Uma viagem para NYC e algumas histórias em torno do livro “Instruções ao Cozinheiro”
Neste relato de experiência, a jornalista, voluntária do time da Bodisatva e praticante vinculada ao Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB) de João Pessoa, Janaína Araújo, narra uma viagem em março de 2026 realizada a Nova York para compor a delegação brasileira pelo Governo da Paraíba na Comissão sobre a Situação da Mulher (CSW), um dos principais fóruns globais da Organização das Nações Unidad (ONU). Durante a viagem, algumas coincidências ocorreram e despertaram curiosidades sobre o surgimento da Greyston Bakery, fundada pelo monge Zen budista Bernie Glassman em 1982, autor do livro Instruções ao Cozinheiro. Acompanhe os detalhes a seguir!
Estive na CSW70, em Nova York, acompanhando dias intensos de debate sobre o acesso à justiça sob a perspectiva de gênero. A CSW — ou Comissão sobre a Situação da Mulher — é um dos principais fóruns globais da Organização das Nações Unidas (ONU) dedicados à promoção da igualdade de gênero e dos direitos das mulheres. Nesta edição, integrei a delegação brasileira pelo Governo da Paraíba.
Em meio ao frio rigoroso, mulheres de mais de 150 países se reuniram para discutir os impactos dessa agenda em diferentes áreas, do direito à saúde, passando pela educação, emergência climática e pelas políticas voltadas à juventude. Era um ambiente de densidade política e, ao mesmo tempo, de encontros humanos profundos.
Foi nesse contexto que, de forma quase inesperada, um gesto simples me atravessou: um sorvete da Ben & Jerry’s. Mais especificamente, aquele que leva brownies produzidos pela Greyston Bakery. Enquanto experimentava o sabor, me vi conectando aquela experiência a algo maior, à minha própria trajetória e ao livro Instruções ao Cozinheiro, publicado pela editora Bodisatva, com a qual colaboro como voluntária.
Levei na bagagem o livro Instruções ao Cozinheiro, de Bernie Glassman, e havia pensado em conhecer a padaria onde tudo começou. A obra, publicada no Brasil pela editora Bodisatva, relata a experiência de Bernie na criação da Greyston Bakery e nos ensina como preparar uma refeição suprema com os ingredientes que tivermos em mãos. Tudo pode ser uma oferenda suprema, inclusive, nossa vida, nossa fala e nossa mente.

A obra, escrita por Bernie Glassman, propõe uma reflexão sobre como construir uma vida e um trabalho com sentido a partir de ingredientes básicos, incluindo a própria mente, que também pode (e deve) ser observada, compreendida e, em certos momentos, desapegada. Mais do que uma metáfora, trata-se de uma prática.

Movida por essa conexão, considerei atravessar a distância até Yonkers, onde nasceu a Greyston Bakery. Mesmo sem conseguir ir até lá, acessei a história da padaria e encontrei algo que dialogava diretamente com os debates da CSW: um modelo de contratação radicalmente inclusivo.
Ali, não se contratam pessoas para assar brownies. Assam-se brownies para produzir vínculos e gerar empregos. A política adotada é a Open Hiring, que dispensa currículos, entrevistas e verificações de antecedentes. Qualquer pessoa pode se inscrever em uma lista e, quando surge uma vaga, é chamada para trabalhar e receber treinamento. Pessoas — que a lógica tradicional do mercado deixou de fora, por doenças, interrupções, necessidades de cuidados e passagens difíceis — encontram ali uma chance concreta de recomeço.
A origem dessa iniciativa remonta aos anos 1980, quando Glassman, então monge Zen, decidiu aplicar seus princípios à ação social em comunidades empobrecidas do Bronx e de Yonkers. A padaria nasceu sem experiência técnica, mas com uma visão clara: criar oportunidades reais de trabalho como forma de transformação social.
Anos depois, essa trajetória encontrou outro caminho improvável ao se cruzar com Ben Cohen. Dessa parceria, surgiu o sorvete “Chocolate Fudge Brownie”, que ajudou a consolidar a Greyston como fornecedora e ampliou o alcance de seu modelo.

Bernie Glassman faleceu em 2018, mas seu legado continua vivo em cada brownie, blondie e cookie produzido. Seja nos sorvetes, nas prateleiras dos supermercados, nos restaurantes ou nas entregas diretas da padaria, há algo que ultrapassa o sabor.
Durante os dias da CSW, encontrei esse sorvete em diferentes mercados da cidade. E, a cada vez, ele parecia carregar mais do que um sabor: era também um lembrete de que, mesmo em um mundo marcado por desigualdades profundas, existem iniciativas que operam a partir de outra lógica, mais compassiva, mais conectada.
Se no Brasil, por acaso, você experimentar esse sorvete, talvez possa se lembrar disso: entre debates globais e pequenos gestos cotidianos, seguimos, de algum modo, profundamente interligadas.
Sim, é incrivelmente bom.

PARA SABER MAIS
Matéria publicada em 08/05/2026
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