Ensinamentos atemporais de um precioso mestre tibetano do século 19
Ao longo de mais de 30 anos, Matthieu Ricard — microbiologista francês e monge budista que hoje vive no Nepal — reuniu histórias orais sobre Patrul Rinpoche em conversas tecidas com herdeiros espirituais de sua linhagem.
Na cultura tibetana, a tradição oral ainda é vívida e as preciosas histórias recolhidas sobre ele foram compiladas no livro “Enlightened Vagabond: the life and teachings of Patrul Rinpoche” (ainda sem tradução para o português).
Aspiramos que a leitura deste ensaio textual instigue o interesse das pessoas pelo livro sobre a vida do mestre na íntegra!
Ao ler “Enlightened Vagabond: the life and teachings of Patrul Rinpoche”, nos sentimos verdadeiramente transportados para aquele espaço-tempo tibetano do século 19, como se nós próprios estivéssemos ao lado de Nyoshul Lungtok e Onpo Tenga, ambos alunos de Patrul, sentados em alguma colina recebendo ensinamentos.

É oportuno reconhecer os méritos de Matthieu Ricard, que construiu uma narrativa com base em cenas recolhidas a partir das histórias orais recontadas geração após geração, trazendo a força viva da memória de Patrul Rinpoche (1808-1887), presente no coração dos tibetanos em cada vilarejo por onde ele andou.
Sim, Patrul era um andarilho. Não viajava a cavalo, como era costume na época. Somente a pé. Publicou seu livro mais conhecido “Palavras do Meu Professor Perfeito”, a partir dos ensinamentos recebidos de seu mestre Jigme Gyalwai Nyugu.
O livro se tornou amplamente difundido no Tibete entre seus contemporâneos, praticamente uma bíblia sagrada que penetrou a cultura tibetana. Embora as pessoas conhecessem o livro, não sabiam reconhecer quem o havia escrito, pois, quando era ainda bem jovem, Patrul abdicou da posição social, riqueza e status de um Rinpoche para viver uma vida errante.

Há uma cena curiosa e até mesmo divertida na qual Patrul estava hospedado na casa de um Lama que o acolheu, ofereceu abrigo e alimentos em uma de suas peregrinações.
O referido Lama, sentindo-se compelido a compartilhar algum ensinamento com aquele senhor simples e maltrapilho que estava hospedado em sua casa, apresentou-lhe “Palavras do Meu Professor Perfeito” e o convidou a contemplar as práticas preliminares inscritas no livro. Humildemente, Patrul Rinpoche aceitou receber ensinamentos do Lama que gentilmente o acolhera.
Dias depois, após Patrul ter sido convidado para ensinar em um monastério da cidade, o Lama que o hospedara ouviu falar que o grande mestre Patrul Rinpoche estava na região e ele não poderia perder esse acontecimento por nada. Ao chegar lá, deparou-se com seu hóspede maltrapilho na mesa de professores. Quando se deu conta, sentiu-se embaraçado por não o ter reconhecido antes e envergonhado por oferecer ensinamentos para o próprio autor do livro.
Esse era o estilo de Patrul Rinpoche: tornar-se invisível.
No entanto, mesmo naquela época em que não havia internet e fotografias circulando com a rapidez de um clique, ainda assim nem sempre foi possível para ele disfarçar sua notoriedade.
Os encontros com o mestre Khyentse Yeshe Dorje
De todas as cenas apresentadas em “Enlightened Vagabond”, poucas são tão eletrizantes e vivazes como os encontros com Do Khyentse Yeshe Dorje, o mestre que apresentou a natureza da mente à Patrul Rinpoche. Do Khyentse era conhecido por seu comportamento espontâneo e imprevisível e, ainda, reconhecido como um grande siddha, uma reencarnação de Jigme Lingpa.
Certa vez, Do Khyentse viajou para Dzachukha, terra natal de Patrul Rinpoche. Tendo ouvido falar sobre a chegada de seu mestre à cidade, Patrul foi até a vila para encontrá-lo. Quando Do Khyentse avistou sua presença de longe, chamou-o dizendo:
— Ei, Patrul! Se você é tão corajoso, por que você não vem até aqui?
Ao se aproximar do mestre, Patrul percebeu que ele andava se embriagando, pois sentiu o cheiro de chang (uma bebida alcoólica tradicional tibetana). Relembrando os ensinamentos do Buda sobre os efeitos nocivos de intoxicantes, Patrul pensou com tristeza e certo desprezo que até grandes mestres podem cair bêbados e se comportar de modo inadequado.
No exato instante em que esses pensamentos passaram pela mente de Patrul, seu mestre Do Khyentse o derrubou no chão (em vários sentidos).
Com firmeza — e, por que não dizer, certa dose de violência —, Do Khyentse gritou “Pah!”, cuspindo na face de Patrul e lhe dizendo:
— Seu cachorro velho, sua mente ainda está repleta de conceitos!
Na cultura tibetana, a expressão “cachorro velho” é bastante ofensiva. Patrul precisou de alguns instantes para se dar conta do que havia acontecido. Ainda em choque, sentiu que tinha perdido todas as suas referências.
A abertura experimentada pela devoção a seu mestre permitiu que, naquele instante, ele acessasse a natureza de sua mente. Com profunda reverência e gratidão, descansou nesse estado de consciência nua — ampla e brilhante como um céu sem nuvens — e livre de pensamentos discursivos.
Após esse acontecimento, Patrul passou a se apresentar como “cachorro velho” em diversas ocasiões, acolhendo o nome iniciático compassivamente ofertado por seu mestre. Inclusive, muitos de seus textos foram assinados sob a insígnia “Cachorro Velho”.
— Algumas pessoas o amam e outras pessoas o temem – não podem dizer uma palavra em sua presença. Por que será?
Após refletir por alguns instantes, Patrul finalmente respondeu:
— Talvez algumas pessoas me amem, porque cultivo compaixão e bondade amorosa continuamente. Talvez algumas pessoas me temam, porque considero o “eu” e os fenômenos igualmente vazios de natureza intrínseca.
O cultivo da bondade amorosa e compaixão
Patrul Rinpoche foi um mestre da compaixão. Nutria bondade amorosa e se alimentava ao nutrir outros seres (metafórica e literalmente falando). Conta-se que, quando ele estava habitando uma caverna em Dzachukha, sua terra natal, Patrul frequentemente se deitava na floresta em tardes de verão, removia suas roupas e permanecia no chão por horas, impassível, oferecendo seu sangue como alimento para um conglomerado de insetos que o picavam por todo o corpo.
Seu aluno Nyoshul Lungtok também relata a comovente situação vivenciada por eles em um dos invernos mais severos no qual estavam em retiro. Não havia mais provisões e nem sequer arbustos comestíveis que pudessem alimentá-los. Tudo era neve.
Estavam famintos por dias até que uma das pessoas do grupo avistou uma carcaça de algum animal. Passaram a se alimentar desses ossos em decomposição, mas, em seguida, Patrul sentiu profunda compaixão pelos abutres que agora não tinham mais o que comer, visto que eles próprios — humanos — estavam se alimentando da comida dos pássaros.
Diante dessa constatação, Patrul aconselhou seus alunos a devolverem o que ainda havia disponível e a não voltarem a recolher carcaças naturalmente destinadas aos abutres.
Exceto em algumas situações em que seu mestre Do Khyentse o incitava a comer carne como uma maneira de afastar qualquer percepção dualista e orgulho, na maior parte do tempo, Patrul Rinpoche seguia votos vegetarianos e não permitia que animais fossem abatidos em seu nome.
Fazia isso, não porque acreditasse que a vida e a morte são algo além de uma ilusão criada pela visão separativa das mentes comuns — ele certamente via a realidade além dessa percepção usual —, mas porque essa era uma prática de compaixão brotada do reconhecimento de que todos os seres temem perder suas vidas; de que todos os seres querem ser felizes; e de que a vida é a dádiva mais preciosa que cada um tenta proteger.
Patrul Rinpoche, imenso em sua bondade, protegia e nutria todos aqueles com quem se encontrava, seres humanos e mais que humanos.
O presente enviado pela mãe de Nyoshul Lungtok
“A-dzi!”
É a expressão que guardo com ternura após terminar de ler o livro, pois é a interjeição que Patrul proferia antes de derramar um mar de bodhicitta nas pessoas ao seu redor.
Nenhuma cena relatada me comoveu tanto como aquela em que se narra o presente enviado pela mãe de seu aluno Nyoshul Lungtok àquele filho que há tanto tempo residia distante dela. Com esmero e ternura, essa mãe preparou uma espécie de pote de manteiga, feito de modo tradicional tibetano em camadas.
Quando o pote de manteiga chegou a suas mãos, Nyoshul Lungtok o ofereceu a Patrul Rinponche. Este, por sua vez, ao perceber a trabalheira envolvida na feitura daquela iguaria fez algumas perguntas sobre como sua mãe o preparava. Lungtok explicou que são necessários vários dias para a feitura, visto que leite fresco deveria ser adicionado a cada dia na camada anterior já consistente, vez por vez.
Ao se dar conta de toda a dedicação envolvida, Patrul se recusou a aceitar a oferenda de Lungtok, chamando-lhe a atenção para o enorme amor empenhado por sua mãe ao lhe enviar aquele presente.
Lungtok insistiu para que Patrul aceitasse a oferenda, pois assim sua mãe criaria uma conexão auspiciosa com ele. Seria de benefícios para sua mãe, caso ele aceitasse. Não vendo modos de escapar da insistência de Lungtok, Patrul finalmente aceitou. Passados alguns dias, perguntou a seu aluno:
— Você sente saudades de sua mãe?
Sem pensar muito, Lungtok respondeu de modo curto:
— Sinceramente, não…
“A-dzi!” — exclamou Patrul. — Isso é o que acontece quando se falha em cultivar compaixão.
E, então, Patrul o instruiu a ir até uma montanha próxima para meditar debaixo de uma árvore fresca e contemplar por sete dias sobre o fato de que todos os seres, em alguma vida passada, já foram nossas mães, relembrando sua bondade amorosa para conosco.
Lungtok seguiu as indicações de seu mestre, desenvolvendo a aspiração de trazer felicidade e as causas da iluminação para todos os seres, os quais foram suas mães em vidas prévias. Como resultado, genuína bondade amorosa e compaixão floresceram em sua mente-coração.
Palavras finais
“Enlightened Vagabond” é uma dádiva completa que merece ser contemplada. Se esse texto que você agora lê tem algum mérito, que seja o de lhe instigar para a leitura do livro na íntegra.
Onpo Tenga, um dos alunos de Patrul Rinpoche, faz uma observação tenaz apresentada ao final do livro:
“Nós não levamos causa e efeito a sério, então nossa prática tem poucos frutos. Por outro lado, nós todos poderíamos nos tornar como Patrul Rinpoche.”
Que possamos ser genuinamente tocados e inspirados pela confiança, devoção e entrega de nosso precioso ancestral Patrul Rinpoche ao Caminho! E que nossa prática seja igualmente de benefício aos incontáveis seres das 10 direções…
PARA SABER MAIS
Matéria publicada em 04/04/2026
Apoiadores
2 Comentários
Precioso texto! Obrigado por compartilhar essa dádiva, Cris! Inspirador!
Gratidão!
Muito inspirador!