que está tudo fluindo tal qual aspirei? Se tivesse um restaurante chinês por perto, teria comprado um biscoitinho da sorte pra confirmar.

 

Arquivo pessoal da autora

 

Mas a verdadeira razão de eu ter ido a Varanasi não tinha nada que ver com astrologia, mestres hindus ou mesmo o famoso bhang lassi (que, aliás, recomendo). O que me chamou foi o fogo. Por horas a fio, eu sentava diante das piras dos campos de cremação. Sentava diante da sua crueza, da pele explodindo em bolhas, tornando-se amorfa, sumindo. Em nada há maior honestidade do que na morte. Eu era, ali, uma testemunha — sem ter o que testemunhar. E nesse vazio, nessa impossível abertura, encontrava uma estranha paz. Como que um berço no abismo.

Varanasi é o corpo de Kali. E da sua língua pende o mundo inteiro, perplexo e frágil. Acho mesmo que nas suas piras ardemos todos nós, desde sempre (nesse tempo de Varanasi que devora o próprio tempo). Dizem que Banares é a cidade mais antiga do mundo. Eu diria que ela não tem idade. Diria que está sempre ali, sempre aqui — no seio deste lampejo, quando abrimos um pouco os olhos.

¹“Sim, você vai voltar pro Brasil. Pelo menos mais uma vez. Ainda não fica aqui para sempre.”

Caroline Souza está na Índia e contribui com a Bodisatva escrevendo seus relatos de viagem.

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1 Comentário

  1. Bruno menegat disse:

    Obrigado pelo relato Carol!

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