Como desmontar as construções mentais, segundo Matthieu Ricard
Você já parou para pensar em como nossas crenças e preconceitos moldam nossos mundos e influenciam a interação com ele?
Neste texto, o monge budista francês Matthieu Ricard contempla a complexa teia de pensamentos que, muitas vezes, nos aprisiona, examinando como eles afetam nossas vidas, relações sociais e nossa busca por conhecimento.
O vínculo social é uma necessidade essencial e vital para os seres humanos, trazendo benefícios tanto para a saúde física, quanto para a mental, como muitos estudos têm demonstrado. No entanto, na era das redes sociais (que, por vezes, se tornam “antissociais”) e da facilidade de comunicação sem precedentes, o número de pessoas isoladas continua a aumentar, levando a uma maior desconfiança e alienação. A crise sanitária e as mudanças sociais associadas ao individualismo levaram, de fato, a uma erosão da confiança, bem como ao aumento da divisão e do preconceito contra aqueles que não compartilham nossas opiniões, crenças e hábitos.
Trancados em nossas bolhas de informação, vivemos em um mundo totalmente moldado por nossas crenças, representações e costumes. Perpetuamos padrões de poder discriminatórios e hierárquicos por meio da adesão a grupos baseados em raça, religião, gênero ou riqueza, o que contribui para a opressão daqueles considerados “diferentes”, os excluídos que pertencem a outros grupos.

A internet também cria uma ilusão de conhecimento. Acreditamos que podemos saber tudo, de imediato, sobre qualquer assunto, como se algumas horas navegando, guiadas por algoritmos que multiplicam vieses cognitivos e reforçam preconceitos, pudessem substituir 10 ou 15 anos de estudo em uma área específica. Atualmente, muitas pessoas não valorizam o aprofundamento e o esforço. No entanto, adquirir conhecimento exige dedicação prolongada e rigorosa, tanto para confirmar hipóteses que refletem a realidade, quanto para rejeitar aquelas que não resistem a fatos verificáveis ou a análises lógicas.
Para Aaron Beck, destacado psicólogo e terapeuta que desenvolveu a terapia cognitiva, os “pensamentos automáticos” — as suposições e tendências profundamente enraizadas que influenciam nossos estados mentais — decorrem de distorções cognitivas que podem ser questionadas e transformadas. O Dalai Lama frequentemente citava suas conversas com Aaron Beck, afirmando que, quando alguém está com muita raiva, três quartos (pelo menos!) de suas percepções sobre outra pessoa são distorcidas por projeções mentais. Paul Ekman, outro especialista em emoções, chama esse fenômeno de “período de resistência”, durante o qual somos incapazes de perceber qualquer qualidade positiva na pessoa de quem estamos com raiva.
Na verdade, grande parte dos problemas que nos perturbam consiste em construções mentais que projetamos sobre a realidade e que poderíamos desmontar, a fim de nos libertarmos da servidão de nossos próprios pensamentos e preconceitos. É assim que alcançamos a liberdade interior.

Em um artigo publicado após nossas conversas, Beck explica que:
a autoabsorção — ou egocentrismo intransigente — está, em parte, relacionada à propensão das pessoas a atribuírem a mais alta prioridade — às vezes, prioridade exclusiva — aos seus próprios objetivos e desejos, em detrimento dos outros (assim como de si mesmas). […] Sua atenção fixa-se em suas próprias experiências internas. Relatam eventos irrelevantes para si mesmas e preocupam-se exclusivamente em satisfazer seus próprios conjuntos de necessidades e desejos. No entanto, indivíduos considerados normais também apresentam esse tipo de egocentrismo, embora em menor grau e de maneiras mais sutis. Tanto o budismo, quanto as terapias cognitivas buscam atenuar essas características.
O psicólogo e neurocientista britânico Andreas Kappes também observou, em nível cerebral, uma incapacidade de usar informações que não confirmam crenças previamente estabelecidas, impedindo assim que os sujeitos reconsiderassem a confiança que depositam em seus julgamentos e preconceitos, mesmo diante de evidências que claramente contradizem suas crenças. Ao mesmo tempo, o cérebro registra e valoriza informações que confirmam tais crenças. A tendência de prestar atenção apenas ao que reforça nossas opiniões torna ainda mais difícil adquirir conhecimentos válidos. Em psicologia, isso é chamado de “viés de confirmação”.
Os seres humanos, portanto, tendem a desconsiderar informações que contrariem suas escolhas e julgamentos anteriores. Esse viés tem um impacto significativo em diversas áreas, que vão desde a política até a ciência e a educação. E, hoje em dia, a proliferação de notícias falsas obscurece os meios de conhecimento verificados.
Manter uma crença é muito mais fácil do que chegar a uma conclusão derivada de uma investigação imparcial dos fatos. A crença e seus desdobramentos — preconceitos, julgamentos prontos, vieses cognitivos, adesão às opiniões do grupo ao qual pertencemos, influência de líderes que seguimos, boatos, dogmas etc. — exigem pouco esforço. É uma maneira fácil de nos convencermos de que sabemos algo e de ficarmos ainda mais satisfeitos quando adotamos uma postura de superioridade condescendente em relação àqueles que se esforçam laboriosamente para distinguir entre o certo e o errado e a chegar a conclusões fundamentadas.
Numerosos estudos psicológicos mostraram que preconceitos são particularmente difíceis de dissipar, uma vez que o confronto com evidências que apontam sua imprecisão pode reforçá-los, em vez de refreá-los. Leon Festinger foi o primeiro cientista social a se interessar por previsões milenaristas baseadas em invasões extraterrestres nos Estados Unidos. Seu popular livro When prophecy fails (em tradução livre, “Quando a profecia falha”) é resultado dessa pesquisa, durante a qual membros de sua equipe se infiltraram em um grupo que previa o fim do mundo em uma data específica. Festinger mostrou o arsenal de defesas engenhosas que as pessoas usavam para proteger suas crenças, mantendo-as intactas por meio das negações mais devastadoras. De acordo com Festinger, “não apenas o indivíduo não será abalado pelo fracasso de suas previsões, como sairá mais convencido do que nunca da ‘verdade’ de sua fé. Eles podem até mostrar entusiasmo renovado e converter leigos”. Nesse estudo de caso, os seguidores atribuíram sua fé e sua cumplicidade com o grupo alienígena como a razão pela qual a humanidade mal teria evitado um apocalipse iminente.
Como seres humanos, todos temos preconceitos, mas também possuímos, por meio do treinamento da mente, a capacidade de nos libertarmos deles. Não se trata de limpá-los, mas de entender sua lógica, de estar ciente deles e de ser capaz de distinguir entre o que sabemos de fato e o que pensamos saber. Isso implica mergulhar no fundo de nosso ser, longe de nossa agitação e ansiedade habituais, para restabelecer um equilíbrio puro, livre e sereno: essa clareza do momento presente, depois que os pensamentos passados cessaram e antes que surjam novos pensamentos, ainda não afetados pela encenação de nossas tendências, preconceitos e construções intelectuais.
Considere a capacidade que uma criança tem de questionar, sendo livre de vieses e preconceitos e não impondo suas projeções mentais à realidade. Vamos ao diagnóstico: devemos reconhecer a influência de nossas emoções, de nossos vieses cognitivos e de outros bloqueios que condicionam nosso jeito de ser, de como agimos e reagimos ao mundo. Ao nos concentrarmos em nossa percepção imediata, no que está acontecendo aqui e agora, podemos superar nossos preconceitos e nos colocar no lugar de outras pessoas que são vítimas de suas próprias projeções mentais.
E não se trata apenas de reduzir o preconceito entre grupos humanos, mas também contra os animais que são vítimas do especismo, a negação do respeito à sua vida, dignidade e necessidades. Para Peter Singer, o especismo é “um preconceito ou atitude tendenciosa em favor dos membros da própria espécie e em detrimento do interesse dos membros de outras espécies”.
Em nível social, ocorreram evoluções e mudanças de atitude que, à primeira vista, poderiam parecer improváveis ou irrealistas, como a abolição da escravidão no final do século 17. Como algo até então considerado autoevidente se torna inaceitável? Em um primeiro momento, alguns indivíduos percebem que determinada situação é moralmente indefensável. Convencem-se de que o status quo não pode ser mantido sem sacrificar seus próprios princípios éticos. Inicialmente isolados e ignorados, esses pioneiros acabam unindo forças, transformando-se em ativistas que revolucionam ideias e abalam hábitos. Nessa fase, são frequentemente ridicularizados ou vilipendiados. Mas, aos poucos, algumas pessoas que antes estavam relutantes começam a entender que eles estão certos e a simpatizar com a causa que defendem. Quando o número de apoiadores atinge uma massa crítica, a opinião pública fica ao lado deles. Foi assim que Gandhi resumiu essa evolução: “Primeiro eles te ignoram, depois riem de você, depois lutam contra você e, então, você vence”.

Depois de ler estas linhas, entendemos que as escolhas éticas são muitas vezes complexas e às vezes fragmentadas em razão dos conflitos da nossa mente. Ainda assim, coletivamente, podemos fazê-las por meio do cultivo de um ethos orientado pela virtude e pela bondade para com todos os seres, garantindo que nossas decisões não sejam influenciadas por nossa angústia emocional ou por preconceito.
PARA SABER MAIS
Este texto foi publicado no blog de Matthieu Ricard, em março de 2022. Ele é monge budista, autor best-seller internacional, tradutor e fotógrafo. Para acessar o blog do autor, clique aqui.
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Matéria publicada em 16/05/2026
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